Não muito desconhecido é o livro O Livreiro de Cabul, da norueguesa Asne Seierstad. Ele está na lista dos mais vendidos no Brasil por um tempo e na lista dos mais vendidos de alguns paÃses, já que ele foi traduzido para não sei quantas lÃnguas e hoje em dia um fenômeno de vendas é mundial. Se vende bem nos Estados Unidos logo estará vendendo bem em qualquer lÃngua que for traduzido. Levando em conta que O Livreiro de Cabul começou sua saga na Noruega, detalhes.
Para quem ainda não sabe, Asne, uma repórter norueguesa que se arrisca nas mais cabulosas coberturas, passou cinco meses com uma famÃlia de Cabul e resolveu escrever sua experiência. E por isso mesmo causou um quiprocó danado, porque foi acusada pelo livreiro original de inventar, mentir, distorcer, de não entender a cultura afegã, etc.
Logicamente que editores mil disputaram uma chance de publicar o livro que o próprio livreiro resolveu escrever para desdizer o que Asne descreveu. E enfim saiu outro livro, Eu Sou o Livreiro de Cabul, que em uma escrita direta e misturando elementos de fantasia funciona bem como um grito de protesto.
Sabendo dessas desavenças, e discordâncias dos pontos de vista, resolvi ler os dois livros, quais terminei em dois dias. O primeiro um relato ficcional sobre a vida em Cabul. O segundo um livrinho muito direto em que um culpado tenta se defender. Ou seja, ao ler o primeiro você acha que a coisa é mais ou menos daquele jeito, ao ler o segundo você fica mais na dúvida ainda.
Eis que no bolo do pacotão oriental que comprei veio um livro intitulado Mulheres de Cabul, que por estar barato foi comprado também. Esse é um ensaio fotográfico aliado a depoimentos de mulheres de Cabul, da jornalista inglesa Harriet Logan. Esse, trás depoimentos das mulheres de Cabul antes e após o Talibã, respectivamente em 1997 e 2001.
O principal mote do “Eu sou o livreiro de Cabul†é a defesa pessoal de Shahid Muhammad, que é o homem que deu lugar a Sultão Kahn o personagem central do livro de Asne. Ele se defende (ou tenta) no pequeno volume que escreveu de todas as “acusações†que a tal da Asne fez contra ele.
Isso do ponto de vista dele. Porque ao ler o livro em momento algum achei claramente que ela o acusou. Sejamos razoáveis, se você fosse passar cinco meses na casa de um livreiro no Afeganistão e fosse escrever sobre isso... você seria o supra sumo da imparcialidade? Você com sua visão ocidentalizada do mundo, olha aquele conflito de culturas latente e iria ficar de fora? Alguém conseguiria ficar sem julgar alguma coisa? Qualquer uma.
Então vamos lá. Por isso, por essa diferença que o livro Mulheres de Cabul ajuda bastante. “O livreiro de Cabul†nos dá uma mostra da vida daquela famÃlia, e algumas da ramificações dela. Alguns podem ver aquilo como relato fiel. Coisa que seria tola e desprovida de razão, já que a repórter descreve situações em que nunca poderia estar presente com uma quantidade de detalhes e impressões fora do normal. E se ela mesma diz que aquilo é um trabalho jornalÃstico, então devemos criar uma nova categoria para o relato que ela faz, um jornalismo-ficcional.
Sabendo dessa nuance bem a mostra na obra quem seria capaz de levar ali tudo ao pé da letra?
Sinceramente ao ler O Livreiro de Cabul fica latente o quanto a cultura Afegã ainda pressiona a sua sociedade e quanto das pessoas que vivem por lá ainda dão importância à s tradições, costumes, etc. No “Eu sou o livreiro de Cabul†Shahid defende-se contradizendo o que Asne descreve em seu livro, como por exemplo o casamento. Em que as mulheres são casadas pelas famÃlias e não tem muito direito a escolher, ou não tem realmente nenhum direito, ou opinar sobre o casamento.
Shahid diz coisas belas e desdiz o que Asne descreve. Ele diz em seu livro que uma cerimônia, lá pras tantas do processo, é feita e se pergunta a noiva se ela deseja realmente se casar com o noivo, e se ela não aceitar o noivado é desfeito. Que há uma liberdade sim para as mulheres. E diz assim “Asne Seierstad ridicularizou a união entre duas pessoas e colocou etiquetas de preço nas mulheres como se fosse gado. (...) No Afeganistão, as mulheres não são mais oprimidas do que os homens. As mulheres e os homens não podem viver uns sem os outros.â€
Hmm... então na página 95 do Mulheres de Cabul, com depoimentos fiéis das mulheres de lá, eu li “Antes do Taleban, os homens afegãos diziam que as mulheres daqui tinham seus direitos, mas não é verdade. Segundo a nossa tradição, os homens nunca devem dar direitos iguais à s mulheres. Isso não vai mudar – até os homens instruÃdos dos paÃs têm esse preconceito. E, mesmo se eles permitirem que as mulheres trabalhem ou façam parte do governo, a situação em nossas casas continuará a mesma. No Afeganistão, as mulheres são consideradas propriedade dos homens. Nossos esposos e pais têm o direito de impedir que as meninas freqüentem a escola, entre outras coisas. As mulheres devem trabalhar dentro e fora do lar. Os homens esperam que suas esposas e filhas façam tudo por eles. Se a mulher faz algo errado, o homem tem o direito de espancá-la. Não podemos fazer nada a respeito. Isso é normal aqui. Todas nós apanhamos dentro de casa: meus irmãos já me bateram muitas vezes. Por isso, odeio homens e gostaria de nunca me casar.â€
Entre um depoimento fiel, um livro de ficção e uma defesa, qual pesa mais?
Creio que o livro de Asne descreve o sentimento afegão, e se as mulheres fossem realmente perguntadas sobre se aceitam ou não o noivo, alguém acha que pela tradição patriarcal ortodoxa da sociedade afegã ela iria se pronunciar contra? O livro da norueguesa traduz muito bem todo esse sentimento incrustado que não se pronuncia, mas se vive. Um patriarcal, que acostuma-se a ouvir o silencio como aprovação, sorrisos amarelos como felicidade e ter todas as vontades cumpridas não pode ser muito bem ouvido, ou só ouvido e sua defesa muitas vezes se parece como uma forma de reganhar a honra e prestÃgio em uma hipocrisia, já que se eu espanco minha mulher em casa, meu amigo também e todos os outros, mas todos mundo faz de conta que não... se um dia vir a tona que eu faço isso, todos os outros podem me recriminar. Hipocrisias a parte eu fico com o depoimento das Mulheres de Cabul.
Quanto a irresponsabilidade de Asne, vociferada por Shahid, eu concordo. Realmente no Afeganistão a sociedade, sendo mesmo do jeito que ela descreve as impressões, se souberem do livro, se o lerem, com certeza, pela hipocrisia arraigada, aquela famÃlia terá muitos problemas. E se a coisa funciona assim mesmo, já que Shahid confirma no seu livro, a sociedade de costumes fortes que é a descrita não poderia jamais perdoá-los por o que está escrito lá. E certamente eles se veriam afastados e excluÃdos do circulo social que é tão importante, ou mais, é tudo para eles.
Fica claro no balanço final dos três livros que a distância entre nossa sociedade e a deles é flagrante. E ela está justamente na individuação de cada pessoa. Em nossas sociedades ocidentais o projeto divino, a programação estatal, o desenvolvimento das luzes, uma busca unificada por um só objetivo se diluiu, e se diluiu pelo esclarecimento que foi devidamente recolocado no indivÃduo. Vejamos por exemplo todas os comerciais que apelam à felicidade do indivÃduo. E se muitas vezes falam da famÃlia, é para dizer o mérito pessoal de tal ou outra pessoa dentro dela.
No Afeganistão a cultura religiosa ainda domina de forma intensa e o individuo não é tão importante quanto a tradição do clã ou a integridade da famÃlia. Se pensar é um erro, então exclui-se o pensamento em prol da boa reputação familiar. Desejos e anseios são colocados de lado para que a coisa funcione de forma adequada.
Logicamente que não existe tradição em si, existem pessoas que a praticam. Mas se rebelar contra essa onda é praticamente impossÃvel já que tudo depende dela. Se se é rebelde você provavelmente não conseguirá comida, emprego, casamento, etc. Pois em uma sociedade em que as famÃlias casam-se entre primos, se empregam mutuamente, se ajudam, se o marido morre e o irmão é solteiro casa-se a mulher com seu cunhado, etc sair desse circulo é ser excluÃdo de todas as formas dessa sociedade. E por essa opressão a individualidade é posta de lado.
