Cabeças de olhos muito vivos

Élida Pereira
1
Adriane · Curitiba, PR
8/7/2006 · 185 · 7
 

Há pouco mais de dois anos, quando o cineasta Luciano Coelho teve a idéia de levar atividades de audiovisual para a comunidade, ele não imaginou que num futuro tão próximo teria a produção que tem hoje – inclusive com selecionados e premiados em importantes mostras. Muito menos que um ano e pouco depois, teria 14 produções, entre curtas, documentários e até um longa-metragem. Pois essa é a história do Olho Vivo, um projeto que não é um mero exercício antropológico de acadêmicos “pesquisando” pessoas sem sair de dentro da biblioteca.

Tudo começou em 2003 dentro do projeto Residências Rebouças, criado pela Fundação Cultural de Curitiba – a Secretária Municipal - para dar um up grade no bairro Rebouças, e que prestigiou várias propostas culturais interessantes - algumas delas conseguem andar com suas próprias pernas agora que o apoio público está parado. Entre estas está o projeto Olho Vivo que, em junho, lançou outro produto: uma coleção de DVDs com quatro caixas contendo os trabalhos feitos até agora. Cada unidade está sendo vendida a R$20.

A idéia surgiu, conta Luciano Coelho, um dos idealizadores do projeto, de uma conversa com o outro dono da idéia, Marcelo Munhoz. A vontade era criar um espaço que envolvesse efetivamente a comunidade com o audiovisual através de oficinas com preços subsidiados. “A gente acreditou de verdade que o audiovisual, mais ainda com o digital, é uma ótima ferramenta de reflexão sobre nossa realidade. Ainda mais no caso de Curitiba, que tem uma imagem muito manipulada pela mídia e governo como um espaço urbano perfeito”, diz ele, sem se importar com a ironia de que, desta vez, vieram de uma instância de Governo que ajudou a construir essa aura de cidade de primeiro mundo, as primeiras verbas.

As primeiras oficinas foram Realização de Vídeo e Arte Sociedade e Audiovisual, com o intuito já no nascedouro de misturar arte e reflexão social. Outra missão era sempre encerrar cada curso com um documentário. As turmas do primeiro ano fizeram: Cidade em Branco (16 minutos sobre os grafiteiros que renderam o prêmio de melhor direção no Festival de Vídeo de Curitiba em 2004); Vila das Torres (sobre a favela na região central de Curitiba que dá fundos para a PUC, selecionado para o 15º Festival Internacional de Curtas de São Paulo em 2004) e Papel de Catadores (sobre as pessoas que trabalham recolhendo o lixo para reciclar, cada vez mais presentes com seus carrinhos de madeira improvisados pelas ruas de Curitiba, que seguiu em 2003 mesmo para o Videolab Festival). Esta foi a produção dos alunos de Coelho. Os de Munhoz fizeram Feio, selecionado para Festival do Minuto de Curitiba, 15º Festival Internacional de Curtas de SP e 11º Festival Mundial do Minuto; e Irritart, que também fez o mesmo caminho.

Isso tudo foi feito enquanto uma outra idéia era colocada em prática, o da criação de um Núcleo de Pesquisa e Produção, com alunos – que se concretizou em 2004. O grupo selecionado recebeu uma preparação mais aprofundada e cada um escolheu uma área de atuação – câmera, produção, edição, fotografia. O primeiro trabalho feito por este grupo já mostrou bem o tom que se pretende nas criações. Preto no Branco - Negros em Curitiba é um longa-metragem digital que trata da presença dos negros em Curitiba. “Curitiba que se acha uma capital de perfil europeu, que celebra tanto suas variadas etnias e não fala do negro. Fomos ver como vivem esses 20% da população curitibana, ouvir suas histórias – aquelas que a cidade parece não ver. Esta é uma questão séria aqui, pois parece que não existe negros na cidade”, pontua Coelho.

“A diversidade de olhares, já que nossos alunos vêm de todas as classes sóciais e econômicas e diferentes idades, é que enriqueceu as aulas e os documentários”, completa o professor.

Em 2005, o apoio público foi parcial e mesmo assim rendeu outros documentários e um primeiro trabalho de ficção, Achados e Perdidos. Também foi feito o segundo título do núcleo, Sem Tempo Pra Brincar, sobre a exploração do trabalho infantil.

“Jamais imaginei que teria tanto material, até porque fazer pequenos documentários de dez minutos era exercitar. Teríamos o Preto no Branco, como um carro chefe digamos. Mas percebemos que a gente podia fazer bons documentários com pessoas inexperientes”, diz Coelho, ressaltando que toda a produção ganhou exibição numa parceria que inclui Universidade Federal do Paraná e Cinemateca de Curitiba.

