Brasil sim, Brasil n√£o - as fronteiras

Talita Ribeiro
√ćndia da etnia guarani e kaiow√°, em Dourados, MS
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Talita Bagnoli Ribeiro · S√£o Paulo, SP
21/4/2007 · 356 · 35
 

O que √© o territ√≥rio brasileiro? Para quem est√° na frente de um mapa, seus limites s√£o n√≠tidos. Mas, quem j√° se aventurou pelas fronteiras do norte sabe bem o porqu√™ do t√≠tulo desse artigo. Lembram da zebra? Cor sim, cor n√£o. Pois √©... Quem v√™ de perto, v√™ uma linha pontilhada, onde deveria ser cont√≠nua. O que vou dizer agora pode parecer exagerado. Pensem o que quiserem. Podem at√© achar que √© mais um daqueles textos de quem caiu de p√°ra-quedas na Amaz√īnia. Mas uma coisa √© certa, senhores: temo pela soberania do nosso pa√≠s. E tenho meus motivos. Nossas fronteiras est√£o desprotegidas e nossos militares (muitos deles), corrompidos. Ali√°s, n√£o s√≥ eles, como os √≠ndios, pesquisadores e jornalistas.

Trabalho com os √≠ndios desde 2001, quando decidi escrever um livro sobre jovens √≠ndios suicidas, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Entre os muitos problemas levantados durante os quatro anos que estive l√°, um deles, que aparentemente nada tem a ver com as causas do suic√≠dio, foi a presen√ßa de paraguaios na reserva. Como nossos vizinhos t√™m origem Guarani, se assemelham muito com os √≠ndios da fronteira. Muitos saem de Pedro Juan Caballero e galgam um ‚Äúpedacinho de terra‚ÄĚ na reserva Francisco Horta, em Dourados, Mato Grosso do Sul. Eles passam despercebidos, s√£o confundidos com os √≠ndios e acabam recebendo os mesmos benef√≠cios.

Os Guarani e Kaiowá de Dourados elegem esse como um dos principais motivos para o afastamento da cultura ancestral e aculturação de seu povo. Os forasteiros invadem a aldeia, casam com as índias, vendem drogas, são atendidos pela Funasa e aparecem, desnutridos, no Jornal Nacional. Só mesmo os moradores da aldeia sabem quem é quem.

Viajando a outro extremo. Os √≠ndios de S√£o Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, tamb√©m reclamam da presen√ßa de forasteiros ‚Äú√≠ndios‚ÄĚ, na reserva de Cucu√≠. Eles conseguem, ‚Äúno mercado negro‚ÄĚ, adquirir a identidade ind√≠gena, que d√° direito a v√°rias regalias, entre elas, afrouxamento das penas e leis bem menos rigorosas. Mas, em Cucu√≠, o problema √© ainda maior. Tr√≠plice fronteira entre Brasil, Col√īmbia e Venezuela, a regi√£o √© proibida para brancos. S√≥ trafegam por l√° os militares, os √≠ndios e as pessoas por eles autorizadas. Coincidentemente, √© uma das √°reas de maior atua√ß√£o das Farc na Amaz√īnia. De grandes dimens√Ķes territoriais, a fiscaliza√ß√£o √© dif√≠cil e falha: a reserva se transformou em um corredor do tr√°fico. Uma via f√°cil, de m√£o-dupla, entre os tr√™s pa√≠ses. Longe, √© claro, da fiscaliza√ß√£o.

Os Batalh√Ķes de Selva vivem em alerta constante. Tabatinga, regi√£o conhecida como ‚Äúa cabe√ßa do cachorro‚ÄĚ, inferno amaz√īnida militar, vez ou outra, se v√™ em guerra com o narcotr√°fico. Se algu√©m comete um crime em Tabatinga e cruza a fronteira (que fica a poucos metros), est√° livre da lei. O que funciona, a partir da√≠, s√£o as penas da guerra. Fora isso, muitos militares est√£o insatisfeitos, com medo e desfalcados. Se sentem ‚Äújogados aos le√Ķes‚ÄĚ.

