Buffet de letrinhas: 54ª Feira do Livro, POA

Mariana Lessa
Feira do Livro, último dia: um bom lugar para se estar, num domingo.
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Jorge Adeodato · Porto Alegre, RS
25/11/2008 · 145 · 5
 

Até o menos leitor dos sul-riograndenses já sabe: todo novembro, por duas semanas, estandes livreiros de diversas matizes – desde sebos até grandes editoras; de selos independentes a conglomerados de comunicação – invadem e superlotam a Praça da Alfândega, no centro da capital, retirando de seu habitat natural engraxates e velhinhos para uma quinzena de preços menores que os usuais, noites de autógrafo, palestras e premiações. O jornal de maior circulação da cidade vem mais rechonchudo, oferecendo um suplemento diário contendo a lista dos mais presentes nas sacolas dos consumidores e entrevistas com os concorrentes ao prêmio Fato Literário e celebridades, tanto participantes quanto apenas freqüentadoras deste que é, sem dúvida, um dos grandes acontecimentos da estação.

Porto Alegre é uma cidade que, principalmente nas duas últimas décadas, desenvolveu uma produção cultural bastante peculiar, com linguagem, contexto e público particulares. A esse produto adicionou-se o adjetivo “gaúcho”: rock gaúcho, literatura gaúcha ou o que for, não para designar um lugar de origem mas, sim, para identificar uma determinada proposta. Além dos artistas fazerem hábil uso de tais características, foi-lhes sobretudo fornecido meios de as gerir através programas de rádio, televisão, programas municipais de fomento à cultura, oficinas de criação, cursos de formação de escritores e agentes literários e toda sorte de quetais.

O resultado é servido ao público, que o consome preferencialmente em ocasiões festivas. Nomes da frutífera produção local, todos conseguimos facilmente enumerar: DeFalla, Graforréia Xilarmônica, Caio Fernando Abreu, Daniel Galera. E os eventos-banquete não poderiam faltar. Como a Feira do Livro, a grande festa da literatura no estado já há 54 anos.

A deste, terminou no domingo 16.


Isso aqui tá bom demais.
O programa foi bem sortido. Além dos convidados de sempre, como bem-vendidas celebridades locais, fomos de Evandro Mesquita a Ariano Suassuna em menos de cinco dias de feira. As atividades eram várias: uma mostra sobre a vida de Gilberto Freyre iniciava num dos museus localizados na praça; minicursos, debates e palestras aconteciam ininterruptamente, enquanto Proust era lido no original em praça pública; na ala infanto-juvenil, ensinava-se os segredos da restauração de livros; clowns nordestinos (Pernambuco foi um estado bastante presente nesta feira) nos mantinham informados do que estava acontecendo ao som de viola e sanfona enquanto o patrono do evento este ano, o escritor Charles Kiefer, numa espécie de “leitura guiada” confidenciava-nos os prazeres de se ler Paulo Coelho. Assim que sobrava um tempinho, dava um pulo ali no estande de um conglomerado de comunicação e atualizava seu blog, criado especialmente para esses quinze dias de cultura.

É: fui na feira. Aproveitei pechinchas, compareci a uma coisa ou outra da programação, desbravei barraquinhas com amigos, prestigiei colegas. Mas, não sei se por ingenuidade de caráter ou pela grandiosidade do espetáculo, tudo isso me deu uma coisa ou outra no que pensar.


Pra quem gosta de ler ou de comprar livro?
Na praça de autógrafos, uma média de cinqüenta autores diferentes, todos os dias, se dispunham a assinar suas produções aos interessados. Todos os nomes estavam listados no catálogo distribuído gratuitamente pela feira. A lista toma 31 das 64 páginas da publicação. Foi a primeira coisa que fiz ao chegar, pegar o catálogo. Percebida a vastidão, em minha inocência exclamei: “Mas, como lê-se!”.

Quis conferir. Era uma quinta-feira, 18h30min: ao longe vi que estava repleto. No palanque, 12 autores. Aproximando-me um pouco mais, percebi que aquela multidão comprimia-se em duas filas quilométricas perante a mesa de apenas dois deles: nos de Sérgio Faraco e Martha Medeiros, autores consagrados, ambos publicando suas obras pela maior editora local. Mas, e quanto a Elair Luiz Nathanael de Souza, publicando "Anjos", independente? Ou Jorge Fonseca Ely, meu xará, e suas "Imagens de uma vida"? Orion Herter Cabral e sua pesquisa sobre finanças públicas?

“Com a gente foi assim: dos nove autores presentes no livro, apareceram quatro. Um deles comprou mais um exemplar, cada um de nós assinou o livro do outro e foi isso”, afirma Sandra Sirangelo Maggio, organizadora de “Literatura e cinema: do palco à tela”, publicado pela editora Armazém Digital e cujo lançamento na feira ocorreu na terça, 11. Para ela, o evento tornou-se muito mais um ato social que acontece na cidade uma vez por ano do que qualquer outra coisa. “Tenho muito orgulho da nossa feira, mas ela perdeu essa função de ser um lugar pra se garimpar livros e conhecer autores. Há muito tempo não é assim. Acho, inclusive, que ela parou no tempo. Como existe há muito tempo, virou uma coisa da cultura nossa, um ritual, 'a feira'. No fim, traz sempre as mesmas caras, sempre os mesmos nomes, quatro, cinco escritores bastante conhecidos daqui de Porto Alegre e era isso”

Para muitos dos autores na Praça de Autógrafos, amigos faziam companhia; alguns mais sortudos encontravam alguém realmente interessado em debater seus temas. Outros, apenas aguardavam: cada qual e seu banquinho.“É que é muita coisa. E ainda mais ao mesmo tempo...”, disse-me uma senhora na espera por um autógrafo de Martha Medeiros, quando perguntada se com uma fila tão grande iria conseguir dar uma olhada nos outros autores que ali estavam no mesmo horário.

Aquela sábias palavras chacoalharam minha cabeça, travando luta contra minha infantil ingenuidade: como, afinal, dar conta? Em época de celebrização midiática e prazeres medidos pelo imediatismo, o pior inimigo de um hábito lento e gradual como a leitura só poderia ser este mesmo: tempo.


Os editores respondem, sonhando.
Sou um idealista. Por mais que estantes estejam repletas cidade e mundo afora, para mim um livro, qualquer que seja, só vai de fato existir quando estabelecermos um diálogo. Entre o projeto de um autor e seu contato com o leitor idealista, uma das figuras mediadoras chama-se editor. Ele quem bota o livro na rua para que vá dialogar ou encher estantes.

Houve uma atividade na feira no dia 04 de novembro, chamada O editor responde: da idéia ao mercado, a nova cara do mercado editorial gaúcho, promovido pelo Clube dos Editores do Rio Grande do Sul. Era uma oportunidade e tanto de travar uma conversa não apenas com o produto, mas também com o mediador. Entretanto, não rendeu muito. Para minha surpresa, outros idealistas estavam também presentes. E não apenas leitores: escritores idealistas. Cheios de rancor para com as figuras despóticas ali reunidas, tomaram a palavra e, devidamente munidos, atacaram. Deste momento em diante, idéias pararam de ser lançadas. E estagnamos.

Antes que isso acontecesse, felizmente, consegui matutar algo do que foi dito. O principal: mercado, negócio, direitos autorais, assinaturas e contratos, profissionalização, distribuição, ficção não vende, poesia muito menos. Não que isso sejam coisas erradas, longe disso. Mas eu esperava outras palavras ou formas de conseguir lidar com velhos termos; tratava-se, afinal, de “novas caras”. Afora alguma coisa sobre boca-a-boca e mídia espontânea, reparei que os editores são, em geral, também bastante idealistas, distantes da realidade vigente e das novas formas de pesquisa e consumo de informações. Negam-se a ceder conteúdos para o programa Google Acadêmico. Rechaçam a leitura em formato e-book. A determinada altura, afirmou-se que o modo de estabelecer relações com a cultura está em fase transitória: a música não é mais a mesma depois do mp3; o jornal impresso está fadado a acabar porque notícias já podem ser acessadas em tempo real; o cinema, com toda a facilitação de acesso, também está caminhando para o mesmo, trágico fim – mas, não: o livro, não. O livro é onírico. A leitura é hábito continuado que requer ambientalização e conforto, pré-requisitos que as novas mídias não conseguirão dar conta por um bom tempo...

