Antônio Candeia Filho é um dos artistas mais peculiares de toda a história da música brasileira. Compositor, instrumentista precoce e portelense de primeira hora, integrou a escola de samba Vai Como Pode, que deu origem a sua agremiação. Em 1953 ganhou seu primeiro samba na escola. A partir de 1957 se torna policial, mas recebe um tiro que o encerra numa cadeira de rodas para sempre. Este evento alterou profundamente sua visão de mundo e, portanto, sua música. Em 1975, preocupado com os rumos excessivamente comerciais do samba e das escolas, Candeia funda o Grêmio Recreativo Arte Negra Escola de Samba Quilombo (Granes Quilombo), agregando o apoio de compositores da envergadura de Nei Lopes, Wilson Moreira e Noca da Portela. Pouco antes de sua morte, em 78, Candeia publicou, em parceria com Isnard, o livro “Escola de Samba - A Árvore que Esqueceu a Raiz”. Raiz (ou Filosofia do Samba) é seu segundo disco solo.
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Numa carta a Carlos Teixeira Martins, presidente da Portela nos idos de 1975, Candeia escrevia:
“Escola de samba é povo em sua manifestação mais autêntica. Quando se submete a influências externas, a escola de samba deixa de representar a cultura de nosso povo. Essas influências externas sobre as escolas de samba provêm de pessoas que não estão integradas no dia-a-dia das escolas. Não é mais possível continuarem os integrantes da escola sem acompanhar de perto tudo que se passa na Portela”.
Palavras e expressões como “autêntico”, “influências externas” e “nosso povo” podem estimular a compreensão de um pensamento aparentemente sectário, cujo tom aguerrido e renitente corroboraria a fama de durão, herdada dos tempos em que integrava a Polícia Militar. Mas esta carta está revestida, desta vez, por uma capa ideológica mais afinada com seu talento de compositor e poeta. A carta marca o início de uma revolução que não se deu propriamente, mas que se fazia necessária nas ideias de Candeia: o combate a todas as formas de degeneração do samba, do negro e do sambista. A fundação do Grêmio Recreativo Arte Negra Escola de Samba Quilombo (Granes Quilombo) constitui um dos pilares desta revolução, acompanhado de outros elementos que Candeia cultuava como poucos: declarações proferidas com uma certeza imponente, uma atitude forte, um modo didático de “explicar” o samba, retratado por Leon Hirzsman no curtametragem Partido Alto e, sobretudo, as letras que ele compunha com uma naturalidade quase mediúnica – inclusive alguém já notou como somente Candeia fazia samba com a palavras como “subconsciente” sem parecer pedante ou exagerado. Essa naturalidade automática, por vezes rústica, por vezes amarga, mas sempre afirmativa, a mesma com que angariava simpatia e ódio, adquiria por vezes uma tonalidade ideológica problemática, que justificava inclusive o epíteto nacionalista ou até mesmo xenófobo. E, de alguma forma, sem que essas palavras fossem por ele utilizadas, a fama de Candeia se orientou nesta direção, para o bem e para o mal. Se hoje os arautos do “samba de raiz” o têm em alta conta, como um líder indiscutível e até mesmo demiúrgico, isso ocorre por conta da rigidez com que defendia seus argumentos e do rigor com que compunha suas canções. "Samba de raiz" é uma expressão em pleno curso, que não se sabe bem o que quer dizer, mas que hoje tem como um de seus mais seguros fiadores o nome de Antônio Candeia.
Mas se nos distanciarmos dos argumentos, do tom e do vocabulário, isto é, se nos posicionarmos para além das aparências, e encararmos a matéria propriamente dita, isto é, a música e a agitação cultural, veremos que uma saudável e polêmica confusão se dá de forma muito característica. Raiz (ou Filosofia do Samba, não sei o porquê desta ambiguidade) é um álbum composto e gravado às antípodas de toda a opinião e toda a mitificação que vigora hoje em relação a Candeia. E talvez, de seus discos, seja o mais “autêntico”, se adotarmos como critério sua verve criadora e doadora. O disco se chama, estranhamente, Raiz, embora o seu segundo título (ou apelido) fosse mais condizente com o conteúdo. Porque o que Candeia destila neste álbum, através de sua música, é o mais alto, altivo e afirmativo pensamento musical de que se tem notícia na história do samba.
Em primeiro lugar, pelo hibridismo musical que permeia cada faixa, desmentindo de saída qualquer preceito purificador e, portanto, qualquer possibilidade de se pensar a “raiz” como um elemento originário: samba-enredo, samba de partido alto, jongo-funk, balada soul, samba jazz, choro, e outros ritmos e gêneros são misturados indiscriminadamente, com uma habilidade para a síntese que infelizmente não percebemos no samba produzido hoje.
Em segundo lugar, pelas letras, arte na qual Candeia se especializou como bom partideiro. Elas se destacam não exatamente por seu conteúdo, mas sobretudo pelo modo prodigioso como o autor entrelaça as palavras, deslocando sentidos e criando nexos que não vigoram necessariamente na língua culta. Reparem em “Filosofia do Samba”, quando ele diz que “pra cantar samba, não preciso de razão, pois a razão, está sempre com os dois lados”: trata-se de uma nítida referência à razão científica ou filosófica, como se as duas “razões” estivessem no mesmo plano, quando se sabe que a razão cartesiana é unívoca e jamais teria "dois lados"...
Em terceiro lugar, os arranjos: especificamente neste quesito, Raiz é um álbum excepcional. Ele até possui alguns paralelos, como os discos de João Nogueira ou Clementina de Jesus, mas permanece como um exemplar único de ousadia formal. Reparem na utilização da bateria em “Vem É Lua” ou no samba-canção “Quarto Escuro”: na primeira, a bateria está filtrada por um efeito que fornece a sensação explosiva de festa; no segundo ela doa uma agressividade anômala a um samba-canção suave e tranquilo. Ou ainda na inacreditável “Saudação a Toco Preto”, uma faixa que eu reputo como uma das mais inovadoras de toda a música brasileira: um jongo rasgado, com tema religioso, mas executado com teclado, metais no melhor estilo funk 45’s. O resultado é sensacional, mas estimulou mais a imaginação da MPB do que do samba propriamente (não que eu concorde com essa divisão, mas estou sendo pragmático: as coisas funcionam assim). Sem contar a clássica parceria com Paulinho da Viola, “Minhas Madrugadas”, canção poderosa e evocativa. Mistura de ritmos, letras sagazes e arranjos inteligentes fazem de Raiz uma obra-prima, artística e filosófica, de primeira ordem.
Mas o que teria ocorrido com a reputação de Candeia? Por que, apesar de toda essa perspectiva multifacetada e inclusiva do samba, ele ficou conhecido como um aguerrido xenófobo, um símbolo de luta e resistência, quando, na verdade, a verdadeira força não “resiste”, mas se impõe, se afirma? Candeia até falava em resistência, mas sua atitude não era temerosa das “influências externas”, pelo contrário. Contam até que ele enviou uma carta para os Black Panthers, para obter uma prensa de discos de vinil e fundar uma gravadora independente. Afinal, quem tem medo das influências externas evita se misturar, faz da mistura uma espécie de demônio... Tenho uma opinião a respeito disso: assim como, nos idos de 1940, o terreiro foi transformado em “escola”, como que para revestir o samba de uma respeitabilidade necessária, o pensamento do sambista nos últimos 30 anos agarrou-se a uma perspectiva fundadora, aparentemente radical, mas frágil, pois irrefletida. Não há nem nunca houve samba de raiz. O que ocorre é a reprodução impensada de mecanismos ideológicos em favor de sobrevivência e posicionamento social. Mecanismos que buscam identificar o samba a uma história que o separaria, por exemplo, do samba paulista dos anos 90. A respeitabilidade perante uma sociedade classicamente racista se constitui a partir da fundação de uma “história”: é preciso abrir o passado nebuloso a machadadas, o que nem sempre resulta em bom veredito.
Alguns links: Só Candeia, Mestre Candeia e Granes Quilombo, Partido Alto.
Obrigado, Helena e Mansur, pelas correções e sugestões.
Abraços
Interessante seu pensamento. Ouço bastante Candeia e não penso nele como xenófobo. Ele tem servido mais que prato cheio para muita gente atualmente. A filosofia continua e quanto as machadas, teremos de ter mais quem poucos machados para refletir sobre os fatos.