Mais para cima, na fronteira de Roraima com a Venezuela, regi√£o ind√≠gena de Auaris, a presen√ßa de vizinhos tamb√©m √© denunciada pelos Yecuana. N√īmades, eles pr√≥prios t√™m parentes na Venezuela. Dif√≠cil √© saber quem √© √≠ndio de verdade. Tamb√©m assolados por uma grave onda de suic√≠dios entre jovens e crian√ßas, os Yecuana dizem que tudo come√ßou com uma planta, trazida por um parente do pa√≠s vizinho. Dela, eles extraem o veneno que usam para se matar. O vai-e-vem na √°rea √© grande. Os militares, que tamb√©m t√™m um posto ali, fazem o que podem. Mais uma vez, a fiscaliza√ß√£o √© falha. O territ√≥rio √© imenso e a fronteira, imagin√°ria.

Mas, nem s√≥ veneno e drogas, carregam os forasteiros. Muitos, vindos de v√°rios pa√≠ses, se enfiam floresta adentro para cuidar dos √≠ndios, fazer neg√≥cios lucrativos e garantir perman√™ncia na Amaz√īnia. Uma vez instalados legalmente dentro das reservas, eles est√£o longe da fiscaliza√ß√£o pesada. Conseguem o que querem, dando ao √≠ndios em troca, um pouco da dignidade que o Brasil teima em fingir que n√£o existe. Eliminam a mal√°ria, a subnutri√ß√£o e levam, para fora, amostras de sangue, de orqu√≠deas e min√©rios. Para eles, uma troca mais do que justa.

Mas existe um passaporte muito mais poderoso para a Amaz√īnia. Uma grande parte das propriedades privadas da regi√£o j√° pertence a estrangeiros. Est√£o adquirindo parte da floresta, mesmo sem poder explor√°-la. Qualquer semelhan√ßa com o processo hist√≥rico da cria√ß√£o do Estado de Israel √© mera coincid√™ncia... apesar dos tempos serem outros. Pode parecer utopia, mas vale uma reflex√£o. Afinal, a melhor estrat√©gia para se vencer uma guerra √© se apoiar na hist√≥ria.

E se engana quem pensa que s√≥ os √≠ndios ‚Äúcaem no conto‚ÄĚ. Alguns pesquisadores, desencantados com as pol√≠ticas brasileiras para fomenta√ß√£o da pesquisa, acabam vendendo o estudo da vida inteira para empresas de fora. Dizem que √© o √ļnico jeito de v√™-las saindo do papel... e de ganhar algum dinheiro com a ‚Äúdescoberta‚ÄĚ. Teorias √† parte, sabemos que nossos pesquisadores andam muito bem nos grandes centros. Mas aqui, ainda sofrem com a falta de recursos. O Brasil fecha os olhos para onde o resto do mundo os abre.

Os jornalistas? Indiferentes a quase tudo isso. Tudo bem, nem tudo que eu disse aqui posso provar, como manda o figurino. E tamb√©m, quase ningu√©m quer publicar. S√£o anos de pesquisas, conversas, imers√Ķes em realidades alheias √† que a maioria de n√≥s est√° acostumado. Mas muitas eu posso provar, mas n√£o me atrevo! Voil√°...



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comentŠrios feed

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Helena Arag√£o
 

Muito impressionada com esse texto, Talita. Ainda digerindo e pensando... Comento mais, mais pra frente. O que posso deixar já de antemão é que fiquei bastante curiosa com seu livro e acho que você podia dar as coordenadas para quem quiser encontrá-lo (estou supondo que ele foi lançado). Abraço!

Helena Arag√£o · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2007 18:52
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Talita Bagnoli Ribeiro
 

Helena, ainda não lancei não. Nem sequer levei a uma editora. Estou esperando sair uma matéria que escrevi para a Trip e pegar uma carona na divulgação do assunto... Se quiser saber mais entra no meu site, lá tem um hotsite do Jejuka (o livro). O endereço é www.amazoncast.com.br. Beijo e obrigada pelo comentário!

