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Carrancas: A Cara do São Francisco

Luís Osete
Fotografia de Carranca-vampiro tirada no distrito de Carnaíba do Sertão (BA)
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Luís Osete · Juazeiro, BA
9/3/2008 · 228 · 10
 

No início da tarde de uma quinta-feira saí de casa a fim de encontrar o homem que, muito provavelmente, deve ser numericamente o maior produtor de carrancas da região do São Francisco: o juazeirense Paulo Roberto de Jesus Santos ou, como é mais conhecido, Paulo das Carrancas. Há 25 anos, ele já havia fabricado 32 mil carrancas.

Entrei no ônibus coletivo com uma referência básica, o nome do bairro: “Piranga”. Mas fui tranqüilo, acreditando que a popularidade das carrancas entre os habitantes desta parte inspirada do Brasil seria proporcional ao reconhecimento de um de seus mais atuantes produtores. Ledo engano. O cobrador achou o nome estranho e o motorista trocou de marcha enquanto balançava a cabeça como se dissesse: “Nunca ouvi falar”.

Depois de caminhar por um bom tempo pelas ruas de um dos bairros mais carentes de Juazeiro, um rapaz, ao perceber minha motivação de estar ali, apontou para um homem de meia-idade, que repousava sentado num tronco de umburana entre tantos outros troncos espalhados pelo terreiro. Para chegar até ele só caminhando sobre pedaços da árvore típica da caatinga e doada aos escultores da região por fiscais do IBAMA que as apreendem por extração irregular.

Vendo os exemplares de umburana à espera das mãos do artesão para receber “uma solução plástica de elevado conteúdo artístico e emocional”, como diria Paulo Pardal, recordei-me de um artigo do teórico frankfurtiano Walter Benjamin: “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica” (1936).

Fiquei imaginando que se Benjamin tivesse sobrevivido às agruras da segunda guerra mundial (“suicidou-se em 1940, na fronteira espanhola, sob o temor de ser entregue pela polícia franquista à Gestapo”), teria um forte argumento para atualizar seu artigo: o fenômeno social das carrancas do São Francisco.


Contextualização


Coincidentemente, o ano da morte de Benjamin marca o fim do ciclo das embarcações no Brasil, momento em que as carrancas passam a ter outra significação social e cultural, deixando de ser usadas somente como figuras de proa para serem fruídas como objetos de decoração no interior das casas, feiras artesanais, museus, exposições, coleções e estabelecimentos comerciais.

Com o advento dessa nova função social, que é a do valor de exposição, as carrancas passam a ser elaboradas no sentido de satisfazer a “encomenda”, o desejo de quem as quer possuir, bem como objetivando um retorno financeiro. Esse acontecimento já fora descrito por Benjamin com relação às artes: “À medida que diminui a significação social de uma arte, assiste-se no público a um divórcio crescente entre o espírito e a fruição da obra. Frui-se sem criticar, aquilo que é convencional; o que é verdadeiramente novo é criticado com repugnância”.

Marilena Chauí, de forma muito atenta ao contexto histórico que possibilitou a escrita do artigo de Benjamin, assinala no livro “Filosofia” que “ao escrever sobre a mudança das artes, nos anos 30, Benjamin tinha presente uma realidade e uma esperança. A realidade era o nazi-fascismo e a guerra; a esperança, a revolução socialista”.

Levando a analogia entre os processos de transformação das artes, de forma genérica, e das carrancas, de forma particular, cabe uma paráfrase da reflexão de Chauí. Ao escrevermos sobre as carrancas, em pleno século XXI, temos em vista uma realidade muito forte: O capitalismo e a cultura de massas. Agora cabe uma pergunta não muito simples de responder: Qual é a nossa esperança?


Vejamos...

Como uma figura sombria, disforme, zooantropomorfa e com uma expressão de ferocidade intrínseca agravada por uma generosa juba conseguiu atravessar gerações e se tornar o ícone da região do São Francisco? Longe da pretensão de fazer um estudo da história das mentalidades, a explicação pode estar associada ao aspecto ritualístico atribuído às carrancas pelos narradores fantasiosos, que encontraram na função totêmica uma fácil explicação para a origem incerta de tal manifestação da arte popular.

De ornamento das barcas passou-se também a atribuir a essas curiosas figuras a função mágica de salvaguardar os barqueiros, viajantes e moradores contra as tempestades, perigos e maus presságios. Uma crença que, medidas as proporções, perdura até hoje.

O fato é que a dimensão religiosa das artes, muito comum nas primeiras manifestações culturais, deu aos objetos artísticos ou às obras de arte um caráter singular. “Sua qualidade de eternidade e fugacidade simultâneas, seu pertencimento necessário ao contexto onde se encontra e sua participação numa tradição que lhe dá sentido”, como escreve Marilena Chauí.

Ao desenvolver tais argumentos, Chauí se refere a uma característica presente no vínculo interno entre unidade e durabilidade, que é a autenticidade da obra de arte. “A própria noção de autenticidade não tem sentido para uma reprodução, técnica ou não”, aponta Benjamin. E, em seguida, traz um dado relevante para o objeto (Carranca) em questão: “Mas, diante da reprodução feita pela mão do homem, e considerada em princípio falsa, o original conserva sua plena autoridade”. Será?

As carrancas produzidas por Paulo foram analisadas na monografia mais completa escrita sobre essa arte popular, o livro “Carrancas do São Francisco”, de Paulo Pardal. Nesta obra, Pardal ressalta que as carrancas-vampiro (assim denominadas por apresentarem vistosa dentadura branca onde sobressaem os caninos) refletem um sentimento coletivo muito desligado do protótipo original.

Como protótipo original Paulo se refere às carrancas produzidas pelo saudoso Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1882-1985). O mais notável carranqueiro do São Francisco ficaria desolado ao saber que poucos escultores têm a audácia de fugir ao padrão imposto pela clientela. A experimentação, um dos pressupostos da criação artística, ficou mesmo atrelada à figura de Guarany.


Carrancas, Carranqueiros e Carranqueiras

Nascido em 1882, mas registrado no dia 2 de abril de 1884, na cidade baiana de Santa Maria da Vitória, Guarany inaugurou o século XX esculpindo sua primeira Carranca, aos 19 anos. 50 anos depois, foi considerado o responsável por 2/3 das carrancas esculpidas no século XX para as barcas do médio São Francisco. Até os 98 anos, revelou-se, em cada Carranca esculpida, um artista de refinada sensibilidade e melhor representante das soluções plásticas de elevado conteúdo artístico e emocional.

Não por acaso, a cada peça criada atribuía um nome próprio, fruto de sua imaginação prodigiosa e de referências a animais pré-históricos e à mitologia indígena. Foi assim que surgiram Aratuy, Muturân, Salaô, Tôrian Jerome, Melozán, Borêta, Zulcão, Muritan, Peroni, Xateiro, Caxalot, Tatuy, Zucuidro, Chipam, Igatoni, Brutuan, Capebolo, Capiñago, Mastodonte, Megatério, Galocéfalo, Medostantheo, Brontosário, e tantos outros nomes (in) decifráveis.

Mas, ao me despedir de Paulo das Carrancas naquela tarde de quinta-feira, senti que este exercício teórico-analítico sobre a produção das carrancas, à luz da teoria crítica, não contempla a dureza dos dias sertanejos, marcados pela falta de incentivo, abandono e esquecimento. Algo que inequivocamente se reflete na dureza com a qual eu fui recebido.

Diferentemente do que havia feito há um tempo atrás, quando estive com outros colegas fazendo pesquisa de campo sobre “a permanência (ou não) da aura na (Re) produção das Carrancas”, Paulo se recusou a falar. Contrastando com a disposição em exibir suas produções ao clique da câmera, naquela tarde não foi possível tirar fotografias. O encontro não durou nem cinco minutos.

Tempo suficiente para dizer que tem se dedicado a fazer outras coisas, muito além da produção das carrancas. Se em 1983 ele dizia, num depoimento que compõe o livro “O Velho Chico: sua vida, suas lendas e sua história”, do jornalista Wilson Dias, que faltava “o incentivo e o apoio dos órgãos ligados ao setor de cultura popular e turismo”, em 2008 ele prefere nem comentar mais nada: silêncio e esquecimento são palavras muito próximas.

Palavras que ainda ressoam na vida da artesã Ana Leopoldina dos Santos, mais conhecida como Ana das Carrancas. A trajetória da mulher que, para sobreviver, transformou o barro numa figura zoomorfa já rendeu um perfil biográfico: “Ana das Carrancas: A dama do barro”, do jornalista Emanuel Andrade, e uma matéria escrita por Pedro Bial para o Jornal Nacional. Só tem uma coisa: o reconhecimento veio acompanhado de um profundo silêncio.

Decorridos dois anos de um derrame que deixou Ana sem movimentos e fala, deu-se início a uma nova percepção cultural sobre a importância da artesã, hoje Patrimônio Vivo de Pernambuco, por parte dos próprios vizinhos que passaram a visitar com mais freqüência o Centro de Arte e Cultura Ana das Carrancas. Quando Ana tinha voz, revelou ao músico Wagner Miranda, autor de uma música em homenagem a ela, que a parte mais certa da letra era a que dizia: “O reconhecimento demorou e veio lento chegou de fora pra dentro”.

O problema é quando o reconhecimento teima em não chegar, legando aos carranqueiros e carranqueiras do São Francisco um silêncio involuntário que se mistura à necessidade diária. “É dessa arte que minha família tira o sustento para sobreviver”, afirmou Paulo Roberto de Jesus Santos em 1983. Atualmente, às vésperas de completar 35 anos de carrancas, nem isto ele pode dizer.

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Cristiano Sidoti
 

Bacana Luís conhecer a história do São Francisco e as carrancas, o "Guarany" realmente é o máximo, nunca vi suas peças mas pelos nomes deu pra imaginar.
abraço

Cristiano Sidoti · Guarujá, SP 9/3/2008 12:47
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Helena Aragão
 

Luis, belíssimo texto, ainda que melancólico. Quando a pessoa desanima até de reclamar, de certa forma entregou os pontos, o que é triste... Você, que tem alguma proximidade e acompanha há algum tempo as carrancas, vê alguma luz no fim do túnel?

