O fim de semana se anuncia. Calcula-se a última vez que o samba tomou conta desse espaço localizado na Estrada Velha de Maricá, distante cerca de 15 quilômetros do Centro de Niterói, município do Grande Rio. Se não foi no sábado passado, pode estar certo: neste acontecerá a mais tradicional roda de samba do país.
De 15 em 15 dias o Candongueiro abre as suas portas, fazendo reverência a sambistas históricos e consagrados, sem um repertório preestabelecido. A interação com o público é imediata, fazendo toda a diferença em manifestações desse tipo.
A lista de músicos que já se apresentaram ou estiveram no local dando canja é longa. Destacam-se Aldir Blanc, Aniceto do Império, Beth Carvalho, Dudu Nobre, Guilherme de Brito, João Nogueira, Luiz Carlos da Vila, Manacéia, Monarco, Nelson Sargento, Nei Lopes, Noca da Portela, Paulo Moura, Teresa Cristina, Wilson Moreira, Velhas Guardas da Portela, da Mangueira e do Império, Zé Kéti, Zezé Motta, Marisa Monte, dentre muitos outros.
A roda de samba do Candongueiro, formada por violonistas, cavaquinistas, percussionistas e cantores, não tem intervalo. Começa com uma hora dedicada ao choro. Depois, só samba madrugada adentro. A formação do grupo já foi integrada por grandes sambistas de vasto repertório musical, como Eduardo Galloti e Wanderley Monteiro.
No cardápio do bar do Candongueiro, caldinho de feijão, pastelzinho de siri, carne-seca com aipim e sardinha frita. Em dias de casa cheia, chega-se a vender cerca de 120 caixas de cerveja de 600 ml numa noite, além de bebidas destiladas.
Candongueiro, ao pé da letra, é um tambor de barril africano de som penetrante e de longo alcance que, no período da escravidão no Brasil, era usado para chamar escravos para participar das reuniões de jongo nos quilombos. O candongueiro, junto com o tambu e o caxambu, forma a trinca dos instrumentos tocados no jongo.
Para dar esse nome ao espaço que estavam criando, Ilton e Hilda, casal fundador há cerca de vinte anos do Candongueiro, saíram pesquisando expressões em livros de samba. O critério estabelecido seria de um nome de fácil pronúncia. Daí, encontraram a palavra Candongueiro, que, pelo seu significado, combinava com a proposta da nova casa.
Caminho difícil
Ilton, quando jovem, tocava surdo e fazia o próprio instrumento com sacos de cimento e farinha de mandioca. Cortava na medida pedaços dos sacos, lambuzava-os com farinha de mandioca e colava uns sobre os outros, juntando cinco, seis folhas. Posteriormente, colocava tudo em um aro – para, em seguida, prendê-lo em uma lata de ferro. Depois de bem amarrado, expunha ao sol para secar. “O material durava muito e não desafinava”, explica Ilton.
O dono do Candongueiro teve uma infância pobre. Seu pai, que era sambista de carnaval, ganhava pouco. O avô era chorão.
Quando mudou do Centro de Niterói para Icaraí, bairro da mesma cidade, aos 14 anos, fundou um bloco com alguns amigos. “Isso era fim da década de 50, quando ainda se amarrava cavalo na porta de prédio”, lembra. Ilton chegou a cursar geografia na Universidade Federal Fluminense (UFF), mas não conseguiu terminar. No último período, brigou com um professor e largou tudo.
Depois de uma passagem por um órgão de patrimônio do Estado, Ilton foi trabalhar na Biblioteca Pública Estadual, localizada em frente à Câmara Municipal de Niterói, onde atuava na sala de referências do folclore. O local era um prato cheio para quem se interessava pela cultura popular, notadamente na sua expressão musical. Na biblioteca, Ilton trabalhava com tudo que se relacionava a samba.
Certa vez, cerca de vinte alunos o procuraram para obter informações sobre a revolução de 64. Ele, então, pediu para que um dos alunos pegasse um livro na estante da biblioteca. Tratava-se de uma obra cuja versão se diferenciava das adotadas pelas escolas. “Agora vocês vão ver que a revolução não tem nada a ver com o que aconteceu em 64”, disse. “O que houve de fato foi um golpe”, completou. Os funcionários da biblioteca ficavam apavorados com as referências que Ilton oferecia para esses assuntos. Diziam que ele seria preso. Afinal, o país vivia o auge da ditadura militar.
