- ô China, você é Chinês do Norte ou do Sul? – pergunta Seu Alves, o titular da Banca do Alves, jornaleiro tradicional da Cinelândia, no Centro do Rio. A pergunta, no contexto da Copa, obviamente não se referia à ascendência chinesa do personagem em questão, mas a uma eventual “espionagem” norte-coreana, no jogo de estreia da seleção na África do Sul.
Seu Alves é tricolor-roxo e nascido na Bahia (baiano nasce ou estreia?). Sua banca é uma das mais concorridas na Cinelândia, praça que representa muito no capital histórico e político do Rio de Janeiro. Verdadeira Broadway carioca no início do século passado, hoje a Cinelândia possui apenas o atrativo do Odeon, sala de cinema remanescente que fica logo em frente à Banca do Alves. Ao lado do Odeon, o Verdinho – bar que divide com o Amarelinho a boemia da Avenida Rio Branco.
Nesta terça, Verdinho e Amarelinho transmitiam "Brasil vs. Coreia do Norte" em esquema de reserva de mesas para seus clientes, o que inevitavelmente deixava a maior parte do público do lado de fora, apenas acompanhando o jogo de longe, nas televisões de tela plana dos bares. O Odeon realizava sessão para convidados, testando tecnologia digital para a exibição das partidas. E Seu Alves, para os seus convivas, dizia em alto e bom tom:
- Eu estou todo dia aqui. Poderia chegar ali e passar um papo no segurança do Odeon e pedir que ele me deixasse entrar. Podia estar assistindo o jogo ali, ou ali. Mas não tem a mesma graça. Aqui é muito melhor.
A banca do Seu Alves concorria com Odeon, Verdinho e Amarelinho, além do Circo Voador, do Alzirão e de todos os outros “points” da cidade, resignada e perseverante. Nela, um pequeno televisor, daqueles de catorze polegadas, apoiado sobre um banquinho de plástico, formava uma rodinha à sua volta. Uma meia dúzia de gatos pingados (raramente menos do que dez) iam e vinham, com muito mais animação do que no entorno. Eram tipos curiosos como funcionários da banca, um mendigo, um motorista de táxi, um garçom, um caricaturista (o X-9 “China”), um ou outro casal de namorados e alguns sujeitos que se aproximavam incomodados com o amadorismo da plateia nos bares vizinhos.
- O pessoal de lá já está meio bêbado. Não é possível. Gritam por causa de uma bola dessas. É muita barulheira! – dizia alguém do alto da arquibancada do Seu Alves.
E assim foi. O jogo foi morno, mas as piadas do Seu Alves, de seu irmão Baiano, do filho, e de outros tantos personagens caricatos não deixam o clima esfriar. Assistir a um jogo de Copa do Mundo, que sempre me foi momento de muita concentração, ficou leve e cheio de idas-e-vindas. Idas-e-vindas em todos os sentidos, já que uma banca de jornal é, de fato, expressão máxima do modo de vida urbano. Um vaivém de gente a todo momento, passando na frente da tevê, pedindo o isqueiro, comprando refrigerante ou salgadinho (e nada de jornal, é claro, que não era hora pra isso!) e todos ali, divertidos, sem esmorecer.
A certo momento, Seu Alves levanta e diz:
- O pessoal daqui de frente quer cobrar a reserva. Você chega ali e os caras querem que você pague R$4,80 num chope. Aqui na minha banca eu não cobro nada.
A verdade é que, hoje, no Rio de Janeiro, são poucas as bancas de jornais sem energia elétrica e iluminação próprias. Por isso, tem sido cada vez mais comum a presença, especialmente nessa Copa, de televisores no interior dos quiosques. Jornaleiros e amigos de jornaleiros são os espectadores mais assíduos, mas, nas bancas mais carismáticas como a do Alves, não é raro que uma sessão como essa aglutine gente.
Eu já havia reparado na popularidade do Seu Alves em dias de jogo num amistoso no ano passado. Sem concorrentes que transmitissem em tempo real, a Banca do Alves foi sucesso absoluto entre os passantes. Por conta disso, decidi de caso pensado assistir à estreia da seleção no Seu Alves e ver como é que seriam as reações por lá. O curioso é que não é toda banca que se preza que tem a plateia do Seu Alves. Logo ali adiante, na saída do metrô, um outro jornaleiro exibe limpa e cheirando a nova a sua imensa tevê de plasma entre as prateleiras de revistas. Naquela banca, no entanto, ninguém acompanhava o jogo.
