Caravana high tech

Helena Aragão
1
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
23/5/2006 · 133 · 17
 

Este texto é o segundo da minha "saga" acompanhando duas caravanas do Pixinguinha, o projeto que permite que músicos de todo o país viajem por todo o país para fazer shows. Para quem não sabe: o projeto é da Funarte, fez história ao promover caravanas de 1977 a 1997 e, depois de um intervalo grande, voltou a ser realidade em 2004. Mas este ano vai sofrer um novo break, como conto no texto a seguir:

Saí de Florianópolis, onde assisti a um show típico do Projeto Pixinguinha, com choro, música tradicional e regional, e segui para Natal, onde chegava uma caravana “muderna” para os padrões do evento, fosse na música, fosse no backstage. Digamos que era um pessoal high tech. Explico: o grupo de músicos que acompanhava as três estrelas principais (os gaúchos Vitor Ramil e Flu e a carioca Katia B) era o mais conectado que já vi. Bem condizente com o som produzido por Flu e Katia, ambos com um pé no eletrônico. Eram pelo menos três laptops e um punhado de ipods fazendo a alegria da garotada, sem contar as câmeras digitais – até onde vi, já havia mais de 600 fotos e pequenos vídeos só daquela turnê. Tudo era motivo para registro: a performance da galera no surf (Nordeste + praia + um monte de homem, só podia dar nisso), as festinhas no apê (ou melhor, nos quartos de hotel), as passagens de som, os almoços... Na verdade, essa caravana merecia mais um making of do que um texto de bastidores! Quando cheguei eles já estavam na estrada há alguns dias, já tinham feito shows em Aracaju, João Pessoa e outras capitais nordestinas. Ou seja, a integração já estava a pleno vapor, os músicos do sul já íntimos dos cariocas. Passaria três dias com eles, em Natal e em Mossoró, a quase 300 km de distância.

As horas de folga eram dedicadas a tudo isso e a conversas sobre a única questão que parecia incomodar um pouco a turma: por que seria que os shows estavam tendo um público aquém do esperado? O espetáculo estava redondinho, como pude conferir no dia seguinte (conto mais sobre ele abaixo). Era bonito e por isso merecia ser visto por muitos. Mas nem tudo são flores na estrada. Muitas justificativas foram cogitadas, e era bacana acompanhar as conversas deles sobre isso. A produtora Débora Cruz cogitava: “Se esta caravana fosse no Sudeste ou no Norte, talvez fosse bombar. Aqui no Nordeste talvez este tipo de música ainda não pegue muito”. Será? Outra hipótese envolvia o próprio estilo da turma: em geral o PP leva shows de MPB e samba aos estados e nenhum dos três artistas se enquadrava nas definições literais dos dois gêneros. Um “Projeto Pixinguinha Pop” poderia ter afastado os habituais freqüentadores do projeto?

Fosse como fosse, a resposta do violonista Eugenio Dale a tudo isso me pareceu muito razoável: “É, os teatros estariam cheios se estivéssemos em outra região e o público do projeto pode não estar mesmo acostumado com nosso som. Mas por isso mesmo é muito importante a gente vir para cá, ter contato com este público. É uma oportunidade valiosa!” E foi nesse espírito mesmo que eles cruzaram o Nordeste, em geral em teatros grandes que ajudavam a dar a impressão de que “não bombavam por lá”. Um exemplo: um público de 500 pessoas não é pequeno, certo? Mas num teatro como o Castro Alves, em Salvador, com 1.500 lugares, parece pouca gente...

Os artistas

Não conhecia bem Vitor, Katia e Flu antes da viagem. Deu para constatar que não era só no palco que a energia deles fluia: os três têm uma tranqüilidade e um lado cool que os aproxima. Flu é um ser da paz, está sempre na boa, é uma simpatia e um bom papo. Ex-baixista do De Falla, viciou em experimentar as possibilidades eletrônicas e parece muito à vontade neste caminho, que já resultou em trabalhos com bandas como Totonho e os Cabra. Seus dois discos – No flu do mundo e E a alegria continua – estão esgotados, mas podem ser ouvidos aqui.

