Bixos no cruzamento

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marialba maretti · Campinas, SP
5/3/2007 · 73 · 2
 

Após o carnaval os sinaleiros de cruzamentos movimentos das cidades são tomados por jovens de caras pintadas e roupas manchadas de tinta, que disputam espaço com pedintes e vendedores de balas, os quais já estavam ali pedindo, o que estes jovens “caras pintadas” também pedem, porém por um curto espaço de tempo: dinheiro.

Mas se todos estes diferentes personagens nós abordam querendo a mesma coisa quando paramos o carro no sinal vermelho, qual a diferença entre eles? Simples, os jovens de cara pintada são BIXOS, jovens que acabam de ingressar em uma faculdade e são submetidos a “torturas” pelos veteranos. Então a pergunta é: Por quê?

A antropologia irá responder esta pergunta com precisão. O fato de entrar na faculdade irá mudar para sempre o papel destes jovens na sociedade. Os pequenos pestinhas do colegial se transformarão, após o período da faculdade em médicos, advogados, engenheiros, enfim em profissionais, que espera-se sejam bem diferentes dos pequeninos pestinhas de antes.

Então o que separa o colegial da faculdade, algo tão grande e sério que transformará estes jovens em outras pessoas? É um curto espaço de tempo onde tais jovens perdem sua identidade pessoal, suas vontades, seu nome, e todos serão reconhecidos pelo mesmo chamado: Bixo!

É uma separação, uma ruptura com a rotina, um período onde este “bixo” não será nada, não existe tempo ou espaço para ele, somente existe a marginalização. É uma fronteira entre o período que este jovem pertencia ao mundo sem responsabilidades do colegial, para ingressar em uma outra vida, a da faculdade que o conduzirá para uma carreira profissional. Ou seja, um jovem sai da condição de colegiando para a de graduando (a), vira bixo, despoja-se de seu nome, é pintado, é separado, fica à margem (b) para depois poder retomar seu nome, sua nova rotina da faculdade, assume seu novo papel (c).

O mesmo ocorre com o casamento, por exemplo, primeiro a pessoa é solteira (a), casa-se e vai para a Lua-de-mel, ou seja, fica separada, à margem dos outros (b), para depois retornar a sua rotina, mas com um novo estado civil, casado (c).

Estas três etapas: (a) migração de uma situação social a outra; (b) separação, marginalização e por último (c) ressurreição com novo papel social. Esta tríplice é chamada de rito de passagem, é uma marcação no tempo para se preservar a ordem social e ao mesmo tempo para que o individuo através da dramatização identifique seu novo papel e estado dentro da sociedade, para assim entender as mudanças e conflitos decorrentes deste situação.

Nossa sociedade está repleta de ritos de passagem, que são tão incorporados na nossa rotina que nem os percebemos. Para e pense um pouco e você achará diversas situação que são marcações temporais, indicadores de mudanças.

E a próxima vez que encontrar um bixo no cruzamento, lembre-se que eles está passando por um Ritual de Passagem e, se tiver, dê uma moeda!

Marialba Maretti


Para saber mais
Leach, Edmund. Cultura e Comunicação – a lógica da conexão dos símbolos Introdução ao uso da analise estruturalista em antropologia social. Rio de Janeiro: Zahar, 1978
Evans-Pritchard, E. E. Antropologia social da religião. Rio de Janeiro: Campus, 1978
Frazer, J. G. O ramo de ouro. São Paulo: Circulo do Livro, 1982
M. Mauss, . "Ensaio sobre a natureza e a função do sacrifício" in M. Mauss Ensaios de Sociologia. São Paulo, Perspectiva, 1981, pp. 143-227.
E. Durkheim, As formas elementares da vida religiosa. Introdução e Conclusão in Durkheim, "Os pensadores". São Paulo, Abril cultural, 1978, pp. 205-245.

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Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 19/6/2007 07:24
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marialba maretti · Campinas, SP 19/6/2007 15:48
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