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Brasil fora do tempo

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Lauro Mesquita · Pouso Alegre, MG
15/5/2006 · 110 · 6
 

Tirar do freezer direto para o microondas. Depois de descongelado, acrescentar um tempero extra, esperar um pouquinho e comer. A comida congelada é uma das conquistas da vida moderna. Com ela, o sujeito pode reaproveitar uma delícia preparada há um tempo atrás e mandar brasa em um dia de solidão e vagabundagem. Em alguns casos, após a temporada no congelador, o rango concentra o sabor e fica ainda mais gostoso. É o caso da feijoada. Mas em alguns momentos o resultado é o oposto e a comida perde completamente o sabor e fica parecendo mistura bizarra de gás de geladeira, azedume etc.

O evento Brasilintime esteve longe de repetir os efeitos da nossa citada feijoada na última sexta-feira. Se não foi azedo, não proporcionou a satisfação da primeira visita do projeto há uns dois anos atrás. Basicamente, a idéia era reunir ritmistas de várias localidades e DJs americanos e brasileiros. Com isso, tentar produzir música dançante e, de um certo ponto de vista, inovadora (discuto isso aí lá embaixo). Não sei o que aconteceu mas não funcionou, pelo menos na sexta-feira.Talvez seja o lugar – o Teatro do Sesc Pompéia –, onde as pessoas não podiam dançar. Tinham de assistir a tudo sentadas. Mas pode ser que o negócio tenha caducado, perdido o tempo e a mistureba não faça mais sentido, tenha saído de moda.

O insucesso da festinha pode se dever também ao fato de que só um dos bateristas americanos da primeira edição do Brasilintime participou nesse repeteco. Pelo que sei, os gringos que vieram há uns dois anos atrás já haviam tocado em outro projeto – o Keep in Time –com os DJs. Por isso já chegaram mais entrosados com eles. Não sei, só estou chutando aqui pra tentar entender o que mudou.

Afinal, o evento contou com dois bateristas muito importantes criadores de gêneros com grande importância rítmica como o Wilson das Neves – um dos principais bateristas da música brasileira – e o Tony Allen – que, se não foi pai, deu comida na boquinha do afrobeat, desde que o gênero era bebezinho –, além de alguns DJs famosos como Madlib e o J Rocc.

Não apareci na primeira festa. Só sei que foi um sucesso e uma satisfação poucas vezes vista entre o público paulistano. Se tivesse sido ruim, o negócio não iria lotar o Sesc dois dias seguidos. Eu nunca fui entusiasta do evento. Principalmente porque o resultado, apesar dos esforços, é muito pouco musical. Acho que acaba descambando pra uma coisa fácil no pior sentido da palavra. E a idéia da criação improvisada sempre vem meio embalada na vontade dos músicos se ajustarem ao que o público espera deles.

Vou tentar explicar melhor. Ao tocarem juntos, os DJs querem soar o mais samba possível e o mais virtuosos que eles puderem. Os percussionistas também, mas se adequando a uma linguagem do hip hop. Com isso, cria-se uma falsa impressão de que algo novo está sendo inventado ali. Na verdade, o ritmo diferenciado das batidas usuais do rap ou da dance music acabam soando somente como mais um elemento ––um sample inédito – em meio a scratches e outros sons lançados pelos DJs. E o pior de tudo é que não existe interesse real de parte dos músicos e nem da organização de se explorar a coisa de um jeito mais musical. A idéia é jogar os clichês do mesmo estilo numa panela, ainda que com muita excelência, e ver no que dá.

Mistureba

O resultado fica parecendo uma mistura de workshop da Teodoro Sampaio (rua onde se localizam um grande número de lojas de instrumentos em São Paulo) com campeonato de DJ. Nada menos artístico e inventivo do que a técnica vazia, mas deixa pra lá. E, principalmente, ninguém vai muito longe do ponto de vista musical mesmo. O clichê impera e pode parecer tudo – exibição técnica, bagunça, festinha, um samba-rap com pitadas de afrobeat, sei lá –, menos criação.

No Brasil esse discurso de misturar uma novidade internacional com algum elemento musical notadamente brasileiro vem sendo considerado a tábua de salvação da música nacional. É um discurso que pode ser visto em entrevistas com artistas, em artigos de jornalistas e até em conversa de boteco. O pessoal trata criação sonora como uma elaboração em que basta colocar elementos aparentemente modernos ao lado de ritmos regionais, e daí nasce uma inovação. Um produto novo. Melhor se o sabor local estiver distante do cardápio há um tempo.

Nos anos 90, isso virou uma obrigação mercadológica. Para atingir o público de classe média, o rock-pop brasileiro deveria trazer entranhado elementos da música brasileira. A imprensa musical sentia uma necessidade gigantesca de renovação de artistas e, para isso, era absolutamente necessário uma certa ruptura com o rock brasil dos 80. Algo que diferenciasse o som de uma geração para o da outra. O pessoal aproveitou a onda do funk o' metal e embarcou geral.

A aparição do mangue-bit, forró-core, caipira-groove e sei lá mais o quê foi a alegria para esse povo. Venderam revistas e realmente criaram algo novo daí. Um produto novo e uma nova abordagem sobre a música brasileira. Mais pra frente, com os relançamentos de discos antigos da MPB dos 60 e 70, a nova tendência foi citar discos raros como referência fundamental. E assim prosseguiu.

A qualidade na música brasileira passou a ser ditada pela capacidade de lançar produtos novos e velhos ao mesmo tempo. O objetivo era ser convincente ao lançar marcas que pudessem parecer algo maior e mais importante do que elas eram de fato. A música, na maioria dos casos, continuava um emboladão de trocadilhos, frases feitas e clichês musicais, Além disso, os músicos se contentavam e se acomodavam com uma fórmula que eles criavam e insistiam nisso até o possível. Depois, descobriam uma novidade internacional, um novo termo e a vida continuava. O fenômeno é notável nos discos dos Raimundos, do Marcelo D2, do Nação Zumbi e em muitos outros.

No meu ponto de vista, o Brasilintime é um exemplo claro disso. Traz músicos interessantes e a intenção é excelente. Poderia até render. Só que o interesse pelo clichê é tão grande que a criação fica deixada de lado. É a justificativa fashion em primeiro plano.

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Retrigger
 

Ótima matéria.
mesmo que sua opinião seja um pouco apocalíptica demais (eu ainda acho que o nação zumbi criou algo), acertou na mosca em cima da insossa mistureba abrasileirante.
Chegou-se ao ponto de ser heresia não se ligar diretamente a cultura do brasil rural, como se quem não tocasse tambor não era brasileiro.
O brasil é um país urbano. Muito urbano, com umas 10 cidades maiores que Berlim. Por que a música de Berlim é tão urbana e moderna e a nossa tem que ter ligações com o Brasil rural e as tradições ancestrais?

Retrigger · Belo Horizonte, MG 17/5/2006 20:54
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André Maleronka
 

Laurão repito aqui um lance que já tinha comentado no seu blog. Também fiquei decepcionado com a apresentação, realmente não funcionou. A gente curte som improvisado, balanço, barulho, tudo isso (roqueiros brasileiros, né, RÁ!), e sabemos que às vezes não dá certo. Realmente não sei se foi o espaço ou o que, pensei um monte de coisas, mas não cheguei a uma conclusão. Agora o seguinte: acho que a argumentação nesse parágrafo “Não apareci na primeira festa...se ajustarem ao que o público espera deles.” não se sustenta. Como você mesmo diz, não assistiu da primeira vez, que foi O MAIOR AXÉ. E não foi um som fácil, não foi um amontoado de clichês, nada disso. Foram grandes músicos tocando juntos, explorando. E isso seria possível novamente, mas não foi, afinal, não é a forma que define necessariamente o que vai rolar, né?

André Maleronka · São Paulo, SP 17/5/2006 20:57
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andre stangl
 

acho q o problema não está em misturar estilos ou tradições, sem isso nem rock teria nascido (gospel + blues de base africana + melodia e harmonia de base europeia). talvez o q tenha q ser repensado é essa mania de novidade, o novo pelo novo, ser for novo de novo também vale...

andre stangl · São Paulo, SP 18/5/2006 12:42
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akirarw
 

O Brasil é um dos piores lugares no que se diz às tradições. Ficam os maus hábitos como tradição e vemos jogadores, artístas, os heróis de um passado recente, na sarjeta. Agora sobre o evento, não há nada de novo mesmo, pois Max Roach, grande baterista, fez isso com Fab Five Freddy em 1982, quando não se tinha samplers, mixers com efeitos pré-programados e o HipHop estava nascendo. O que quis dizer sobre os heróis brasileiros, é que a memória os trata tão mau que alguns, ficam sujeitos a aceitar o q vier para mostrarem seu valor. Se muitos veteranos tivessem o devido reconhecimento, nem dariam bola para o rap, musica dançante eletrônica, etc. Muita coisa dá errado por aqui, pois os músicos em grande parte tem mania de direitos autorais, não se doam para a obra executada e coletiva, cada um quer por sua marca. Dá outra vez deu certo, porquê Derf Reklaw, James Gadson e Paul Humphrey, são bateristas de sessão, acostumados a gravar com inúmeros artístas e serem quase anônimos nestas sessões. Fazem o trabalho sem quererem colocar o lado pessoal a ponto de interferir no trabalho do líder da sessão de gravação. A sua qualidade e dedicação já deixam uma marca, mais natural e integrada ao trabalho.

akirarw · São Paulo, SP 18/5/2006 13:23
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Lauro Mesquita
 

Oi gente, mais uma vez pela atenção ao texto e pelos ótimos comentários que também me apresentam coisas novas e me fazem pensar um pouco sobre o que escrevi. Acho tb que misturar coisas não é problema algum e que muitas vezes a criação acontece da junção de estilos. Mas tenho certeza que quando foram criar o rock, ninguém chegou e falou, vou colocar um pouquinho disso e um pouquinho daquilo e vai sair um lance chamado rock n roll. A coisa é fruto de um longo desenvolvimento musical que envolve toda uma tradição, além de um interesse mercadológico tb, que já havia começado bem antes com outros tipos de canção.

Quanto ao outro evento , eu não fui, então não comento mesmo. Mas acho modelo do evento complicado por que só propõe o espetáculo de nomes e a criação musical só acontece por sorte, nunca por intenção, mas essa é uma opinião bastante pessoal.

Acho que essa mistureba ´[e acima de tudo estéril. Não sai nada dali e o pessoal sai vomitando estilos só pra ter um diferencial, que passa longe de um interesse real pela música.

Também discordo que no Brasil seja regra o desrespeito pelas tradições musicais. Muitos nomes vão pra sarjeta, mas as tradições ficam é intocadas. Todo mundo acha o Brasil pitoresco e quase folclórco lindo, mas a geração 90 não põe a mão no cerne disso, nnão desrespeita isso. Prefere usar como um elemento pra dar uma cara de Brasil. É como DJ gringo colocar bateria de samba na house e achar que daí sai uma coisa nova. É só elemento pitoresco.

Lauro Mesquita · Pouso Alegre, MG 19/5/2006 00:53
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carioca in canada
 

procuro interessados em colaborarem com o jornal www.achei.ca
Escreva para a "redacao" se estiver interessado.
Obrigada!

carioca in canada · Rio de Janeiro, RJ 27/5/2006 23:24
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