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 9/3/2008 13:14
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LAILTON ARAÚJO
 


LUÍS...

O texto retrata o "Nilo Brasileiro" e parte da cultura
dos "ribeirinhos".

Aprendi um pouco mais!

Se puder ouça essa música:

NILO BRASILEIRO (Rio São Francisco)

Parabéns pela aula!

Abraços.

Lailton Araújo


LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 9/3/2008 17:38
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Luís Osete
 

Oi pessoal,
Inicialmente, desculpem não ter respondido antes...

Cristiano, na internet tem algumas imagens de carrancas produzidas por Guarany. Entretanto, dos livros que eu li, o que melhor expõe e ilustra a produção dele é “Carrancas do São Francisco”, de Paulo Pardal.

Helena, apesar do tom melancólico do texto (muito em decorrência de meu melancólico encontro com Paulo das Carrancas) eu vejo luz no fim do túnel sim.

Juazeiro, único município que instituiu o dia municipal das carrancas, precisa assumir e valorizar seus artesãos e suas artesãs, seja na promoção de políticas públicas de incentivo à experimentação na produção das carrancas, seja no fomento a criação de cooperativas e/ou associações.

Infelizmente, numa cidade onde @s artesãos e artesãs não estão organizad@s, muitas destas iniciativas dependem da vontade política dos “poderes” locais. Mas, nem por isso, a sociedade tem deixado de se organizar. Em breve, relatarei uma experiência interessante que aconteceu por aqui.

Lailton, “Nilo Brasileiro” é o nome de uma das dez embarcações que diariamente fazem a travessia Juazeiro-Petrolina. Vou viajar em sua música também...

Sim, daqui a pouco postarei um poema de Carlos Drummond de Andrade, obviamente, sobre as Carrancas...

Beijos e abraços, luís osete.

Luís Osete · Juazeiro, BA 10/3/2008 17:23
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Luís Osete
 

Pessoal,

Segue o poema de Drummond. Qualquer semelhança com o texto é mera conseqüência:

Exposição de Carrancas

As carrancas do rio São Francisco
largaram suas proas e vieram
para um banco da Rua do Ouvidor.
O leão, o cavalo, o bicho estranho
deixam-se contemplar no rio seco,
entre cheques, recibos, duplicatas.
Já não defendem do caboclo-d'água
o barqueiro e seu barco. Porventura
vem proteger-nos de perigos outros
que não sabemos, ou contra assaltos
desfecham seus poderes ancestrais
o leão, o cavalo, o bicho estranho
postados no salão, longe das águas?
Interrogo, prescruto, sem resposta,
as rudes caras, os lenhados lenhos
que tanta coisa viram, navegando
no leito cor de barro. O velho Chico
fartou-se deles, já não crê nos mitos
que a figura de proa conjurava,
ou contra os mitos já não há defesa
nos mascarões zoomórficos enormes?
Quisera ouvi-los, muito contariam
de peixes e de homens, na difícil
aventura da vida de remeiros.
O rio, esse caminho de canções,
de esperanças, de trocas, de naufrágios,
deixou nas carrancudas cataduras
um traço fluvial de nostalgia,
e vejo, pela Rua do Ouvidor,
singrando o asfalto, graves, silenciosos,
o leão, o cavalo, o bicho estranho...

Luís Osete · Juazeiro, BA 10/3/2008 21:11
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Paulo Esdras
 

Gostei!

Paulo Esdras · Brumado, BA 20/3/2008 12:26
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zuleide carvalho
 

sete!
adorei!
todos os seus textos ficaram perfeitos!
beijos!
ass:sua familia querida e renata.

zuleide carvalho · Entre Rios, BA 16/4/2008 19:10
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jacirlen
 

Oi,você é um verdadeiro talento.Parabéns!!!

jacirlen · Juazeiro, BA 16/4/2008 22:50
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Andre Pessego
 

Houve uma época em que no meu lugar nas feiras eram vendidas tantas daqueles carrancas em tamanho diveros

Andre Pessego · São Paulo, SP 12/6/2008 17:41
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Elliana Alves
 

Diz a lenda que o São Francisco nasceu das lágrimas derramadas pela índia Irati. Com saudade do bravo companheiro que foi lutar pela posse da terra contra o homem branco e não voltou mais, Irati sentou em um pedra e chorou dias. De tão grande, sua tristeza deu origem ao Opará, que significa rio-mar, na linguagem indígena.

Então por isso acredito que dai surgiram às maravilhas ao redor dele, como tal Petrolina e suas artes,crenças,agricultura e etc... tb,bjssssss e boa noite,parabéns eu voto!

Elliana Alves · Petrolina, PE 26/6/2008 18:49
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Carrancas-vampiro de tamanhos variados, numa loja de artesanato de Juazeiro (BA) zoom
Carrancas-vampiro de tamanhos variados, numa loja de artesanato de Juazeiro (BA)
Carranca de barro produzida por Ana das Carrancas. zoom
Carranca de barro produzida por Ana das Carrancas.

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