Berçário do Samba

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no pagode do Leandro
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Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ
8/3/2007 · 252 · 18
 

Pensava que já tinha esgotado todos meus argumentos para elogiar o trabalho de Leandro Lehart. Mas o cara me surpreendeu novamente, e tenho que recomeçar tudo do zero. Então imagine a cena: sábado de tarde em São Paulo, mais precisamente sob um toldo armado ao lado da piscina de uma casa do Jardim São Bento, perto da ponte da Casa Verde, que cruza o rio Tietê. Na platéia, uma reunião eclética de nomes influentes na cena pop-festeira da cidade: Xis, DJ Patife, Aline Willy (ex-Rouge), Simoninha, a drag Salete Campari, o sensacional puxador Royce do Cavaco (entre membros de todas as escolas de samba paulistanas) e até o sumido - só escreve para a Rolling Stone?!!! - overmano André Maleronka (que me disse ter disco pronto para ser lançado, tudo sampleado - estou curiosíssimo). Quase todo mundo negro, ou quase negro - e certamente todo mundo mestiço.

No palco improvisado, a mestiçagem (também com tendência declarada para o afro) revelava-se ainda mais curiosa: os instrumentos escalados para a percussão eram um repenique; um cajón (que é muito usado em várias música afro-latinas, mas aqui é tocado como um tarol de escola de samba), um tambor alfaia de maracatu (tocado como surdo), um timbal de madeira e um pandeiro (tocado à maneira do samba de roda do Recôncavo Baiano). Além de bateria, baixo, sintetizador, computador e muito cavaquinho (que tem som de banjo de Dança do Lelê!) Tudo comandado, é claro, por Leandro Lehart, que pesquisou vários ritmos de Norte a Sul do país e misturou tudo (no disco ele toca tudo) para inventar um novo estilo de samba que apelidou, muito apropriadamente, de Mestiço, também título de seu próximo disco - cujo lançamento foi a desculpa para a festa.

No vídeo que acompanha este texto dá para ouvir o resultado. É realmente para não deixar nenhum esqueleto parado. Soa mais lento e encorpado, diria até mais heavy, que as várias batidas do pagode recente, mesmo quebradeiras baianas (que muitas vezes são tão perfeitamente aceleradas, que chegam a ter a "leveza" da música barroca). Claro que o "mestiço" bebeu na fonte de novidades mais contemporâneas da história percussiva nacional, do samba reggae dos blocos afro de Salvador ao ritmo dos bois de Parintins. Mas talvez por afinidade "genética" sua levada lembra outros ritmos menos divulgados, como os dos blocos carnavalescos de São Luís do Maranhão (entre eles, o belo Os Foliões), ou alguns ainda mais antigos, como os do boi paraense gravado em 1938 pela Missão de Pesquisas Folclóricas.

Parece papo cabeça, não é? Parece não: é mesmo. Mas quem disse que papo cabeça tem que ser chato? A cabeça de Leandro Lehart é pop, e então transforma logo a pesquisa em hits instantâneos, que a platéia aprendia a cantar e dançar imediatamente, como se conhecesse aquela formação instrumental desde que o samba é samba. E dançava bem pra caramba, elegantemente (e o código indumentário dominante era certamente derivado do hip hop - longe estão os tempos em que os pagodeiros de São Paulo vestiam ternos mauricinhos). De vez em quando passos de break abriam clareiras entre músicos e platéia. Isso ao lado de tiazinhas (entre elas estava Dona Gê, mãe de Leandro, que foi diretora de harmonia da X-9) mandando ver no miudinho.

Novo quilombo de Zumbi? Não sei ao certo... No lugar das camisetas 100% Negro, de ambiente mais "racional", os músicos traziam no peito a seguinte declaração de princípios: "sou pagodeiro, sou mestiço, sou brasileiro". E as músicas trocavam de batidas mais velozmente que carnavalescos trocam de escolas de samba: o "mestiço" virava soul, depois pagode carioca estilo anos 80 (Almirzinho, filho de Almir Guineto, cantou Caxambu, um de meus sambas preferidos), depois samba-rock, depois ragga e assim por diante.

