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BRASA ADORMECIDA
ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 1/5/2008 10:15 · 136 votos · 11 comentários ·  
 
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overponto
BRASA ADORMECIDA
Anibal Beça ©

Dizer que o Brasil é um país de poetas é mais que uma tautologia. Virou tema de poema na conta affonsina com seus 999.999.999 poetas, e objeto de ensaio, sobre a expressão amazonense, em que Marcio Souza afirma: “em Manaus, há um poeta em cada esquina.”Causa estranheza, o fato de sermos um país de poetas e, ao mesmo tempo, um grande muro de lamentações, de Norte a Sul, com tanto chororô dos bardos brasileiros. Dos novos e dos calejados. Tem queixa para todos os lados e para todos os gostos. Uns dizem que foram expulsos dos suplementos literários, que perderam o espaço para medíocres escritores norte-americanos e franceses, em sua maioria. Apontam uma acachapada e vergonhosa postura colonizada. Invocam até a figura de Platão, que expulsou os poetas de sua República. As queixas também resvalam nas editoras, com sua política editorial sempre fechada à poesia. Alicerçada na famigerada desculpa de que poesia não vende. Como não vende? Será mesmo verdade que poesia não vende? Ou estamos diante de uma falácia mercadológica? Pressupõe-se que todo poeta é um consumidor de poesia. Ora, se somos um país de poetas, o gênero nunca deveria estar em crise. Mas a realidade espelha máscara nada atraente. A coisa é feia, mesmo. Creio que foi o poeta Donizete Galvão quem revelou a equação: “os novos poetas não querem ler poesia, querem escrever poesia.” Sem falar nas velhas cassandras anunciando mais uma vez o desaparecimento da poesia. Pelo que se vê e se escuta, sua morte é iminente. Será? Creio que não. Essa morte anunciada é bem antiga. E a poesia, contra tudo e contra todos, resiste. Mesmo enferma de tantos males: o afastamento da gramática poética, a frouxidão dos versos, a licensiosidade modernosa, o desaparecimento da palavra em troca a muletas visuais, os excessos ditos pós-modernos Esses dogmas em nome de uma vanguarda que tanto mal fez a, pelo menos, duas gerações.Salvados desse flama concreta, desse incêndio insidioso, resta-nos o rescaldo. As sobras são poucas, e apontam para uma postura mais consentânea, com muito trabalho e sem amadorismos. Afinal, se de fato fazemos parte dessa indústria cultural temos que enfrentá-la em pé de igualdade e com o mesmo liquidificador com que ela nos espreme para o suco da tribo.Tenho apreciado belas manifestações, saídas a serem seguidas em todos os quadrantes do país. Caminhos para a popularização da poesia. Nada de novo sob o sol. Mas um retorno saudável à poesia falada. Sou daqueles que se ressentem do desaparecimento dessa prática. Cresci ouvindo e dizendo poesia. Tempo que pontificavam por aqui Farias de Carvalho, Hélio Azaro, Hemetério Cabrinha entre outros. Que, atores, faziam fila nos cursos de Pedro Bloch, e se encantavam com os recitais de Rodolfo Mayer, Sergio Cardoso, Paulo Autran e Madame Morinneau.Todos tínhamos, de cor e salteado, ao menos 5 poemas. Íamos de Castro Alves, Bilac, Jorge de Lima, passando por Bandeira com “Vou me embora pra pasárgada”, Augusto dos Anjos, Vinicius e Cecília.Acompanhei a cruzada, na década de 70, do poeta catarinense Lindolf Bell. Vejo que seu esforço não foi em vão. Em todas as capitais há apresentações de poetas e atores lendo poesia..E na internet? Ah, amigos, isso é assunto para outro artigo. Os poetas tomaram de assalto o espaço sistêmico. São os cyberpoetas.A brasa pode estar até adormecida, mas aqueles que se dispuserem à soprá-la saberão que a chama da poesia jamais se apaga.

Anibal Beça é poeta, autor, entre outros, do livro “Suíte para os Habitantes da Noite” , vencedor do VI Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira.


tags: Manaus AM literatura


 
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Bela crônica sobre os poetas (vagabundos iluminados?)
do Brasil.
Boa, Anibal.
Abçs.
Benny Franklin
Benny Franklin · Belém (PA) · 27/4/2008 18:09 
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Anibal,
escrevo poesias desde pequena, leio muita poesia, e estudo as regras. O que sinto é que qualquer jovem (veja bem eu sou jovem) escreve versos de amor e diz que aquilo é poesia, pode ser poético... Mas nem tudo é poesia! Admiro autores novos, mas eu como escrevo pretendo escrever poesias até os 80, pois admiro demais versos de amor de autores mais maduros!
Poesia tb não é só "romantismo", gosto de prosas que trazem o tema teror á tona sou fã disso!
Bom, aprendi a gostar de poesia escutando em casa, acabo de voltar de um sarau por sinal, e não tem nada mais gostoso que escutar uma poesia bem lida.
Conheço as regras, conheço a métrica e toda a parte teórica, tenho meu estilo de escrita, mas respeito e não esculhambo a poesia.
Teu texto é muito interessante e inteligente, seguindo essa linha estou com um em edição no overblog o título é regras quebradas. Ficaria feliz se deixasse tua opinião por lá!
Beijos e votos
Tita Coelho · Porto Alegre (RS) · 30/4/2008 02:05 
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Tita querida, obrigado pela sua leitura e pela visita. Veja bem, não tenha nada contra os jovens, sei que eles são 'românticos', mas creio que há um interesse crescente pela poesia. O que gosto sempre de salientar é que mesmo que o aspirante a poeta não queira usar métrica, rima, metáforas, metonímias, aliterações e assonancias e outras figuras de linguagem, ele deve conhecer as ferramentas da gramatica poetica. çE isso. Vou lça ler seu texto. Saiba que morei ahi em POA.

Ternura e cayrinho
ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 30/4/2008 11:58 
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A poesia,como você mesmo disse, resiste a tudo e a todos. E será eterna porque ela permite tudo: ser romântica, cruel, realista e às vezes até indigesta. Pode falar de amores perdidos, encontrados, da auto-estima jogda na lata de lixo. Pode ser única, pessoal e também miseravelmente universal.
Tacilda Aquino · Goiânia (GO) · 30/4/2008 14:25 
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Super texto, muito importante.
Leitura é preciso.
Parabens ab
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 30/4/2008 18:30 
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Gostei e votei !!!!

Abraços
Profeta Teatro · Campo Grande (MS) · 30/4/2008 21:55 
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Escrever sem ler...
Você explicou muito bem o fenômeno que empobrece a poesia.
Aliás, parece que, na rede, andam escrevendo muito e isso é bom. Dizem alguns que a leitura também aumentou em vista das miríades de sites e blogs.
Eu mesma, um aprendiz que não aprende, ando lendo aos milhares de novos e clássicos, tentando, tentando sempre. E devo confessar, quanto mais leio, menos escrevo (para felicidade dos puristas).
Afinal, ler um soneto de VInicius é muito melhor que escrever uma bobagem qualquer, sem métrica ou rimas. Mas, a poesia é um vício e sempre recaio.

Obrigada por sua excelente lição.

beijos
Saramar · Goiânia (GO) · 1/5/2008 08:49 
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Uma brasa acesa e crepitante esse teu texto, Anibal.
Digam também as pessoas que lêem da poesia que haja em versos que lhes cheguem.
E ainda as que versos quaisquer ouçam.
As liberdades todas exercitadas deveriam encaminhar melhorias no conjunto, porque também há, e muito, pessoas que não têm informação qualquer sobre movimentos, métricas, formas, escolas, e apreciam ouvir ou mesmo ler poemas, que poesia até lhes parece.
Ainda, quem afirma um conceito, um movimento, uma tese, que seja, já apontando rumos informa no que faz como faz o que pretende e, muita vez, até seguidores em profusão conquista.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 1/5/2008 18:46 
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Karimatra Caríssimo Aníbal,
Aprenderei contigo.


Karimatra · Salvador (BA) · 3/5/2008 00:10 
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Olá Anibal!

Bela lição de vida e poesia
Ligadas e atravessadas por uma magia
...
Para Tuas escolhas ... Estarão ...
...



Beijos_Meus*
*
Lili_Beth* · Rio de Janeiro (RJ) · 3/5/2008 13:57 
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Aos novos colegas aqui, deixo o meu muito obrigado. Pela leitura e pelas palvras simpáticas.

Abraço amazônico

ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 3/5/2008 18:37 
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