Canto para quem?

Montagem - Thiago Camelo
1
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ
3/11/2008 · 181 · 20
 

Certa vez, em uma entrevista via webcam, pedi para o interlocutor do outro lado da tela levantar e mostrar um pôster no fundo do seu quarto. Recebi uma resposta um tanto constrangida: "É..., não leva a mal, mas não posso, estou de cueca".

É o tipo de declaração que faz pensar. O que vem à cabeça, de pronto, é a pergunta: em que outra situação um entrevistado mostra o rosto para uma câmera estando de cueca?

Nunca conversei muito por webcam, mas nas poucas experiências experimentei um misto de estranhamento e privacidade. Estranhamento pela falta de hábito, não é corriqueiro como o telefone. Privacidade porque, mesmo tão perto de quem se está conversando, a paisagem em volta ainda é o conforto do seu lar.

E é no conforto do lar e com uma webcam que se grava, atualmente, música. Uma das experiências mais bacanas da internet está acontecendo no YouTube. Desde o lançamento do site, centenas de pessoas publicam a própria interpretação da canção de seu artista favorito. O que começou com uma onda de paródia, como no caso dos Backstreet Boys chineses, foi se transformando em uma singela coleção de execuções pessoais de canções famosas. Nesses dias, João Brasil, cantor-hit da internet, lançou um videoclipe bacana em que compila vários fãs cantando o seu single Baranga.

O primeiro a me chamar atenção para esse movimento foi meu irmão Marcelo, que sempre chega com um novo link de alguém tocando suas músicas. Ele adora. E isso acontece há algum tempo, desde antes do lançamento do seu CD solo, ainda à época do Los Hermanos. No caso dele, foi até engraçado. Depois de tocar uma única vez Liberdade no programa da Leda Nagle, música inédita até então, choveram versões no YouTube. Acontece até hoje com obras não registradas em CD algum. Por exemplo: Bom dia, canção executada pouquíssimas vezes em alguns shows dos primórdios dos Hermanos, também ganhou interpretações. Uma delas é arrebatadora. Embora não captada por uma webcam, é regida pela mesma naturalidade - um rapaz canta no seu casamento para a mulher, numa execução tão amadora quanto cativante.

Não é mais um discurso de "faça-você-mesmo e vai estourar", porque a questão não é essa. Milhares já ganharam fama com a internet. Fama e dinheiro, como é o caso da menina holandesa que foi descoberta quando cantava para "ninguém". Mas a imensa maioria continua anônima. É instigante pensar as motivações que levam o sujeito a gravar músicas dos outros e jogar no YouTube. Mas não acho mesmo que seja para se fazer conhecer. Sei lá o motivo real. Num primeiro momento, parece ser a razão pela qual tantos postam vídeos sobre qualquer coisa; claro, também não sei por que se faz isso. Acho que qualquer previsão é um chute tremendo. O fato é que o próprio YouTube tenta, por meio de uma seção, organizar esses anônimos e dar alguma forma à dispersão musical. Mas esbarra no seu tamanho e tudo continua muito confuso.

Talvez seja melhor assim, quando a pessoa continua anônima e à vontade. Quando o fato de esquecer a letra, desafinar e tocar errado soa menos importante do que executar a canção da qual se gosta. Daí, do quarto e da privacidade de cada um, saem as pérolas da internet, como no caso das dezenas de interpretações de arrepiar de Você é linda, do Caetano, ou Tchubaruba, da Mallu Magalhães. Vêm do que de melhor a rede e a tecnologia podem oferecer, que não é fama ou possibilidade de ganhar dinheiro, mas sim fazer o que quiser do modo que se quiser - e mostrar para alguém, se for o caso.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Yusseff Abrahim
 

E que "alguém" heim, Thiago?
De um grupo de amigos ao "todo mundo" as motivações podem percorrer a simples vontade de escracho até o mais sincero dos sentimentos.
Uma pena que ele tirou, mais um amigo descobriu que a menina que ele estava afim gostava de uma música. Ele passou um mês aprendendo a tocar apenas aquela música com a ajuda de um amigo em comum músico, gravou com um curto e humilde texto de introdução e mandou a performance. Postou no You Tube e mandou um e-mail com o link para o ela. Devem estar há quase um ano juntos.
Abração Thiago!!!

