No princípio, era o verbo registrado em folhas de papel fotocopiadas. Hoje, uma ONG empenhada na promoção dos fanzines, os veículos impressos independentes que ganharam o mundo com o advento da máquina de xerox e da cultura do “faça-você-mesmo”. Assim pode ser descrita a trajetória da Zinco, organização não-governamental cearense voltada para o estudo, pesquisa e produção em mídia alternativa.
A Zinco é resultado da convergência do interesse comum de jovens de Fortaleza pelo fanzine, de estudantes e profissionais de jornalismo e velhos atuantes da cena rock/independente que encontraram nos veículos de papel um meio de registrar suas atividades. Fundada em dezembro de 2004, reivindica para os zines a condição de “detonadores” da autonomia comunicativa e afirmadores da “pluralidade de valores e conceitos estéticos”.
Em pouco mais de um ano e meio, a ONG solidificou as oficinas de fanzine, ministradas por seus membros há cerca de cinco anos, e ampliou as parcerias com organizações da sociedade civil, como o GAPA (Grupo de Apoio a Prevenção à Aids), o CASA (Centro de Assessoria ao Adolescente) e a ACERD (Associação Cearense de Redução de Danos). Promoveu em novembro de 2005, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o seminário Cabeças de Papel – zines e protagonismo, com palestras, oficinas, exibição de curtas e filmes e a presença de mais de 600 pessoas. Atualmente, participa do projeto Juventude Construindo...um novo olhar sobre a diversidade sexual, da Prefeitura de Fortaleza, promovendo oficinas sobre cidadania, diversidade sexual e direitos humanos.
O Overmundo convocou Fernanda Meireles, 27 anos, diretora-geral, e Tiago Montenegro, 23, diretor de políticas sociais, para falar dos projetos já realizados e os planos para o futuro. Os trechos principais da conversa podem ser conferidos na entrevista a seguir:
Quando surgiu a idéia de fazer a ONG?
F - Tanto eu, como o Tiago e a [jornalista] Thaís [Aragão], a gente tinha um interesse em comum, os fanzines. A Thaís tinha a página PUB, no jornal O Povo e já fazia zines na faculdade, a gente tinha uma banda e fazia zines sobre ela. A partir de 2000, eu comecei a dar oficinas no curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Em 2002, surgiu o Zine-se, o encontro de fanzineiros. É importante ressaltar que existe uma rede de comunicação de fanzines independente da Zinco. A ONG surgiu para duas coisas: primeiro, dialogar de instituição para instituição e ampliar o raio de alcance de ações na área de protagonismo social e educação; segundo, a formação de uma “zineteca”, uma biblioteca só de fanzines, de todos os tipos, de todos os tamanhos.
Como foi a primeira oficina de produção de fanzines? No site da ONG consta que já foram mais de 40.
F - A primeira foi uma oficina de duas horas no evento Abril para Arte, na UECE, em 2000. O tempo estorou porque a gente só falou, teve gente que escreveu com caneta azul claro, o papel era colorido, não estava quente, daí não absorvia a tinta. Participaram 16 pessoas.
Quando vocês perceberam a existência dessa rede de fanzineiros em Fortaleza?
F - Um dos sintomas são as cartas, a correspondência entre fanzineiros aqui é muito grande. Isso cria um laço. Eu percebo que em outros locais é raro pessoas trocarem cartas morando na mesma cidade, mas aqui é diferente.
T - Também percebemos pelo nosso convívio com os projetos sociais, as oficinas do GAPA, do CETRA (Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador).
F - E teve a série de oficinas no Teatro José de Alencar, no ano de 2001, com o tema “O Teatro e a cidade”. Com elas, muita gente ficou grudada mesmo, até hoje aparecem pessoas que se encontraram nessas oficinas. A primeira foi ótima, aí resolvemos fazer a segunda, que foi ótima também, e assim foi o ano todo. Era uma oficina bancada pela Associação Amigos do Teatro, e o único pedido deles era que se falasse também do teatro. Foi legal porque apareceu muita gente, que tinha muita coisa para falar.
Quais as principais oficinas realizadas até agora? E quais os projetos futuros?
F - Foram muitas, houve a do GAPA, de prevenção da AIDS com meninos infratores em regime de semi-liberdade e outros de internato total, em Fortaleza e no interior. A gente planejou um modelo de oficinas que pudesse ser aplicado a todas as oficinas, mas que fosse flexível para que se respeitasse as especificidades de cada uma. As oficinas do Teatro, eu vejo como algo muito importante, logo depois dessa série começou o Zine-se. Houve uma oficina em uma escola, a Canarinho Sapiens, com crianças da 5ª série. Como elas já estavam acostumadas com o método construtivista, foi um caos total, todas falavam ao mesmo tempo, nenhuma ficava quieta (risos).
T - Uma característica que a gente tem enfatizado agora são oficinas para pessoas que querem dar oficinas, oficinas de capacitação. Atrai pessoas envolvidas em projetos sociais, que trabalham com adolescentes em situação de riscos, outras ONGs, além de fanzineiros que fazem zines há muito tempo.
F - Em uma delas, no último mês de dezembro, “O zine como ferramenta de ensino e aprendizagem”, realizada na Semana de Linguagem da UECE, juntou gente da terapia ocupacional, professor de português, arte-educador que faz mamulengo, estudante de esperanto.
T - Esse viés da relação entre zine e educação é o que vai nortear nossas ações.
F - O seminário realizado no Dragão foi nosso maior feito em 2005, o espaço necessário para debater, trocar idéias. Temos duas metas para 2006: primeiro, implantar a zineteca. A gente precisa da ajuda do pessoal da área de biblioteconomia, para catalogação. Fanzine tem um problema, não tem lombada, uma pessoa faz vários títulos ou faz um titulo em formatos diferentes, alguns não tem endereço ou mesmo o nome do autor. A gente tem mais de 3 mil fanzines, os mais antigos são do final dos anos 80; segundo, realizar o Cabeças de Papel II, consolidando o fanzine como ferramenta de educação.
T - Fazer com que as pessoas entendam o que a gente está fazendo, dentro dessa perspectiva de ligar zine e educação.
F - É, porque o primeiro impulso das ONGs quando pensam em comunicação é fazer projetos complicados de jornais, quando na verdade fazer um zine é mais divertido, mais democrático, mais fácil e mais participativo.
Como a ONG se insere nos debates sobre a democratização da comunicação?
T - Essa é outra prioridade para este ano. A gente entrou no Movimento Cearense pela Democratização da Comunicação (MCDC), ajudou a construir a semana que aconteceu em outubro do ano passado. É preciso articular melhor o fórum de ONGs de comunicação daqui do Ceará. A gente percebe que a grande dificuldade dessas ONGs é a troca de experiências. Por que não juntar as ferramentas? Por que não fazer um projeto que envolva zines e rádios, já que existem ONGs que trabalham com rádios comunitários? Chamar as pessoas para projetos que agreguem os grupos que trabalhem com ferramentas específicas. Aquela história de “quanto mais pessoas, fortalece”, é por aí.
Como vocês pensam a relação entre o fanzine, uma publicação efêmera, independente, e a reflexão do patrimônio cultural e imaterial da cidade, um dos objetivos preconizados pela ONG?
F - É exatamente aí que mora a preciosidade da coisa. Porque é espontâneo, tanto no formato, como nos textos, nos recortes, é possível encontrar registros de uma época. São registros de tudo o que está acontecendo. E existem fanzines de grupos, ligados a projetos sociais. Por exemplo, ninguém nunca tinha dado voz aos meninos infratores que estão nos centros de detenções, sem censura, de deixar colocar no papel tudo o que eles quisessem.
T - Muitos desses movimentos perdem a graça quando se burocratizam. A Zinco quer caminhar entre a ordem e o caos.
F - Entre a hierarquia e a anarquia. Quando eu comecei a dar oficinas de fanzine, eu disse: “Olha, essa é a forma mais artificial de vocês entrarem em contato com os fanzines, porque fanzine ou é uma coisa de dentro do quarto ou é da rua, uma pessoa está passando e te dá”.
T – A gente quer que as pessoas continuem participando das coisas, sugerindo, continuem mandando cartas, distribuindo seus fanzines nos colégios para seus amigos. A gente está aqui é para viabilizar isso, para dialogar com outras pessoas, com outras instituições. Os encontros do Zine-se, por exemplo, ao contrário do que alguns pensam, não são da Zinco. Eles é que impulsionaram o surgimento da ONG. As pessoas sugerem por iniciativa própria, nos encontros ou na comunidade do Orkut, os locais das edições seguintes.
F - Há quatro anos, existem pessoas que só se encontram no Zine-se. Paralelo aos encontros, tem as cartas, isso dá uma unidade preciosa, porque é espontânea. Tudo isso que está acontecendo em Fortaleza, que é muito grande, sempre existiu independente da Zinco, e vai continuar existindo.
Zinco:
http://zinco.oktiva.net/
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1134064
http://www.fotolog.com/zzzinco
Zine-se:
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=73880
MCDC:
http://www.mcdcom.blogspot.com/
Esqueci de registrar: as fotos são da jornalista Thaís Aragão.
Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 23/6/2006 20:22E foram gentilmente cedidas para a matéria!
Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 23/6/2006 20:26Ricardão, acho que vale o crédito da foto, sim. E o resto é parabéns.
Chico Neto · Fortaleza, CE 24/6/2006 22:01
Sóbrio e muito bom, como sempre Ricardo. A Zinco realmente é uma instituição e um pessoal que realmente traz novas idéias e novos olhares sobre a cidade. Democratização direta da comunicação.
Como uma boa reportagens, outras podem nascer dela, como essa galera que troca cartas mesmo morando na mesma cidade, tendo telefone, internet...
Parabéns Ricardo.
+ Zinco no ar é + saúde para nós.
Parabéns pela matéria e entrevista.
bacana, ricardo.
para os contatos diretos: zzzinco@gmail.com
abraços.
parabéns pela matéria!
Thais, Fernanda, Tiago e todo pessoal da Zinco são sérios, competentes e experts no assunto. É importante conhecer o trabalho deles, por sinal único no país...
Poxa, que legal!
Fanzine é uma das coisas mais bacanas que exisem nesse mundo de meu Deus. Trabalho numa ONG em Salvador, chamada CRIA (www.criando.org.br), como educadora e facilito formações em comunicação. Utilizamos a linguagem do Fanzine também e vemos o quanto atiça a galera essa história de publicar suas viagens no papel de forma muito simples e barata.
muito bacana a matéria.
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