Foi na Biblioteca Pública Estadual que Ilton conheceu Hilda, através de uma prima dela, que também trabalhava no local. Isso era março de 1982. Ilton, naquela época, fazia bico consertando som, prática que aprendeu numa loja. Ele ia à biblioteca à noite e de dia fazia vários serviços para completar o salário de funcionário público. Um dia, o aparelho de som de Hilda escangalhou. Daí, a sua prima chamou Ilton para consertá-lo. Foi uma oportunidade para fazer uma aproximação dos dois. Então, depois, eles marcaram de tomar um chope e desse encontro começaram a namorar. Em um espaço muito curto de tempo, em dois meses de namoro, já estavam morando juntos, em Niterói.
Ilton começou a tocar com mais frequência em 1968, mesma época em que ia ao bloco Bafo de Onça e às quadras das escolas de samba Mangueira e Imperatriz Leopoldinense, no Rio. Também houve uma fase em que frequentava as rodas de samba de Nova Iguaçu, onde acabou conhecendo sambistas como Catoni e Dedé da Portela.
Em meados da década de 70, integrou um grupo chamado Vissungo (Vissungo significa uma cantiga de trabalho da região de Diamantina, no norte de Minas Gerais). O Vissungo, criado por Lula Espírito Santo, se caracterizava como um grupo de resgate musical afro-brasileiro. Naquela época – como ainda hoje –, poucos realizavam esse tipo de trabalho. Isso o fez se aproximar de cantores e compositores ligados a essas raízes, como Clementina de Jesus e Aniceto (o grupo chegou a acompanhar ambos em shows).
O primeiro contato de Ilton com Aniceto foi em Nova Iguaçu. A relação com Aniceto se intensificou porque o compositor frequentava a biblioteca pública onde Ilton trabalhava, para fazer pesquisa de material folclórico. Um dos fundadores do Império Serrano, ele gostava das duas filhas (do primeiro casamento) de Ilton, Tamara e Tayanna, e de sua única irmã, Ilma, para a qual Aniceto chegou até a fazer uma música. Aniceto seria padrinho de Ivan, outro filho de Ilton, dessa vez da união com Hilda, mulher que vive com ele até hoje, mas ficou doente e não pôde.
O Vissungo também desenvolvia um trabalho de crítica social, através de músicas compostas pelos membros do grupo. Era ainda período de ditadura militar. Isso fazia com que tivesse que enviar aos órgãos de repressão sempre antes dos shows as músicas que iriam ser apresentadas. Muitas delas foram censuradas.
No passado, Ilton tocava surdo, conga, agogô, pandeiro (no começo, achava difícil executá-lo; hoje, é o instrumento que toca na roda do Candongueiro) e outras peças de percussão.
Aliás, o seu começo como pandeirista foi inusitado. O grupo Vissungo viajaria com Clementina de Jesus para alguns shows em Curitiba. Seria o primeiro trabalho profissional de Ilton. No ensaio para as apresentações, ainda no Rio de Janeiro, a cantora exigiu que entrasse um pandeirista para fazer a turnê. Ela sugeriu um nome, mas o Vissungo já tinha um trabalho fechado com os participantes do grupo e não cabia entrar mais ninguém.
Para sanar o problema, Ilton arrumou um pandeiro na casa de um amigo de Niterói, que utilizava o instrumento de percussão como bandeja. Na verdade, Ilton estava numa festa na casa desse amigo e viu um pandeiro sendo usado como bandeja. Então perguntou de quem era. No entanto, ninguém sabia. Ilton levou o instrumento, comprometendo-se a devolvê-lo caso o verdadeiro dono aparecesse. Com o pandeiro, Ilton ensaiou dia e noite. Ele ainda não o tocava, ao contrário de outros instrumentos de percussão. A partir daí é que ele aprendeu.
De volta aos ensaios para a turnê com Clementina de Jesus, llton apareceu tocando pandeiro e a cantora aprovou. Ele tem até hoje esse pandeiro (está reformado), mas não o toca mais por ser muito pesado. O referido instrumento ficava até pendurado em uma das paredes do Candongueiro. “Até passarinho fez ninho nele enquanto esteve ocupando espaço na parede”, lembra.
