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BUÁ, O MUAR FOI ESQUECIDO!

http://www.klepsidra.net/klepsidra4/tropeiros.html
Tropeiros em ação na Colônia
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jjLeandro · Araguaína, TO
19/8/2007 · 107 · 14
 

BUÁ, O MUAR FOI ESQUECIDO!

Alguém nessa vida já pensou em render homenagem ao muar? Sim, aos nossos sempiternos burro e mula? Talvez muitos pensem neste exato momento que loucura é a minha vir aqui tratar de um assunto que seria mais adequado num sítio para veterinária ou coudelaria e tais e quais. Mas eu explico: há razão sim para que se abra parênteses, um humilde espaço para umas poucas linhas a quem carregou o Brasil nas costas por muito tempo, foi jogado para escanteio(mesmo sem qualquer vocação para bola de futebol), carregou sozinho, como se diz na gíria futebolística, o piano às costas(embora sem a habilidade de um bom meio-campista) e, esquecido, hoje amarga uma aposentadoria sem reconhecimento em pequenos sítios – longe da glória.

Em menor grau merecem também essa justa homenagem os cavalos e as éguas(mais próprios para serviços leves) e também os jumentos. Tão nosso conhecido este último que merece uma alcunha diferente de região para região. Acreditem ou não, há locais no Maranhão que o insigne participante de momentos cruciais da história do Cristianismo(não foi ele que levou o Menino-Senhor ao lombo durante uma fuga?) recebe o nome de Dogue. Vejam só!
Pois bem, estes animais foram econômica e culturalmente importantes no Brasil até, quem diria, meados do século XX.

HISTÓRIA

Feitas as apresentações, vamos ao que interessa.
Os quadrúpedes são muito antigos na história humana. Desde que o homem domesticou o eqüino, cruzou-o acidentalmente ou não com o asinino, obtendo o muar, que os dois estiveram juntos(justiça seja feita: o homem em cima do coitado!) em todas as conquistas humanas até a substituição do quadrúpede pela máquina em grande escala – logo após a Primeira Guerra Mundial.

No Brasil, os primeiros quadrúpedes, segundo a veterinária Vera Lúcia Nascimento Gonçalves “desembarcaram em São Vicente em 1534. No ano seguinte, os portugueses trouxeram nova remessa, que ficou em Pernambuco e em 1540, Tomé de Souza trouxe uma terceira leva para a Bahia. Foi a partir desses animais que se formou nosso rebanho eqüino, o segundo maior do mundo”.

INTEGRANDO O BRASIL

O muar – cruzamento de jumento e égua –, pela sua rusticidade, era mais apropriado para os trabalhos pesados de tração. E foi principalmente no seu lombo que o Brasil moveu-se. Economicamente, os muares levavam do litoral para o interior toda sorte de mercadorias, subindo e descendo serras, cortando os sertões sem estradas, usando picadas mal feitas e abertas às pressas. Nada reclamou mais que o alimento para continuar existindo e poder unificar o Brasil. Sim senhor! Foi ele o primeiro vetor da união nacional, como bem anota Gabriel Passetti em seu estudo sobre tropeiros: “a ação dos tropeiros, no século XVIII (...) acabou resultando finalmente na unificação dos diversos núcleos coloniais portugueses e possibilitou assim a criação de um conjunto colonial que passaria depois a ser o Brasil”.

SUBSTITUIÇÃO

No século XIX, o pesado fardo do muar começou a ser aliviado pelo trem de ferro. Ufa! Já não era sem tempo. E finalmente no século XX – não de maneira uniforme pelo território nacional – pelo automóvel. No norte do Tocantins, especificamente na região de Babaçulândia, somente no início da década de 1950 os automóveis fizeram seus primeiros rastros no sertão.

Até então, quem comandava o espetáculo por aqui era o burro e a mula. Reproduziam o que era consuetudinário no Brasil: transportavam a economia e a cultura sobre o lombo em selas, cangalhas e jacás. Vejam só o exemplo de um extenuante trabalho a que eram submetidos: levaram por muito tempo sal de cozinha de Balsas-MA para Poxoréo-MT, num percurso que não era inferior a 1.500 km. Isso é que chamo salgar o couro!

CULTURALMENTE ESQUECIDOS

Se economicamente foram importantes, também o foram culturalmente. Os primeiros carteiros entregavam correspondência Brasil afora sobre eles. E nessas correspondências, claro, iam ardorosas promessas de amor do mocinho na cidade para a brejeirinha na fazenda. Com certeza, quando um ou outro recebia do tropeiro-carteiro a missiva que tinha sido perfumada com tanto empenho na cidade ou na fazenda, a fragrância já tinha evolado e dado lugar ao cheiro de suor e esterco. Agh! Não tem importância, o amor não liga para isso. Se nela havia a descrição de como o amado iria um dia tirar a amada da modorra de uma secular fazenda, era o que bastava.