Talita Bagnoli Ribeiro · S√£o Paulo, SP 18/4/2007 20:59
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Jo√£o Cumar√ļ
 

Sua mat√©ria est√° magnanima, Talita. Concordo em tudo o voc√™ disse. O Brasil precisa tomar uma posi√ß√£o e fazer alguma coisa, o que temos no estado do Amazonas √© vergonhoso para o Brasil, eu nunca vi nenhum pol√≠tico fazer a√ß√Ķes concretas nessa regi√£o. Eu espero que, n√£o s√≥ o Amazonas, mas todo o Brasil possa viver dias melhores.

Jo√£o Cumar√ļ · Recife, PE 21/4/2007 15:09
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Tê Jardim
 


Muita coragem publicar um texto como esse, ainda mais se considerarmos que tu mesma assumiste n√£o poder provar muitas das coisas que disse.

Quem mora aqui pertinho é que tem idéia de como é, mesmo que seja uma idéia embaçada, como a minha.

Parabéns pelo texto!

T√™ Jardim · Bel√©m, PA 21/4/2007 22:15
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Marcelo V.
 

Tomara que o tema ganhe logo a "grande imprensa", embora este tipo de assunto infelizmente costume servir para um pequeno sensacionalismo, uma falsa disposição das autoridades em mudar a situação e um rápido esquecimento...

Marcelo V. · S√£o Paulo, SP 21/4/2007 22:42
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Fernando Mafra
 

Sensacional, Talita. Esse artigo é um dos pontos altos do Overmundo. E achei a foto sensacional, captura bem a idéia de desamparo e abandono.

Fernando Mafra · S√£o Paulo, SP 21/4/2007 23:02
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TAPAJ√ďS_Leandro
 

√Č, quem passa pela Amaz√īnia lan√ßa o olhar rom√Ęntico, superficial, s√≥ quem realmente se aventura pelos interiores √© q conhece a realidade, nem sempre bonita desse peda√ßo do BR. Vou aguardar o livro!

TAPAJ√ďS_Leandro · Manaus, AM 22/4/2007 00:01
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Adriel Diniz
 

Maravilhoso. Aqui na Amaz√īnia, enquanto o Brasil n√£o decide se cuida da floresta ou do povo, ambos v√£o sendo extintos. Estou ansioso por seu livro. Parab√©ns.

Adriel Diniz · Porto Velho, RO 22/4/2007 00:09
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Roberto Maxwell
 

O q eu nao entendi eh sobre as etnias: um guarani paraguaio nascido no paraguai eh menos "indio" q um nascido no Brasil?

Roberto Maxwell · Jap√£o , WW 22/4/2007 01:05
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ich_bien_ein_elmo
 

amei

ich_bien_ein_elmo · Coqueiro Seco, AL 22/4/2007 02:26
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Fernando Mafra
 

Roberto. Acho que a questão é que o Paraguaio é DESCENDENTE de guaranis que há um tempo não fazem mais parte fisicamente da reserva da qual tentam se infiltrar.

Eu sou descendente de indíos. Se fosse samba do criolo doido assim eu também poderia pedir uma parte desse bolo.

Fernando Mafra · S√£o Paulo, SP 22/4/2007 03:52
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Roberto Maxwell
 

Entendi. Acho interessante este debate em relacao as etnias. Mas, o texto eh sobre fronteiras. Legal se vc, em outro momento, discutisse esse tema em outro texto. Abracao.

Roberto Maxwell · Jap√£o , WW 22/4/2007 04:09
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Fernando Mafra
 

Seria o máximo se eu entendesse melhor minhas raizes indígenas. A família do meu pai não liga muito para isso de registros, histórico familiar e tudo o mais. Assim basicamente eu sei que minha bisavó era neta de uma indía (e apesar de ter uma pele bem branca, seus traços eram claramente indígenas), e ficou por aí.