A residência que virou roda
O Candongueiro começou a dar os primeiros sinais de vida nos fundos da casa de Ilton e Hilda, quando o casal organizava rodas de samba só para os amigos. Como começou a encher muito, virou local oficial de samba. Wilson Moreira fez o primeiro show da casa. Deu umas duzentas pessoas, distribuídas por cerca de trinta mesas. Depois foram agendadas apresentações de Luiz Carlos da Vila e Monarco.
Para adquirir a área onde hoje se localiza o Candongueiro, em Pendotiba, Ilton e Hilda deram em troca um sítio que o casal possuía em Teresópolis, onde vivia. Um empréstimo na Caixa Econômica Federal garantiu a aquisição total do imóvel em Niterói, já que o valor do sítio na região serrana do estado era insuficiente para sacramentar a operação somente na base da troca. O terreno em Pendotiba era bem humilde, com uma pequena casa. Um fato que ainda os estimulou a ir para lá foi que alguns de seus amigos já moravam na região.
Antes de adquirirem a área onde hoje é o Candongueiro, Ilton e Hilda chegaram até a alugar uma casa em Pendotiba. Certo dia, viram um pequeno cartaz intitulado “troca-se sítio”. Era a senha que precisavam para se desfazer do sítio de Teresópolis e adquirir um espaço de terra em Niterói para construção da casa de samba.
Um dos motivos que também influenciaram a compra do terreno foi o fato de ele possuir uma enorme mangueira no quintal. Ilton e Hilda imaginavam aproveitar a sua sombra para reunir os amigos para roda de samba. No entanto, o serviço de terraplanagem necessário de ser feito na frente do terreno acabou matando-a.
A partir da mudança de casa, eles começaram aos poucos a construir o Candongueiro. Até o sistema de esgoto tiveram que fazer. A idéia de Ilton e Hilda era, inicialmente, montar o local com ares rurais, com horta, galinha, tudo para consumo próprio.
No início, fizeram uma criação de coelho. A criação era grande e a carne era vendida. Tinha época em que Ilton chegava a matar quarenta coelhos em um único dia. Quando inauguraram o Candongueiro, eles chegaram a servir coelho de petisco. Mas a criação de coelho começou a incomodar o restaurante, devido ao mau cheiro que produzia. Aí, foi o fim da experiência.
No terreno em Pendotiba, o casal ainda teve um bode e um cabrito. O bode, inclusive, foi trazido de Teresópolis. O cantor e compositor Wilson Moreira adorava o animal. Sempre que ele ia às rodas de samba na casa de Ilton, fazia uma visita ao bode. Dizia Wilson Moreira que ele lembrava a sua infância na sua terra natal, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Wilson Moreira trabalhava como carcereiro, no complexo prisional de Bangu. Ilton ligava para lá, o procurava e o convidava sempre para as rodas de samba em sua casa. Os dois se tornaram grandes amigos.
O espaço do Candongueiro levou dois anos para ficar pronto. No começo, foram usadas telhas coloniais, parte delas provenientes de uma igreja de Maricá erguida no século XIX, mas que estava abandonada e em ruínas. Ilton recolheu as telhas e as lavou, uma a uma, com escovão.
Ele recolheu também telhas encontradas enterradas em fundos de terrenos, outras alojadas em locais impróprios, já sendo utilizadas como moradia de bichos e insetos. Assim, conseguiu-se juntar seis mil telhas para cobrir o local onde se dariam as rodas de samba. As telhas deram um aspecto de quilombo ao local, marcadamente espaço de resistência, exatamente o que Ilton imaginava como ideal para uma casa de samba.
Na época em que estava para erguer o Candongueiro, Ilton ainda encontrou uma fábrica de moirão de concreto falida. Chegando lá, se deparou com tudo jogado. Perguntou a quem estava próximo se ele poderia pegar alguns moirões. Atendido, encheu o antigo opala de um amigo com o material e levou embora.
Iniciativas como essas retratam bem a forma como foi erguido o Candongueiro. A madeira utilizada também havia sido recolhida das imediações do sítio onde seria instalado o espaço de samba. Ilton botou a mão na massa na construção da casa, junto com algumas poucas pessoas.
O fato interessante é que Ilton ainda não sabia bem como erguer o Candongueiro. O material recolhido ia se instalando no local do jeito que dava. Não havia um planejamento seguro de erguê-lo. Ilton lembra que amarrou com cipó a sustentação do telhado do Candongueiro.
