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Bicicletas em SP

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André Maleronka · São Paulo, SP
8/3/2006 · 68 · 8
 

"Vou pedalando. O sol queima a Rua Itaboca, me dá firme na cabeça, os bondes comem os trilhos, é um barulhão que estremece até as casas; os trens da Sorocabana e da Santos a Jundiaí vão se repetindo lá em cima do viaduto da Alameda Nothmann, carregados e feios. Gente se pendura até nas portas. Vou pedalando... Sei lá por que gosto. Sei que gosto. Atravesso essas ruas de peito aberto, rasgando bairros inteirinhos, numa chispa, que vou largando tudo pra trás - homens, casas, ruas. Esse vento na cara... Agora vou indo lá pro Pacaembu. Vou pegar a Nothmann, subir, desembocar direto na Barra Funda, ô puxada sentida! É me curvar sobre o guidão, teimar no pedal, enfiar a cara. Depois, ganho a avenida larga e, numa flechada, alcanço o estádio."

O escritor João Antonio (nascido em São Paulo em 1937 e falecido no Rio de Janeiro em 1996), uma das maiores pontes entre o cotidiano das ruas e o papel impresso, falava em seu conto Paulinho Perna Torta de uma São Paulo que aparentemente não existe mais. Tanto os antigos modos da malandragem dos salões de bilhar da Lapa e dos inferninhos do Bom Retiro deram lugar à violência nos centros e nas periferias quanto os bondes (que já eram lotados) foram substituídos no dia-a-dia por um sistema de ônibus, trens e metrôs deficiente, amparado pela ampla penetração dos carros particulares - uma equação bem mais violenta e suja.

Gigantesca e inchada, prestes a se tornar a segunda cidade mais populosa do planeta, a região metropolitana de São Paulo conta com um sistema de transporte pouco funcional: são mais de 17 milhões de habitantes, 7 milhões de carros particulares congestionando as vias todos os dias (na maioria das vezes só com o motorista dentro), poucos quilômetros de metrô e ônibus quase sempre lotados. Metade das residências daqui acumula pelo menos um carango, já que muitas vezes esse é o único jeito de chegar onde se precisa. Se de dia já é difícil, imagina na balada - nem tem ônibus a noite inteira. Assim como pra ir trampar você faz um extrinha camelando na lentidão do tráfego ou se acotovelando nos transportes públicos, à noite você, ou quem estiver te levando de carona, vai ter que escolher entre dirigir e chapar. Siniiiiistro, Jamanta!

É aí que entram as bicicletas. Se você vai percorrer cerca de 10 quilômetros, que é mais ou menos a média de deslocamento diário das pessoas pra chegar ao trampo, escola ou balada, já está mais do que provado que indo de bike você chega antes. Nesses casos - ou mesmo pra distâncias maiores - poder combinar umas pedaladas com transporte público seria lindo. Ninguém ia precisar sair de carro mais, mas o esquema de locomoção em São Paulo é tão legal que você é proibido de entrar no trem, no metrô ou no busão levando sua bicicleta, pura e simplesmente, como demonstrou um recente comercial da Caloi estrelado pelo VJ Edgard. Fora a estação de trens de Mauá (onde ficam estacionadas cerca de 1.700 bicicletas diariamente!), não há bicicletários. Então, pra embarcar, você teria que desmontar e empacotar (!!) sua magrela. Apesar disso, nos últimos 10 anos, o número de ciclistas diários em São Paulo praticamente dobrou. São pelo menos 400 mil bicicletas fazendo a mesma função dos carros particulares, de um jeito bem mais democrático, limpo e aproveitando bem melhor a paisagem que essa cidade ainda tem pra oferecer.

Você poderia dizer "mas eu sou louco de sair pedalando e respirar toda essa poluição?". Na real, é bem melhor do que estar trancado dentro de um carro, que além de responsável por 70% da poluição do ar daqui, deixa você bem na altura pra inalar a podreira dele e dos outros, que vai se concentrar dentro dos veículos. No alto, de bike, na mais perfeita união entre homem e máquina (segundo os alemães do Kraftwerk), você respira melhor, além de poder observar de verdade o lugar onde você vive, fazendo um exercício da hora.

Claro, existem algumas regras e precauções pra você fazer seu rolê numa boa. Pelo Novo Código de Trânsito, a bicicleta tem preferência na pista, isto é, os carros têm que deixar você em paz, guardando um metro e meio de distância ao te ultrapassarem. Um capacete, faróis e refletores também te garantem. Encarar o mar de carros é uma tarefa que exige treinamento e atenção, mas isso em São Paulo é fácil. As chuvas quase diárias dão um belo adianto na dispersão dos poluentes, e essa pode ser a melhor desculpa pra você desencavar aquela bicicleta empoeirando na garagem e começar participando de algum dos inúmeros grupos que existem por aqui. Acontecem passeios ou atividades quase todos os dias. É uma ótima pra saber como anda seu condicionamento físico e adquirir segurança pra transitar. Além disso, você vai conviver com gente experiente e a fim de te ensinar o que for preciso.