Leandro, que como um DJ remixava a batucada em tempo real, com efeitos "naturais" que lembravam o dub, cantou acho que todas as músicas que fazem parte do Mestiço, o CD. As letras deixam claras todas as suas intenções. A faixa que abre o disco, Vem Dançar o Mestiço, é bem explícita: "quero ver o som de Bob Marley / sacudindo o partideiro / o reggae da Jamaica na embolada / eu vou mostrar pro mundo inteiro". O reggae reaparece em Vai Chover (que conta com a participação do Alexandre do Natiruts) e pode ser ouvido como uma declaração de independência: "não vá dizer qual é / o que eu devo fazer / do jeito que devo sambar / o samba também é de Jah". E na próxima estrofe: "do subúrbio eu vim / pra dizer que não vou parar de sambar". Outra canção inventa uma nova categoria de ser humano, desde o título: Mesticeiro. E pode comprar briga, mas boa briga: o ritmo - que é "de branco e negro" - "tem sambeiro que não vai entender / tem sambeiro [...] que nasceu velho do coração / mas eu sou novo, sou jovem / o Brasil tá querendo diferença / vou diferenciar".

E é diferenciando que vamos nos organizar? Identidade é feita de novidade, da busca por novidade? Que identidade é essa, fundamentada por diferenças? O samba, sempre em transformação, mesmo nonagenário, ainda é uma boa liga (ou - na minha humilde opinião - a melhor liga) para tantas diferenças nacionais. Há músicas mais populares em algumas regiões brasileiras. Mas não há outra música que possa competir com o samba pelo título da música mais popular em TODAS as regiões. O projeto do Mestiço vai além do disco para provar direitinho que o Brasil ainda é o "reino do samba". Leandro Lehart está organizando uma caravana que percorrerá 14 capitais brasileiras fazendo festivais onde competem bandas de pagode locais. Mais de 100 grupos se inscreveram. A primeira etapa já foi realizada e imagens dela também podem ser vistas no vídeo disponibilizado aqui no Overmundo junto com este texto. Bom ter Leandro Lehart coordenando essa movimentação toda. Bom especialmente por ele ser paulistano. Gosto de ver a cidade de São Paulo na liderança da união dos sambas brasileiros. Misturando tudo. Mestiçagem geral. Demorou.

PS1: No CD, as faixas bônus são batucadas mestiças instrumentais - tesouro para DJs e samplers. Leandro bem que poderia colocar os instrumentos separados no Overmixter, para facilitar a nossa vida mesticeira/sampleira.

PS2: Só posso ficar contente (e por isso perco até o recato): Leandro me disse que uma das motivações para fazer o Mestiço foi a leitura de meu livro O Mistério do Samba. Só isso já justificaria os anos que passei pesquisando. Bom ver que meu trabalho não ficou isolado na academia (nada contra a academia, nem contra trabalhos que são lidos apenas na academia) e se mostrou útil para tantos músicos bacanas. Marcelo D2 já declarou que sua leitura foi importante para o desenvolvimento de seu samba-hip-hop. E Fred Zero Quatro já compôs uma música também chamada O Mistério do Samba. O que uma tese sambista pode querer mais?

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Higor Assis
 

...e quem se atreve a "nos" dizer do que é feito o samba.

Muito bacana, a zona norte respira samba hermano e eu como morador da leste as vezes sinto uma inveja gostosa, se é que existe ela. Principalmente a Vila Maria.

Higor Assis · São Paulo, SP 7/3/2007 08:41
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Dora Nascimento
 

Que lindo, eu queria ter estado lá. Acho que já está mais do que na hora de se reconhecer que São Paulo nunca foi o túmulo do samba. Adorei.