Higor Assis · São Paulo, SP 18/3/2009 12:46
Acabei de ouvir o disco inteiro e realmente surpreende os orgãos, os metais, uma balada "meio Cassiano" falando de um encontro com Deus...rsrs...com um violão solo bem blueseado...enfim, é um discaço.
Li outro dia uma ironia que é pertinente, em parte, dizendo que no Rio consideram o samba como uma espécie de "reserva indígena". O problema é que a ironia é dirigida aos xenófobos de plantão, mas a generalização pega em Candeia e outros que não têm nada de xenófobos. Essa decantada xenofobia está sendo muito difundida pela turma que eu chamaria de "burguesia folclórica", por incrível que pareça, ou seja, a turma que está usando chapéu da velha guarda, aquele colar do candomblé chamado "alegdibá" e fazendo pose de malandro.
É essa turma que usa mais a expressão "de raiz"...
Mansur · Rio de Janeiro, RJ 20/3/2009 03:39Bernardo, recebi um aviso agora de que haverá uma defesa de dissertação de mestrado em breve sobre "O Quilombo de Candeia: um teto para todos os sambistas". Será no CPDOC/FGV, no dia 25 de março. A autora é Ana Claudia da Cunha. Não a conheço, mas de qualquer modo é sempre interessante ver como será a abordagem acadêmica sobre isso. Abs
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 21/3/2009 17:00
Oi Bernardo! O Brasil é ainda um país de confusões, não há como negar também a ignorancia a respeito de tantos temas que são tão "nossos" não é? Valeu, você foi brilhante!!
Abs. Iracema Vasconcellos
Bernardo,
(Quanto tempo heim!)
Bom chamado à reflexão. Não conheço nada mais polêmico na cultura brasileira do que Samba, tema no qual o Candeia é um dos protagonistas principais, sem dúvida.
Já estou tão coroa que posso evocar as minhas lembranças sobre a GRANES Quilombo que frequentei bastante, no tempo em que a (vamos ser francos) a xenofobia sambística, esta praga que tantos mitos deslavados espalha por aí, estava no auge (apoiada, aliás, naquele nacionalismo ingênuo que permeava os anos de chumbo.)
O Candeia que eu conheci, antes de ser um 'mito das glórias da cultura negra do Brasil', foi, realmente um arauto confesso e malandro (um pouco por conveniencia talvez) desta xenofobia que fazia até algum sentido naquele tempo.
O que deve se ressaltar e que, com efeito o que ficou de mais relevante dele foi a qualidade insuperável de sua obra que, como você bem ressaltou era até bem contraditória em relação a esta sua escandalosa (e talvez pragmática) militancia xenófoba.
Lembro de muitos sábados de feijoada na quadra da Quilombo em Acari. Alguns famosos artistas da nossa esquerda sambística presentes, muitos militantes da movimento negro, mas também uma sensação de espaço meio esvaziado, 'elitizado' no sentido de gueto de uns poucos brancaleônicos adeptos do samba de...raiz.
Um pouco mitológica esta história, se colocarmos ela no contexto geral do Samba carioca da época, que não era tão 'vendido' assim.
Fiquei até curioso com a defesa de tese que Helena citou. É que o Samba é (até por ser esta pátria amada da polêmica e da controvérsia) um tema muito suscetível à criação de exageros e mitos, como mais este, que está sendo criado agora mesmo, do Candeia herói perfeito.
Gosto mais do Candeias de carne e osso (parafraseando o Mansur) como este que dizia, como digno representante de uma 'burguesia folclórica' possível nos anos 70 algo assim como:
"...Eu não sou africano
nem norte americano
ao som de viola e pandeiro
sou mais o samba brasileiro"
Bom papo este.
Obrigado pelas considerações, Helena, Spirito, Ricardo e Iracema.
De fato Candeia é figura controversa.
Esta tese, inclusive, pode problematizar seus "fazimentos" de forma mais abrangente...
Aqui, eu quis explorar o choque entre a música e a dimensão política, o que me chama atenção. Como diz o Spirito, ele testemunha e reitera a complexidade do samba na cultura brasileira.
Abraços a todos.
Ps.: Ricardinho, apareça em presença misifio...
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