Katia tem cara de estrangeira (que se justifica por seu sobrenome: Bronstein) mas é carioca da gema. Largou a carreira de atriz-bailarina-cantora (quando foi uma das louras do grupo de Fausto Fawcett) para se dedicar unicamente à terceira parte do tripé. No fim da década de 90, ela, que é mulher do João Barone, dos Paralamas, foi uma das pioneiras na hoje comum mescla de música brasileira com elementos eletrônicos.

Katia canta muito bem e tem uma carreira coerente. Seus dois discos (Katia B e Só deixo meu coração na mão de quem pode) são bem autorais, com parcerias com Pedro Luís, Suba e Fausto Fawcett. É algo bem raro num país acostumado a cantoras-intérpretes. E ela, na verdade, diz que só agora se sente à vontade para mostrar sua porção intérprete ao público. “Para mim não é simples cantar a música de um ídolo. É preciso ter algo muito pessoal e diferente para justificar isso. Agora me sinto preparada de brincar de Madonna, de Carmen Miranda, como faço no show”, explicou-me.

Bom, falta falar do Vitor. Mas foram tantas conversas boas com essa pessoa que vou dedicar um texto só para ele, já já, aqui no Overmundo. Até porque este texto já está grande e ainda tenho que falar do principal:

O show

Em Natal, o teatro colaborava para se ter noção exata do público. Era médio, simpático, num bairro muito comercial que poderia ter paralelo, sei lá, com Madureira. Seus 200 lugares foram praticamente tomados, a platéia ficava perto dos artistas, o clima era intimista. Diferente do show que vi em Floripa, em que Almir Gabriel, Trio Madeira Brasil e um trio de música caipira faziam shows separados e só se reuniam no final, aqui as atrações eram todas entrelaçadas numa espécie de análise combinatória: Vitor e Katia, Katia e Flu, Vitor e Flu e os três juntos. Isso se justificava pela relação do trio: Vitor já cantava uma música do De Falla (“Não me mande flores”, que entrou no show), Katia já participou de um disco de Vitor e já gravou música dele (“Que horas não são”, também incluída no setlist), e por aí vai.

A platéia tinha desde fãs do Flu até velhinhos que estavam ali exclusivamente por se tratar do projeto Pixinguinha. Vitor entrou no palco sozinho e fez bonito com músicas como “Não é céu” e o seu maior hit, “Estrela, estrela”. Sua obra tem belas canções e muitas vezes assume uma pegada rock que pode fazer sucesso, na minha opinião, em qualquer região do país. Katia mostrou que, além de ter uma bela voz sem afetações, sabe fazer um show sensual e coeso na música e na postura. Apresentou suas canções e mandou bem também como intérprete de "A Rã" (de Caetano e João Donato), "Rainha do Mar" (Dorival Caymmi) e "Music" (Madonna). Flu fez uma festa de cabeças balançando ao som de sua música e conversou muito com a platéia, sobretudo sobre as possíveis relações entre os dois “Rios Grandes” - do Sul e do Norte. Dois extremos do país que estavam ali representados, e se curtindo. Talvez eles tenham muito mais a ver que o nome semelhante.

O Pixinguinha ajuda a mostrar que, de certa forma, a empatia entre as pontas do Brasil tem muito potencial para crescer. Agora o grande suspense fica por conta do futuro do projeto. Esta viagem que acompanhei foi uma das últimas deste ano. Por ser ano eleitoral, a lei não permite que as caravanas sigam na estrada. E resta a dúvida para a equipe de produção: fazer ou não fazer edital para o ano que vem? Em entrevista a um jornal de Natal, o coordenador de música popular da Funarte Pedro Paulo Malta sonha em voz alta: “Gostaria de colocar as caravanas na rua no ano em que o projeto completa 30 anos de vida”. Vamos torcer para que essa seja realidade, dando Lula, Alckmin ou quem tiver que dar.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Marcelo Rangel
 

Helena, não sei se esse comentário pode ter alguma utilidade, mas aqui em Aracaju esse show do Vitor e da Katia ficou vazio, às moscas, creio que por falta de uma divulgação mais intensa.

