No começo dos anos 00 o Rio de Janeiro viu renascer das cinzas o carnaval de rua da cidade. Obviamente os blocos do Centro (Bola Preta, cacique de Ramos e tantos outros) sempre estiveram por lá , mas outros começaram a nascer se espalhando pela cidade. Alguns diriam que isso tem a ver com achatamento da classe média, outros com a cada vez mais celebridades-turismo na $apucaí , alguns outros ainda diriam que foi a industrialização do carnaval da Bahia que espalhou suas micaretas Brasil afora e ensinou os cariocas a redescobrir a rua.
Talvez ,não tarde muito e este mesmo fenômeno acontecerá com alguns blocos do Rio. O mais próximo deste sistema é o já imenso Monobloco com suas oficinas anuais e seu mega desfile na Avenida Atlântica . Nada contra esse processo de “crescimento”, talvez deva ser um processo natural para alguns, fora o que é gerado em termos culturais e econômicos.
Este ano , confesso que estava pessimista , pois vi muitos blocos crescerem absurdamente do nada, alguns até bastante queridos, mas já impraticáveis do ponto de vista da folia. Mas algo surpreendente aconteceu , talvez seja aquele já famoso diferencial, em meio a tantos blocos iguais que se espalham pela cidade.
Em 2009 o que podemos notar então:
Blocos Temáticos
Mulheres de Chico - bloco dedicado a Chico Buarque e não peçam outras músicas
Exalta, Rei – dedicado ao Rei Roberto Carlos e não peçam outras músicas
Rancho Flor do Sereno – dedicado aos ranchos
Zoobloco - dedicado a músicas relacionadas a bichos
Blocos “Inusitados”
Bloco Cru – o repertório é pop-rock passando por Rita Lee, Caetano fase-indie, Raul Seixas, Amy Winehouse, Nirvana e tantos outros, isso misturado com hino do bloco e marchichas ao final
Bloco do Conga – em pleno carnaval do Rio, um bloco que fica parado e é comandado por um cubano que trás para o Rio, o carnaval da ilha de Fidel e Raul.
Afoxé Filhos de Gandhi – Filhos de Gandhi no Rio ? Pois é e com direito a participação das mulheres no bloco .
Grito da Gema – fashionistas no carnaval, saindo num misto de procissão-bloco de um quiosque para uma boate.
Songoro Cosongo – bloco dedicado aos ritmos latinos
Charanga 3d – bloco que mistura sons eletrônicos (game-boys, sirenes e afins) com batuques
Midi Bombe – bloco que mistura hits com sonoridade “midi” (iguais aos de ringtones) e uma batucada de acompanhamento
Afroreggae – o grupo de Vigário Geral tocando seus tambores de sucatas numa sonoridade samba-reggae
Malditos – os roqueiros que resolveram organizar um bloco.
É do Pandeiro – um bloco dedicado exclusivamente aqueles que tocam pandeiro
Só de Tamborins – um bloco composto majoritariamente por tamborins
Rio Maracatu – um pouco de Recife com seus tambores de Maracatu no Rio de Janeiro
Como será o amanhã ???
Responda quem puder ...
Duda,
Como já sou mesmo um coroa, me recordo que esta profusão de blocos de rua - e toda esta mesma diversidade - na verdade era até bem maior (absurdamente maior). Quem viu um daqueles antigos desfiles de blocos (só os oficiais, sem contar as centenas de outros, os rebeldes) na Av Rio Branco da década de 70, sabe muito bem do que estou falando (sem falar no fantástico 'banho de mar à fantasia' que os blocos faziam com fantasias de papel crepon (dissolviam-se na água. Um deslumbre só.
Logo, de novo para mim (sem saudosismo) vejo apenas fatores que não sei se são, realmente prenúncio de algo bom e positivo, a saber:
1- Uma maioria esmagadora de blocos da chamada 'classe média', concentrados no Centro e na Zona Sul.
2- Uma constrangedora quase inexistência de Carnaval de rua nos bairros da periferia com a impressionante ausência de Carnaval ou msmo alegria carnavalesca nas centenas de favelas que temos hoje.
3- Consequentemente, um grande apagão carnavalesco de certo tipo de gente comum, da 'ralé' como se dizia, que era a grande marca do Carnaval carioca (como ainda o é na Bahia, em Recife, etc.)
Eu sei que fica difícil enxergar isto quando se está doidão num desfile de um monobloco destes da vida, mas, prestar atenção ao que tem ocorrido com a nossa periferia pode nos livrar de surpresas bem mais constarangedoras no futuro. Exclusão social até no Carnaval? É normal fechar os olhos para isto?
Detesto prever quartas feiras de cinzas, mas, sei lá...Quem viver verá.
Com relação ao item 2:
1) Serah que o funk interessa mais a juventude da "periferia" do que o samba ???
2) Avemos mestre Jorjão pela tentativa de aproximação ???
3) E o crescimento do samba-reggae do Afroreggae ???
não deixe o samba morrer ????
Por andarah o Clóvis ???
Micaretização do carnaval, com seus abadas e cercas ???
dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 22:43
Duda,
(PÔ, é este mesmo um dos temas do meu livro encantado)
1-Este fenômeno da rejeição da juventude pelo Samba, pelo que pude observar, é cíclico e talvez tenha a ver com o caráter meio, submisso, meio 'pai joão' que o Samba tem tido, históricamente, no âmbito das relações socio-culturais no Rio de Janeiro. Isto ocorreu na década de 30 com o 'Swing', na década de 70 com o 'Black Rio' ('break dance' e 'soul music') e ocorre agora com o Funk.
2- O problema é que os puristas negam, babando de ódio, mas, o Samba sempre asimila esta nova influência (o ritmo, bem entendido) e se recicla. É por isto que nunca morre. Musicalmente o Samba é muito conservador e perde terreno como música popular por causa deste tradicionalismo ingênuo.
3- A aproximação entre Samba e Funk é pois, natural e recorrente (é música ecumênica, da diáspora africana e tudo que for música negra, não imposta de onde veio, cabe na mistura. Sempre foi assim. Os puristas é que fazem a gente achar que é inusitado.
Habemus Jorjão!
Em tempo: Quando digo 'musicalmente', estou querendo dizer no aspecto melódico, harmônico, e não no sentido 'ritmico', 'percussivo', bem entendido.
Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 26/2/2009 09:11
Spirito,
Como você arrumaria essas variavéis:
samba-rock
sambalanço
samba-reggae
samba-funk
samba de raiz (?)
samba de escola de samba
samba pagode
eh isso ???
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