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 31/10/2008 12:14
sua opinião: subir
Sergio Rosa
 

Acho que esse lado amador da internet é o mais divertido e é também o seu motor.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 31/10/2008 15:10
sua opinião: subir
Ilhandarilha
 

Thiago, seu texto me lembrou um outro do Bernardo, O Paradoxo do Blockbuster Digital, onde ele também fala do youtube. Cara, eu acho o youtube fascinante. Não tenho muita paciência de postar coisas lá, mas gosto de passear pelos vídeos. E nesses passeios já encontrei coisas muito legais.
Essa visibilidade do amador, que, pelo excesso, é quase uma invisibilidade, é bem interessante. Mas alguns amadores do youtube acabam se tornando profissionais. Acho que é o caso da Malu Magalhães, que ficou conhecida a partir do youtube. Nesse aspecto o lema do youtube é demais, mesmo!

Ilhandarilha · Vitória, ES 31/10/2008 23:28
sua opinião: subir
Ilhandarilha
 

Aliás, é a Malu que canta Janta com o Marcelo? (gostei das músicas!)

Ilhandarilha · Vitória, ES 31/10/2008 23:36
sua opinião: subir
Thiago Camelo
 

Opa gente, valeu a leitura!

Yusseff, essa história é muito boa. Queria ver o vídeo :)
Ilha, a Mallu bombou no myspace, e não no Youtube. Mas se vc parar pra pensar, a lógica não é muito diferente. Tem uma matéria legal na Bravo sobre a história da Mallu. Não me canso de dizer: ela é o maior exemplo brasileiro de sucesso via internet, novas tecnologias, web 2.0 etc etc etc. Eu acho muito bom! É a Mallu que canta Janta sim, Ilha. Beijo!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 1/11/2008 13:21
sua opinião: subir
Ilhandarilha
 

É verdade, Thiago, a lógica é mais ou menos a mesma. Lembrei de pelo menos 2 casos de bandas daqui que, mesmo antes de bombarem por aqui já eram conhecidas no Brasil todo graças à internet: Dead Fish e Mukeka di Rato!

Ilhandarilha · Vitória, ES 1/11/2008 13:58
sua opinião: subir
ronaldo lemos
 

Fala Thiago, excelente a sua materia. Vale dar uma uma olhada nesse video aqui (pena que so' tem em ingles) para algumas reflexoes e mais exemplos interessantes sobre o fenomeno.

abs!

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 1/11/2008 14:47
sua opinião: subir
Andre Pessego
 

Legal, parabens e em seguir-se- seguir- seguirmos,
]abraço

Andre Pessego · São Paulo, SP 2/11/2008 07:56
sua opinião: subir
Cristiano Melo
 

Thiago, boas suas reflexões nesse novo meio de comunicação, cada vez mais cheio de sinais e símbolos próprios, aponto de criar a sua própria linguagem e cultura.
Parabéns
abços

Cristiano Melo · Brasília, DF 2/11/2008 08:24
sua opinião: subir
Rodrigo Teixeira
 

Muito bom Thiagão. E fico pensando onde tudo isso vai parar. E tb como era tudo antes. Me lembro dos tempos que pegava a fita K-7, colocava no gravador bem tosco e gravava minhas primeiras músicas que iriam ser ouvidas depois pela mesma k-7... e isto já era o máximo.
abs

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 3/11/2008 00:06
sua opinião: subir
Claudia Almeida
 

:)beijos

Claudia Almeida · Niterói, RJ 3/11/2008 03:18
sua opinião: subir
Viktor Chagas
 

Acho bacana a reflexão, mas fico pensando que há um motivo que para mim não é tão incompreensível assim para o cara cantar uma música famosa. Acho que é próximo, por exemplo, do cara que canta o repertório de mpb em uma churrascaria. O objetivo, é claro, é mostrar o seu arranjo particular, a sua unicidade. É mais fácil comparar e descobrir um talento cantando uma música famosa. Mais ou menos como acontece tb no teatro. E como acontece tb nas artes plásticas, onde os aprendizes aprendem copiando os mestres (ou era assim até o século XIX hehe).