Dora Nascimento · Olinda, PE 9/3/2007 09:25
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Fábio Fernandes
 

Essa história de túmulo do samba, aliás, foi um grande equívoco que o biógrafo do Vinícius explica bem - o próprio Vinícius sabia que de túmulo São Paulo não tem nada.

Excelente texto, Hermano! Fiquei muito a fim de conhecer o samba paulistano!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 9/3/2007 11:03
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Eduardo EGS
 

Ótimo texto.

Art Popular é muito bom. Fiquei curioso pra conhecer a carreira solo do Leandro Lehart. Ele é um dos melhores compositores da atualidade.

Conheço pouco de samba, mas meus pagodes preferidos sem dúvida são os paulistas!

Eduardo EGS · Porto Alegre, RS 9/3/2007 11:15
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André Maleronka
 

Salve Hermano! Realmente o novo pagode do Leandro é o maior astral. Por enquanto to achando o melhor disco dele, e olha que ele já fez muita coisa boa... Seu texto tá incrível, como sempre colocando os pingos nos is, mas principalmente pq mostra o clima que é. Como vc mesmo disse, merecia um ensaio de moda também... a audiência era o que se vê na rua por aqui. Esse lance novo do Lehart tem uma estratégia de distribuição/divulgação sagaz, popular com orgulho.
PS: tava fazendo umas coisas também pra Eleela, isso mais a R Stone, o disco e a vida me atravancaram todo... mas to postando um texto sobre um rolê que fiz com o Catra. Abs!!!!

André Maleronka · São Paulo, SP 9/3/2007 11:31
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Rodolfo Noronha
 

Salve Hermano,
Já há algum tempo tem surgido um processo incessante de mosturas musicais. O samba é a "vítima" privilegiada (entre aspas por que isso não é necessariamente bom ou ruim, acho). Não é à toa, a base é fantástica, o que não dá para fazer é a pergunta mais difícil.

Ainda não ouvi o "Mestiço", mas pelas palavras do Hermano, dá para pensar que vem coisa boa.

Rodolfo Noronha · Rio de Janeiro, RJ 9/3/2007 12:11
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Rodolfo Noronha
 

(Desculpe, pessoal, problemas no teclado. Os comentários - ao menos os meus - bem que poderiam passar pela edição também...)
Mas eu me preocupo um pouco com essas experiênicas. Isso fez com que o chamado samba de raiz sumisse um pouco. Com o bom e velho roquenrol, fez com que quase desaparecesse durante um tempo, em favor de "rock com isso" ou "rock com aquilo". Ao ponto de perguntarem a uma artista (Pitty, se não me engano) se o que ela fazia era Rock com o quê. Prontamente, ela respondeu: "Rock com rock, pô!"
Agora, ao que parece, vinha o movimento contrário; ao menos no Rio, ressurge (especialmente na Lapa) o samba, o choro, as rodas epontâneas ou provocadas, tanto faz. Os puristas diriam que isso é que é samba, sem adjetivos, prefixos ou invenções.
Pois bem, acho que o Lehart até pelo que já fez, merece atenção. Olha que sou mais chegado aos "puristas" que aos "misturadores". Mas se é para inventar o novo, seja bem vindo, mestiço.
P.S.: Caxambu é fantástico!!!!

Rodolfo Noronha · Rio de Janeiro, RJ 9/3/2007 12:19
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André Gonçalves
 

eu até gosto do lehart também.
mesmo nao sendo muito bom da cabeça e um pouco doente do pé.

André Gonçalves · Teresina, PI 9/3/2007 12:32
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Guiba
 

Salve Canclini e as culturas híbridas!
Salve Hermano Vianna!
Salve o samba!
Salve,
Guiba.

Guiba · Belo Horizonte, MG 9/3/2007 12:58
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Ju Polimeno
 

Bem interessante e...contagiante, Hermano. Dá vontade de armar uma fogueira, chamar Leandro, Rômulo Fróes, Bocato, o Maestro Nelson Ayres, a guitarra do Jr. Tolstoi e o Tom Zé como cereja, e montar um Mestiçado Geral. Abs!

