Brasil X Croácia - No meio do rio Amazonas

Yusseff Abrahim
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Yusseff Abrahim · Manaus, AM
20/6/2006 · 84 · 8
 

Estava me preparando para deixar a cidade de Parintins, rumo à nossa capital Manaus. O que mais me incomodava nessa viagem é que as restrições orçamentárias me obrigariam a pegar um barco exatamente no dia da estréia da seleção. Era segunda-feira, dia 12 de junho, quando fui cheio de desconfiança ao recém-inaugurado Porto de Parintins ver quais barcos sairiam no dia seguinte.

Aqui vale o seguinte esclarecimento sobre Manaus e Parintins: distantes cerca de 400Km uma da outra, não existem rodovias que liguem as duas cidades, então, ou você investe R$ 215 reais em uma viagem de avião que dura apenas uma hora, ou vai de barco por muito menos do que isso em uma viagem mais agradável visualmente que, dependendo da velocidade do barco, pode durar de 25 à 36 horas.

Atracado no roadway – construção portuária desenvolvida na Inglaterra para acompanhar o nível das águas dos rios tanto nas cheias como nas vazantes – um grande barco regional chamado Príncipe do Amazonas anunciava por meio de uma faixa sua saída no dia seguinte às 11h, ou seja, quatro horas antes do jogo da seleção, não haveria outra opção já que era nitidamente o único que iria para Manaus naquele dia.

Entrei no barco para falar com os responsáveis. Mesmo com a supracitada economia de final de viagem, minha maior preocupação se revelava em uma primeira pergunta cheia de esperança de que se repetissem os atrasos de sempre na saída do barco, momentos que tantas vezes me aborreceram, mas agora poderiam enfim beneficiar minha paixão futebolística. “Vai sair 11h mesmo?”, perguntei. Para minha decepção, o tripulante respondeu positivamente. “Sai em ponto!”, comentou. Foi quando revelei o interesse da pergunta com um desespero civilizadamente disfarçado “Mas e o jogo, amigo?”. Sem demonstrar dúvidas, com indicador apontando para cima ele respondeu orgulhoso: “Tem parabólica, senão, eu ia meeerrrmo, parente”. Ah, sim: “Parente” é uma espécie de “meu irmão” daqui, e o “ia mesmo” cheio de estilo é uma ironia interessante que o parintinense usa para dizer que não iria de jeito nenhum.

Aquilo não me convenceu, viajo desde 1997 em barcos regionais e todos tinham uma parabólica que nunca funcionava e sempre saíam muito atrasados. Desta vez, no único dia que eu realmente queria que atrasasse, me encontrava totalmente dependente de um barco que queria ser a exceção ISO 14000 da Amazônia. Resolvi por um momento esperar a hora em que me perceberia acordando, na cama do hotel, suado e respirando fundo, mas como isso não aconteceu, perguntei o preço da passagem e decidi comprar o meu bilhete no espírito de pagar para ver.

Dia de viagem e seleção

Chegou a terça-feira, o barco com capacidade para 350 recebeu apenas 105 passageiros, a maioria com camisas da seleção, perguntavam uns aos outros sobre a possiblidade de assistir à estréia do Brasil. Percebi que não estava isolado nas dúvidas. Quando o motor foi ligado às 11h30, deixamos Parintins em uma margem de atraso muito abaixo da média, o que soou a todos como um bom presságio: poderia haver uma chance da parabólica funcionar.

Os grandes barcos regionais possuem três andares, no último há o terraço para o passageiro curtir o sol e se refrescar no chuveiro ou no bar do inacreditável calor de junho, mês do início do verão amazônico, ouvindo músicas que tocam em caixas de som poderosas. É como uma festa na laje mas tem uma parte que é coberta. Foi para lá que quase todo mundo foi conferir o funcionamento da tal parabólica que logo captou o sinal do enfadonho Suíça X França, o alívio foi geral, agora era esperar o jogo da seleção brasileira apenas com um porém: quem tem parabólica sabe que as antenas precisam estar apontadas na direção exata do sinal, mas no caso do percurso sinuoso da navegação, é preciso que alguém fique corrigindo sua posição a todo momento. Sabendo da responsabilidade, os tripulantes encarregados dos serviços no barco se reuniram, e organizaram um divertido sorteio para decidir quem teria tamanha felicidade de ficar mexendo a antena durante todo o jogo, e assim foi definido o contemplado (na foto, o rapaz em pé vestindo blusa laranja).

Torcendo pela seleção (ou quase)

Viagem de barco é assim: com muito tempo disponível muitas rodas de conversas começam a se formar, em pouco tempo todo mundo já está conversando com todo mundo. Parintins já havia sumido do alcance da visão e pouco antes do inicio do jogo, um tripulante esquentou a crescente sociabilidade sugerindo a organização de um bolão. A proposta foi aceita e o valor das apostas foi fixado em dois reais.

O jogo começou com otimismo registrado nas 45 apostas, em geral, acima dos três gols de diferença para o Brasil. Mesmo na parte coberta do terraço, o calor impunha latinhas cerveja ou qualquer outro liquido gelado como necessidade vital. Ninguém economizava.

Todos sabemos que o jogo não foi fácil, mas houve momentos em que a tensão hipnotizou até o rapaz que precisava ficar de pé corrigindo a posição da antena. Mesmo com imagens e áudio distorcendo, ele permanecia com olhos fixos na TV, apreensivo, mas sem mover um músculo como se a solução do problema não estivesse em suas mãos, somente ao perceber que todos estavam gritando em sua direção, ele sorria desconcertado e estabilizava a imagem. Este fato ocorreu seis vezes somente no segundo tempo.

Na etapa final todos estavam sedentos de gols, as manifestações de desespero eram naturais com as chances desperdiçadas pela Croácia e a falta de criatividade brasileira, até que aos 16 minutos, uma reação destoante chamou atenção: a perigosa cabeçada de Ronaldinho Gaúcho que obrigou o goleiro croata Pleticosa a uma defesa difícil, tirou um grito aterrorizado de um dos passageiros. “Não!”, exclamou o funcionário público Moisés do Carmo, 54, cujo biotipo deixava claro não ser croata e nem perto de ser descendente. Depois das gargalhadas gerais, o livro de apostas o denunciou: seu palpite foi o único a indicar o placar de um a zero. “Para o primeiro jogo tá bom...”, justificou bem humorado aos demais. Ao final dos 90 minutos, colocou o prêmio 90 reais no bolso mas levou pra casa muita gozação até chegar em Manaus no dia seguinte.

*** "O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada pela comunidade do Overmundo. A idéia é relatar a diversidade de manifestações que ocorrem em torno da Copa do Mundo pelo país afora. A proposta é contar como foi a estréia do Brasil no torneio em diferentes locais. Para ler mais relatos sobre o assunto busque pela tag Especial_Copa, no sistema de busca do Overmundo."

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Thiago Camelo
 

Bacana Yusseff! Achei o relato engraçado e interessante. Ri com o sujeito que bradou o "Não!" na hora do quase gol do Brasil. Acho que só essa viagem, mesmo sem o jogo, já poderia dar um bom texto aqui pro Overmundo. Parabéns!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 18/6/2006 00:13
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Yusseff Abrahim
 

Valeu Thiago! Estarei fazendo a viagem de novo talvez daqui há duas semanas... na época do festival de Parintins ela muda completamente o perfil dos passageiros. É como uma rave, os barcos vão bem cheios (até demais) e ninguém dorme dançando no ritmo dos bumbás no tal terraço.
Vai faltar espaço pra tanta da coisa que acontece.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 18/6/2006 01:11
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Erika Morais
 

oi Yusseff, tudo bom?
muito bom o texto, divertido e concordo com o Thiago, só a viagem poderia render um bom texto.
Bom te ler por aqui.
Abraços.

Erika Morais · São Paulo, SP 19/6/2006 11:41
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Yusseff Abrahim
 

Obrigado Érica.
Ok, vcs já me convenceram! heheh
Abração!

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 19/6/2006 20:40
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Sergio Rosa
 

hahahah. muito bom o cara torcendo contra. Eu marquei 1x1 no bolão, e não deu outra: torci para a Croácia no segundo tempo. Um empatezinho no primeiro jogo não faria mal nenhum. E por outra razão, se a Croácia marcasse um gol no início do segundo tempo, o jogo daria uma esquentada.
Bacana Yusseff, muito bom.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 20/6/2006 13:22
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Felipe Gurgel
 

hehehe, que massa. Texto leve, li de uma vez. Me imaginei no barco =)

Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 20/6/2006 21:09
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Yusseff Abrahim
 

É por isso que eu não aposto nunca... Já pensou que situação!?!
Obrigadão Sérgio! Valeu Gurgel, às vezes acho que enrrolo demais... que bom que vc achou leve.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 20/6/2006 21:44
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Gilvan Costa
 

Valeu Yusseff. Como bem disse o Thiago, só a viagem já daria um excelente texto. Moro em Roriama e sou louco para fazer essa viagem.

Gilvan Costa · Boa Vista, RR 21/6/2006 10:36
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