A partir deste instante passarei a assinar O de Andrade, assim mesmo! Um mero O sem ponto, sem pretensão alguma nem nó. O, aquele mais um de Andrade, O que não é de Oswald.
O, letra inicial de meu segundo nome. Outrora opaco, simulacro de existência a que um dia ousei acrescentar um c em reverência a Octavio Paz. Agora tal gesto já não me basta!
Eis que venho a me sentir apenas como esta vogal primordial, oca, oscilante, exorbitante!
Sou um ser de e da palavra. Sobretudo da palavra escrita.
E essa “vocação” para com a palavra teve seu início depois que aos 10 anos de idade mordi a maçã de Reinhard Döhl*1 e ela estava envenenada com o vírus da poesia visual. Tudo então em minha maneira de escrever se transformara. Passei por um processo longo, lento e constante que me fez ir reconhecendo a palavra como ferramenta de trabalho e não apenas um conjunto de símbolos. Dela, aprendi, também se pode explorar a essência gráfica, sua concreta existência!
A transgressão da sétima face do dado de Brossa*2 e seus poemas objetos, sua “revolta poética” me expandiu ainda mais este vasto horizonte, que se abrira com a inigmática fruta diante de meus olhos infantis, curiosos e atentos.
Mais tarde, me veio o Oulipo*3 (Ouvroir de Littérature Potentielle) de Quenau, Le Lionnais, Calvino, Mathews, Perec e Pastior. A poesia como fruto de fórmulas racionalmente elaboradas, pré-determinadas ao alcance de todos. Tal qual o soneto clássico, a presar a sua forma, mas ao mesmo tempo uma poesia em si livre, revolta, pois cada qual pode e deve criar suas próprias regras de produção. A liberdade de criação lírica ao alcance de todos disposto a experimentá-la.
Por isso vejo esse elo com o o, o ovo, o óvulo, o invólucro primordial de todos nós e ao mesmo tempo o ômega, o fim circular de tudo (ou o casto ponto final) como um claro signo que marca minha identidade como escritor.
O o, o súbito signo último sétimo soturno de Waly Salomão*4, elemento aquele sobre o qual recai a função de dar pluralidade aos de Campos*5, uma das 23 patas do bicho de estimação predileto de Leminski*6; o cerne da flor de Antunes*7, princípio de Paz*8. Que ausenta de Maria e orna duplamente João.
Onipresente símbolo que não se pode ocultar de nossa língua!
Já o meu sobrenome é um áspero fardo que evoca uma tradição, mera obra do acaso, dentro do cenário literário e cultural brasileiro. Os de Andrade; Mário, Oswald, Carlos. Cada qual ímpar e pelo que sei, sem laços familiares.
Assumo meu sobrenome com demasiado respeito, pois sei o peso que sobre ele se equilibra.
E esse me dizer poeta, que ousa trazer consigo essa marca, essa reconhecida sina pode soar para muitos a mais completa heresia. Talvez haja quem queira me cobrir de pedras outros quiçá de penas. Não pretendo ser a sombra de ninguém, muito menos do meu próprio nome! Por isso decidi ser apenas esse o, a letra, a vogal, o fonema labial arredondado e fechado, o indíviduo, o ser humano por trás de seu nome, o poeta de origem suburbana que se deu o mísero luxo de se "exilar" voluntariamente na Europa. Euro-brasileiro, Brasileuropeu com os pés e o coração ancorados na senzala. Assim como o Brasil, me sinto como um filho apartado da África criado pela madrasta Europa distante de ambas sonhando com Cabinda*9; mas a imaginária, a terra ancestral situada em algum recanto entre o Eldorado nunca encontrado e o paraíso para sempre perdido. A terra oposta em perambulagem, deambulada e sonâmbula de Mia Couto!*10
Assim me vejo como autor definitivamente “renomeado” como O de Andrade.
Bielefeld, início de Maio de 2008.
O de Andrade.
Notas
1. Reinhard Döhl (*1934 - +2004), poeta visual alemão especializado em “Ciência da Literatura e da Mídia” . Em 1965 ele lançou em Stuttgart o cartaz “Apfel” (vide link ) que se tornou um dos ícones da poesia vsual e concreta na Europa.
2. Joan Brossa i Cuervo (*1919 - + 1998), poeta e artista plástico Catalão co-fundador em 1948 do grupo de vanguarda “Dau al Set” (literalmente: Dado ao Sete, normalmente traduzido como a sétima face do dado) que veio a publicar uma revista com o mesmo nome. Os poemas visuais de Brossa se tornaram extremamente populares na Catalunha por representarem uma forma velada de transgressão. Mais informações, obras e textos no site:
http://www.fundacio-joan-brossa.org/ (em catalão, espanhol e inglês)
3. Oulipo – Acrônimo de “L´Ouvroir de Littérature Potentielle” – Oficina de Literatura Potencial em francês, é um grupo de literatura experimental fundado em 1960 pelos escritores franceses Raymond Quenau e François Le Lionnais que adquiriu renome e âmbito internacional contando com a presença de Italo Calvino (Itália), Harry Mathews (EUA), Oskar Pastior (Alemanha) dentre outros. Os membros do grupo permanecem nele mesmo após a morte. As leituras de textos d`Oulipo acontecem sempre em Paris. Mais informações e textos no site do grupo: http://www.oulipo.net/ (em francês)
4. Waly Dias Salomão (*1943 – +2003), poeta baiano com grande talento para as aliterações e mescla de sons das palavras, que atuou também na Música Popular Brasileira tendo suas músicas gravadas por Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso e Adriana Calcanhotto. Também dirigiu os dicos Veneno AntiMonotonia (1997) e Veneno Vivo (1998) da cantora Cássia Eller.
5. Augusto Luis Browne de Campos (*1931) e Haroldo Eurico Browne de Campos (*1929) irmãos escritores, poetas, ensaistas e tradutores membros juntamente com Décio Pignatari (*1927) do grupo “Noigrandes” que lançaram a primeira exposição de “Arte Concreta” em 1956 e um manifesto em favor do “valor gráfico” da palavra e que esta passasse a ser considerada mais do que simplesmente um símbolo, bem como a abolição da divisa do signo em signifacado e significante. Alguns de seus poemas como “Pulsar” e “Sem saída” foram musicados e gravados por Caetano Veloso e Adriana Calcanhotto. Mais informações e textos nos sites:
http://www2.uol.com.br/augustodecampos/home.htm
http://www2.uol.com.br/haroldodecampos
6. Paulo Leminski Filho (*1944 - +1989) escritor, poeta e tradutor curitibano seguidor dos de Campos e Décio, que com sua genialidade tornou a poesia visual e concreta mais “popular” no Brasil. (vide foto abaixo). Mais informações e textos no site:
http://www.elsonfroes.com.br/kamiquase/nindex.htm
7. Arnaldo Antunes (*1960), músico, poeta e artista visual paulistano mais conhecido pela sua participação na banda Titãs. Em 2002 ele formou o hoje já lendário trio “Tribalistas” com Marisa Monte e Carlinhos Brown, que lançou um disco homônimo. Ele também já foi ensaista do jornal “Folha de São Paulo” e continua a produzir para nosso desleite textos e músicas com parceiros diversos. Mais informações no site: http://www.arnaldoantunes.com.br/
8. Octavio Paz (*1914 - *1998), escritor, poeta e diplomata mexicano ganhador do prêmio nobel de literatura no ano de 1990. Sob grande influência do amigo francês André Breton, Paz optou pela escrita automática e a temática do texto que se “reflete sobre e em si mesmo”.
9. Cabinda é um província setentrional angolana descontígua do resto do país.
10. António Emílio Leite Couto (*1955) escritor e poeta moçambicano internacionalmente reconhecido pela sua poesia e prosa, “sócio correspondente” da Academia Brasileira de Letras desde 1998. O seu livro de que mais gosto é “Terra Sonâmbula” de 1992, leitura que recomendo!
Incorporada na literatura nacional, a letra O, enquanto nome.
Votado. Ivette G M
Caro senhor O !
esse é "O manifestO" !...Deferido e Ovacionado !
e por falar em O de Ovo , leia aqui
abraço
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