Os primeiros que ajudaram a construir o Candongueiro eram pessoas de Várzea das Moças, região vizinha à casa. Depois, veio ajudá-los um pessoal de Porciúncula, município do Norte Fluminense. Tratava-se de pessoas que estavam fazendo um serviço perto do futuro Candongueiro. Quando terminaram, foram trabalhar com Ilton. Eram jongueiros e voltavam uma vez por mês para sua cidade natal. Assim, dormiam no local da obra do Candongueiro. Nas festas que Ilton dava em sua casa, eles também participavam. Ainda na construção, nas horas de folga, à noite, os empregados tocavam e cantavam jongo. Ilton ia lá acompanhar as rodas e, junto com os empregados, se deliciava com a cachaça que era servida.
Noite inesquecível
A noite mais emocionante do Candongueiro foi a homenagem a Aniceto, na época com 79 anos. Conhecido pela sua intimidade com os ritmos africanos, Aniceto tinha enorme capacidade de improvisar partido-alto. Compôs em sua vida lundus, sambas e afoxés. Como de praxe, todos os presentes eram gente que gostava de samba. Então, ver e ouvir Aniceto ali era muito importante para os presentes.
O Aniceto, nessa homenagem no Candongueiro, já estava cego. Porém, sua postura de líder impôs respeito no ambiente. A hora em que assinou o pôster para entrar na galeria dos homenageados – em uma das paredes do Candongueiro, imagens de sambistas, feitas em sua maioria pelo artista plástico Floriano de Carvalho, são dispostas uma ao lado da outra – foi muito comovente, já que tiveram que conduzir a mão dele até o quadro. Ele estava cego por causa da diabete.
No instante em que Aniceto encerrou a sua apresentação, ele saiu em direção à porta, indo embora do local, cantando a música que sempre encerrava os shows dele: “Eu já vou embora, lá lá lá lá lá lá lá...”. E o pessoal o foi acompanhando até o portão, mesmo com a chuva que caía naquele momento. A apresentação foi tão emocionante que se viam várias pessoas chorando. Aquilo marcou muito para todo mundo que estava lá. Não havia mesa de som, tampouco microfone na apresentação de Aniceto. Nessa época, logo nos primeiros anos de vida do Candongueiro, os shows com artistas populares aconteciam no primeiro domingo de cada mês.
De 1993 a 1996, o Candongueiro esteve em silêncio, pois a casa não vinha dando retorno aos seus donos, e eles a fecharam nesse período. O público estava escasseando. Alguns, porém, protestaram. Foi feito até um abaixo-assinado pelos frequentadores. Assim, o Candongueiro teve duas fases de funcionamento. A primeira no início da década de 90, e uma outra a partir de meados de 90.
A reabertura foi com show de Luiz Carlos da Vila, já falecido. Dessa vez, o Candongueiro passou a ser aberto uma vez ao mês (no último sábado do mês). Só que começou a ficar muito cheio e decidiu-se, então, abri-lo de quinze em quinze dias. Na época, a casa não tinha o espaço que tem hoje. Numa ocasião, chegaram a testar abrir a casa semanalmente, mas voltaram a fazer de quinze em quinze dias, porque concluíram ser a melhor opção para um lugar como o Candongueiro, distante tanto do Rio como do Centro de Niterói.
Encontros com sambistas
Antes de Ilton e Hilda montarem o Candongueiro, já se fazia roda de samba entre os amigos lá na casa deles, numa pequena varanda. Frequentavam a casa sambistas como Monarco, Wilson Moreira, Luiz Carlos da Vila, Nelson Sargento, Délcio Carvalho. Hilda fazia canja de coelho, pastel. Na época, eles já tinham freezer, onde colocavam as cervejas para vender para o pessoal que frequentava a cada deles. Hilda se lembra bem das noites de frio, quando o pessoal ficava envolto em cobertores cantando samba. Pendotiba é a região mais fria de Niterói.
Um dia, um amigo deles pediu o sítio a Ilton para fazer uma festa para sua mulher, Rosane. Ilton e Hilda, preocupados que chovesse no dia, resolveram montar um quiosque de sapê para a festa, porque o espaço disponível na casa do casal era pequeno. A idéia de fazer um quiosque de sapê era porque sairia barato também. Além disso, Ilton e Hilda já tinham desejo de erguer um pequeno pavilhão na área recém-comprada.