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 19/5/2006 19:53
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
wado
 

Gostei muito do texto Helena, leve e divertido. Só uma pequena correção o disco do Flu é "No Flu do Mundo". Dá realmente pra sentir o clima da caravana e ele serve também como uma instiga pra longevidade do Projeto.

wado · Maceió, AL 20/5/2006 10:44
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Marcelo, pois é, realmente eles comentaram que ficou vazio, uma pena. Por isso achei tão interessante acompanhar as discussões sobre os motivos para essas coisas terem acontecido em determinadas capitais... Wado, brigadão pela correção, já mudei lá (a fila de edição é uma ótima mesmo para que a gente perceba esses errinhos). Valeu!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 20/5/2006 23:07
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Gilvan Costa
 

Oi Helena. Ficou massa o texto. A tristeza é saber que o projeto pode ser interrompido novamente, criando um novo lapso até que ele possa ou não retornar à tona. Um músico aqui de Roraima, Sérgio Barros, é um dos integrantes da caravana nesta terceira etapa (tocou em Niteroi no dia 16). O PP continua sendo um excelente canal para divulgar a cultura musical desse Brasilzão, de Norte a Sul. Vida longa ao PP.

Gilvan Costa · Boa Vista, RR 22/5/2006 11:46
sua opinião: subir
Esso A.
 

ei, a cobertura tá boa, nos dando uma idéia de como as coisas se dão com este projeto, que já foi, está sendo e poderá continuar a ser muito importante para a música basileira.
te sugiro que inclua em postagem posterior qual deverá ser o caminho para que os interessados em se inscrever possam continuar consultando os realizadores.

Esso A. · Natal, RN 22/5/2006 23:24
sua opinião: subir
Carol Assis
 

Não é o tópico do seu texto, mas o Marcelo tocou num ponto importante, a divulgação do projeto em Macapá também é bem deficiente. Só que o Projeto Pixinguinha é uma das poucas oportunidades que temos pra ver artistas de outros Estados por estas bandas (Imagina a importância que isso tem?), então meio que assimilamos que os shows aqui rolam sempre a partir do dia 20 de cada mês, e fica todo mundo na expectativa. Geralmente dá lotado! E hoje vai ter espetáculo com o músico piauiense radicado em Goiás Chico Aafa, o cantor e compositor catarinense Luiz Gayotto e o grupo instrumental paulista Qu4tro a Zero e, acompanhados por Alfredo Bello (baixo, sampler e teclado), Evandro Gracelli (guitarra e voz), Felipe Valoz (violão) e Nina Blauth (percussão e voz).

Carol Assis · São Paulo, SP 23/5/2006 15:11
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Mas será que o problema é só divulgação? Acho que deve variar de cidade para cidade. E pelo que ouço falar do projeto, em geral os shows ficam cheios mesmo... Acho que esse caso da caravana que acompanhei foi emblemático para mostrar a importância do Pixinguinha para a formação de platéias por todo o país.

Esso, coloco o link para o site da Funarte, acho que lá você consegue mais informações. A questão é que ainda é impossível saber se o projeto vai continuar!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 23/5/2006 15:50
sua opinião: subir
Gabi Almeida
 

Helena, como o projeto é rico em estilos e possibilidades! E´m relação à receptividade, acredito que o público só pode gostar do que conhece e o papel do projeto é exatamente esse: fazer com que ele conheça a diversidade da MPB. Todos cumpriram o seu papel. Vale ressaltar o patrocínio da Petrobras, fundamental desde a retomada do projeto desde 2004. Um abraço e parabéns por mais esse texto primoroso, Gabriela

Gabi Almeida · Rio de Janeiro, RJ 23/5/2006 16:51
sua opinião: subir
Ronaldo Fernandes
 

Helênica,
aposto que a caravana teve um astral todo especial com a sua presença. Aposto também que, além dos shows, você curtiu idem a companhia desse pessoal (e eles a sua, óbvio). Pela sua descrição, eles são bem cool como você.
Gostei bastante da matéria e, pelo texto, deu pra ter uma idéia bacana do que foi esse passeio musical pelo Nordeste. PP (Partido Pixinguinha) em 2007!!!
Grande beijo, Ronaldinho.com

