Buzzine! entrevista Henrique Nardi

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Moisés Ribeiro · Rio de Janeiro, RJ
15/5/2006 · 59 · 3
 

O Buzzine!">buzzine@gmail.com">Buzzine! é um fanzine para alunos do curso de Design do UniRitter, em Porto Alegre.

Aproveitando a passagem do curso introdutório do projeto Tipocracia por Porto Alegre, resolvemos (eu e o amigo Pedro Trg) entrevistar o Henrique Nardi.

Na entrevista, falamos sobre tipografia no Brasil, sobre o projeto e outras coisas:

O que te guiou para se interessar por tipografia?
Eu comecei a me interessar por tipografia na faculdade lá por 1999. Meu pai tem um gráfica então eu sempre gostei de design mesmo antes de saber o que era.
Na faculdade (Anhembi Morumbi) comecei a ter contato com trabalhos de tipografia, o que mais me chamou a atenção foi o Elesbão e Haroldinho* e seu design de bolso, e desde então sempre fazia meu trabalhos de fim de semestre sobre o assunto. Meu TCC: "Gráfico amador e a experimentação de Aloísio Magalhães" trata bastante de tipografia.

Tu achas que, hoje, designers formados, que já trabalham tem uma boa base de tipografia?
Acho que sim, existe essa base, a questão é: você fazer o uso sem erros, mas quanto mais conhecimento se tem em tipografia, pode se potencializar o trabalho. A maioria dos escritórios supera as expectativas. As vezes em portifólios de estudantes ou recem formados apresentam algum problema, algum mal uso.

O que é o Tipocracia e pra onde ele vai?
O tipocracia é um projeto que tem como objetivo estimular disseminar a tipografia no Brasil. Começou em março de 2003 quando me juntei com meu amigo Márcio. A idéia era fazer um intensivão tipográfico, 3 ou 4 dias de curso que reunice uma sério de informação sobre tipografia nós consideravamos relevantes e não aprendemos na nossa formação (Anhembi Morumbi e FAAP), era um complemento. Eu já tinha uma parte dele desenvolvida material em 2002 em razão de 2 workshops. Aí surgiu a oportunidade de fazer uma oficina no NDesign de 2002 em Bauru, e escolhi o tema tipografia. Depois em 2003 o Shima disse que queria montar um curso de tipografia e juntamos forças.

Para onde ele vai? A minha idéia é fazer uso do Tipocracia para estimular esse conhecimento e fazer com que as pessoas gostem cada vez mais, principalmente estimular o desenho de letras, que é muito pequeno no Brasil. Além de fugir do eixo Rio-SP, espalhar esse conhecimento para todo Brasil.

Qual a resposta que tu sente do Tipocracia?
A resposta é boa, no começo eu tinha mais dificuldade de tocar a proposta para frente em razão do projeto não ser conhecido, mas ao longo destes 3 anos o nome do projeto foi ficando conhecido. Hoje em dia tem pessoas que vem fazer o curso porque é o Tipocracia e não necessariamente o que que tem no curso.

Cada região do país tem um perfil. Por exemplo, no nordeste tem uma carência muito grande não só de tipografia, mas de informação complementar: cores, design editorial. Existe uma carência de uma formação mais específica. Então o pessoal absorve bem a idéia, tem um interesse grande. Já a galera e Brasília, Centro-Oeste, é mais consciente, tem mais acesso a informação, tem muita vontade, e são bastante exigentes, já pedem uma próxima edição.

Já tens outros cursos?
Já, mas eles nunca foram implantados. A idéia é iniciar ou um curso seqüencial ou complementar ainda esse ano, já que fazem 2 anos que estou com esse curso introdutório.

Como está a tipografia no Brasil? Porque o Brasil não tem uma cultura tipográfica?
O Brasil não tem uma cultura tipográfica em razão da forma como o país se estruturou. Um lugar onde as pessoas vinham extrair madeira, metais preciosos e não existia um interesse de constituir uma sociedade. E também pelo fato de Portugal não ter uma tradição tipográfica nós herdamos essa "não tradição". Nesse período em que Portugal estava preocupado com a navegação e a exploração dos mares, não havia um compartilhamento de informação, porque ela valia muito. Até mesmo por isso a comunicação entre portugal e outros países não foi tão desenvolvida e Portugal não teve essa cultura de desenho de tipos como em outros países, consequentemente isso não veio para nós.

Como tu vê o panorama da tipografia no mundo? Com o advento da informática, o fácil acesso à informação, como a produção tipográfica se molda pra isso?
[Henrique atende o telefone] Alou... oi.. ahn.. pronto, tá jóia, beijo, tchau. [telefone desliga] Desculpa Moisés, repete a pergunta, por favor.
...Tem muita coisa relacionada a tecnologia, tem muita coisa nova em relação a tipografia digital, temos mais ou menos uns 15 anos, comparado a mais de 500 anos de história da tipografia. E tem muitas coisas em relação a tecnologia vindo aí que certamente vão mudar a nossa maneira de perceber tipografia. Por exemplo, do ponto de vista de aplicação, estão sendo criados cada vez mais dispositivos, displays eletrônicos que pedem tipografia digital, tipografia pixel, displays cada vez mais pequenos: relógios, celulares e tal. Essa área tem muito potencial para ser explorado ainda.
Em relação a tecnologia em si, temos agora novos formatos de fonte, o Open Type que dá um cuidade maior com tipografia, pode se trabalhar com mais caracteres, aplicar programação específicas para tipo, ou seja é um arquivo de fonte inteligente, será possível fazer uma coisa menos mecânica. Por exemplo, uma fonte com 5 caracteres para a mesma letra, e eles vão se alterando para fazer uma composição mais próxima da escrita humana e menos da repetição do computador. A tipografia está ficando cada fez mais dinâmica.

Existe algum tipo de saudosismo das oficinas tipográficas tradicionais e os tipos móveis?
Acho que até existe um saudosismo por parte de quem viveu os tipos móveis e a composição, mas não é essa a questão, e sim qual a importância de continuar fazendo referência a isso. O que é que tem ali que vale a pena uma vez que nós temos acesso ao digital que tem uma precisão muito maior e tal? O que tem ali é que se perdeu uma parte no processo. Existe um conhecimento tipográfico relacionado aos modelos de composição antigos que hoje em dia não existe mais. Seja porque o computador assumiu essa função, seja porque as pessoas não tem mais a percepção daquilo, como a questão de fazer pequenas modificações nos diferentes corpos de letras quando faz tipos móveis de diferentes tamanhos, compensações de acordo com o tamanho. E hoje em dia é tudo feito em cima da mesma matriz e inevitavelmente fazendo textos que tem manchas muito claras, ou então muito escuros. É uma característica da uso de tipos móveis, que foi perdida, e foi colocada fora de questão e as pessoas perderam essa percepção.
O importante de de extrair destas técnicas antigas é perceber o que elas tem de importante em relação a hoje em dia.

Qual o tipógrafo que mais marcou a história, na tua opinião.
Eu acredito que seja considerado o Claude Garamond, apesar de não ter nenhum de preferência.

Que livro sobre tipografia tu recomendarias pra quem está começando a estudar o assunto?
Olha, mesmo pra quem está começando, o livro que eu recomendo é o do Bringhust, Elementos do Estilo Tipográfico. Não é um livro introdutório, mas no momento que a pessoa começa a se interessar ele dá um base muito legal e mostra o quanto sutíl e diversificada a tipografia pode ser, além de importante.

Qual o caractere que tu mais gosta?
É o "s", ele é difícil. Quando relacionado ao desenho de letras é umas das mais dificeis por ser toda curva. O "g" minúsculo chamado g de gato também.

Tu já desenhaste algum tipo?
Já desenhei tipos na faculdade, mas nunca levei a frente como fonte. Essa é uma das minhas metas para daqui pra frente.

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Uchôa
 

Muito legal essa matéria! "Conheci" nardi no evento Interdesigners 2006. Sem dúvida um profissional excepcional! ;-)

Uchôa · São Paulo, SP 29/5/2006 17:25
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Rafos
 

Muito bom mesmo! Foi a única entrevista com o Nardi que encontrei. Parabéns pela iniciativa de criarem um Zine e divulgarem esse material por aqui.

Aproveito pra divulgar o manifesto que próprio Henrique nos mostrou:
http://www.designwritingresearch.org/free_fonts.html
Copyleft já!

Rafos · Belo Horizonte, MG 3/10/2007 00:50
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
[ds]
 

O Nardi é um Bandeirante da tipografia brasileira. :)

[ds] · Recife, PE 20/9/2009 21:08
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