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Cabelo, cabeleira, cabeluda... descabelada!

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Tesoura
1
Revista Sintética · Osasco, SP
29/4/2007 · 97 · 7
 

Por: Luciane Glaeser*, colaboradora da Revista Sintética.
20 de abril de 2007


Há algumas semanas, quando a cantora pop-em-decadência Britney Spears apareceu careca, houve o que poderíamos chamar de uma “verdadeira comoção” por parte de público e imprensa.
Sem dúvida, a moça explorou o conceito extravagância. Contudo, o que inquieta diante do susto é porque, dentre as tantas que aprontou, foi justamente o excesso do não-cabelo que trouxe, de vez, Britney de volta às manchetes do mundo todo.

É claro, estávamos acostumados às oscilações de persona da loira. Presenciamos sua transformação de menininha-colegial-pseudo-naïf-naïf na ebulição-libidinosa-nasty-nasty. Até aí, nada além do esperado, sem sobressaltos. Os cabelos, enfim, continuavam onde deviam estar.

Mas, após rebentos, drogas e separação, eis que aparece esta nova versão, difícil de rotular. A ausência das habituais madeixas trouxe um engasgar da fala, uma interrogação compartilhada por críticos mordazes e fãs incondicionais. Afinal, a nova Britney é, ainda, a Britney?

Sobre cabelos e a falta de

Os cabelos revelam muitas facetas da pessoa. Principalmente quando a dita é do sexo feminino. Cores e cortes facilitam a leitura do ser, assim como as roupas emolduram o corpo, enunciando significados. A omissão destes artifícios implica na obstrução do ver, inibindo juízos diante dos mistérios que a revelação esconde.

Cabelos são ramificações do “eu” que se derramam no exterior a partir da parte mais sensível do corpo. Dos cinco sentidos de que dispomos para experimentar o mundo, quatro restringem-se à cabeça. E o sexto deve andar por lá também. Apenas o tato é comum a toda pele. Provenientes de local tão visado, os dizeres que melenas ostentam são variados e complexos.
Podem comunicar virilidade e força, como no clássico exemplo do personagem bíblico Sansão. Como sabemos, o pobre é vítima da ardilosa Dalila, que surrupia seus poderes quando tosa-lhe os cachos.

Várias são as crenças que associam o estado monástico com cortes de cabelo. Nestes casos, podem representar uma ruptura com as percepções antigas, auto-imolação [sacrifício de iniciação] ou mesmo o desprendimento no tocante às vaidades.

Raspar a cabeleira também pode atender a alguma necessidade higiênica. Interessantes opiniões skinheads têm a oferecer neste sentido.

Seguindo a linha, podemos mencionar o episódio ocorrido no início do século XIX, envolvendo D. João VI e sua esposa, Carlota Joaquina, quando empreendiam fuga de Portugal rumo às paisagens brasileiras. De acordo com relatos da época, o navio que os transportava viu-se assolado por uma praga de piolhos. Sendo obrigada a raspar a cabeça para conter a propagação dos inconvenientes parasitas, Dona Carlota esconde a careca com lenços e lança moda em Terra Brasilis. Mas Carlota não foi exatamente uma pioneira. Já no Egito antigo a nobreza muitas vezes optava por raspar todo o cabelo e utilizar perucas em seu lugar.

E se o assunto é peruca, a monarquia absolutista sabe muito bem como não ficar para trás. O século XVII adornou muitas cabeças masculinas com perucas brancas e volumosas, enquanto no século seguinte chegou a vez das mulheres extrapolarem: os fios ganharam o complemento de passarinhos empalhados, miniaturas de caravelas e outros tantos, compondo verdadeiras obras arquitetônicas que poderiam chegar a um metro de altura.

Perucas são identidades cambiantes, por isso – em nosso imaginário – muitas vezes vêem-se atreladas à idéia da farsa, do personagem travestido. É complemento artificial [como se os outros não fossem…], o que leva o homem que, de repente, se descobre seduzido por um punhado de cabelos descompromissados a sentir-se ultrajado.

Isto porque cabelos femininos representam, em grande medida, sedução. Pode um homem sentir-se atraído pelo exótico brilho ruivo de misteriosa mulher ou adoecer de amores por nuances castanhas… O preto intenso pode hipnotizar seus sentidos e o loiro… ah, o loiro… Mas deve ser um tanto quanto desestabilizador perceber que o objeto de encanto e conquista não passa de… enfim, mero objeto.

Tamanho é o poder de sedução desta inigualável penugem humana que a história não cansou de passar tesouras a fim de punir prostitutas e adúlteras, além de fragilizar acusadas de bruxaria, como no famoso caso de Joana D´Arc [a donzela francesa, canonizada cinco séculos após tostar na fogueira]. Isto sem mencionar muçulmanos e judeus mais conservadores, que preferem escapar das tentações recomendando o uso de véus.

A História atribuiu aos cabelos o poder feminino de levar tantos homens a perderem o juízo. Nesta lógica, escondê-los é adequado, mas é preciso derrotá-los quando indômitos. Extraí-los equivale à violência de arrancar as presas de um leão. Jogar às ruas mulheres carecas equivale a expô-las à humilhação pública, frisando a verdadeira identidade que supostamente vê-se descoberta.

Mulheres e seus cabelos muitas vezes contam histórias de mal e perdição. Que o diga Medusa, a ninfa que a todos enfeitiçava com seus doces cachos loiros. A bela pagou caro por se meter com quem não devia. Segundo as más línguas, foi a deusa Atena, enciumada, quem transformou a poderosa numa megera de cabelo rebelde. No lugar dos fios, multiplicaram-se cobrinhas nada simpáticas que petrificavam quem as fitasse. Isto sim é que é um estrago. Perto de Medusa, uma cabeça raspada é até consolo.

Voltando ao caso

Loira como a personagem mitológica, Britney Spears bancou a própria algoz. Ao abandonar o visual que seduziu multidões, despiu-se de si. Em algum momento, frente ao espelho, encarou sua máscara midiática e desabou.

Quando um ídolo tomba, inevitavelmente com ele arrasta quem o acompanha. A imagem de seu fracasso multiplica-se em milhares de estilhaços, cada qual minúsculo espelho de um seguidor consternado. Afinal, se o ídolo é infeliz e erra, o que cabe, então, a quem lhe admira?
Sua crise de identidade alastrou-se ao seu séqüito, que na ausência do cabelo encontrou eco para o estado de abandono vivenciado.

A “careca” da cantora configurou-se símbolo de um percurso de extremos: do assimilável ao susto; da elaborada embalagem ao placebo. Da beleza confortável à aparência incógnita.
Britney rebelou-se contra si própria, maculando a imagem loira domesticada. Seu comportamento anterior ao ato já revelava problemas. Mas continuava se tratando de uma loirinha frívola que havia tomado umas a mais... Raspar o cabelo foi seu grito certeiro. Tornou-se outra. Pela primeira vez, está realmente dizendo alguma coisa. Que ela ainda não saiba exatamente o quê, apenas confirma a teoria.

Carecas bem resolvidas:

Sinéad O'Connor, a controvertida cantora que fez sucesso com o hit “Nothing Compares 2 U”, desejava salientar o conteúdo de seu trabalho e não seu aspecto físico. Aboliu madeixas e encantou o mundo com sua aparência. É possível que, cabeluda, não chamasse tanto a atenção.

Natalie Portman, em momento decisivo de sua personagem Evey, no filme “V, de Vingança”, despede-se das delicadas mechas. Ao contrário de Britney Spears, ficou linda com o novo look.

Demi Moore, também em nome da sétima arte, aderiu ao visual. No filme “Até o Limite da Honra”, a atriz passa a máquina sem dó nem piedade, deixando a cabeça nua. Seu gesto impetuoso impressiona os demais personagens, que passam a respeitá-la a partir desta ruptura de imagem. Em tempo: Demi interpreta uma tenente, única mulher entre um grupo da Marinha Americana. Durante o treinamento, o cabelão atrapalhava um pouco…

Histórias que as melenas contam:

# Como primatas são predominantemente visuais, características como cabelos diferenciados auxiliam na identificação de membros da espécie ou clã, mesmo a longa distância.

# A média de fios que preenchem a cabeça de uma loira fica por volta dos 140 mil. São mais finos do que os cabelos das morenas que contam com cerca de 108 mil, enquanto as ruivas, de cabelo ainda mais espesso, ficam na casa dos 90 mil fios.

# Em geral, um fio de cabelo pode crescer durante de seis anos. A cada ano, pode chegar a aumentar 18 centímetros.

# Na Antiguidade, as romanas apreciavam o uso de perucas. Estabeleceram, contudo, um diferencial: os fios que compunham o acessório deveriam ser provenientes das cabeças de mulheres dos povos inimigos, conquistados durante as batalhas.

# Também na Antiguidade, os fenícios estabeleceram o hábito de raspar os cabelos em sinal de luto. A mulher que se negasse ao procedimento era oferecida como prostituta.

# Cabelos loiros [naturais] são mais finos e leves que os de outras nuances. Assim, evocam maior feminilidade, uma vez que o contato proporciona sensação de maciez superior. Ao descolorir os cabelos, loiras artificiais conquistam o efeito por associação, uma vez que a espessura e aspereza não se alteram.

# Para os egípcios, cabelos ruivos eram sinal de mau-agouro. Queimavam vivas as pessoas que nasciam com esta estranha pigmentação.

* Luciane Glaeser é historiadora [Unisinos/RS], especialista em Moda e Comunicação [Universidade Anhembi Morumbi] e em Literatura [Unisinos/RS]. Atua como professora de História da Moda na Unesc/SC.

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FILIPE MAMEDE
 

O seu texto é muito bem resolvido. Parabéns.
Quanto à diagramação, nesse último parágrafo, seria legal dar um "espaço". O que vc acha? Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 26/4/2007 11:16
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FILIPE MAMEDE
 

Ah, o título é muito inventivo e pertinente. Curiosamente ouvi essa música hoje...

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 26/4/2007 11:17
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Revista Sintética
 

Amigos, obrigado por ter votado no texto, para que ele entrasse no Banco de Cultura. Valeu!

Revista Sintética · Osasco, SP 29/4/2007 20:41
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Higor Assis
 

Revista Sintética.

O texto é bem feito, porém não corresponde ao que o Overmundo pede, que são textos relativos estritamente as notícias que tratam de Cultura Brasileira, claro que sendo um artigo feito e de entendimento para o Brasil é algo que pode ser avaliado.

Enfim, se as pessoas votaram quem sou EU.

Um dica, um abraço.

Higor Assis · São Paulo, SP 30/4/2007 08:11
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Fanny
 

O texto é excelente, engraçado e informativo. A imagem usada então, nem se fala, é linda! Quanto à Britney fico na dúvida se ela realmente se "resolveu" com a tonsura.

Fanny · Rio de Janeiro, RJ 30/4/2007 09:08
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Revista Sintética
 

Obrigado pelos comentários! Vejam o outro texto que postamos. Abraço!

Revista Sintética · Osasco, SP 30/4/2007 12:09
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Alexandre Inagaki
 

Belo texto da Luciane Glaeser. De fato, concordo com a observação do Higor. Faltou um gancho de associação das digressões "cabelísticas" da Luciane com a cultura brasileira. De qualquer forma, valeu: interessantíssimo artigo. :)

Alexandre Inagaki · São Paulo, SP 4/5/2007 07:25
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