Ronaldo Fernandes · Rio de Janeiro, RJ 24/5/2006 11:03
sua opinião: subir
Yuno Silva
 

realmente a divulgação do PP deixa a desejar, praticamente só circulam cartazes, e em Natal o público sempre (eu disse sempre!) lota o teatro Sandoval Wanderley por 4 motivos básicos:

1. preços convidativos
2. atrações de alto nível
3. oportunidade quase que única para assistir shows que normalmente não chegariam à cidade
4. o lugar é pequeno

infelizmente não pude ir nesse dia, mas vi um show do Cases com Xangô da Mangueira muito muito bom.

Yuno Silva · Natal, RN 24/5/2006 15:29
sua opinião: subir
Pedro Paulo Malta
 

Yuno,

Henrique Cazes com Xangô não seria má idéia, mas acho que você juntou a última caravana do ano passado (Henrique + Cida Moreira + Sérgio Souto) com a primeira deste ano (Xangô + Tavinho Moura + Jongo da Serrinha).

Salve o Projeto Pixinguinha!

Pedro Paulo Malta · Rio de Janeiro, RJ 26/5/2006 11:15
sua opinião: subir
FLU
 

Helena querida! Muito legal o teu texto!
Eu como participante dessa caravana só posso falar que foi uma experiência única. Conhecer pessoas legais e tocar com elas foi realmente emocionante. Maravilha também em ir nessa área linda do nosso país. Valeu Wado por lembrar que o link é só pra o disco "No Flu do Mundo". Breve colocarei o ...e a alegria continua pra baixar gratuíto também. ABS

FLU · Porto Alegre, RS 26/5/2006 15:33
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

FLU! Que honra ter um comentário seu por aqui, rapaz! Que bom que gostou! Bem que você podia botar o ... e a alegria continua aqui no Banco de Cultura do Overmundo, hein! Dou a maior força! Beijo!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 27/5/2006 16:22
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
FLU
 

TEntei colocar lá via Bitorrent.
http://www.overmundo.com.br/banco/produto.php?produto=447
Pode conferir pra mim se tá rolando por favor?
É o disco e a alegria continua!

FLU · Porto Alegre, RS 27/5/2006 20:42
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Valeu, Flu, deu certo! Para quem quiser baixar o CD ... E a alegria continua, o link está aqui. Recomendo!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 1/6/2006 13:23
sua opinião: subir
Makely Ka
 

Acho controversa essa teoria de que a falta de grande público é um problema. O equívoco de parte dos artistas brasileiros é a ingenuidade de querer atingir um grande público ao invés de buscar atingir o “seu público”. Dia desses a Ná Ozzetti - que fez parte de uma das caravanas do Pixinguinha o ano passado - retornou a BH e se apresentou no Museu de Arte da Pampulha, que é um espaço pequeno, comporta no máximo 250 pessoas. Foram duas apresentações seguidas completamente lotadas. A segunda não estava prevista! Essa apresentação dela eu considero um dos desdobramentos possíveis de projetos como esse. Veja bem, ela não se apresentou no Grande Teatro do Palácio das Artes - que é mal comparando o nosso Canecão - e talvez nunca se apresente. A lotação do Grande Teatro é 1.700 pessoas. Mas isso não é um problema para ela como não é um problema para muitos artistas que atuam na contra-indústria há alguns anos e tem clareza de objetivos e consciência de realidade. Então, eu quero muito que o Pixinguinha continue, mas por outro lado eu também não quero depender do Pixinguinha. Quero que o Silvério por exemplo, que esteve aqui numa das caravanas, volte com seu espetáculo. Da mesma forma quero voltar a Recife, independente da Funarte, e me apresentar lá também. Acho que já é hora de criarmos nossa própria rede de cultura, fora dos grandes esquemas.

Makely Ka · Belo Horizonte, MG 12/7/2006 03:29
sua opinião: subir
Aepan
 

A música brasileira agradece seu talento... Belo histórico...
Airton
Estrela-RS

Aepan · Estrela, RS 9/5/2008 10:14
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados