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Cafuné na rede

Fernanda Ramos
1
brunovianna · Rio de Janeiro, RJ
19/8/2006 · 174 · 21
 

Cafuné é meu primeiro longa-metragem. Pra mim ele representa não só uma primeira incursão numa narrativa de maior duração, mas tabém uma nova direção a partir dos meus curta-metragens. Pela primeira vez, ao invés de vestir a pele dos morros cariocas, estou contando uma história do meu ponto de vista, ou seja, de classe média. Uma classe média que, embora de uma maneira totalmente diferente, também é afetada pela violência e pelas questões das quais falei nos meu curtas - e que cria suas próprias respostas e reações.

No que diz respeito à produção, filmar o Cafuné não foi muito diferente de filmar um curta. Ganhamos o prêmio para filmes de baixo orçamento do Ministério da Cultura, que tinha a brilhante limitação de não permitir que os premiados captassem mais dinheiro além do prêmio recebido - no nosso caso, de R$600.000,00. Digo brilhante porque longas têm um processo parecido com uma bola de neve: muitos dos ditos BOs juntavam mais recursos de outras fontes e se tornavam filmes médios ou grandes. Assim, imbuídos de espírito low-budget, saímos para fazer esse filme relativamente complexo, com locações em toda a cidade e elenco grande, e conseguimos colocá-lo na lata por 400 mil reais, filmando em três semanas com uma câmera DV 24 quadros e editando na minha ilha em casa. Mais 150 mil foram gastos no transfer para 35mm (obrigatório por contrato) e finalização e ainda ficamos com um troco para a difusão do filme.

Mas na hora da distribuição, as coisas não seriam tão simples.
Tínhamos um filme com linguagem diferenciada, nenhum elenco global e pouquíssimo apelo comercial.

De cara, por exemplo, o distribuidor apontou um problema intrínseco ao filme que era o final. "Muito aberto", "não amarra nada", "díficil para o público". Mas já sabíamos, nesse ponto, que faríamos uma distribuição digital do filme, a princípio por uma questão de custo: o preço total da distribuição digital equivale a uma cópia 35mm. Com cópias em 35mm, precisaríamos fazer uma cópia pra cada sala; com a distribuição digital, o filme não tem cópias e pode ser exibido em quase todo circuito de arte nacional pelo mesmo preço. A Rain Networks (www.rain.com.br) é a empresa que equipou os principais cinemas desse circuito com projetores digitais e criou uma rede de distribuição virtual de filmes. E se estávamos fazendo uma versão digital do filme, porque não assumir esse final múltiplo e fazer filmes múltiplos? Afinal é só uma questão de reeditar o que eu tinha na ilha em casa e mandar pra Rain. Dito e feito: o público, dependendo de qual sala vai assistir o filme, pode ver tanto o final original em 35mm, mais "aberto", quanto a versão digital, que "opta" por uma das possibilidades de fim, deixando satisfeitos tanto o distribuidor, quanto esse diretor que vos escreve.

Outra surpresa foi no trailer. Eu sabia que não queria um trailer normal, um rápido resumo do filme, e sim um trailer que respeitasse o tratamento de linguagem que dei ao filme, com a câmera parada, em planos-seqüência, sem alterar a montagem. Ao checar o processo da Rain, descobrimos que o trailer estava incluso no pacote e que não teria custo. Então porque não várias cenas? Acabamos criando sete "curtas", trechos de um ou dois minutos do filme que passam aleatoriamente antes das sessões de circuito, graças à tecnologia de distribuição digital, e que respeitam o ritmo original do filme.

Mas como colocar esse filme na rua? O filme brasileiro desse perfil entra em uma ou duas salas e fica no máximo algumas semanas em cartaz. Um final muito frustrante depois de se investir tanto tempo e dinheiro num projeto... Tínhamos que descobrir novos meios de distribuição, para um público que tenha um interesse nesse tipo de produto audiovisual.

Nossa sorte é que, olhando os canais alternativos de distribuição, percebemos que muita coisa interessante está surgindo. Os cineclubes estão extremamente organizados, montando redes próprias de distribuição - interessados não em filmes comerciais, mas em filmes brasileiros, de contestação e pesquisa de linguagem. Diversas ONGs por todo país estão investindo em cursos livres de audiovisual e formação do olhar, criando uma nova geração de espectadores. E por fim, os internautas usam cada vez mais o computador para trocar longas inteiros, gravando-os em DVD ou assistindo no próprio monitor. Assim nossa estratégia partiu da vontade de falar pra essas pessoas, passando o trailers em escolas e cursos próximos às salas onde o filme vai estrear, e exibindo o próprio filme em lugares longe das salas e perto do público de baixa renda.

Por isso o Cafuné está sendo lançado com uma licença Creative Commons de uso não comercial, ou seja, ele pode ser exibido sem autorização prévia em qualquer evento desse tipo. Divulgamos isso para os cineclubes, escolas e espaços alternativos.E vamos disponibilizar, no mesmo dia do lançamento, com a bênção do distribuidor, o filme inteiro para download pela Internet, usando as mesma redes que hoje se usam para piratear conteúdo audiovisual pela rede: eMule, bitTorrent, Kazaa. Quem achar o Cafuné pela rede pode baixar, queimar um DVD e assistir sem medo de estar quebrando a lei. Até onde sabemos, é a primeira vez que um longa brasileiro é distribuído sob esta licença, a primeira que se lança um longa no circuito comercial e na internet ao mesmo tempo, e a primeira vez que um longa brasileiro usa as redes de compartilhamento de arquivos para distribuição com o consentimento dos autores.

E mais: incorporando totalmente a não-linearidade proposta pelo filme, essa licença também vai garantir o direito dos usuários de editar o filme para uso próprio, ou seja: eles podem dar ao filme o final que julguem melhor, usando o seu programa de edição caseiro preferido para isso.

O próximo passo, quem sabe, é criar uma ferramenta que permita que os novos editores do Cafuné compartilhem suas experiências. E quem sabe, quando lançarmos o DVD do filme, que ele tenha não só a "Versão do diretor", mas também algumas "Versões dos internautas"....

ps.: dia 25 de agosto o filme também estará disponível aqui no banco de cultura via BitTorrent

ps 2: no YouTube tem vários trailers do filme, inclusive alguns que não chegaram a ir para os cinemas: www.youtube.com/videos/bvianna

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