Uma escritora ocultista renomada, que assina sob a alcunha de Dion Fortune, e escreveu manuais de defesa psÃquica por volta da década de 1940, costumava dizer que dois elementos mágicos são os materiais humanos que mais despertam interesse dos feiticeiros: o sangue e os fluidos sexuais. Dito isto, tendo a concordar com o encerramento da resenha de Marcelo Marat sobre O Monstro Souza, pois a literatura de Bruno Azevêdo (o acento é mera idiossincrasia) é de fato “visceralâ€.
O Monstro Souza é um cachorroquente de um metro e oitenta, garoto de programa, 100% discreto e gostoso, autofágico e assassino! Criação literária de Bruno Azevêdo e artÃstica de Gabriel Girnos, o monstro ganha vida após circunstâncias misteriosas numa noite de tempestade. Era um cachorro-quente comum, que sai do forno numa barraquinha de festifud e, por uma razão estomacal qualquer, acaba sendo abandonado no cenário cruel de um meio-fio. A partir dali, como efeito de um Gyodai imaginário, o monstro cresce e ganha vida, passando a perseguir seu criador. Frankenstein? De jeito nenhum. Pois o monstro, a exemplo do romance-colagem de Azevêdo e Girnos, é quase uma criação coletiva. "A questão do conflito criador/criatura, ao menos na fritura do livro, não tava muito na minha cabeça", diz Bruno. Tanto que o barraqueiro aparece na história como mero coadjuvante, o primeiro perseguido mesmo é o Diogo Henriques(R), personagem inspirado, como tantos outros, no cÃrculo de amizades dos autores. Mas é ainda esse mesmo barraqueiro quem lhe dá nome: o Monstro Souza é uma referência ao Sousa, vendedor de cachorroquente há mais de 15 anos no Centro de São LuÃs, e que patrocinou metade da impressão do livro depois que soube que seria personagem, mas não gostou do santinho de candidato dele no final, pois se arrepende de um dia ter tentado a carreira polÃtica.
Obra-prima urbana, com forte apego à capital maranhense, digna inspiração de Josué Montello, mas que encontra ecos na relação de Machado de Assis com o Rio e de Baudelaire com Paris, o romance é maduro e mistura um sem-número de linguagens que impressiona. Literatura, quadrinhos, fotonovela, publicidade, recortes de jornal, RPGs, e muitas histórias reais. Tantas, que é quase impossÃvel distinguir real e ficção, mesmo num livro que um cachorroquente assassino avança sobre suas vÃtimas até a última ervilha.
Mantendo uma parceria quase Sandy-Jr., como se o Gabriel fosse o surdo de Bruno e Bruno o cego de Gabriel, escritor e ilustrador se amalgamam na narrativa a ponto de os papéis se misturarem e se confundirem. "Quanto mais nebuloso puderem ser os créditos, mais todo mundo é autor. Assinar O Monstro..., por exemplo, é um gesto cÃnico, considerando a quantidade de gente que criou ou foi assaltada nele", arremata o historiador Bruno. O trabalho dos dois se deu, na maior parte do tempo à distância, já que Gabriel mora no Rio de Janeiro (e, mesmo assim, "continua basicamente paulista") e a interação, em tempos de redes sociais, aconteceu sobretudo via MSN e Facebook. "Dá um trabalho do cão explicar só com palavras!", resume o desenhista.
Avesso à rótulos, Bruno não compra a pecha de "literatura experimental". Com sete pedras na mão, o autor sugere que mesmo os quadrinhos e as fotonovelas são literatura. "[Os rótulos] definem menos o que eu faço e mais aquilo que é considerado literatura normal, grande arte etc. etc." Essa talvez seja a porção mais conservadora do radical escritor maranhense. Como todo artista, não suporta classificações.
Dupla dinâmica, como Batman e Robin, Bruno e Gabriel planejam (meio a sério, meio a brinca) uma sequência para O Monstro em 2018, mas, para isso, diz Bruno, precisarão de mais alguns anos para recolher recortes de jornais. O Retorno do Monstro Souza, precursor de A Filha do Monstro Souza narrará, segundo o escritor, a destruição de São LuÃs pelo cachorroquente, que vira um enorme Godzilla. Os acontecimentos se darão simultaneamente à Guerra da Argentina, conflito futurista que "começa quando a Argentina fecha o Paraguai pra estancar a economia do Brasil".
Os recortes de jornais, diga-se, são fundamentais para o romance mashup, recheado de montagens. Esta experiência de leitura, que já havia aparecido na estreia-solo de Bruno com Breganejo Blues (livro que mistura a história da dupla sertaneja semi-corna semi-gay Adailton & Adhaylton com os quadrinhos do caubói Tex, e está disponÃvel na Ãntegra no Overmundo), aponta para a fala do autor sobre o ofÃcio do historiador. Cáustico, ele diz que "ler historiadores é um porre! A história, digo, os livros de história, são enormes trabalhos de montagem, de edição, transcritos. O que acho é que não se pode citar conteúdo sem citar forma. Se no Breganejo eu só citasse as falas do Tex, perderia dezenas de camadas de informação que o texto não consegue pegar, perderia a carga sentimental que os leitores do Tex depositam nele e seria escroto com o Gallepini, por exemplo." Ao deixar texto sem subtexto, Bruno acaba facilitando o contexto, e introduzindo um espaço de fruição interpretativa amplamente participativo na leitura.
O Monstro Souza, como o Finegans Wake de Joyce, levou mais de uma década para ser escrito. No sentido atribuÃdo a Fortune, o romance do historiador maranhense e do designer paulista é sem dúvida mágico.
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A mesma ousadia em hipertexto pôde ser conferida na entrevista aberta em tempo real pelo Facebook de que participaram Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos, respondendo pacientemente a perguntas não apenas minhas, mas de Cleiton Castello Branco Oliveira, Del Rey, Dado Amaral, Frederick Brandão Urso e outros incógnitos que preferiram só observar. IrreprodutÃvel, o papo concentrou instantes de bom humor e ótimas tiradas. Em outro post, destaco os melhores momentos, com a consciência de que um compacto só privilegia o goleador, jamais enaltece o desarme.
Mais pin-ups do Monstro Souza, como estas que estão aà do lado, podem ser conferidas no blog oficial do romance.
Durante a entrevista, Bruno propôs uma promoção. O comentário "mais cheiroso" (palavras dele) por aqui ou lá no Facebook ganha uma edição dO Monstro Souza de brinde.
Para fins de objetividade, decidi estipular um prazo isso: o melhor comentário (na opinião do autor) até 15 de fevereiro será o agraciado. Favor não puxar o saco!
"romance mashup". surreal e instigante! (e o 'inglês' das imagens é o melhor - questão de reconhecer a deglutição cultural bizarra que a gente pratica, com humor :))
Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 5/2/2011 14:42
Confesso que, inicialmente, fiquei com um pouco de dó ao imaginar um cachorro-quente abandonado no meio-fio da calçada. Mas a pena deu lugar a uma admiração só de pensar nas possibilidades destrutivas de um dogão ensandecido. A sacada da dupla de autores (posso me referir a eles assim?) é muito inspiradora.
Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 7/2/2011 08:36Fiquei muito, muito curiosa com esse monstro e com essa overdose de mashup! Concordo com o Bruno, ler História pode ser um porre, cabe a ele e outros escritores inquietos subverter isso! E amei as pinups do cachorroquente, sobretudo na versão estupradora!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 11/2/2011 11:48
Dando um retorno aqui sobre nossa "promoçãozinha", Bruno ficou de escolher um sortudo para o livro em breve. :)
Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 23/2/2011 18:54
Passando aqui para comunicar que a vencedora da promoção foi ThaÃs Pacheco. Esperamos um contato em http://www.overmundo.com.br/contato_adm para que possamos proceder a remessa do livro sorteado. Obrigado a todos pelos ótimos comentários! :)
Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 15/3/2011 00:25Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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