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Brasil x Croácia – Allez les jaunes

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Daniel Cariello · Brasília, DF
16/6/2006 · 139 · 4
 

Eu tinha pensado em ver o jogo de estréia do Brasil em um boteco da Ceilândia, cidade-satélite de Brasília. Não tinha idéia de que boteco, mas sabia bem como ele deveria ser: uma tv de 14” pegando meio mal e pendurada na parede, e um balcão recheado de quitutes de procedência duvidosa que incluem, claro, o ovo cor-de-rosa e aqueles suspeitos miúdos de galinha, ou algo que o valha.

Na minha imaginação, eu assistiria ao jogo em pé, encostado nesse mesmo balcão, dividindo uma prosaica cerveja com algum amigo que se aventurasse a ir comigo. Quando saíssem os muitos gols esperados, abraçaria pessoas que nunca tinha visto e nunca mais voltaria a ver, em um emocionante exercício antropológico/sociológico/patriótico. Tipo político em ano de eleição, que come até buchada de bode para convencer o povo de que é “gente como a gente”. Daria uma baita matéria.

Mas confesso que não foi nada disso que aconteceu. Ninguém topou ir comigo, apesar das inúmeras insistências e das promessas de que até pagaria a conta. E aí me restaram três opções.

A primeira era ver na casa de um amigo, que estreava uma semi-dinossáurica televisão, no tamanho e na tecnologia. Mas não via interesse em relatar isso para os leitores do Overmundo. Talvez pudesse me ater às características técnicas de tal aparelho, comprado de 2ª mão de seu sogro, que aproveitou uma promoção nas Casas Bahia para adquirir uma TV novíssima de plasma. Esperto, passou a velha adiante para meu amigo.

A segunda era assistir em um shopping, que tinha promoção de chope barato. Sinceramente, essa idéia não me seduziu nem por um segundo. Não gosto de shoppings. Dá aquela idéia de ser sempre a mesma hora do dia. Aí, quando você sai de lá, sempre tem alguém que fala: “Nossa, já é tarde. Nem percebi”. Curto não.

A terceira, e de longe melhor, era ver na casa de Laurent, com mais alguns amigos franceses, em rodada dupla: primeiro, o jogo da seleção deles; depois, o da nossa.


Le barbecue

Churrasco feito por franceses sempre é uma experiência diferente. Há pouco tempo fui a um em que estava tudo muito limpo e previamente organizado. Os espetinhos (brochettes, para eles) já empilhados e decorados com pimentões verdes e amarelos, em homenagem à seleção. Merci beaucoup. C’était très gentil.

O do dia do jogo foi também curioso: a Skol, super gelada, quase não era tocada pelos compatriotas de Napoleão, que preferiam degustar fartos pedaços de picanha acompanhados de uma taça de, claro, vinho tinto.

Fora isso, são como os brasileiros. Torcem, pintam os rostos, exibem bandeiras, vestem camisetas, gritam palavras de ordem e xingam o juiz. Em francês.

O jogo dos “les bleus”, ou “os azuis”, como é conhecida a seleção deles, foi fraco. Zero a zero miúdo, miúdo. Decepção geral. Mas estava quase na hora de o Brasil entrar em campo. Então, mais vinho tinto, pra renovar os ânimos.


Ronaldô, Adrianô, Ronaldinhô

“Como é amarelo em francês?”, perguntei. “Jaune”. Então soltei um “allez les jaunes” meio tímido, rapidamente correspondido por um “allez Daniel”. Simpáticos esses franceses.

Do jogo, não preciso falar muito. O Galvão Bueno já falou demais. Ele sempre fala demais.

Mas a partida estava tensa. De vez em quando alguém gritava um “vai, Ronaldinhô”, “passa, Adrianô”, “corre, Ronaldô”. Por instantes, chegava a me esquecer de que não eram brasileiros, tal o interesse e a torcida pela seleção canarinho. Mas logo me recordava das suas origens, ao ver o vinho ser por eles fartamente sorvido.

A catarse conjunta se deu no gol de Kaká. Os brasileiros, sentados quase colados à TV, pulavam e se abraçavam. E logo os carrascos de 98 se juntaram à festa, com mais bandeiras, apitos, cornetas e muito, muito barulho. De repente, até me esqueci dos dois gols de Zidane e do de Petit naquela final. Cabe dizer que o do Petit é o que mais detesto. Dois a zero tava bom, não precisava de mais um.

Apesar do gol, o jogo continuou morno. “Robinhô” entrou e deu um certo trabalho. Um jornal daqui de Brasília deu nota 6 pra ele, com a sentença cravada ao lado:“entrou, mas não teve tempo de fazer muita coisa”. Engraçado como a imprensa esportiva adora essa frase. Não devem ter tempo de fazer uma resenha mais inteligente.

Fim de jogo. “Les bleus” e “les jaunes” se confraternizam e lamentam mutuamente o jogo ruim das duas seleções. A gente ainda levou a melhor, pois ganhou. As garrafas vazias de vinho e o balde ainda cheio de Skol entregam quem teve a maior dor de cabeça da tarde.



*** "O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada pela comunidade do Overmundo. A idéia é relatar a diversidade de manifestações que ocorrem em torno da Copa do Mundo pelo país afora. A proposta é contar como foi a estréia do Brasil no torneio em diferentes locais. Para ler mais relatos sobre o assunto busque pela tag Especial_Copa, no sistema de busca do Overmundo."

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Esso A.
 

gostei.
mandou bem.
e quando vc vai no botecô?

Esso A. · Natal, RN 16/6/2006 21:31
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Daniel Cariello
 

Ainda não sei. Mas se tiver um Brasil x Itália nas 8as eu tô pensando em ver em uma cantina italiana.

Daniel Cariello · Brasília, DF 17/6/2006 12:28
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achr
 

Já fazia algum tempo que não entrava no site do overmundo.
Como sempre, texto legal, paixão nacional.
Isso faz eu lembrar dos jogos que assisto do Colorado, aqui no Borrego (açougue convertido em bar-restaurante, cheio daqueles senhores técnicos de futebol).
um abraço

achr · Porto Alegre, RS 17/6/2006 17:03
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Yusseff Abrahim
 

Alô Daniel! Tive a felicidade de assistir Brasil X Croácia em um barco no meio do Rio Amazonas na minha viagem de volta de Parintins. Já postei a matéria aproveitando em parte o título da tua na intenção de mostrar diferentes nuances regionais de um mesmo fato. "Brasil X Croácia - No meio do rio Amazonas".
Obrigado pela inspiração.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 17/6/2006 21:15
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