Desses todos, talvez os mais interessantes sejam a Bicicletada e a Coopbike. Ambos organizados através de listas de discussão de e-mails, os grupos tem atividades diferentes, mas complementares. A Coopbike é cooperativa para a troca de experiências de mecânica de bicicletas, e funciona num esquema de auto-gestão. Já o o grupo Bicicletada faz manifestações mensais em que ciclistas ocupam as ruas pra celebrar o movimento em duas rodas e mostrar que existem outras opções além de um consórcio na sua vida.

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akirarw
 

mas q droga, estou sem bicicleta desde 1989!

akirarw · São Paulo, SP 16/3/2006 01:23
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Zeca
 

Sem ciclovia não rola.

Zeca · São Paulo, SP 22/3/2006 11:27
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André Maleronka
 

oi zeca
o que eu conto nesse texto é justamente o contrário, rola sim. mas rola pra poucos, aí é que tá. acho que as ciclovias são muito importantes num primeiro momentos, de educação e treinamento pros ciclistas. ao mesmo tempo, se esstamos falando de transporte mesmo, isso (a não-convivência entre ciclistas e motoristas na rua) pode degringolar em algo bizarro e tão excludente quanto omodelo que já temos (isso pensando a longo prazo). se vc quiser pesquisar mais sobre o assunto sugiro o site da ONG Transporte Ativo, do RJ, lá eles disponibilizam muito material sobre o assunto: estudos, etc. www.ta.org abs!

André Maleronka · São Paulo, SP 25/3/2006 11:25
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André Maleronka
 

A médica Giselle Xavier, coordenadora do grupo Ciclo Brasil, da Universidade do Estado de Santa Catarina, conferiu o projeto em Drachten, Holanda. Em um dos cruzamentos da cidade atravessam diariamente 22mil veículos motorizados, 5mil bicicletas e milhares de pedestres. Onde antes havia semáforo e faixas exclusivas para ônibus e bicicletas, hoje tudo isto foi substituído por uma rotatória. E só. "Em locais sem rotatória, o cruzamento tem cara de calçada, de um espaço para o pedestre. O processo educativo é muito forte, você coloca o pé na rua o carro pára", relata. Entretanto, ao trocar idéia com alguns engenheiros holandeses, ela soube que à noite a situação fica um pouco mais perigosa.
O sucesso da implantação da shared space depende, portanto, do bom senso e da educação de motoristas e pedestres. A sociedade precisa estar preparada para esta mudança que tira o direito do automóvel. "Mesmo que exista um pouco de utopia nisto, é importantíssimo a gente levantar a utopia para chegar no meio termo", diz Giselle Xavier.

André Maleronka · São Paulo, SP 28/3/2006 10:19
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André Maleronka
 

Criador deste modelo, o engenheiro de tráfego Hans Mondermann, acredita que não é possível desenvolver o hábito de um zelar pela segurança do outro com o uso de placas e sinalizações. Para ele, é deixando assim o tráfego mais "perigoso" que ele se torna mais "seguro", pois a postura é mais prudente e menos automática. Ele alerta que não é possível aplicar o modelo em rodovias de alta velocidade, justamente por não haver contato visual.
Questionado sobre a possibilidade de implantar shared space no Brasil, o engenheiro Philip Gold diz que, exceto em Brasília, provavelmente seria um desastre. "Não há uma tradição de respeito mútuo entre os usuários da via. Nesses países da Europa tem todo um histórico do trânsito ser seguro a todos, em especial ao pedestre. A lei brasileira prevê preferência ao pedestre, mas seu direito é ignorado. Lá são décadas de educação e fiscalização rigorosa" diz.

André Maleronka · São Paulo, SP 28/3/2006 10:20
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André Maleronka
 

O "perigo" usado como fator de segurança no trânsito
Um projeto desenvolvido na Holanda chama a atenção pela mudança radical na forma de se conceber a engenharia de tráfego. A shared space, ou área comum, é um espaço viário em que não há divisão para carros, ciclistas ou pedestres. Todos ficam no mesmo patamar. Assim, sem faixas, placas de sinalização, desníveis ou semáforos, é preciso prestar muita atenção um no outro e negociar passagem. Algumas regras existem, como a preferência do pedestre sobre o motorista e o sentido de direção. A velocidade também não pode ser alta: 30 km/h.
Em Haren, na Holanda, em três anos de shared space não foi registrado acidente grave na área. Mas ainda é cedo para falar em resultados e expansão do projeto. A União Européia apóia a realização de experimentos como este em sete cidades: Bohmte (Alemanha), Ejby (Dinamarca), Ipswich (Inglaterra), Oostende (Bélgica), Emmen, Haren e Friesland (Holanda). Entre 2004 e 2008, especialistas estudarão o comportamento dos usuários, os resultados e a viabilidade nestas cidades. Eles partem do princípio que somos mais influenciados pelas características do meio do que pela usual ferramenta do planejamento viário. Um dos objetivos é avaliar se este projeto tornará o trânsito mais humano.

André Maleronka · São Paulo, SP 28/3/2006 10:20
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André Maleronka
 

oi zeca, recebi esse artigo que postei abaixo em uma das listas de discussão que participo, acho que contribui para o debate. é tirado do Informativo Perkons, AnoV, no. 53/ Março 2006, p. 2, ok? abs

André Maleronka · São Paulo, SP 28/3/2006 10:22
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