Ao que pude perceber, idealismo deve ser algo sintomático daqueles que lidam com ficção. Lembro que meu avô costumava dizer que não havia prazer matutino maior do que sujar os dedos com jornal e o pulmão com um cigarro. Morreu de câncer, claro, só que, puxa, como ele gostava daquilo. Era algo da geração dele e da de meus pais, que ainda respinga um tanto na minha mas que já está muito, muito distante da de minha irmã.

Mas, se estamos falando de aspectos oníricos, sonhar não custa nada.


Os autores questionam, escrevendo.
Mais do que respostas, a Literatura em maiúsculas é constituída de perguntas. Pode parecer óbvio o que vou dizer, mas o melhor modo de mantê-la viva é... produzindo. Se editoras carregam, cheias de dedos, os originais de ficção que recebem, como viabilizar que essa informação vá estabelecer diálogo, que seja lida?

Em se tratando do Do-It-Yourself profissional, Porto Alegre é proeminente em respostas a estas inquisições: vide o bem-sucedido exemplo da Livros do Mal. Uma nova casa que vem se destacando é a Não-Editora. Não sei a que de fato se deve esse advérbio hifenizado: trata-se de uma editora a princípio convencional, que publica livros contendo capas, páginas, folhas de qualidade repleta das velhas e boas palavras e tudo o mais. A contraproposta fica por conta, talvez, da linha editorial: ficção de jovens autores estreantes, em livros próprios ou antologias de contos com temas pouco convencionais, como ficção científica e de terror. Pretende também apostar em publicações de crítica, mas estas serão, a priori, disponibilizadas em formato .pdf para download no site.

Com um ano de existência, a Não-Editora já colhe frutos bem vistosos. Durante o banquete da Feira, foram anunciados os indicados ao prêmio Açorianos de Literatura, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura do Estado. Dois autores de seu cast figuravam na lista: Antônio Xerxenesky e Carol Bensimon.

Talvez sejam por estas vias que a Literatura ainda continua mantendo-se na ativa. E, se ainda der para petiscar um pouco do buffet da festa, tanto melhor.

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Cristiane Neves
 

Tenho observado os teus textos e gostaria de dizer que acho os conteúdos muito interessantes. Parabéns!

Cristiane Neves · Rio Grande, RS 25/11/2008 23:32
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Jorge Adeodato
 

Puxa, Cristiane... muito obrigado. Mesmo. Ultimamente, tenho tentado manter a página cheia, hehe

Jorge Adeodato · Porto Alegre, RS 26/11/2008 08:13
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Cristiane Neves
 

Eu não tenho a mesma habilidade que tens para a escrita, mas é uma coisa que eu quero desenvolver.
Por enquanto o máximo que consigo fazer é me expressar através de alguma imagem, "fotografando" aquilo que gostaria de escrever.
Olha só: http://www.overmundo.com.br/banco/mar-gi-nal

Cristiane Neves · Rio Grande, RS 26/11/2008 19:42
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Franze
 

Indo bem, jojje.

Franze · Fortaleza, CE 26/11/2008 19:43
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Anderson S
 

rapaz q texto é esse heinn. Há de se pensar em muitas coisas, de refletir e criticar. Muito bom mesmo, eu pensei quando acabei de ler : "que coisa hein, na literatura, música ou jornalismo..rapaz, as coisas não são tão diferentes assim, pelo menos nos problemas, percebi q a coisa é parecida." Abraços Jorge, um "feliz ano novo" pra vc. Acabei de ler esse livro do R.Fonseca. Delicioso.

Anderson S · Fortaleza, CE 29/11/2008 20:26
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