Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Beleza Pura!

1
Daiane Sales · Salvador, BA
15/10/2006 · 46 · 4
 

Pintores sobrevivem pelas ruas do pelourinho.

Isolados na esquina, criando ao ar livre. Escondidos e esquecidos nos becos do Centro Histórico de Salvador. Andando de um lado a outro, à procura de um olhar sincero sobre a arte. São pessoas simples, que vivem da alegria de pintar não importa como. Verdadeiros artistas brilhantes, considerados primitivos diante dos experientes. Assim se mantém aqueles que escolheram a arte como meio de vida.

Dos dedos sujos de tintas a certeza que dali sairão novas e diferentes paisagens. Como num passe de mágicas a natureza surge encantadora. Quem acompanha a produção feita na hora por Obá, a princípio, se perde; diante de tantos “borrões”. Com o passar dos dedos sob a base branca do azulejo, a combinação das tintas vai se transformando em realidade.

As unhas dão detalhes e efeitos à pintura, fazendo enriquecer ainda mais a obra. A cada pedido do freguês, uma surpresa: os quadros sempre saem melhores do que o esperado. Já alguns passam e apenas olham, deixando para trás um pedaço de alegria e tranqüilidade. O Paulistano Obá revela a beleza da Bahia, misturando o que Salvador e a sua natureza têm de melhor. “A Bahia é uma obra de arte”, comenta.

O artista começou a pintar aos sete anos de idade e nunca mais parou. Vendendo suas criações por R$3,00 e R$5,00, Obá vai tirando seu sustento. Por dia, ele consegue obter de R$100 a R$170. “Eu pinto a média de cinqüenta telas por dia”, diz. Sua jornada começa às seis da manhã e só termina ao pôr do sol. De domingo a domingo, o artista de rua já pinta há quase quarenta anos. “Eu vivo da arte e vou morrer pintando”, relata.

Com o lema “Pintando com os dedos para o mundo”, ele vai mostrando para os turistas a sua criatividade. Os estrangeiros gostam tanto do trabalho que pedem pra encomendar. “O meu relacionamento com eles é ótimo, inclusive eu tenho divulgado muito a Bahia pro exterior. Todos os recantos do mundo, graças a Deus, eu tenho um trabalhozinho já lá”, revela. Apesar dos obstáculos: “A minha dificuldade é o inglês”, diz.

Outra dificuldade que Obá enfrenta ao pintar na rua é a chuva: “A chuva é inimiga do pintor. Cada pinguinho de chuva que bate na tela a gente tem que desmanchar, nunca fica como a gente começou a fazer a tela”, conta. Mas, ainda com tantas barreiras, ele considera gratificante o trabalho na rua: “Você conhece todo mundo, faz muitas amizades. Eu mesmo não gostaria de trabalhar num ambiente fechado”, comenta.

A voz do povo

Luis Cláudio, servidor público da Secretaria da Fazenda, 42 anos, comprou duas pinturas do artista Obá e lamentou: “Infelizmente, o trabalho como artista no Brasil é muito pouco reconhecido. Artistas como ele deviam ter (...) espaço na mídia pra que eles divulgassem mais seus trabalhos, são muito bons. Países como a Europa, (...) dão oportunidades a seus artistas a ter uma sobrevivência melhor (...) do que aqui no Brasil. Enquanto os artistas daqui ficam, como se fossem mendigando espaço para apresentar o seu trabalho, que são de muita beleza”.

Formado pela UFBA o Professor de história Búria, de 71 anos, conhece bem Obá e o elogia: “Ele tem um processo bem pessoal. A técnica: usa o dedo. Usa também uns pauzinhos. Outra qualidade dele: eu acho que é um homem de muita imaginação. Ele imagina, cria. E essa criatividade é positiva na profissão dele. Ele não depende de figurinhas, de cópias. Os quadros dele são perfeitos. Eu sei que o povo não valoriza, não tem poder econômico pra isso. Mas tem gente que vem do exterior e compra, compra vários e leva vários. Realmente eu me sinto muito satisfeito pela obra dele”.

Arte Esquecida

Estava a caminho da Praça da Sé, já para descer o Elevador Lacerda e ir embora quando percebi que um senhor tentava vender suas telas a um turista. Era seu Edmundo Oliveira Santos, o Edvon, de 71 anos. Artista Plástico pelo Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), Edvon se especializou em xilografia (Arte de gravar em madeira).
Porém, apesar de todo o conhecimento que detém, ele vive das vendas de suas obras nas ruas do Pelourinho, por conta da carência de exposições para artistas de nível menor. “As exposições em galerias são muito poucas. Atualmente não se vendem trabalhos em exposições. O artista, para vender o seu trabalho, ele precisa ter agulha na bala”, revela.

Edvon vende seus trabalhos a preços pequenos e consegue a média de um salário mínimo por mês. “Em Salvador, com esse salário defasado que nossa gente tem, é muito difícil você propor um preço um pouco maior de trabalho”, conta. E explica que os estrangeiros sabem do valor do salário no Brasil e, por isso, também não pagam preços elevados.

Sua fonte de inspiração é diversificada, seja pintando o povo da rua ou mesmo mostrando a beleza dos monumentos históricos do Pelourinho. A importância do seu trabalho está na força de expressão de figuras populares da Bahia, na capacidade de envolvimento que a arte proporciona.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Flávia Borges
 

Muito Bom! Parabéns, o texto retratou bem a vida do artista na Bahia. Vive esperando um olhar e só quem os olha de verdade, como artistas e não mendigos, são os estrangeiros.
Com certeza, eu espero, isso vai mudar com o tempo.
Me resta dar aos parabéns pela reportagem da futura jornalista. Muito bem feito, fiquei presa ao texto até o final.

Beijos e sucesso =*

Flávia Borges · Salvador, BA 12/10/2006 10:24
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
lashamanry
 

Muito bom o texto.. é maravilhoso termos a consciência de que existem milhares de artistas pintores que não são valorizados e reconhecidos pelo seu trabalho mundialmente.. Parabénss Dai.. vc terá um ótimo futuro..
um Grande Beijo! e muito sucesso!
=*

lashamanry · Salvador, BA 12/10/2006 12:57
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
apple
 

A diferença de renda entre os 2 artistas deve-se ao fato de que um vende bem mais obras e tem margem de lucro mais alta?

apple · Juiz de Fora, MG 15/10/2006 01:44
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Daiane Sales
 

Não necessariamente!
Os dois, apesar de serem pouco valorizados aqui na bahia, conseguem obter renda com base na quantidade de obras vendidas, mas isso depende do dia. Conversando com eles, eu pude perceber que varia: tem dias que eles vendem mais e tem dias que não vendem nada. Mas a média de lucro foi essa que eles relataram.

Daiane Sales · Salvador, BA 15/10/2006 18:23
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados