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Cadê meu mundo real?

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Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ
26/5/2006 · 116 · 22
 

Olho em volta no ônibus. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete pessoas escutando música. As sete com o fone característico do iPod (todo branco).

Chego ao destino. Meu amigo está caminhando em minha direção e já vamos nos falar. Digo “oi” e ele “quê?”. Ele também está com o fone branco no ouvido.

O caso é que sempre quis ter um tocador de MP3 e esse texto na verdade pode ser só inveja mesmo. Mas confesso aqui que tem começado a me irritar o distanciamento que dois fones de ouvido podem causar numa pessoa.

Sempre gostei de observar gente em ônibus, o comportamento, como é conseguir ficar calado e parado por tanto tempo sem ter muito o que fazer. Ficava vendo aquelas mulheres grandes e gordas aparentemente desprovidas de vaidade. O que me deixava perplexo é que a maioria delas usava um brinco, uma pulseira, algum relicário que denotasse que a preocupação com a aparência ainda estava lá. E elas se mexiam e conversavam como senhoras que sabem que podem estar sendo observadas. E era bobo mas feliz notar que mesmo no insuportável engarrafamento de todo dia a vida corria naquele lugar. Me confortava também saber que podia ter gente pensando e me fitando da mesma forma.

Pois bem, nem mulheres gordas caladas eu vejo mais em ônibus. Não noto mais vida no local. A cada dia que passa, é maior o número de passageiros com fone no ouvido, ausentes para o mundo do ônibus, mergulhados num mundo que não permite acesso.

Numa aula de roteiro de cinema, um professor disse uma vez - “o melhor aluno daqui será aquele que conseguir me dizer perfeitamente como era e como estava vestido o trocador do ônibus”. Acho que foi o momento mais glorioso de toda a minha vida de estudante, porque sabia descrevê-lo esculpido e encarnado.

E sabia simplesmente porque na hora em que lhe dei o dinheiro o rapaz me olhou no olho e falou: “obrigado, bom dia”. Pronto! Assim, por conta de três palavras podíamos afirmar que estávamos no mesmo mundo e fazia sentido que eu soubesse como eram suas feições. Mas, meu deus, agora são tantos zumbis no ônibus, num transe tão longe de mim que eu nem sei mais a cara do sujeito que sentou ao meu lado.

Pensar assim dessa tecnologia é triste. Triste porque é desse viés de livre acesso à cultura que venho alegrando minha vida há alguns anos. É por conta desse livre acesso que vou poder ver o último capítulo do Lost amanhã mesmo, algumas poucas horas depois de passar na TV norte-americana. É por conta desse livre acesso que eu vi ontem de madrugada o clipe do Magic Numbers na MTV e pude ouvir a linda música novamente no computador. Não por menos, eu consigo assistir no YouTube ao vídeo do show do Weezer no Brasil ou às incríveis jogadas do Ronaldinho Gaúcho no Barcelona. Até mesmo a foto desse texto só foi possível porque o site Flickr disponibiliza parte de seu banco de imagens em Creative Commons.

E me alegra ainda mais pensar que tudo isso podia estar sendo cobrado e não está e que as grandes empresas estão loucas porque, de certo modo, foram elas mesmas que criaram a "armadilha da tecnologia" para si próprias.

Mas, não posso fechar os olhos para o que os meus olhos não estão vendo. Perder de vista o sujeito que está ao meu lado justamente porque ele está viajando num mundo de tecnologia que não possuo é motivo de preocupação. Não quero que esse mundo virtual roube a proximidade do meu mundo real não, nem mesmo se esse mundo virtual estiver à distância de um aperto de botão.

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Fábio Fernandes
 

Thiago, esse distanciamento está se tornando realmente algo de muito bizarro. Na faculdade onde dou aula, os alunos começaram a desenvolver o hábito de assistir às aulas com um dos fones no ouvido - isto, supostamente, permite que eles ouçam a aula com um ouvido e a música com o outro. Claro, isso não deve ter nada a ver com o fato de que o rendimento deles costuma ser mais fraco do que os alunos que não assistem às aulas com tocador de MP3 (e não é por falta de aviso dos professores - mas, nestes tempos hipermodernos em que vivemos, se o professor chama a atenção do aluno, ele é automaticamente tachado de "castrador" - na verdade os termos usados pelos alunos são bem mais rasteiros, mas enfim).

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 23/5/2006 23:05
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Sergio Rosa
 

e o celular? é meio que o ipod dos pobres... mas nessa questao de isolamento é só ver o que o celular tem causado. qualquer tempo livre as pessoas tiram o aparelho do bolso e ficam mandando msgs ou se divertindo com os jogos... bem, mas aí tem uma diferença, porque o celular ao mesmo tempo que isola, ele tambem comunica remotamente. talvez voce deixe de puxar assunto com a pessoa ao seu lado no onibus, mas voce pode se comunicar com aquele amigo que está em outro lugar completamente diferente.

(bom, o "certo" seria aguardar o texto ir para a fila de votação, pq o meu comentario nao eh bem editorial)

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 24/5/2006 11:18
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Bruno Nogueira
 

Não vejo isso de maneira tão apocalíptica assim.

É uma tendência, claro... a tecnologia nos permite personalizar e, por isso, individualizar o cotidiano. Mas estamos também frente a um conceito de produção cultural que não é físico.

Antes eu andava com um case de 40 cds na bolsa que pesava horrores. Agora tenho isso, e bem mais, num aparelho que é menor que meu celular. Eu posso transportar todo meu mundo de referência sonora para onde quiser e, então, mostrar para todas essas pessoas. E isso é muito legal.

É um novo "aqui-agora" da descoberta. Antes você descobria um disco legal, falava para 20 amigos e dois deles escutavam. Hoje você já mostra direto. Os iPods, celulares e afins são como uma personificação do "diz-me com quem andas". Seu cartão de visita mais completo que o perfil do Orkut.

Experimente passar a madrugada inteira pegando música, descarregar toda elas no aparelhinho para ir descobrindo o que veio enquanto estiver no caminho para o trabalho. No meio do ônibus você vai parar alguém, de tão empolgado, só para falar "escuta isso aqui, que maravilha!" =)

Bruno Nogueira · Recife, PE 24/5/2006 13:59
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Rica P
 

Não acho que o IPod esteja disseminado entre a população de baixa renda - infelizmente. Acho que o texto está num meio termo entre um relato jornalístico e uma crônica mais fantasiosa. Minha sugestão é escolher uma abordagem e mandar bala!

Rica P · São Paulo, SP 24/5/2006 14:32
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Ricardo Sabóia
 

Não sei, mas no final do texto fica sugerida uma dicotomia "mundo real" x "mundo virtual" que acho irreal.
Abs.

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 24/5/2006 15:06
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Thiago Camelo
 

Opa! Eu sei que o iPod é bastante raro entre a população de baixa renda. Não estou falando de um fenômeno nacional, quanto menos mundial. É só um relato mesmo do que eu observo quando eu pego ônibus pra sair de casa. E, bom, o ônibus que pego, em sua maioria, tem como passageiros jovens de classe média indo para a universidade ou para os seus trabalhos, portanto, a tendência é que esses iPods aumentem ainda mais.. Enfim, de todo modo, é só um relato despretensioso sobre uma coisa que eu tenho visto por aí, e a idéia é que não seja mesmo um relato jornalístico, o que quer que essa palavra queira dizer.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 24/5/2006 15:19
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Rica P
 

Olá Thiago! Acho que o lance são as "mulheres grandes e gordas" - na real elas continuam por aí, e sem IPod. Como você disse, é o teu ônibus que tem mais jovens de classe média. "Relato jornalístico" é vago, realmente. Queria dizer uma preocupação com a realidade. Forte abraço.

Rica P · São Paulo, SP 24/5/2006 18:15
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Thiago Camelo
 

Eu sei, eu sei Rica : ) É ruim ficar me defendendo porque na verdade estou indo contra a impressão que o texto gerou em você, que é o que mais importa. Mas vamos lá: a idéia de mulheres grandes e gordas é uma imagem só mesmo, que simboliza o meu ato de observar dentro do ônibus. É óbvio que forcei a barra, que nem todos são zumbis e que ainda há conversa e movimento dentro do ônibus. Até mesmo o ônibus simboliza só um espaço, que, na verdade, poderia ser qualquer um. Bom, mas valeu mesmo pela preocupação com o texto. Agradeço de verdade!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 24/5/2006 19:11
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Rica P
 

Acho que o mais bacana aqui do Overmundo é essa participação! Outro dia mesmo li um cara dizendo que o que ele mais gostava de ler eram os comentários...pena que minhas idéias não serviram, mas tudo bem. Acabei de postar um texto chamado 'Jogando no Quintal - sucesso! / Uma auocrítica', se tiver tempo vai lá e me devolve a crítica! Valeu.

Rica P · São Paulo, SP 24/5/2006 19:55
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Rodrigo Ortega
 

Mto bonito o texto.

Rodrigo Ortega · Belo Horizonte, MG 24/5/2006 21:42
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Demetrio Panarotto
 

Fala Thiago, independente das possíveis discussões que o texto potencializa, jornalístico/ficcional real/virtual, gostei por ser despretencioso (talvez, meras impressões). Concordo com o Bruno que com o Ipod (e com as demais tecnologias) há um ganho considerável - nem sempre bem aproveitado (apesar de isso ser outra discussão) -, mas acho legal, também, esse tipo de preocupação/percepção com as coisas simples do dia-a-dia que estão ao alcance dos nossos olhos (muitas vezes olhamos/escutamos longe e nos esquecemos de observar o próximo). Abraços

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 24/5/2006 23:27
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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Thiagão, é o seguinte: Concordo com o meu xará Bruno e nao vejo com esse desgosto todo essa mudança do cotidiano. Ou pelo menos luto contra a tendência de achar essa mudança ruim. Isso é sintomático, é cultural. É anossa geraçao - minha e sua, pelo menos, que está na casa do 25 anos - se defrontando com uma das primeiras quedas de valores em troca dos valores de uma nova galera. Meu irmao de 12 anos é minha maior referência. O universo dele é outro e a forma como ele molda seu olhar para o mundo nada tem a ver com a forma como eu moldava... hj ele fala no msn com 25 amigos ao mesmo tempo depois da aula.. isso é ir prim "mundo-virtual", se afastar do real? nao, isso é só um novo exercicio de realidade... O ipod vai no mesmo caminho. sabe o que isso me lembra? me lembra um avô falando que nao entende essa coisa de dançar afastado"desses-mininos-di-hoje", que bom é dançar juntinho.. concordo, mas a nossa geraçao ja veio moldada de outra forma, curte dançar junto, mas tb se sacode a meio metro um do outro como se isso fosse o "correto". é, maluco, o tempo passa, o tempo voa e o mundo segue andando... Vamos tentar resistir um pouco a essa facilidade de criticar uma suposta "decadencia da sociedade", "desse-mundo-di-hoje"... O mundo só existe hj, vamos pra dentro dele. Daqui a 50 anos, espero nao ter o discurso de decepcao que muitas vezes ouço nos velhos de hj em dia, apesar de ter muito vovô-garoto tirando onda por aí, neh nao?!

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 25/5/2006 05:56
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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

E, sim, vc faz uso de uma mistura de jornalismo com um mundo real fantasioso e acho isso muito bom, pena que, segundo vc, nao foi consciente.. hahahha.. quando li,achei que tivesse sido e achei maneirao.. mas qdo vc negou, ai perdeu a graça... tava crente que era um exercicio de linguagem, ja tava viajando aqui, hahaha

mas pra mim, a duvida mais importante que ficou é: Qual a música do Magic Numbers que ovcê ouviu? Todas elas são demais! Eita, banda boa!

abraçao!
BM

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 25/5/2006 05:59
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Thiago Camelo
 

Fala Brunão (Maia)! Bom, como sei, desde datas pré-overmundo, que as discussões com vc vão longe, tentarei ser breve : )
Vamos lá: estou convencido de que me expressei mal no texto, já que parte das pessoas que comentaram acha que eu não gosto do iPod. Gosto sim, de verdade. Quero tanto ter um que o meu plano é juntar uma grana e pedir a um amigo que está no estrangeiro trazer pra mim. Sou maravilhado com as novas tecnologias e posso dizer que usufruo delas bastante. O texto, na verdade, foi apenas uma tentativa de enxergar UMA coisa negativa entre as MILHARES de positivas no iPod. E, seu Bruno Maia, bem sei que vc é um daqueles que andam com o Ipod pelas ruas do Rio sem falar com ninguém : ) Mas tudo bem isso também, todo mundo tem direito de olhar pra dentro de si em vez de olhar pros lados. Só que isso, em relação ao Ipod, ao meu ver, tem sido uma freqüente que incomoda.
E, a última coisa, ainda respondendo ao Bruno Maia: por favor, no caso desse texto, não julgue as minhas intenções ao redigi-lo. Não escrevi pensando - "ummm, deixa eu ver, vou fazer um texto não jornalístico, com uma pitada de fantasia..."... Simplesmente escrevi da melhor maneira que podia. Se vc viu essas qualidades no resultado final do meu texto e gostou, isso já me deixa muito feliz. Ah! E a música do Magic Numbers é "Love is a game". Abração!!!!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 25/5/2006 11:27
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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Nossa... fui despido aqui!! To me sentindo peladão no meio do Posto 10... Enfim, sou fazao do Ipod mesmo... ouço muito ele, meu fiel companheiro.. O iPod nao te abandona, hahah.. é mais presente que muitos amigos, hahahah!!
quanto ao fato da intencao ou nao do texto, eu gostei mesmo.. nao te julguei nao... soh acho que textos pensados tb sao legais, criam situacoes, podem aummentar a percepçao... soh fiquei assim qdo vc disse que nao teve a intencao de criar um mundo paralelo, pq isso me leva a crer que vc acredita que as coisas que vc escreveu sejam reais e ai eu acho perigoso e equivocado... soh isso. se tivesse sido intencional criar esse 'universo', eu acharia legal. mas como nao foi, como foi sincero demais, acho uma impressao equivocada das coisas, mas deixa rolar

MAGIC NUMBERS RULES!!

hahaha
abracos
BM

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 25/5/2006 20:16
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carioca in canada
 

Oi Tiago,
estou buscando contribuidores para o jornal www.achei.ca que comeca no dia 9 de Junho.
Se estiver interessado mande um email para redacao.
Obrigada!

carioca in canada · Rio de Janeiro, RJ 27/5/2006 23:10
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Rômulo Ar.
 

Veja só, seu texto e preocupação dialoga com a deste link, blog escrito por um português, vale antecipar: http://marceladas.blogspot.com/2006/04/na-busca-de-um-sentido.html

Rômulo Ar. · Porto Alegre, RS 7/6/2006 18:47
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Leopoldo Furtado
 

Não acho que isso seja tão recente assim. Me lembro de um professor de filosofia na faculdade ter falado que o "Walkman era a tradução da pós-modernidade" pois a pessoa se fechava do mundo externo e surgiu justamente na época que a pós-modernidade estava em voga. Isso foi antes da mp3, antes do i-pod. Acho que o que limitou foi a própria tecnologia, afinal de contas andar ouvindo um discman nunca foi uma tarefa muito prática, toda hora pulava e tudo. Acho que foi uma segunda onda da individualização do entretenimento. (forcei a barra, hein?)

E se engana quem acha que só o i-pod, aquele branquinho original, é que faz a cabeça do pessoal. Os "genéricos" estão por todo lado e a preços bem em conta nos shoppings populares. Já vi até loja de CD que "carrega" mp3 player.

Agora confesso que a hora em que eu mais ouço música com atenção é justamente quando estou ouvindo no meu mp3 player (sem grife). Do mesmo modo que era quando eu andava por aí de walkman e depois de discman.

E viva as tags randomicas pra gente reviver tantas discussões.
:)

Leopoldo Furtado · Itabira, MG 13/11/2006 20:55
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Thiago Camelo
 

É verdade, Leopoldo! Escrevi esse texto faz um tempo, antes mesmo de adquirir, finalmente, o meu iPod. Tenho um certo problema com esse texto, pois tenho absoluta certeza de que não o escrevi da forma correta: parece que eu odeio tecnologia! Isso, muito pelo contrário, não é verdade, como o meu iPod recém-adquirido pode provar. Uma das primeiras coisas que fiz ao comprar o iPod foi tentar dar uma volta com os fones na rua (como já fiz tantas vezes com walkman e o discman), mas, por algum motivo, não rolou. É muito estranho, me senti privado das outras sensações, desatento, meio aéreo, com medo de ser atropelado :) Por outro lado, é uma sensação muito bacana essa percepção do mundo que andar e ouvir música pode gerar, é quase como aquela propaganda do celular, em que tudo que é olhado pela câmera do aparelho vira um filme. Com o iPod, tudo ganha trilha sonora. Enfim, Leopoldo, só pra assumir aqui que é bem possível que eu não concorde mais com isso que eu falei sobre o iPod, mas também, faz um tempo que eu escrevi isso: em 6 meses, dá pra pensar, repensar e pensar de novo muita coisa :)

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 14/11/2006 13:01
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Inês Nin
 

Thiago, também cheguei aqui por meios aleatórios e bem depois da data em que o texto foi escrito, mas é engraçado, andei reparando na mesma coisa. eu, principalmente na minha rotina de ida e volta à faculdade, que fica do outro lado da baía e portanto há um bom tempo de ônibus / van, quase sempre vou acompanhada do meu querido discman, só não o levo sempre justamente porque ele pesa um pouco. ainda não me atualizei com mp3 player e ipods, mas chego lá.. (o iphone me parece a coisa mais irresistível de se ter, e a que mais vai dar medo de ser roubada, mas bem). mesmo assim tenho reparado, e muito, não só no comportamento das pessoas nos ônibus como nas ruas mesmo. outro dia deu muita vontade de tirar uma foto de duas pessoas conversando na rua, ambas com fones brancos nos dois ouvidos.

penso que isso é uma coisa de moda também, mesmo quem tem mp3 "sem grife" usa fones brancos similares para estar "in", e anda com eles por aí. não creio estar errada se disser que até gente que não ligava muito pra música anda por aí com seus fonezinhos, o que é engraçado. a publicidade da apple desde que lançou o aparelho surtiu um efeito tão forte - e acho que sobretudo estético - que todos querem copiar. é surreal, pode ser que passe. não sei como foi quando surgiu o walkman, mas talvez não tenha sido muito diferente. ;)

enfim, eu me coloco exatamente no meio dessas duas coisas, porque sou fã de tecnologias assumida (ainda outro dia ouvi uma conhecida criticando pessoas que se comunicam por fóruns etc na rede, como se não pudessem fazer isso e também ter vida social "normal") mas também acho importante interações "reais" com as pessoas. me parece que podem mesmo estar sendo reconfiguradas as formas de comunicação de uma forma relativamente rápida, mas não acredito que eu possa afirmar qualquer coisa a respeito disso..

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 31/1/2007 02:32
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Edna Queiroz
 

Thiago,
Descobri o seu texto hoje, li-o atentamente e gostei.
Com toda a inovação tecnológica, somos cada vez mais dependentes. O que temos em mãos fica obsoleto antes mesmo de terminarmos de pagar. Precisamos quase que desesperadamente do que estar por vir. A guerra da mídia está aí mesmo para orquestrar as nossas necessidades. Em tudo, só perdemos em termos de relacionamentos conosco mesmos, com o próximo e com a sociedade, na medida em que substituirmos o conhecer-se mais, o olho no olho e o olhar para fora pelo anúncio/aquisição/usufruto do objeto mais moderno e aí estacionar a vida. Há espaço para tudo. Esta "case" acorre além ônibus. Uso tudo o que a tecnologia me oferece e o dinheiro permite, porém o contato direto com gente acho insubstituível.
Parabéns.

Edna Queiroz · Rio de Janeiro, RJ 1/3/2007 16:24
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Carlos Amazônica
 

Caro amigo.
Gostei do seu texto e concordo plenamente.
O mundo está ficando individualista demais e a sua observação é importante. Mostra que você é um ser humano e está ocupando um lugar no espaço. Convive com outras pessoas, fazendo o social.
O relacionamento interpessoal está desaparecendo e dando lugar aos Ipods, celulares, mp3player, entre outros. O mercado contribui com esse individualismo pois força a pessoa a ser egoísta, não compartilhando de algo que engrandeça o homem. O que percebemos é o que nada se aprende entre as pessoas e sim pela tecnologia.
Muito sentido se faz quando vc se relacionou com o cobrador, no que ele diz: Bom dia, obrigado. Hoje em dia não se vê muito essa educação tão importante. Os filhos se isolam dos pais, se isolam do mundo real pra ficar "perdendo" tempo entre uma viagem e outra com fones de ouvido.
A reflexão é substituida pela distração e isso é uma das causas da desorganização e da pobreza do país, quem sabe do mundo. É mais fácil fazer algo pronto do que RACIOCINAR CONSCIENTEMENTE.

Um abraço e parabens pela reflexão.

Carlos Amazônica · Manaus, AM 31/1/2008 10:04
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