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Brasil sim, Brasil não - as fronteiras

Talita Ribeiro
Índia da etnia guarani e kaiowá, em Dourados, MS
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Talita Bagnoli Ribeiro · São Paulo, SP
21/4/2007 · 356 · 35
 

O que é o território brasileiro? Para quem está na frente de um mapa, seus limites são nítidos. Mas, quem já se aventurou pelas fronteiras do norte sabe bem o porquê do título desse artigo. Lembram da zebra? Cor sim, cor não. Pois é... Quem vê de perto, vê uma linha pontilhada, onde deveria ser contínua. O que vou dizer agora pode parecer exagerado. Pensem o que quiserem. Podem até achar que é mais um daqueles textos de quem caiu de pára-quedas na Amazônia. Mas uma coisa é certa, senhores: temo pela soberania do nosso país. E tenho meus motivos. Nossas fronteiras estão desprotegidas e nossos militares (muitos deles), corrompidos. Aliás, não só eles, como os índios, pesquisadores e jornalistas.

Trabalho com os índios desde 2001, quando decidi escrever um livro sobre jovens índios suicidas, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Entre os muitos problemas levantados durante os quatro anos que estive lá, um deles, que aparentemente nada tem a ver com as causas do suicídio, foi a presença de paraguaios na reserva. Como nossos vizinhos têm origem Guarani, se assemelham muito com os índios da fronteira. Muitos saem de Pedro Juan Caballero e galgam um “pedacinho de terra” na reserva Francisco Horta, em Dourados, Mato Grosso do Sul. Eles passam despercebidos, são confundidos com os índios e acabam recebendo os mesmos benefícios.

Os Guarani e Kaiowá de Dourados elegem esse como um dos principais motivos para o afastamento da cultura ancestral e aculturação de seu povo. Os forasteiros invadem a aldeia, casam com as índias, vendem drogas, são atendidos pela Funasa e aparecem, desnutridos, no Jornal Nacional. Só mesmo os moradores da aldeia sabem quem é quem.

Viajando a outro extremo. Os índios de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, também reclamam da presença de forasteiros “índios”, na reserva de Cucuí. Eles conseguem, “no mercado negro”, adquirir a identidade indígena, que dá direito a várias regalias, entre elas, afrouxamento das penas e leis bem menos rigorosas. Mas, em Cucuí, o problema é ainda maior. Tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela, a região é proibida para brancos. Só trafegam por lá os militares, os índios e as pessoas por eles autorizadas. Coincidentemente, é uma das áreas de maior atuação das Farc na Amazônia. De grandes dimensões territoriais, a fiscalização é difícil e falha: a reserva se transformou em um corredor do tráfico. Uma via fácil, de mão-dupla, entre os três países. Longe, é claro, da fiscalização.

Os Batalhões de Selva vivem em alerta constante. Tabatinga, região conhecida como “a cabeça do cachorro”, inferno amazônida militar, vez ou outra, se vê em guerra com o narcotráfico. Se alguém comete um crime em Tabatinga e cruza a fronteira (que fica a poucos metros), está livre da lei. O que funciona, a partir daí, são as penas da guerra. Fora isso, muitos militares estão insatisfeitos, com medo e desfalcados. Se sentem “jogados aos leões”.

Mais para cima, na fronteira de Roraima com a Venezuela, região indígena de Auaris, a presença de vizinhos também é denunciada pelos Yecuana. Nômades, eles próprios têm parentes na Venezuela. Difícil é saber quem é índio de verdade. Também assolados por uma grave onda de suicídios entre jovens e crianças, os Yecuana dizem que tudo começou com uma planta, trazida por um parente do país vizinho. Dela, eles extraem o veneno que usam para se matar. O vai-e-vem na área é grande. Os militares, que também têm um posto ali, fazem o que podem. Mais uma vez, a fiscalização é falha. O território é imenso e a fronteira, imaginária.

Mas, nem só veneno e drogas, carregam os forasteiros. Muitos, vindos de vários países, se enfiam floresta adentro para cuidar dos índios, fazer negócios lucrativos e garantir permanência na Amazônia. Uma vez instalados legalmente dentro das reservas, eles estão longe da fiscalização pesada. Conseguem o que querem, dando ao índios em troca, um pouco da dignidade que o Brasil teima em fingir que não existe. Eliminam a malária, a subnutrição e levam, para fora, amostras de sangue, de orquídeas e minérios. Para eles, uma troca mais do que justa.

Mas existe um passaporte muito mais poderoso para a Amazônia. Uma grande parte das propriedades privadas da região já pertence a estrangeiros. Estão adquirindo parte da floresta, mesmo sem poder explorá-la. Qualquer semelhança com o processo histórico da criação do Estado de Israel é mera coincidência... apesar dos tempos serem outros. Pode parecer utopia, mas vale uma reflexão. Afinal, a melhor estratégia para se vencer uma guerra é se apoiar na história.

E se engana quem pensa que só os índios “caem no conto”. Alguns pesquisadores, desencantados com as políticas brasileiras para fomentação da pesquisa, acabam vendendo o estudo da vida inteira para empresas de fora. Dizem que é o único jeito de vê-las saindo do papel... e de ganhar algum dinheiro com a “descoberta”. Teorias à parte, sabemos que nossos pesquisadores andam muito bem nos grandes centros. Mas aqui, ainda sofrem com a falta de recursos. O Brasil fecha os olhos para onde o resto do mundo os abre.

Os jornalistas? Indiferentes a quase tudo isso. Tudo bem, nem tudo que eu disse aqui posso provar, como manda o figurino. E também, quase ninguém quer publicar. São anos de pesquisas, conversas, imersões em realidades alheias à que a maioria de nós está acostumado. Mas muitas eu posso provar, mas não me atrevo! Voilá...



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