Fernando Mafra · S√£o Paulo, SP 22/4/2007 04:15
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peninha
 

Amigos,
√© preciso redefinir imediatamente o papel das for√ßas armadas no Brasil. Depois da ditadura, eles se recolheram aos quarteis e hibernaram. Pra que exercito no Rio , Sp, Minas, se eles s√Ęo necess√°rios nas fronteiras. √ą s√≥ reajuste de sal√°rios e mordomias, s√≥. Combater traficante de cidade com tanque de guerra √© no minimo piada...
Mandar todos pras fronteiras, equipados, e bem pagos. A√≠ sim a fun√ß√Ęo deles seria justificada.
Eu fiz um exercicio de mudança com o Novo Mapa do Brasil para 2015 que está no meu perfil, pensando neste problema tambem.
Se n√Ęo cuidarmos disto alguem o far√Ę por n√≥s. E eles n√Ęo ser√Ęo nossos amigos...

peninha · But√£o , WW 22/4/2007 10:42
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isaac_lira
 

Impressionante, Talita. O texto mais contundente que já li no overmundo. E assustador também. A gente fica meio sem palavras frente a uma realidade tão forte.

isaac_lira · Natal, RN 22/4/2007 14:53
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Marcelo Bretton
 

Talita,
Conhe√ßo de perto o que escrevestes. Sou guia de turismo e, j√° tive a oportunidade de entrar no Brasil pelo quintal. Fomos a Cartagena das √ćndias na Col√īmbia e depois pegamos um avi√£o para Let√≠cia, na fronteira com o nosso pa√≠s, lado Colombiano. L√° as FARCS mandam e desmandam. Ao atravessar uma rua, fui informado por um transeunte, em portugu√™s que, me encontrava do lado Brasileiro (Tabatinga) e, que para continuar a viagem (at√© Manaus), seria de bom tom eu voltar at√© o aeroporto de Let√≠cia para pegar um carimbo de sa√≠da da Col√īmbia. N√£o havia ningu√©m, nem nada que me impedisse de chegar at√© Manaus mas, por via das d√ļvidas fiz o que me foi sugerido. At√© hoje eu tenho esse "mist√©rio" no passaporte: carimbo de sa√≠da de um pa√≠s estrangeiro sem ter o de entrada no meu pr√≥prio.

Marcelo Bretton · Espanha , WW 22/4/2007 17:30
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Talita Bagnoli Ribeiro
 

Valeu pelos comentários, pessoal! Tê, na verdade eu tenho sim como provar muita coisa. Mas seria um soldadinho contra um exército inteiro...
Desde 2005, j√° publiquei dois textos sobre o suic√≠dio ind√≠gena. Mas o problema √© t√£o din√Ęmico que j√° est√£o bem desatualizados. O mais recente vai sair na TRIP de maio. Uma mat√©ria grande e cheia de hist√≥rias. Quem quiser entender um pouco mais o problema, vale a pena ler.
Marcelo, os paraguaios s√£o sim descendentes de Guarani. Mas j√°n√£o preservam mais os costumes h√° d√©cadas. Nossos Guarani ainda lutam pela preserva√ß√£o de sua cultura. √Č muito f√°cil conseguir fazer se passar por √≠ndio. O problema √© que eles v√™m reivindicar terras, recebem assistencialisamo, ao mesmo tempo que levam viol√™ncia, doen√ßas e drogas para dentro da reserva.
Aliás, quem é índio no Brasil? Fernando, torço muito para que consiga encontrar suas raízes indígenas. Inclusive, se todos nós fizermos isso, nosso país não terá terras suficiente para dividir com todos os "índios"... Brincadeiras 'a parte, esse não é um problema tão simples quanto decidir quem entra nas cotas de uma universidade. Diz respeito 'a soberania do nosso país.
Isso que o Marcelo colocou é realmente o que acontece. Fiquei chocada com sua história. Mas, pelo menos vc tem um carimbo... A maioria das pessoas passam despercebidas. Quando vamos acordar??