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 3/11/2008 13:54
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Adorei os links e os comentários, que complementaram muito bem a história toda. Yusseff, adorei esse episódio, quase uma serenata virtual! E estou no meio do ótimo vídeo que o Ronaldo mandou, que de fato dá uma excelente contextualizada nesse momento interessante que estamos vivendo. Abraços!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 3/11/2008 19:29
sua opinião: subir
Luciano Carôso
 

Caro Thiago, interessante sua reflexão. O "pai" do termo ciberespaço, Wilian Gibson, uma vez disse numa entrevista que se ele procura por alguma coisa no Youtube, seja ela qual for, e não encontra, fica então convencido que tal coisa não existe. Claro que essa afirmação é um tanto sofismada. Mas acredito que Gibson queria com isso chamar atenção para essa possibilidade ilimitada que o Youtube tem como forma de expressão. É isso que é fascinante nessa ferramenta. A minha opinião é um pouco diferente da de Viktor. Talvez os objetivos iniciais dessas pessoas sejam os mesmos dos do século XIX. Mas como as possibilidades são do século XIX, ainda não se pode saber direito onde isso tudo vai dar. Quanto à ótima dica do vídeo feita por Ronaldo (obrigado amigo, este vídeo certamente será muito importante para o meu trabalho), ainda não estive por lá mas se pode tentar o dotsub.com para uma versão legendada.

[]s,

LC

Luciano Carôso · Salvador, BA 7/11/2008 21:57
sua opinião: subir
Luciano Carôso
 

Ah, Thiago, esqueci de dizer uma coisa: acredite se quiser mas eu estava pensando em fazer uma montagem com imagens capturadas dos vídeos que eu menciono em meu texto, exatamente como você fez. Agora vou ter que arrumar uma outra solução ou então lhe pagar royalties :-).

Luciano Carôso · Salvador, BA 7/11/2008 22:04
sua opinião: subir
Inês Nin
 

muito boa a matéria, Thiago. concordo muito com Sérgio Rosa no comentário lá em cima. para um lado mais comédia, um dos meus vídeos favoritos do youtube é um de um povo que fez pra concorrer no concurso lançado pelo OK Go, e fica hilário justamente porque nada sai certo.. mas as pessoas se divertem muito!

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 8/11/2008 01:12
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Thiago Camelo
 

opa, valeu de novo pelos comentários, gente. essa participaçao, acho, é tao ou mais importante que o próprio texto.

luciano, vai fundo se quiser pegar minha foto hehe. seria só uma questao de nao se importar com a originalidade (nao que eu tenha sido original hehe) - aqui estamos todos em Creative Commons, nem teria como ser o contrário.

Opa Inês, bom ver que vc continua por aqui pelo site! Acho que o próprio OK GO foi uma banda que conseguiu entender e explorar essa estética do faça-vc-mesmo, mas que depois se perdeu na repetiçao, ne? E aí o mais legal eh quando tudo sai errado e vira vida de novo. Vc teria o link disso pra eu ver? Abraços a todos!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 8/11/2008 15:27
sua opinião: subir
giselle sato
 

Muito boa matéria. Textos inteligentes são sempre inspirações.

giselle sato · Rio de Janeiro, RJ 7/12/2008 16:07
sua opinião: subir
Inês Nin
 

http://www.youtube.com/watch?v=eZf02zbBNCk&feature=channel_page :)

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 6/4/2009 03:16
sua opinião: subir
Ilana Eleá
 

Ja aprendo tanto o que voce escreve que fico com medo dos links. Quero labirintar mais nao, preciso de freio.

Ilana Eleá · Rio de Janeiro, RJ 11/4/2009 23:12
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados