Desde os anos 1970, não se percebe com tanta força o movimento de migração de brasileiros para o exterior. A tônica desses fluxos migratórios contemporâneos é completamentente diferente daquela de 30 e tantos anos atrás, quando a ditadura exilou alguns dos mais importantes artistas e pensadores brasileiros, cuja produção no exterior fazia ouvir os ecos do que se pensava aqui dentro.
Hoje, os brasileiros que vivem nos Estados Unidos, no Japão, no Paraguai, no Canadá, na Inglaterra e em muitos outros países de todos os continentes, continuam fazendo ouvir suas vozes. A arte é um dos veículos e o tema, muitas vezes, é a própria realidade do imigrante, como ocorre com o cineasta Daniel Florêncio, que lançou no ano passado o incômodo documentário A Brazilian Immigrant que mostra histórias de brasileiros em passagem por uma das alfândegas mais fechadas do continente europeu, a do aeroporto de Healthrow, porta de entrada para Londres. A capital da Inglaterra talvez seja a cidade mais desejada pelos brasileiros que decidem trocar os atropelos da vida patropi por alguma possibilidade, mínima que seja, de ter emprego, estudo ou experiência de vida.
Na entrevista abaixo, Florêncio conta como chegou à Europa pela porta da frente e, mesmo assim, não deixou de se preocupar com os outros que não tiveram o mesmo aparato que ele. Ele fala da construção do seu filme, dos seus planos e projetos e do desejo de voltar para o Brasil.
Roberto Maxwell - Como surgiu a oportunidade de fazer um filme tão incomodo como o A Brazilian Immigrant? Pelo que eu entendi, você teve o apoio da Universidade de Westmington. Voce é aluno? Que curso faz? Houve algum questionamento sobre o tema do filme dentro do curso?
Daniel Florêncio - O filme foi resultado do mestrado que conclui em 2005 em Art and Media Practice na University of Westminster, em Londres. Meu mestrado foi financiado pelo Programa Alban. Não houve questionamentos sobre o tema mas, sim, questionamentos sobre como abordar o tema, como tratar o tema de forma a fazer um bom documentário.
RM - O teu documentário pode ser dividido em três partes: a sua narração, as entrevistas e a encenação, com animação. Você poderia contar como chegou a essa constituição do filme?
DF - Foi um processo natural. Não foi planejado desde o inicio que ele teria essa estrutura. À medida que você vai conseguindo entrevistas, definindo melhor o seu foco e a sua abordagem, você também começa a achar soluções para que sua narrativa fica mais interessante...
RM - Conte como foi a entrevista (fundamental) com o funcionário da alfândega. Como foram as negociações? Em que circustâncias ele se permitiu ser filmado? Houve restrições, além do “uso” da imagem e da voz? Quais?
DF - Foi bem tranquilo, na verdade, entrevistá-lo. Cheguei até ele porque ele é irmão de um amigo de um amigo. Quando telefonei pra ele e contei sobre o documentário, ele se dispôs a falar prontamente. Foi fundamental eu ter tido acesso a esse funcionário, já que ele confirma o que os brasileiros que foram retidos estão dizendo. E ele era um cara muito bacana. Durante toda a entrevista se mostrava indignado com o que se passava na imigração, não só com imigrantes brasileiros mas, em geral, com qualquer viajante que tinha como origem um país mais pobre.
RM - Quando surgiu a necessidade de se colocar em primeira pessoa no documentário? O caminho tem sido trilhado com sucesso por outros documentaristas como o Michael Moore e o Morgan Spurlock, por um lado ou o Jonathan Caouette, pelo do auto-documentário. Algum deles te serviu de inspiração? Ou outro?
DF - Foi natural também eu me colocar no documentário... A idéia do documentário surgiu por eu chegar aqui e pela primeira vez na vida me sentir como um alien, vindo de outra cultura, outra realidade, em um país onde havia, e ainda há, um debate imenso sobre imigração e imigrantes... É uma coisa que te faz pensar "o que que há de errado com essa gente?"... A inspiração que tive de Michael Moore e Spurlock não foi a de me colocar no documentário mas, sim, de comunicar de uma forma de fácil assimilação.
RM - Eu estive no Reino Unido há cerca de 4 anos e tive o mesmo problema que as pessoas relataram no filme. Tive que provar que eu estava falando a verdade e tive muita sorte de não ter sido maltratado e de ter comigo documentos que, apesar de estarem por acaso na carteira, provaram que eu era professor com emprego estável e salário razoável. Apesar disso fiquei quase cinco horas na imigração. Como foi a sua passagem pela imigração de Healthrow?
Foi tranqüila, na verdade, apesar da apreensão. O fato de eu ter uma bolsa de estudos da União Européia facilitou as coisas.
RM - Onde o filme têm sido exibido e que debates você tem acompanhado com o filme?
DF - O filme tem rodado festivais. Tem sido bacana. Ele tem sido convidado pra alguns festivais e mostras bacanas. Recebi um convite recentemente pra ele ser exibido no Rooftop Film Festival em NY. Ele acabou de ser exibido no Raindance Film Festival aqui em Londres, que é o mais importante festival de cinema independente da Europa. Eu participei muito e acompanhei debates logo quando do lançamento do filme em abril de 2005. Agora a intenção mesmo é fazer o filme rodar e mostrar pras pessoas essa perspectiva, a minha perspectiva, sobre imigração. Não quero que ninguém concorde comigo, apenas que me escutem e pensem a respeito.
RM - Sobre a sua carreira como cineasta, o que voce produziu antes do A Brazilian Immigrant e o que fez depois ou o que está em seus planos?
DF - A Brazilian Immigrant foi meu primeiro filme "de verdade". Antes trabalhava com filmes publicitários, fazia direção de arte, edição e assistência de direção. Dirigi também alguns videoclipes pra bandas underground (o que ainda tenho feito aqui em Londres) e alguns comerciais pra TV.
Agora estou terminando de editar 2 temporadas da série de desenho animado The Secret Show que estreou na BBC há 2 meses. E acabo de assinar um contrato com a Current TV para produzir 9 curtas factuais para estréia deles aqui no Reino Unido. Current TV é uma TV nova super bacana que existe nos EUA há 1 ano e que está chegando ao Reino Unido na primavera de 2007. Eles estão apostando forte no conteúdo gerado pela audiência. Basicamente, você produz um documentariozinho, manda ele pro site da Current TV e se ele for bom o suficiente vai pro ar e você ainda é pago por isso. O fundador da TV é o ex-vice-presidente americano Al Gore. Cara bacana...
RM - Você usou a internet para distribuir seu filme, coisa que poucos curtas-metragistas brasileiros vêm fazendo (Basta vasculhar o YouTube e comparar com a lista das produções exibidas em festivais para ver que, ao menos os grupos que têm seus filmes nos festivais vêm negligenciando a internet.) De onde surgiu a idéia de usar a internet como veículo? Você acha que é viável usar a internet como veículo de distribuição de filmes e obter lucro? Na sua opinião, para o curta-metragista, que tipo de negócio é a internet?
DF - A internet está passando por uma revolução. Não é simplesmente uma tendência ou coisa passageira. A forma como o conteúdo audiovisual é produzido e distribuído está mudando e se tornando mais democrática. A palavra do momento é User-generated Content e isso está sendo transportado pra TV, vide a Current TV e outras iniciativas que estão surgindo e vão começar a surgir. Eu seria bobo e estaria perdendo a onda se não disponibilizasse meu filme on line. Quando se faz um filme, o objetivo é que ele seja visto pelo maior número de pessoas possível. Em festivais, imagino, meu filme talvez tenha sido visto pelo mesmo número, se não por menos pessoas que o assistiram no YouTube. O curta-metragem não é um negócio. Se faz para experimentar técnica, para praticar o cinema, se faz por gosto e não tendo como objetivo o lucro. Talvez, em um futuro próximo, canais de distribuição como o YouTube passem a remunerar o produtor pelo que está sendo exibido ali.
RM - Você fala no filme sobre os imigrantes que vão para o Reino Unido por diversas razões. Qual a razão que te levou para fora do Brasil? Você pretende voltar? Qual o teu sentimento como imigrante em relação ao pais que te "recebeu" e ao Brasil?
DF - Vim para o Reino Unido apenas para estudar e com a intenção de retornar após o término do meu mestrado. Porém surgiram oportunidades excelentes de trabalho que não pude recusar. Sim, pretendo voltar, não sei quando, mas acho que o Brasil é um pais em construção. Existe há 500 anos apenas. Tudo está sendo construído e estabelecido, suas instituições, seu sentimento de nacionalidade, tudo, tudo... Enquanto a Inglaterra já é um país com suas instituições criadas há séculos. Eu seria de muito mais utilidade num país como o Brasil do que aqui. O Brasil e o povo brasileiro têm qualidades inigualáveis... Assim como os britânicos, os americanos, japoneses, franceses ou senegaleses... Mas todos os povos têm também defeitos inigualáveis. O importante ao viajar é tentar aprender e absorver o que você julga que vale a pena e o que te faz crescer.
Assista ao filme em www.brazilianimmigrant.com
Sugestão do leitor Thiago Camelo:
Link para matéria sobre o assunto e sobre o filme no Jornal do SBT
http://www.youtube.com/watch?v=PfBWI3dc96c
Muito bacana a entrevista, Roberto. Fui na hora procurar os links no youtube e achei, além do filme, uma matéria no jornal do SBT que fala sobre a obra. Tá aqui ó - http://www.youtube.com/watch?v=PfBWI3dc96c
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 27/11/2006 15:58Thiago, sua colaboracao faz parte da materia. Obrigado.
Roberto Maxwell · Japão , WW 29/11/2006 16:23Entrevista bacana. Quero ver o documentário do cara, mas o link não está funcionando, Roberto.
Ilhandarilha · Vitória, ES 29/11/2006 20:37
O link esta com defeito e parece que nao ha como corrigir depois da publicacao no blog. O endereco esta correto, basta copiar e colar no navegador. Ou, ainda, seguir esse link
www.brazilianimmigrant.com.
O tema do vídeo foi bom, mas achei q ficou meio óbvio, acho q todo mundo imagina q essas entrevistas aconteçam assim mesmo, de ouvir falar histórias. Acho q ele deveria ter procurado mostrar quem é o responsável por a coisa ser como é ou quem teria poder pra mudar... entrevistar um embaixador, sei lá...
DiogoFC · Criciúma, SC 30/11/2006 18:57Bem, Diogo, no Reino Unido as pessoas nao sabem, nao. Eu, quando fiquei retido por cinco horas, ao encontrar meus amigos ingleses - que nao sao pessoas alienadas - eles ficaram chocados com o que aconteceu. Na materia que foi sugerida pelo Thiago, os SBT tentou entrevistar essas pessoas. Da uma olhada nas respostas.
Roberto Maxwell · Japão , WW 1/12/2006 00:35
muito legal e super válido o documentário. Apesar de muitas vezes um documentário não poder mudar uma situação, ele informa, servindo de vetor entre um mundo e outro. Acho que o próximo empurrãozinho para uma eventual mudança pode ser dado através da divulgação desses trabalhos.
é, roberto...
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