Talita Bagnoli Ribeiro · S√£o Paulo, SP 22/4/2007 18:50
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Mario C.
 

Também acho uma loucura colocarem as forças armadas para controlar o crime nas cidades, enquanto as fronteiras ficam a revelia.

Seria, no mínimo, mais lógico vigiar as fronteiras para evitar a entrada de drogas e armas do que esperar ambos entrarem no país para aí sim tentar combater os bandidos.

Mario C. · Belo Horizonte, MG 22/4/2007 19:45
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Guilherme Mattoso
 

sensacional... a gente ate imagina que isso tudo, de fato, acontece na regiao norte, mas ninguem parace muito interessado.... bom demais!

ps: a crianca da foto e india mesmo ou e paraguaia?

Guilherme Mattoso · Niter√≥i, RJ 22/4/2007 20:02
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Yusseff Abrahim
 

Sem palavras Talita! Bem vinda a somar.
Posso acrescentar em Tabatinga uma modalidade de tr√°fico de √≥rg√£os onde o termo "barb√°rie" soaria ameno... al√©m de algumas comunidades na regi√£o onde igrejas evang√©licas com pastores vindos dos Estados Unidos constru√≠ram escolas cujo conte√ļdo dos livros est√° em ingl√™s (Surpreso? Eu n√£o. N√£o √© mais novidade... mas n√£o se preocupe, nenhum pol√≠tico vai ter peito para denunciar isto).

Escrevi no Overmundo um texto sobre São Gabriel da Cachoeira onde falo da cultura indígena no meio do turbilhão de forças trazidas com o modo urbano de vida: Exército - Igreja - Política/ Cultura do Branco, quem quiser, clica aqui

Inicialmente, vou apenas fazer um coment√°rio sobre o ponto de vista do colega Peninha... j√° que ao viajar por este Amazonas, descobri que o ex√©rcito tem muito mais a contribuir ficando enquartelados mesmo ou n√£o interagindo com as popula√ß√Ķes tradicionais. Quanto mais os militares ficarem quietos, na sua, menos atrapalham: Patrulhamento, e s√≥.

Talita, como estamos perto vamos fazer m interc√Ęmbio de livros? Estou muito curioso! Heheh te dou um meu.

Volto a comentar depois, este é um tema o qual preciso respirar fundo... testemunhar um adolescente indígena suicida enforcado em uma árvore, e saber que, meses depois em São Gabriel da Cachoeira após muitos outros suicídios, houve uma passeata para conscientizar a população de que suicídios de adolescentes não são uma coisa normal... é difícil.
Abraços!

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 22/4/2007 20:33
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peninha
 

"...j√° que ao viajar por este Amazonas, descobri que o ex√©rcito tem muito mais a contribuir ficando enquartelados mesmo ou n√£o interagindo com as popula√ß√Ķes tradicionais. Quanto mais os militares ficarem quietos, na sua, menos atrapalham: Patrulhamento, e s√≥."
Me perdoe, não sei qual sua idéia de exército, soberania nacional, etc... mas ficar aquartelados ou fazer Patrulhamento?
Eles devem ficar quietos, na deles...???
N√£o entendi nada, nada.

peninha · But√£o , WW 22/4/2007 22:44
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Talita Bagnoli Ribeiro
 

Mario, o problema de nossas fronteiras vai muito além da localização dos militares. Está tudo errado. As fronteiras estão todas em terras indígenas. Sendo assim, só é permitida a entrada dos militares e dos próprios índios. Quem são os índios? Ninguém sabe... Os militares são insignificantes para o tamanho da fronteira. O que implica em quase nenhuma fiscalização.
Ah! E tem tamb√©m o assistencialismo. Esses tamb√©m entram nas reservas. Como o Yussef falou, cartilhas em ingl√™s e √≠ndios que falam franc√™s n√£o s√£o mentira. S√£o f√°ceis encontrar. Em S√£o Gabriel da Cachoeira √© onde fica a reserva ind√≠gena de Cucu√≠, tr√≠plice fronteira entre Col√īmbia, Venezuela e Brasil. A popula√ß√£o do munic√≠pio √© 90% ind√≠gena e 10% militar. O suic√≠dio tamb√©m j√° chegou l√°. S√≥ acho que tem coisa bem mais importante para nossos militares fazerem do que ficar de "bubuia". Precisam parar de ver a Amaz√īnia como um zool√≥gico √©tnico, como fazem a maioria dos brasileiros.