Isso não era muito complicado antigamente, mas tendo-se contato com a cultura ocidental toda uma nova forma de vida é proposta, e abre-se na mente das pessoas essas possibilidades. Esse medo da tradição terminar é que leva aos extremismos, já que os homens dominam a sociedade há tanto tempo, se verem ameaçados assim em suas bases. Ainda mais as religiosas. No “Eu sou o livreiro de Cabul†Shahid diz muito bem assim “Se as mulheres afegãs são dependentes de seus homens, esses homens são duas vezes mais dependentes de suas mulheres. O lugar da mulher na sociedade afegã é tão elevado que somente por intermédio de sua mãe uma pessoa pode obter a salvação no dia do JuÃzo Final.â€. Coisa que deixa claro o posicionamento da coisa toda. Enquanto os homens vivem aqui e agora melhor, a mulher é relegada a um nÃvel que diz que elas são importantes para a salvação sabe-se lá quando. Elas são relegadas a um futuro hipotético enquanto o autoritarismo patriarcal governa aqui.
E se não bastasse o status da mulher afegã se dá na quantidade de filhos, masculinos, que ela têm. Descreve-se muitas vezes que no começo do casamento uma filha é ruim, duas então é pior ainda. Um filho é determinante para o posicionamento da mulher na famÃlia do marido que ou a aceita ou não, e através disso vem sua felicidade. O que dizer de mulheres afegãs que têm filhos e mais filhos, e vivem somente para isso. Realmente essa realidade bate de frente com os estudos, a emancipação feminina. Ser mãe é uma coisa, ter filho homem é outra e ser uma parideira é outra ainda.
No fim das contas o sentimento de gerações perdidas, uma total e caótica realidade se abate sobre as pessoas desse paÃs. Vemos nos depoimentos mulheres sem maridos que tentam se matar porque cansam de sua tristeza diária. Fome, miséria e solidão. É como se passa o dia a dia dessa sociedade destroçada por trinta e tantos anos de guerra, conflito, barbárie. E se Shahid ficou incomodado com o retrato escrito pela Asne é puramente individual, tenho certeza que para nós o sentimento geral, a impressão e todo a tensão dessa sociedade foi bem descrita e passada. Já no livro resposta vemos quanto e a tanto custo ele tenta se defender, como se estivesse desesperado para dizer que aquilo não é nada como ela descreveu e em nenhum momento diz que ela acertou em alguma coisa, ninguém acerta ou erra em tudo, e me parece um tanto histriônico em sua defesa. Já o livro da inglesa, é triste, muito triste, assim como devemos ficar ao termino da leitura deles.
Gostei muito do seu comentário, muito interessante e esclarecedor. Não li o livro resposta, mas realmente pensava que Sulthan (Shaid) tinha um pensamento mais liberal por ser um grande amantes do livros. A situação das mulheres estão submetidas a cultura milenar afegã e por isso deve ser tão difÃcil sair dela para tentar qualquer enriquecimento ,pois mesmo aquelas que conseguem estudar o seu final será sempre ao lado de uma famÃlia com uma penca de filhos e as mesmas preocupações independente do nÃvel cultural.
Nadjornalista · Salvador, BA 5/4/2007 09:43
Nad, realmente a tradição pesa mais que tudo, e por mais liberais que forem continuam sob o julgo dela. Veja ainda mais pelo Caçador de Pipas, castas sociais, divisões em clãs, etc. É uma situação muito complicada realmente.
leandroDiniz · Niterói, RJ 5/4/2007 09:52Muito importante o seu comentário...acabei de ler o "Livreiro" da Asne e pude perceber como existem nanoculturas afegãs por aqui pelos grotões do Nordeste, onde não existe lá muita diferença no tratamento com as mulheres, sendo que algumas jovens ainda são "vendidas" disfarçadamente e a preços módicos...após ler o livro da Asne, fumei, bebi e saà só pela noite afora, só não comprei o livreto do "Sultão" pedófilo por ter lido o teu rico comentário antes. Achei que não valeria a pena. Compre i o "Mulheres". Obrigada pela dica.
Loba das estepes · Natal, RN 21/5/2007 22:48Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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