O Seu Alves é mesmo carismático. E tem tino de negócios. Há muito ele ostenta em seu quiosque uma cortininha reservada para quem deseja folhear em paz as revistas eróticas. É o cantinho privê. Agora, Seu Alves confessa que quer remodelar a banca. Talvez até colocar uma tevê nova. “Melhor ainda”, diz ele:
- Na próxima Copa, não vou assistir pela televisão, não. Na próxima Copa, eu vou pra lá – brinca, fazendo menção à Copa de 2014, aqui no Brasil.
Com os arroubos de genialidade de Maicon e Robinho, o jogo seguiu naquele ramerrame que todos já sabem. Os “bêbados” do Verdinho fazendo a sua arruaça e a plateia VIP do Seu Alves entretida com as piadas da lombeira típica do povo baiano que ele mesmo referendava.
E o melhor de tudo: como todo jornaleiro que se preza – quem é jornalista raramente se dá conta de que não é a única categoria que disputa pelo “furo”! –, Seu Alves não dá notícia velha! Ligada diretamente num antigo decodificador VHF, a tevê da banca não sofre o delay dos aparelhos conectados aos modernos sistemas de cabo ou satélite. O resultado? Cada gol que saía, a torcida da banca comemorava antes e o pessoal da concorrência morria de inveja da ola do Seu Alves.
Viktor,
concordo totalmente, a imagem chuviscada da tevê do Seu Alves fez sucesso!!! Nossa comemoração dos gols era um anúncio para a galera do Verdinho do que eles podiam esperar do jogo nos instantes seguintes, hehehe
A conversa animada da rodinha da banca deixou o jogo bem mais interessante, superando a decepcionante atuação do nosso querido Brasil nessa estréia. Ah, e como não poderia deixar de ser, sigo o exemplo de Seu Alves, e na próxima Copa do Mundo... eu também vou!!!
Viva a Banca do Alves, botando banca, o moço !
Um beijo !
Ah se eu tivesse por lá certamente ia preferir a banca do Seu Alves a esses bares caóticos, onde se faz tudo menos prestar atenção no jogo!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 21/6/2010 09:47Assistir aos jogos num banca, ainda mais uma banca tão peculiar e ao mesmo tempo tão comum, como a de Seu Alves, é de antemão um antídoto contra a letargia que o futebol atual produz.
Wuldson Marcelo · Cuiabá, MT 21/6/2010 17:27
Acho q juntando o comentário da Helena ao do Wuldson, dá pra dizer que nos bares caóticos as pessoas acabam arranjando outras coisas para se fazer, já que o jogo é letárgico. De mais, só o arrependimento de não ter ido assistir ao segundo jogo com o Seu Alves. O gol de mão ia ser muito mais comemorado por lá. :)
Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 21/6/2010 20:09
Dizem que essa é a copa do Twitter, mas acho que nunca o áudio e o vídeo foram tão personagens de uma Copa como essa (talvez seja sempre assim daqui pra frente).
Jogos em TV's 3D, uso de vídeo para auxiliar os juízes, vuvuzelas ensurdecedoras e como calá-las, telões em campo com replays quase instantâneos, o problema das TVs a cabo com delay.
Sem contar o abuso na transmissão de replays em camera (ultra) lenta no melhor estilo Michael Bay.
É impressão minha?
Oi, Sergio,
É verdade. O jogo em 3d, os telões, os replays são todos indícios de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Não bastasse isso, ainda temos a expressão emblemática do #calabocagalvao. Afinal, se o Galvão cala a boca, as imagens mudas falam por si? :)
Nos outros jogos, para suprir o delay da TV a cabo, fui obrigado a recorrer à estratégia do radinho. Aparelho no ouvido, pude constatar a gritante diferença entre a narração de tevê e de rádio. E posso afirmar, no final das contas, que o delay é quase o mesmo. Pois enquanto o jogo avançava na frente na voz do radialista, as imagens iam se desenrolando atrasadas; mas na hora do chute a gol as firulas do locutor faziam a tevê alcançá-lo. Uma jogada no rádio tem sempre o suspense do "eeeeeeeeeee................ ééééééééééé trave!!!!". :)
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