Talita Bagnoli Ribeiro · S√£o Paulo, SP 22/4/2007 23:57
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Talita Bagnoli Ribeiro
 

Ah! Guilherme. A criança da foto é índia. Nem fala português, só guarani. Essa foto foi tirada na reserva de Dourados, em 2004. Uma das irmãs dela tinha se matado na ocasião. Agora, não temos como saber se o pai é índio ou paraguaio... Só sei que ela está viva. E já fala português. Eu fui visitar ano passado...

Talita Bagnoli Ribeiro · S√£o Paulo, SP 23/4/2007 00:03
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Ise Meirelles
 

Talita, estou ainda sem palavras... o texto √© um soco no est√īmago!Que realidade mais louca e t√£o submersa na Floresta... Vc q tem acompanhdo t√£o de perto e por um bom tempo, tem alguma id√©ia do por qu√™, das raz√Ķes que tem levado os adolescentes ind√≠genas ao suic√≠dio?

Ise Meirelles · Salvador, BA 23/4/2007 16:14
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FILIPE MAMEDE
 

Talita, o texto está muito bem costurado. Muito bom de ler. E que historia! Todo mundo sabe que as regioes de fronteira, especialmente a regiao norte, tem uma fiscalização inexpressiva. Mas essa problematica dos índios, eu desconhecia. Excelente recorte. Abraço!

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 23/4/2007 17:02
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Andre Pessego
 

Talita, para ser diret√£o:
a) A escravização do indio mereceu 3 ou 4 bulas papais: a primeira a condenado; depois mais ou menos, (se enchesse a pança do cristianismo)... Até que surge em escala de comercio internacional a escravização do negro. Voce pensa que acabou? Foram mais de uma duzia de leis e Cartas régias proibindo aqui, tolerando acolá: revogando em parte, no todo ou parte, até o fim da lavoura disto ou daquilo, etc. E nunca acabou...
b) E o negro brasileiro? Terá solução para o índio, sem solução para o negro?
c) Historicamente o intelecutal brasileiro condena isto ou aquilo, (de Rondon, Darcy Ribeiro, os Vilas Boas, etc)
Nos falta conjuntamente propor SOLU√á√ēES,
das proposi√ß√Ķes poder-se-√° formar movimentos; sem envolvermos o povo, parcela deste, necas. A sou√ß√£o para o indio e ou o negro nao partir√° da figura do Estado, antes ter√° de envolver a sociedade, ... desculpe-me nao conhec√ßo seu livro, claro, se nao figurar a "Solu√ßao", talvez haja tempo, um abra√ßo, andre

Andre Pessego · S√£o Paulo, SP 23/4/2007 18:33
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Yusseff Abrahim
 

