Cada banda tem a imprensa que merece

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Daniel Cariello · Brasília, DF
29/6/2006 · 107 · 8
 

Saiba um pouco sobre os fanzines 'A verdade' e 'Tupanzine', que retrataram com muito bom humor as bandas brasilienses dos anos 90


A cena roqueira brasiliense nos anos 90 produziu bandas que atingiram renome nacional e foram destaque na mídia de todo o país. Os Raimundos e Maskavo Roots são dois exemplos. Mas também deu origem a outras, como Os Políbias, Low Dream e Animais nos Espelhos, que nunca alcançaram muito espaço em jornais e revistas. A não ser nas páginas xerocadas dos fanzines A verdade e Tupanzine.

Ambos surgidas em 1994, o A verdade na Asa Sul e o Tupanzine no Guará, as duas publicações ajudaram a escrever – ainda que por linhas muito tortas – um pouco da história do rock candango na década passada.

O escracho total e irresponsável foi a marca registrada dos dois. Aliás, ainda continua a ser a do Tupanzine, com quarenta edições em 11 anos. Uma marca louvável para um fanzine, que dificilmente resiste tanto tempo. Prova disso é que o A verdade, em 2004, depois de 10 anos de desserviços prestados às bandas da cidade, deixou de existir. Pelo menos até agora.

No entanto, por mais que tenham se aproximado em termos filosóficos (e fanzine tem lá filosofia?), as semelhanças entre as duas publicações terminam por aí.

Estilo Tupanzine

Sob a batuta de Ricardo Tubá e com o sugestivo subtítulo Baixaria & Rock’n’Roll, o Tupanzine criou um jeito todo próprio de escrever, quase sem pontuação, a maior parte das vezes apenas com letras maiúsculas e descrevendo situações bizarras. Um trecho, copiado, literalmente, do site:

"OS MAIORES ACONTECIMENTOS DE 2002

1º Visita do Ed Mota na casa do Retz tomando água na torneira e pisando em côco de cachorro doente que fez o Moab tomar vacina anti rábica e fazer nebulização dobrada por causa do cheiro do xixi do gato que tava dormindo encima do lp projeto salva terra do Erasmo que o Retz recolheu no lixão da estrutural.

2º humilhação que o Luciano Kalatalo passou no famoso reivellon do rio, ou maior encontra de bichas alternativas das últimas temporadas reunindo de um só vez Lariu, Alexandre Solares, Plato, Márcio Custódio, Gás, Cochlar, Cláudio Bull, leo bigode, Fábio bianchine, Marcelo Colares, Edu Manzano, Pedro Ivo, Pedro Gollo, André OD, Gregory , Diógenes, Maverick .. , quando o Gilberto Squizofrenia Junior falou que nunca tinha ouvido falar no tupanzine e que não costuma resenhar zine de bicha enrustida que compra camisa do lanterna verde pro filho e calcinha da mulher maravilha pra participar dos festas eletrônicas do bata.”


Entendeu? Não? Não se preocupe. Quase ninguém entendia. Mas todo mundo gostava. E fez tanto sucesso que até virou, por mais incrível que possa parecer, objeto de estudo para uma tese de mestrado.

Estilo A verdade

O A verdade era diferente. Também tinha um subtítulo, Ou você sabe ou não sabe, mas era feito por um estudante de jornalismo que assinava com o pseudônimo de Genuíno Franco, apesar de quase todo mundo saber quem ele era. E tinha um humor menos escrachado, com estrutura de matérias jornalísticas e inspirado em publicações como o antigo O Pasquim e O Planeta Diário. Segue um trecho:

“Bull é possuído durante ensaio

Cláudio Bull, vocalista da Divine, foi literalmente possuído durante recente ensaio de sua banda. O cantor afirma que, enquanto afinava os instrumentos, o espírito de Renato Russo se aproximou e tomou conta de seu corpo.

“Foi super estranho”, afirma Bull. “Estava tranqüilo, fazendo uns gargarejos, quando comecei a sentir uma presença, seguida de um bafo quente na nuca. Depois foi a unhada no calcanhar. Quando dei por mim, já estava possuído.”

...

Mas ainda falta um detalhe para a Divine tornar-se realmente a herdeira da Legião: um guitarrista que toque como Dado Villa-Lobos. “Eu ainda não tenho Dado na minha banda. Mas bem que gostaria muito”, confessa Bull.”


É interessante notar que as publicações retratavam basicamente as mesmas pessoas, como nos trechos acima, que citam Cláudio Bull e Cochlar, da banda Divine. “Isso é óbvio”, diz Genuíno. “A cena roqueira brasiliense é pequena, e as duas publicações falavam sobre quem se destacava. Mas o legal é que o enfoque era completamente diferente.”

Tubá, em seu estilo peculiar, tem uma resposta diferente. “A verdade? Cheguei a ler o zine uma vez e lembro que eles tinham uma rixa com o Zeca dos Animais e o pessoal do Políbias e um dos seus editores era o Omar Godoy que se mudou pra Curitiba com vergonha do Magnética, projeto em português da Low Dream com letras que lembrava Wando dos primeiros discos e José Augusto fase barbudo e country.”

Na era online

Apesar de um fanzine normalmente ser xerocado e distribuído de mão em mão, as duas publicações se atualizaram, ou pelo menos tentaram, para a era da internet.

O Tupanzine sempre foi fiel à velha máquina de xerox. Suas 40 edições saíram em papel. E pode ser encontrado na loja da Kingdom Comics, localizada no Conic, e até na Rua 24 de Maio, em São Paulo. Tubá já tentou adaptá-lo para a internet, mas seu (fiel) público parece preferir mesmo a versão impressa, como ele mesmo diz: “Houve algumas tentativas frustradas de ser fazer o zine pela internet, com Jorge Malcher, Ed Cave e Luciano Kalatalo, mas felizmente foram abortadas pela incompetência desses ou pela absoluta falta de interesse dos editores e do público leitor”.

Já o A verdade virou site em 1999. E coluna fixa na Revista Porão do Rock entre 2000 e 2003. Mas foi extinto por Genuíno Franco em 2004. “Era muito chato fazer tudo sozinho”, reclama. “Mas existe a possibilidade de voltar como programa de rádio ou podcast”.

Enquanto isso não acontece, você pode visitar os links abaixo e conhecer um pouco mais essas duas publicações que já fazem parte da história do rock brasiliense.

Links:

http://web.archive.org/web/*/http://www.averdade.net – Para pescar alguma coisa do A verdade.

http://kalatalo.sites.uol.com.br/tese.html - Tese de mestrado sobre o Tupanzine

http://www.geocities.com/tupanzinebsb/ - Um dos "sites oficiais" do Tupanzine, mas antigo e desatualizado


Contatos:

genuinofranco@gmail.com – Genuíno Franco, editor do A verdade
tupanzine@yahoo.com.br – Ricardo Tubá, editor do Tupanzine

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Thysa Jackes
 

Ambos surgidos em 1994, o A Verdade, na Asa Sul, e o Tupanzine, no Guará, ajudaram a escrever – ainda que por linhas muito tortas – um pouco da história do rock candango na década passada.

Thysa Jackes · Salvador, BA 27/6/2006 17:52
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Thiago Camelo
 

Putz!! Eu adorava os dois primeiros discos do Maskavo, com a turma da formação antiga.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 28/6/2006 16:01
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Daniel Duende
 

Era uma época legal...

Ahh... se era. :)

Daniel Duende · Brasília, DF 29/6/2006 15:30
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Daniel Cariello
 

Era uma época ótima mesmo. O rock de Brasília estava fervilhando, com Maskavo, Little Quail, Oz e muitas outras bandas legais. E os zines ajudavam a montar essa cena. O A Verdade era distribuído nas portas dos shows, falando quase sempre de quem ia tocar em seguida.

Daniel Cariello · Brasília, DF 30/6/2006 10:58
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
thais aragao
 

Oi, Daniel. Não conhecia o "A Verdade". Você ainda tem algum exemplar? Um dos seus links vai dar em um trabalho meu, mas não se trata de uma tese de mestrado, e sim uma monografia de graduação. Abração!

thais aragao · Porto Alegre, RS 18/8/2006 20:13
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Daniel Cariello
 

Oi, Thaís. Acho que tenho algumas coisas perdidas por aqui nas minhas bagunças. Posso procurar e tirar xerox pra você. Como podemos entrar em contato?

Daniel Cariello · Brasília, DF 23/8/2006 17:52
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thais aragao
 

Pode me enviar mensagens aqui mesmo no Overmundo ou pelo correio na caixa postal 52869, cep 60151-970, na metrópole Fortaleza/CE.

thais aragao · Porto Alegre, RS 1/12/2006 22:31
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thais aragao
 

obrigada! ;)
esqueci de dizer.

thais aragao · Porto Alegre, RS 1/12/2006 22:32
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