Ju Polimeno · São Paulo, SP 9/3/2007 15:01
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Ju Polimeno
 

PS: tô esperando os instrumentos separados no Overmixter! Let's sample!

Ju Polimeno · São Paulo, SP 9/3/2007 15:02
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markinho
 

salve hermano!
da vontede mesmo de armar uma fogueira como escreveu o ju.
enquanto lia ficava imaginando eu por lá nessa mais pura manifetação popular!
valeu

markinho · São Luís, MA 9/3/2007 20:30
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Rodrigo Teixeira
 

Olá Hermano!
Fico pensando no que o Vítor Ramil reflete em A Estética do Frio, em que ele contrapõe esta 'ditadura' do calor-samba-carnaval com um olhar de um estrangeiro em seu próprio país, mais apegado ao frio, as bebidas quentes, a música lenta e cíclica como a milonga, a instrospecção....

Com certeza na região dos Pampas, a milonga é mais determinante. Aqui em MS a polca paraguaia também. Na região Norte, os ritmos acabam caindo para as lambadas e afins, que não tem nada de samba. No Nordeste entra-se no frevo, que é uma outra coisa. Eu acho que esta afirmação de que o ritmo do Brasil todo é o samba, de tanto ser repetida, acabou virando verdade absoluta.
Veja bem, adoro samba, me emociono com a história, admiro seus compositores e toda a evolução, até mesmo já fiz sambas e li tb seu livro... nada contra o samba e principalmente as suas fusões!
Abração!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 10/3/2007 02:27
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Hermano Vianna
 

oi Rodrigo: claro que sei de tudo isso, dos perigos dessas generalizações... Não disse que o ritmo do Brasil todo é samba: disse apenas que entre todos os ritmos produzidos no Brasil não há um tão popular, em todas as regiões, quanto o samba. A milonga e polca são populares sim, mas suas popularidades têm alcance geográfico mais restrito... Nesta constatação não há nenhum juízo de valor... Não estou dizendo que o samba é melhor que as outras músicas, ou que todo(a) brasileiro deve necessariamente gostar de samba... Apenas fico impressionando com o fato de existir grupos de samba em todos os cantos do Brasil... Essa popularidade transregional não pode ser explicada por uma pura e simples "imposição"... Há algum outro mistério nisso...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 10/3/2007 13:41
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Mansur
 

O ritmo soa como samba-duro baiano e ás vezes lembra um ijexá (chamado também erradamente de afoxé). Acho que o buraco é mais em baixo, "inventar" um ritmo é tarefa que me parece legítima mas inglória, porque a legitimação do ritmo penso que se dá pela repercussão (sem trocadilho) natural do próprio. Não sou acadêmico, sou músico e natural-informal pesquisador de música. Acho que esse "dito" ritmo é parecido com algumas leis no Brasil, não pega. Que fique claro, não tenho absolutamente nada contra Leandro Lehart (gosto do "tá querendo balançar"), mas "inventar" um ritmo a essa altura do campeonato, soa mais como "vou misturar uns instrumentos, umas levadas, vou dar um nome e chama a imprensa..."
Com todo o respeito...
Se o "mestiço" se tornar uma febre nacional "de baixo pra cima", dou minha cara a tapa e mordo minha língua. A ver...
Grande abraço

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 24/9/2007 10:56
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Mansur
 

Samba-duro e ijexá com jeito de ragga. A mistura tá valendo, mas ritmo novo é um pouquinho demais...
Com todo respeito...

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 24/9/2007 12:12
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andrea dutra
 

poxa, que texto bom....

andrea dutra · Rio de Janeiro, RJ 7/3/2008 02:19
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Cintia Thome
 

Belo texto fluindo sempre , trazendo o que não podemos alcançar.Parabéns.

Cintia Thome · São Paulo, SP 29/3/2011 10:31
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