Pero Vaz de Caminha foi de fato um cara de sorte, mas uma sorte de pouca valia, entretanto. Nada de bom lhe foi creditado além de ser conhecido como o homem que lavrou a assim chamada Certidão de Nascimento do Brasil. Pelo contrário, muitos põem em sua conta o exercício do nepotismo e do favorecimento político, tomando por base a sua Carta.
Eu, ao contrário, verdade ou fantasia essas imputações acima, quero que o vejamos por um prisma mais favorável. Coitado, atravessar o Mar Oceano (Atlântico) naqueles tempos era uma temeridade comparável à primeira viagem do homem à Lua. Mas como os lusitanos ainda contabilizavam grandes lucros no Oriente, não haviam parado para avaliar o custo em vidas dos versos de Fernando Pessoa em Mar Portuguez: “Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!” Isso só foi feito quando os lucros mercantilistas minguaram. Então restou o saudosismo dos grandes feitos, como o grande poeta assinala ainda no poema citado: “Valeu a pena? Tudo vale a pena/
Se a alma não é pequena.” Mas nem aí coube reabilitar o pobre Caminha.
Segregado, esquecido ou não reconhecido, seja lá qual for o termo, devemos a Pero Vaz de Caminha o pioneirismo da crônica e do jornalismo no Brasil. E isso a um só tempo! Um pioneirismo ainda mais significante quando se apura que o primeiro jornal regular, o Nieuwe Tijdinghen, só apareceu 105 anos depois do achamento do Brasil na Antuérpia (cidade da Bélgica moderna) e em português só em 1641 (A Gazeta, de Lisboa).¹
Quando os estudiosos falam em crônica no Brasil, Caminha está ausente. Tattiana Teixeira assinala a sua consolidação a menos de dois séculos por aqui: “A história da crônica no Brasil se confunde com a própria trajetória do jornalismo contemporâneo. Vinculada ao entretenimento – de um modo geral – ela começou a consolidar-se no país em meados do século XIX e, desde então, tornou-se um gênero quase obrigatório para os jornais brasileiros.”² É certo que tivemos antes disso outros cronistas, entre eles o Boca do Inferno, o poeta Gregório de Matos Guerra, mas ainda assim quase dois séculos após Caminha. Nos estudos sobre a crônica no Brasil grandes nomes merecem destaque: Machado de Assis, João do Rio, Lima Barreto, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Heitor Cony e Luís Fernando Veríssimo. Mas, e Caminha? Caminha para o esquecimento?!
Talvez esse esquecimento se deva ao fato de, no período das grandes navegações, o escrivão ser uma espécie de olhos do Rei durante a viagem, misto de contador, dispenseiro e cronista dos acontecimentos da viagem. Nos minuciosos relatos dos escrivãos os mandatários confiavam como se lá tivessem estado. Talvez por isso, a relatar os passos dos membros da expedição, a informar ao Rei o que fizeram, se se comportaram bem ou transgrediram a lei, seu comportamento fosse visto como mais próximo ao de um espião que de um cronista ou jornalista. Ou ainda ao de um bajulador, o chamado puxa-saco dos tempos modernos, a moderar sua importância para tê-la ressaltada em seguida. Muitos apostariam ver isso na abertura da carta: “Senhor, posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!”
Mas a descrição das belezas da nova terra, dos nativos encontrados (“uma daquelas moças era toda tingida de baixo acima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela”) está consoante a melhor tradição das crônicas de viagem, do jornalismo de escol.
Ainda assim, Caminha tem a sua verve de cronista e principalmente o seu pioneirismo jornalístico (quando estes relatos ainda não se intitulavam dessa forma) quase totalmente sem reconhecimento. Já deviam a literatura brasileira, a história da imprensa no Brasil e as faculdades de jornalismo nativas terem-no reconhecido o feito, garantindo o lugar primaz que lhe é merecido.
É um estrangeiro, mas foi o primeiro a falar de nossas belezas e a transmitir jornalisticamente em forma de crônica a notícia do achamento do Brasil.
Notas
¹ http://pt.wikipedia.org/wiki/Imprensa.
² Teixeira, Tattiana (Coordenadora do curso de Jornalismo da Faculdade Integrada da Bahia – FIB), A crônica política no Brasil – um estudo das características e dos aspectos históricos a partir da obra de Machado de Assis, Carlos Heitor Cony e Luis Fernando Veríssimo
Rapaz, que leitura agradável. Interessante este seu apontamento. Mas como a crônica é ainda um texto sem uma forma exata, definida, fica difícil rotular Caminha como um cronista de fato.
Um abraço.
Coitada da crônica, Filipe.
É uma filha espúria da literatura. Acho que paga o preço de ser tão usada no jornalismo diário, de consumo rápido. Talvez surjam aí as resistências em tê-la como um "gênero nobre literário". Também, como vc apontou, as muitas maneiras de escrever uma crônica, que às vezes pode até ser poética, a tornam de difícil classificação.
Mas ainda assim defendo o pobre Caminha como nosso primeiro cronista pelos relatos que fez.
Obrigado por ter gostado da leitura. É um grande incentivo.
abcs
Recentemente, aconteceu aqui em Natal, o Encontro Natalense de Escritores. Um dos eixos temáticos era, justamente, a crônica. Foram duas ouvindo o que Luís Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura debatendo esse assunto. Excelente...
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 14/12/2007 09:30
Que beleza hein amigo. Um texto suave de informação mais que rica. Agradecido pela aula (de graça).
No meu trab. de conclusão de curso vou relatar a trajetória jornalistíca de Joaquim Nabuco, vou mais alem. Vou traduzir isso em forma de documentário.
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