Ol√°, Peninha.
Minha declaração pode ser melhor compreendida neste texto aqui.
N√£o me entenda mal, mas o que voc√™ talvez n√£o entenda √© que a "soberania", no meu conceito, √© um termo totalmente voltado para os ind√≠genas nestas √°reas, talvez por isso, voc√™ s√≥ entenda o conceito "soberania" no que diz respeito a sua cultura e no√ß√£o de p√°tria, ou seja: Ex√©rcito, soldados que n√£o garantem nada e causam mais transtornos do que ajudam. Aqui √© muito diferente... e as no√ß√Ķes s√£o outras.
Preciso observar que minha idéia de exército é a suficiente para, a cada viagem pelo Amazonas, me orgulhar de ter conseguido providenciar minha entrada no "excesso de contingente".
Nossa soberania √© mais amea√ßada pela ignor√Ęncia dos pr√≥prios brasileiros do que pelo n√ļmero de militares nestas √°reas, a maioria uns etnoc√™ntricos que chegam ao Amazonas com a mentalidade de colonizadores, que ficam contando os dias para voltar enquanto abastecem seus bolsos com os adicionai$$$ por conta de morarem no "inferno verde" .
Desculpem, n√£o vou mais comentar... este √© um assunto que, pelo que presenciei, definitivamente, n√£o desperta meu lado diplom√°tico. Apenas insisto para que todos resolvam vir aqui desprendidos de todos os conceitos para reaprender a olhar o pa√≠s, √© o √ļnico jeito de criar uma discuss√£o visando o melhor.
Abraço a todos.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 23/4/2007 19:41
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Talita Bagnoli Ribeiro
 

Poxa Yussef... eu sei o que vc quis dizer. Tamb√©m concordo que o problema maior √© o posicionamento dos militares... mas mant√™-los longe das fronteiras n√£o vai ajudar tamb√©m. Conhe√ßo a realidade que vc descreveu, com muita propriedade em seu texto (excelente, por sinal), mas h√° de ter uma solu√ß√£o. Afastar os militares √© tapar o sol com a peneira. Assim como acontece quando fechamos os olhos para a guerrilha, as fronteiras e a quest√£o ind√≠gena. Este √© um espa√ßo de discuss√£o... acho saud√°vel que cada um exponha a sua realidade. √Č muito dif√≠cil analisar uma realidade como essa, t√£o longe da maioria dos brasileiros... vamos falar mais sobre isso?? Como estamos pertinho, acho que arrumamos um bom papo para um happy hour n√©? rs
Bom Filipe, na verdade, o suicídio indígena acontece, como "epidemia" desde 1995. Desde meu primeiro estudo, já identifiquei mais de seis etnias no Brasil que sofrem do mesmo mal. Para os índios não é um suicídio e sim, homicídio, já que eles acreditam sempre que forças ocultas levam as crianças a cometê-lo. Mas esse é outro texto! Se deixar, eu me empolgo falando disso... Leia o texto na TRIP de maio, é o mais atualizado. Se quiser saber mais, podemos falar por email também...

Talita Bagnoli Ribeiro · S√£o Paulo, SP 23/4/2007 21:11
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peninha
 

Talita, me desculpe o uso de sua espetacular matéria para postar este contra-comentário ao colega Yusseff, mas
se não dá ele pra ser diplomático aqui, é melhor realmente não comentar.
Amigo Yusseff,
Primeiramente : minha noção de pátria é muito nobre e altruista;
Segundamente: N√£o sei sua idade ou o que j√° passou nesta vida: se tem a idade de ter padecido os males da ditadura, eu talvez o entenda este ponto de vista, apesar de n√£o concordar.
Nosotros que tivemos que conviver com os tempos de mando dos militares sabemos do que s√£o capazes. Eles somente n√£o, todos que se embriagam de poder, sem exce√ß√£o. Ta√≠ o PT que n√£o nos deixa d√ļvidas.
Mas discordo frontalmente de voce, sendo diplomata ou não, da necesidade da presença do exército na área. A distoante pode ser o modo de agir de alguns fardados. Mas para estes existem outros que pensam e agem de modo mais patriótico, nacionalista e justo.
Nada como um banho de rigor da lei para resolver qualquer ato menos digno.
Mas por favor, se quiser um dia conversar sobre minha idéia de soberania e "noção de pátria" terei muito prazer em me dissolver em pensamentos mais elevados do que somente Exercito e soldados. Até lá, por favor, não faça juizo adiantado do que penso.

peninha · But√£o , WW 23/4/2007 21:50
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Talita Bagnoli Ribeiro
 