O quiosque foi montado onde existia a enorme mangueira morta quando foi feita a terraplanagem no terreno. Para montá-lo, utilizou-se muita madeira que já existia espalhada pelo terreno. Muita gente foi convidada para essa festa. A comida a ser servida seria à base de coelho. A festa fez tanto sucesso que o amigo que pediu o sítio emprestado sugeriu que fizessem uma roda todo mês nesse novo lugar criado de sapê.
Vale lembrar que naquela época havia pouca roda de samba no Rio. Então isso facilitou o estabelecimento do local como um espaço do gênero. Muita gente, por falta de opção, encontrou na casa de Ilton um bom lugar para frequentar, apesar da distância. Todo o movimento da Lapa em torno do samba não existia. Enfim, o negócio foi crescendo porque os amigos traziam mais amigos ao local.
Apesar de barato, o quiosque deu muito trabalho para ser erguido. O sol forte foi o primeiro obstáculo. No fim das contas, o quiosque acabou se tornando uma extensão da casa. Naquela época, a casa de Ilton e Hilda era muito pequena. Tinha ela dois quartos, um banheiro, uma sala e uma cozinha, e duas varandas, uma na frente e outra atrás da casa. Também construíram ao lado da então humilde casa uma cobertura onde montaram um fogão a lenha. As comidas das festas naquela época eram feitas nesse fogão.
O quiosque recém-construído ficava bem ao lado da casa. Apesar de receber tanta gente, o espaço conseguiu abrigar apenas os músicos. O pessoal ficava, portanto, em volta dos músicos e do próprio quiosque. Esses encontros fizeram com que Ilton e Hilda passassem a conhecer ou ganhar intimidade com muita gente do samba. Naquela época, a maioria das rodas começava à tarde e varava a madrugada. Vale registrar que o Candongueiro ainda não estava estabelecido – isso era fim da década de 80.
Forró e gafieira
O Candongueiro, na fase inicial, também abria às quintas, sextas, sábados e domingos, sempre com shows musicais. Chegou a ter shows de forró, com o grupo Som Forró. Naquela época, o forró ainda não havia ressurgido no cenário musical brasileiro. Um grupo chamado Lemy Ayô se apresentava tocando música baiana, sem rótulo. “Era uma espécie de Olodum”, lembra Ilton. Havia ensaio do grupo aos domingos. Eles tinham fantasias. Foi também programada por três vezes gafieira, com orquestra e tudo.
No começo do Candongueiro, existiam poucos estabelecimentos dedicados ao samba no Rio de Janeiro. Por conta disso, a casa atraía muitos cariocas. Ilton e Hilda calculam que 90% dos frequentadores do Candongueiro eram do Rio de Janeiro.
O dia de roda de samba que mais durou teve a presença de Beth Carvalho. Ela começou 22 horas de sábado e terminou às 10h30 no domingo. Não era apresentação da cantora. Beth nunca fez show no local. Ela foi várias vezes a casa, espontaneamente.
Ilton não chama para se apresentarem no Candongueiro sambistas que não levantam o público, apesar de serem talentosos. “O cantor, se cantar para baixo, vai fazer o público ir embora da casa”, justifica. Para ele, a pessoa que faz samba, seja intérprete, seja compositor ou músico, tem que incorporar a forma de expressão do samba do Candongueiro. Ilton é frequentemente abordado pelo telefone por gente interessada em se apresentar lá. Além disso, recebe muitos CDs e fitas.
Atualmente, o público do Candongueiro é composto, em sua maioria, por jovens de Niterói, não muito conhecedores do gênero musical que domina a casa, mas dispostos a saber do que se passa em um ambiente autêntico de roda de samba. Ilton e Hilda atribuem essa mudança principalmente ao número expressivo de opções de casa de samba existentes hoje no Rio, o que faz com que os cariocas que têm simpatia pelo gênero não atravessem a Ponte Rio-Niterói.
Porém, para manter o espírito inicial do projeto de resistência de reunião de amantes do mundo do samba, aos domingos à tarde, uma vez ao mês, o Candongueiro organiza roda voltada a esse público. A casa enche. Prova de que seu conceito continua intacto.
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