CARAVANA HIP HOP [sobe o vidro!]

Pedro Rocha - Grupo TR.E.M.A.
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Pedro Rocha · Fortaleza, CE
7/4/2006 · 53 · 3
 

Os amortecedores da Kombi 97 são feito uma ninhada de pinto correndo do latido confuso das portas frouxas e das maletas com o equipamento do DJ Doido. Zequinha no volante, o rumo é o bairro do Pirambu. Nesse domingo de Ceará e Fortaleza no Castelão, a Caravana Hip Hop vai se encerrar ali na pracinha do Abel, na rua Santa Elisa. O objetivo é levar os três pontos. Break, DJ, Basquete de rua.

Pirambu? “Vala me deus, sobe o vidro!” São uns 295 mil habitantes ali na beira do mar, logo depois da praia Leste Oeste, copacabosta, um tanto distante da de Iracema e Beira Mar, reduto dos que vêm sedentos por “litoral nordestino”. Daqui de cima da avenida o mar está bonito, a galera surfa, pega um bronze, 9 e meia, solzão.

O Grande Pirambu inclui o próprio Pirambu, Nossa Senhora das Graças, Cristo Redentor, Colônia, Tirol, Cacimba dos Pombo, Goiabeiras... Favela metrópole, “tem de tudo aqui dentro”, comenta Zequinha. Bairro conhecido [conhecido... por quem?] pela criminalidade, boca quente. E é justamente por essa percepção que a Caravana chega em 3 kombis e um caminhão nesse domingo. Os bairros escolhidos foram as quebrada onde os urubus de câmera e microfone sobrevoam: Lagamar, Bom Jardim, Serviluz, Quadra, Barra do Ceará e Pirambu.

A Caravana acaba hoje, percorreu esses 6 bairros levando o Hip Hop, sua diversão, reflexão. O objetivo foi – é – sacudir a localidade, articulando as lideranças e os grupos artísticos locais. Fazer contato, trocar idéia, no jargão chamam isso de plantar uma semente. Coisa do tipo.

O repórter escovinha da TV Diário pegou a pauta desse domingo de manhã. Faz um corre aqui, ali, conversa com alguns, pega imagem, sonora, passagem... “Dá pra agilizar o trabalho que eu preciso ir pra outra pauta ainda”, o pedido é pra Dona Olga, líder comunitária que desde dos anos 90 – “quando eu comecei a descobrir que os problemas sociais acabam na porta da delegacia” – trabalha com jovens de risco, daí pro Hip-Hop foi só cruzar os olhares.

O evento está atrasado, mas por um bom motivo. O DJ Doido, Cristiano, chegou mais de uma hora depois do horário na Casa de Cultura, na Quadra, sede da CUFA (Central Única de Favelas) e do MCR (Movimento Cultura de Rua). Atrasado, suado, mas com sorriso malicioso. “Minha noite foi beautiful. Fortaleza é linda demais”.

É meu caro, o break do Conexão P3 se desenrola no papelão, do lado Cristiano já armou as paradas do som, não sei o que toca, coisa em inglês, mas é algo que faz a cabeça balançar levemente, você começa a andar compassadamente e seu dedo é um cano e resolver apontado pro chão. As tabelas estão montadas, o basquete rola, mas a bola não kika na mão dos moleques, o jogo é algo que a gente poderia chamar também de street rugby.

A pracinha do Abel mais parece um terreno baldio cimentado, mas tem vida meu chapa, naquela manhã tem vida. A vista é pro mar, mas no meio do caminho se vê o canal de esgoto apontando. O menino canta, sentado no muro canta silencioso no canto dele Vida Louca - Parte I, fé em Deus que ele é justo! ei irmão nunca se esqueça, na guarda guerreiro levanta a cabeça, truta, onde estiver, seja lá como for, tenha fé, porque até no lixão nasce flor... Eu sou ateu, mas me arrepio todo quando o Brown canta isso.

Menino, Cláudio 11 anos, sei lá, o negócio faz rastro, chega e pôu, já era, o menino decorou a música, e se os caras já vendem milhões, o cerco ainda é grande. Ouve na casas dos amigos, às vezes no canal 17, TV União... Fico devendo um CD pro garoto.

O Hip Hop é caso complexo de se analisar. A estética que é apropriada, os exemplos dos Estados Unidos. Glamour, status, corrente de ouro, tênis nike, e o resto das bugigangas... A CUFA está se estruturando em vários estados, o movimento vai se institucionalizando pra se organizar internamente e aproveitar os espaços estatais, mas se posiciona, finca o pé na “base”, no concreto, barro, morro. As divergências sempre têm, aqui MCR/CUFA não se bica com MH2O (Movimento Hip Hop Organizado), mas ao que parece não está embarrerando a construção.

Preto Zezé está ansioso. Um preto de bigode ralo, voz grossa, articulado. Rapper do Comunidade da Rima, coordenador da CUFA no Ceará, militante das antiga, torcedor do Fortaleza... mas a expectativa não é com o clássico de logo mais. O filme do Bill e do Celso Athayde vai parar o Fantástico.

- Zezé, tá bonito o negócio.
- Tá né. Com tão pouco a gente pode fazer várias coisas. Muito dinheiro, muito dinheiro... Porra eu fico olhando assim, porra, se essas tabelas, se você pudesse pegar e comprar vinte pares de tabela e não precisa nem mandar nada, só escolher uma rua lá e deixava elas lá e dava lá a bola pro povo... Era um impacto da porra.
- Olha o garoto ali.
- Essa porra é pólvora.
- E a caravana?
- É isso. Você incorpora os talentos locais. Toda logística de apoio local foi fundamental. São bairros extremamente precarizados, bairros com problema de violência muito grande. E a gente conseguiu intervir sem que nesse momento tivesse violência, a gente viu uma possibilidade muito boa de fazer coisas e também de como pode penetrar nesse universo. A gente conseguiu ser entendido. Porque geralmente tudo que vai lá e junta gente tem que terminar em briga, em tiro. Inclusive os próprios caras que geralmente tão envolvido, eles estão participando das coisas.

Meio-dia, hora de desarmar o acampamento. 30 mil conto nos bolsos pra fazer. Parceria com a Fundação de Cultura, Esporte e Turismo da Prefeitura de Fortaleza. Era pra ser o ano todo. Foram dois meses. Fica a experiência e o olhar questionador para quem não tem o dinheiro dos camelos da caravana, mas traz Adriana Calcanhoto, Elza Soares, tá vindo a Rita Lee... Estamos indo, a cultura aqui está ouriçada, e no mais a política pública vai avançando. As expectativas de prolongar a parceria são boas. As coisas estão para os otimistas que acordam cedo com sangue nos olhos, um sorriso leve e essa raiva, sutil raiva, isso que faz as pessoas se sentirem vivas, subir num camelo e regar as flores no deserto.

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Júlia Melo
 

não entendi tudo, mas adorei!

Júlia Melo · Fortaleza, CE 10/4/2006 17:35
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Pedro Rocha
 

hehehee, acho que tá sendo um problema dos meu últimos textos Júlia. Não tenho muita paciência nem para virgulas. Valeu.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 12/4/2006 10:02
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graveto
 

Aí firmeza! pô é muito bom ver o hip hop cumprindo uns dos seus papéis mais nobres a intervenção e a comunicação direta com a comunidade. Parabéns pela iniciativa, no meu ver esse é o verdadeiro espírito do hip hop, diferente doque se tem feito por aí em nome do hip hop.

graveto · Campos dos Goytacazes, RJ 18/5/2007 16:02
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