Os sonhos saltavam nessa hora da carta, com toda certeza, e ganhavam forma. O príncipe encantado, por certo já um médico ou um advogado formado na capital do império ou da província, chegava num alazão branco ajaezado para resgatar a sua prenda. E o muar onde fica nessa história? Não foi ele quem levou a carta? É ruim, né? Na hora do vamos ver, do bem bom, o cavalo toma o seu lugar e rouba a cena. Quanta discriminação! Quanta injustiça!

Mas, se levava notícias íntimas de amores e saudades, o muar também trazia a notícia em tempos dantes. O jornal, o almanaque, a enciclopédia, o violão, o piano desmontado para as donzelas e senhoras da cidade e do campo exercitarem-se nas horas aziagas e felizes. A Cultura também progredia no Brasil aos solavancos(do muar, claro!). As idéias culturais e políticas também se valeram dele. Apenas uma referência: foi sobre um cavalo(que perseguição com o muar, pô!) que D. Pedro I deu o famigerado grito “Independência ou Morte!”, atentando-se antes de ver se a cavalaria portuguesa não estava por perto.

E os livros? As poesias? E os melodramas de antigamente como chegavam a todos os rincões do Brasil? No lombo dos muares, rodando léguas e léguas(a quilometragem dos quadrúpedes) para deixar suspirando as mocinhas com os versos rimados e edulcorantes. Depois iam a passeio pelos campos regurgitar poesia na companhia da aia. Quem as levava nessas andanças? O muar, está visto! Nada disso, era o janota do cavalo. Já bem o dissemos aqui: o muar era para serviços extremos; o cavalo nem tanto, conformava-se melhor ao fausto.

As companhias mambembes de antanho valiam-se também do muar para rodarem as velhas carroças pelo sertão. Mas se havia um espetáculo reproduzindo algum épico ou mesmo a velha história de nossa independência você já sabe quem protagonizava...
Sei que muito mais fez o muar, mas se neste artigo louvá-lo é também enumerar o quanto ele foi injustiçado, para que o seu infortúnio não seja maior, paro por aqui.

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Egeu Laus
 

Leandro,
Procura esse livro:
MAIA, Tom. O folclore das tropas, tropeiros e cargueiros no Vale do Paraíba. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Folclore / São Paulo, Secretaria de Estado e Cultura: Universidade de Taubaté, 1981

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 13:22
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Egeu Laus
 

E aqui no Overmundo tem materia sobre.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 13:23
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jjLeandro
 

Valeu a referência, Egeu. Obrigado. Abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 16/8/2007 14:46
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osvaldocosta
 

Belo e interessante texto, leandro.
Aqui no Ceará os jumentos também têm encontrado triste fim: substituídos no sertão pelas hondas 125 cc, vagam pelas rodovias até serem mortos pelos caminhões ou sacrificados pelos órgão de fiscalização.
Você sabia que o Governo Imperial, em meados do Séc. XIX, quis introduzir o camelo para concorrer/substituir os muares? Fez vir quinze do Marrocos, mas só três chegaram vivos ao Ceará, prenunciando o fiasco da experiência. Só os muares chegariam incólumes aos Séc XX...

osvaldocosta · Quixeramobim, CE 16/8/2007 15:12
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baduh
 

Meu prezadíssimo JJ.

Muito bem lembrado o tema. Os muares nos acompanharam e carregarm-nos as cargas até o advento do bonde, por eles tracionados - e que lhes valeu como uma espécie de "despedida". É claro que continuam, até os dias de hoje, sendo utilíssimos - mas isto é de uma forma muito mais miúda... Antes, foram mesmo cruciais ao pais inteirinho!

Cargas, as mais diversas, varando este país imenso! Do ouro em pó à farinha de mandioca, às sacas de café... Podemos dizer que o muar, a popular mula, em tropas e mais tropas, é pura História.

Curioso é como, em Portugal, a posse de um muar chegou a significar para uma família o diferencial entre a "fortuna" e a miséria absoluta. Está lá, nos romances e nos contos de Camilo Castelo Branco, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Fernando Namora (primeira fase, a da província) e tantos outros autores lusitanos, uma verdadeira ode ao muar.

Finalizando, um tristíssimo relato:
Eu, menino ainda, varando fazendas na Zona da Mata mineira, em férias escolares longas, hóspede de amigos de minha família, muitas vezes ouvi falar do seguinte costume:
Um burro velho, cansado, que não rendia mais nada. Cortavam-se-lhes as quatro patas, com um facão, "para suar bem, largar bem o cheiro". E, depois de morto, num sofrimento atroz, sua carne era preparada como "carne-de-sol". Uma lástima!

Gostei muito do texto, mais um marvilhoso trabalho seu, que deveria ser amplamente divulgado, adotada nas escolas públicas, para enriquecimento cultural de nossas crianças!

Grande abraço, irmão! E conte com o meu voto entusiástico!

Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 23:00
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baduh
 

Votado!
Abração,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 18/8/2007 13:04
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jjLeandro
 

Boas informações vc me deu.
Do que escrevi e das informações que já me passaram sobre o assunto e o calvário do muar ao longo de séculos, estou pensando em preparar uma pecinha de teatro (comédia) sobre o tema.
abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 19/8/2007 10:13
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jjLeandro
 

Osvaldo, havia já ouvido falar sobre a vinda desses camelos, mas algo muito por cima. Vou pesquisar sobre isso.
Obrigado pela dica.
abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 19/8/2007 10:14
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osvaldocosta
 

Existe um livro chamado "Vida e Morte no Sertão- A História das Secas no Nordeste nos SÉC. XIX e XX", de Marco Antônio Villa(editora ática), que narra o episódio dos camelos. Aliás, esse livro pode ser útil à pesquisa pra peça que você pretende escrever.

osvaldocosta · Quixeramobim, CE 19/8/2007 12:58
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Andre Pessego
 

Meu jovem, jornalista, poeta, escritor - Historiador - fico contente com essa capacidade. Conheci ainda em uso a casa de tropeiro do Rio Sapão.. A minha casa, dos meus pais, foi casa de tropeiro, entrocamento dos tres estados - Goiás, (então) Bahia e Maranhão... lindo o teu trabalho, andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 19/8/2007 15:46
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crispinga
 

Eu acho lindinhos os burricos, não os conhecia por esse nome mas sei que são bravos trabalhadores...São eles que sobem com a bagagem dos aventureiros as trilhas dos incas, incansáveis bichinhos...
BJS
Cris

crispinga · Nova Friburgo, RJ 19/8/2007 18:46
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jjLeandro
 

Obrigado, Osvaldo. Vou procurar adquirir o livro. abcs

...
Obrigado, André. Um grande abraço. Essa região a que vc se refere é muito bonita. abcs
....
Cris, de fato, além de grandes trabalhadores os burricos recebem muitos nomes Brasil afora.
abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 19/8/2007 19:03
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Jotajota:
Até já havia proposto à Natacha Maranhão fazermos uma pesquisa sobre o jegue no Piauí, qu perderam completamente, ou quase, seu valor econômico.Ouvi da boca de um ex-prefeito de Isaias Coelho que os jegues, abandonados, se estavam tornando verdadeiras pragas urbanas ao depredarem serviços públicos. Havia até, para ele, a perspectiva de campanhas de extermínio do pobre jeguinho, o que me deu uma pena danada. Interessante é que um viajado amigo meu relatou que o mesmo acontece na Austrália com os Cangurus, com o agravante de que estes animais são símbolos nacionais protegidos constitucionalmente: é crime na Austrália molestar Cangurus.Por outro lado, estes simpáticos marsupiais não se privam de invadir os jardins das casas e destruí-los exemplarmente.Detalhe, são exímios saltadores.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
PS Seja como for, longa vida aos jeguinhos!

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 19/8/2007 19:05
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido JJ, veja o que acabo de ler
"Almas penadas do sertão
Viajando pelo sertão, vê-se a encruzilhada dos “Piauís” reais. Extensas e monótonas retas do traçado das estradas sertanejas, no sertão da chapada do Araripe, em direção a Picos, só são perturbadas por pequenas manadas de jegues que, despreocupados, atravessam o asfalto. São animais sem dono, abandonados depois que se tornaram inúteis pela adoção das motocicletas com principal meio de transporte sertanejo. Tange-se o boi de motocicleta e o jegue vale tanto quanto um cão abandonado.

São grupos de 10, 20, até 40 animais a vagar sem dono. De noite, deitam-se sobre o asfalto para absorver o calor, provocando acidentes horríveis. Vez por outra, os prefeitos recolhem todos os jegues em caminhões, libertando-os 100 ou 200 km adiante. Os jegues são as novas almas penadas do sertão. Expressam o sem-lugar da civilização do couro na modernidade
". Carlos Alberto Dória, professor da UNICAMP
beijos e abraços
do joca Oeiras,o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 20/8/2007 01:25
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