Peninha, eu acho bacana essa discussão! Fiquem muito à vontade!! Afinal, aqui é o lugar dos debates... adoro ver gente inteligente discutindo. Sempre acrescenta! beijão

Talita Bagnoli Ribeiro · S√£o Paulo, SP 23/4/2007 22:08
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Yusseff Abrahim
 

Eu te entendi Talita.
Apenas acredito que a solução justa é impossível diante do quadro atual, e isso é o que mais me incomoda. No mais, não quero polarizar a discussão, isso empobrece o espaço.
Quanto ao rigor da lei... não precisa, ele já existe e se eu bem conheço nosso sistema judiciário, o rigor se soma ao vigor da igreja, exército e política em uma direção já conhecida...com as vítimas em vias de extinção, embora homenageadas no dia 19 de abril.
Vou deixar o espaço das próximas mensagens para alguém mais otimista.
Aguardo ansioso o livro.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 23/4/2007 22:29
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J√£o
 

Estou impressionado com o que l√≠... Todos os dias me deparo com not√≠cias de regi√Ķes como esta mas nenhuma t√£o chocante como a que acabei de ler. √Č nessas horas que eu sempre penso, o que acontece nesse pa√≠s que as pessoas s√£o t√£o cegas ou sei l√° o que ao ponto de n√£o ver a realidade que est√° estampada nas ruas, nos jornais, nas redes de transmiss√£o que levam a s√©rio a den√ļncia e n√ßao fazem nada? Ser√° que temos de vivenciar a desgra√ßa para come√ßarmos a entender que se n√£o nos unirmos, esse show de impunidade sempre vai se repetir at√© o dia em que seremos sufocados por pessoas de outros pa√≠ses ditando o que devemos ou n√£o fazer? Na verdade at√© isso j√° acontece indiretamente.... Mas o que me d√≥i sempre de ler, ver, viv√™nciar √© que tudo depende de nosso simples querer, mas parece que estamos de rabo preso n√£o imagino pelo o que, mas que simplismente ficamos sentados vendo as coisas acontecerem e chingando e imaginado formas de tentarmos resolver as coisas.... Temos de come√ßar a arrega√ßar as mangas e colocar a m√£o na massa como a Talita e outros, pois estes sim s√£o herois em nosso pa√≠s... recalmar sempre foi a parte mais f√°cil de se fazer... mas e a proposta de mudan√ßa? e a coragem de arriscar? Espero que nos que lemos esta informa√ß√£o dada pela Talita saibamos que em parte tudo isso que esta acontecendo √© nossa culpa... pois a parte f√°cil da hist√≥ria √© pagar os impostos e ficar revoltado com as bombas que lemos e vemos no dia a dia e dizer que eles ou aqueles que tem que resolver os problemas... mas se n√£o tem quem exigir a coisa vai continuar desse jeito mesmo... Me desculpem todos pelo meu serm√£o da montanha pois n√£o sei o que cada um faz de sua vida e nem tenho q dizer o que devem ou n√£o fazer... mas √© porque estou cansado disso e estou de mangas arrega√ßadas e come√ßando bem devagar a tentar mudar uma realidade que talvez nunca venha existir com deveria... mas pelo menos espero chegar mais pr√≥ximo de algo menos injusto... Fica aqui um parab√©ns pelo texto e aguardo pelo livro...

J√£o · Itabira, MG 23/4/2007 22:34
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Paulo José
 

Muito boas suas reflex√Ķes, Talita.

Paulo Jos√© · Alto Para√≠so de Goi√°s, GO 24/4/2007 10:43
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Zezito de Oliveira
 

Excelente !!!
Fiquei de ler uma segunda vez, o tempo passou e finalmente fiz uma busca e consegui achar.

Abraço,

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 17/5/2007 23:00
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Talita Bagnoli Ribeiro
 

Valeu pessoal! Espero que minhas reflex√Ķes sejam comuns √†queles que gostariam de mudar alguma coisa...

Talita Bagnoli Ribeiro · S√£o Paulo, SP 20/5/2007 23:28
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