Besouro

divulgaçnao
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Fernando Mafra · São Paulo, SP
4/11/2009 · 18 · 6
 

Numa platéia desprovida de qualquer negro, acabo de retornar de uma seção de Besouro. O filme, dirigido por um branco (João Daniel Tikhomiroff), se propõe a celebrar um dos maiores expoentes da cultura negra brasileira: A capoeira. É de fato um objetivo nobre, reminiscente talvez de Clint Eastwood, ao filmar "Cartas de Iwo Jima" - mas dele só resta a motivação da culpa, pois da qualidade artística nada é.

Na verdade a inspiração óbvia de Besouro são os filmes de kung-fu, tendo inclusive como coreógrafo Huen Chiu Ku, responsável pelas lutas em "Tigre e o Dragão" e outros filmes de luta. Mas falha também aí por não terminar o serviço.

Uma produção grandiosa, Besouro tem ótimos aspectos técnicos, como fotografia, direção de arte e cenografia. Mas na trilha sonora, as coisas já tomam outro rumo. Apesar da música incidental e do toque dos berimbaus serem de qualidade, a música principal do filme distoa tanto do resto da produção, que consegue quebrar totalmente o clima. As atuações, com a exceção de alguns bons momentos dos vilões coadjuvantes, é rasa. Mas nada disso chega perto do principal problema do filme: O roteiro.

Mal-construído, ele não consegue tecer um fio coeso que una os personagens e a trama em algo convincente. A história baseia-se numa lenda bahiana, rica em detalhes e bastante complexa. Mas o roteiro não consegue extrair desse material uma narrativa coesa. Sua proposta é mostrar como a lenda de besouro nasceu, mas pouco faz para realizar isso.

No filme, após a morte de seu mestre, Besouro se contenta em fazer pirraças típicas de um saci pererê enquanto seus companheiros continuam comendo o pão que o diabo amassou nas mãos do famigerado coronel e seus capatazes. Em diversos momentos há a oportunidade de explorar elementos dramáticos e de ação para conduzir a história, mas nenhum deles é aproveitado. Um exemplo é o momento em que o personagem Quero-Quero sente-se traído por seu amigo, ao mesmo tempo em que é manipulado pelo coronel - uma batalha épica parece estar sendo elaborada, mas não é o caso. As maquinações do coronel se resumem a satisfazer seu desejo por mulheres negras enquanto todos os outros personagens são apenas cenário. Besouro continua tão distante dos seus quanto a platéia dele.

Somos obrigados a engolir que, do nada, Besouro tornou-se uma lenda maior que a vida. E descobrimos que o filme não era sobre a aceitação dos negros como cidadãos, mas apenas a aceitação da capoeira.

E é nesse ponto em que ele se difere profundamente de sua inspiração em cinema de luta. Nos grandes filmes do gênero, a luta é mostrada como uma arte inigualável e uma ferramenta para a superação pessoal. Superação que na proposta de Besouro poderia ser de todo um povo, mas acaba por não ser de ninguém, apenas da arte pela arte.

É difícil não comparar Besouro a outros filmes como Tropa de Elite e Cidade de Deus. Que da mesma maneira aplicaram uma estética moderna e dinâmica, quase globalizada, a histórias brasileiras com certa ligação com a vida real. A diferença é que esses filmes possuiam roteiros muito mais sólidos e não estavam preocupados apenas, embora também, em criar uma experiência plástica. Besouro foca demais nas lutas (que são muito boas) e em filosofia rala. Buscando inspiração em Ang Lee, Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson, Tikhomiroff acaba se saindo um belo Michael Bay tupiniquim.

É uma pena que um material tão rico, e com uma embalagem tão bonita, tenha sido mal aproveitado. Aqui fica a torcida para que seja apenas a primeira tentativa em resgatar mais da história brasileira e negra. E também que ao menos inspire a busca por uma compreensão maior da nossa História.

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A Lenda do Besouro Mangagá - CapoWiki

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Alexandre Grecco
 

Concordo, o filme é muito ruim! Se prendeu em aspectos menores, fora a visão distorcida sobre a importância do negro na sociedade brasileira e a construção do mesmo.

Alexandre Grecco · Fortaleza, CE 5/11/2009 23:33
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DiogoFC
 

Che, eu não vi o filme, mas você não está querendo demais? Só de ver o trailer já se percebe que é uma proposta Hollywood, não tem nada de resgatar história nem nada disso. É simplesmente um filme de ação e acho que quem vai assisti-lo está atrás disso; se não houvesse um nacional equivalente veria Carga Explosiva ou coisa assim. Melhor que haja um nacional e o dinheiro possa ficar aqui.

DiogoFC · Criciúma, SC 6/11/2009 09:52
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João da Mata Costa
 

Eu gostei do Filme. Mesmo tendo sido kungfuzado.
a repressão a capoeira e sua aceitação, hoje, foi bem docuMENTADA NO FILME.
Oxu e outras entidades da cultura Africana tb são contempladas.
Acho um exagero o voo do Bezouro, mas é uma metáfora. Daquilo que o homem pode conseguir.
Podia ter realçado menos o lado ruliudiano e sido menos kung Fu

damata - Natal - RN

João da Mata Costa · Natal, RN 6/11/2009 11:42
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Higor Assis
 

E ae Mafra beleza ?!

Bom eu assiti o filme e gostei de algumas coisas. Concordo que o roteiro ficou bem ralé, concordo que poderia dar mais enfâse a luta do negro, principalmente pela história brasileira e de toda sua manipulação.

A sala que eu estava tinha muitas pessoas negras ao contrário de onde você assistiu. Fico com a impressão de que o filme contemplou realmente a aceitação da capoeira como você disse, como um filme mais de ação de uma lenda e não de ação pela história de um povo.

Acredito que esse possa ser o início e espero que com as críticas e o final aberto que o diretor deixou, pode, quem sabe, arrumar algo que ficou para trás.

Higor Assis · São Paulo, SP 6/11/2009 11:47
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Rafael Monteiro
 

Concordo com a resenha, o filme é fraco mesmo, infelizmente, pis tinha grande potencial.

E mesmo como filme de ação ele decepciona!

Rafael Monteiro · Niterói, RJ 6/11/2009 11:54
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rosa melo
 

rosa melo · Pio IX, PI 6/11/2009 22:02
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