A temática-alvo lançada aos alunos pelos professores sempre foi procurar olhar para uma Curitiba que não se vê, num convite à reflexão usando a arte como meio. “Os trabalhos acabaram se focando espontaneamente na comunidade da periferia no Minha Vila Filmo Eu, ( foto) projeto que ganhou apoio da Petrobras para ensinar adolescentes da periferia de Curitiba a produzir audiovisual”, conta. No começo o projeto pôde oferecer cursos gratuitos, já que tinha apoio público. Agora, a luta está um pouco mais solitária, já que atualmente a Fundação Cultural deu uma parada nas verbas e não se sabe se o apoio vai continuar.

Como não é o jeito desse pessoal ficar esperando, o Olho Vivo foi bater em outras portas. Uma que encontrou aberta foi a do Pontos de Cultura – projeto do Ministério da Cultura. É com ele que os projetos seguirão a partir deste segundo semestre. A proposta, agora sim, é levar oficinas de vídeo para a periferia, mais especificamente, a Vila das Torres - que foi o tema de um dos primeiros documentários e do Minha Vila Filmo Eu, apoiado pela Petrobras. “Foi uma experiência fantástica que vai poder continuar. Eram crianças sem nenhum contato cultural, pois é difícil sair dali. E foi incrível a mudança que notamos durante o curso, ano passado. Nas aulas, com a família... e foi muito emocionante a noite de exibição”, diz, referindo-se a uma sexta-feira em que o documentário foi mostrado na Cinemateca de Curitiba.

Agora Coelho e sua equipe comemoram o Ponto de Cultura e a chance de dar continuidade à proposta no segundo semestre. Só que os (bons) projetos não param nessas cabeças de olhos tão vivos. O Núcleo ganhou também outro tipo apoio da FCC, para produção de vídeo digital pela ótima idéia de ver como estão, no presente, os antigos armazéns de secos e molhados de Curitiba. “Estamos na fase de pesquisa da Antiga Curitiba de hoje, como eles sobrevivem com o comércio moderno”, conta.

Daqui a pouco, garante, eles vão encarar os projetos mais ambiciosos, como um filme de longa-metragem. Pelo que se viu até agora, talento e disposição não faltam a esta equipe.

Serviço:
Para saber sobre o projeto e comprar os DVDs acesse:
www.projetoolhovivo.com.br

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Hermano Vianna
 

Interessante ver como projetos semelhantes estão dando certo por todo o Brasil. Aqui mesmo no Overmundo está acontecendo uma conversa interessante sobre o trabalho da Associação Imagem Comunitária de Belo Horizonte. Parabéns para o pessoal do Olho Vivo!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 9/7/2006 18:05
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Adriane
 

oi hermano, tudo bem. é um projeto que merece mesmo parabens, porque é feito por gente séria que gosta do que faz e não faz "social" só quando ele dá ibope, sabe como? Tão lá tocando suas idéias. Tem vários bons projetos saindo daqui de ctba e do paraná.

Adriane · Curitiba, PR 10/7/2006 15:23
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índios eletrônicos
 

yes yes yes yes yes yes yes yes yes....água pra todos!

índios eletrônicos · Curitiba, PR 10/7/2006 21:53
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Pedro Rocha
 

Realmente é fantástica a produção.

Queria saber algumas coisas: como é o processo de produção desses filmes? Quem dirige? Quem escolhe os temas? Outra coisa: Como está a exibição local, nas comunidades e público que foi abordado no documentário?

Adriane, acho que tinha que dar palavra a algum desses meninos, eles são os protagonistas em último caso.

Mas muito bom, cabe apenas um ressalva a uma declaração do Coelho: "Eram crianças sem nenhum contato cultural, pois é difícil sair dali". É difícil pensar em pessoas sem nenhum contato cultural... impossível...

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 11/7/2006 00:53
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Adriane
 

No núcleo de produção criado com os alunos, Pedro, ou seja em algumas dessas produções que agora estão em DVD, cada um escolheu a área em que queria trabalhar. tudo tem a coordenação dos dois cineastas. essa tua ressalva me lembrou de palavras do hermano, dessa "nossa" postura de chegar na periferia como se lá não existisse a cultura, e "nós" fossemos os capazes de lhes dar isso. Acho que essa visão está mudando ], existe mais vontade de compartilhar, trocar. e sinceramente, apesar da frase do Coelho, não acho que no Olho Vivo eles têm essa postura. Creio que ele quis dizer que elas não tiveram contato desta forma que estão tendo. sinceramente, espero estar enganada, mas acho que tem muita gente por aí nas periferias brasileiras que ainda não foram ao cinema, muito menos se ver no meio de uma produção dessas. Vou dar um toque pro Coelho comentar.... valeu.

Adriane · Curitiba, PR 11/7/2006 08:53
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Pablo Oruê
 

Maravilhoso vêr toda essa pró-atividade que vai realmente além das bibliotecas dos centros acadêmicos.

Pablo Oruê · São Paulo, SP 12/8/2006 18:21
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Pablo Oruê
 

Maravilhoso vêr toda essa pró-atividade que vai realmente além das bibliotecas dos centros acadêmicos.

Pablo Oruê · São Paulo, SP 12/8/2006 18:21
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