carta aberta à Fundação Municipal de Cultura de BH

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luiz gabriel lopes · Belo Horizonte, MG
1/9/2009 · 0 · 2
 

(originalmente publicado em: www.graveola.com.br)


No domingo do dia 16 de agosto, nós, do Graveola e o lixo polifônico, nos apresentamos no Projeto Sons e Tons, no Centro Cultural Lagoa do Nado, ao lado de mais três grupos musicais. O projeto acontece desde 2001 e seleciona os artistas participantes por meio de um edital público, que estabelece como finalidade "contemplar as mais diversas estéticas musicais, valorizando e potencializando os novos talentos, dando-lhes visibilidade e assim estimular a criação e difusão musical em Belo Horizonte e Região Metropolitana, além de estimular a formação de público".

No contato com a produção do evento, foi estabelecido que os músicos deveriam chegar no local às 8h para a passagem de som. O equipamento, portanto, já deveria estar montado, como estabelecido no edital, item 11.1:

11.1 - Para a passagem de som, o palco estará montado para todos os artistas, grupos e/ou conjuntos selecionados, com equipamentos de sonorização adequados às demandas técnicas previamente solicitadas. Equipamentos de uso pessoal e/ou instrumentos não serão fornecidos, excetuando-se a bateria, sendo que os músicos deverão trazer seus acessórios; prato e pedal. A bateria será única para todos.

Chegando ao local no horário combinado, o equipamento de som não havia chegado e nem havia ali ninguém da produção do evento. Os responsáveis pela produção chegaram com cerca de duas horas de atraso. Contradizendo o edital, poucos itens do nosso rider técnico, previamente enviado, foram disponibilizados. Não havia bateria e as condições do equipamento eram péssimas: microfones e cabos quebrados, amplificadores em péssimas condições de uso e equipe técnica sem a qualificação adequada para a realização dos shows.

De acordo com o edital e a divulgação oficial no Diário Oficial do Município do dia 14/08/2009, às 10h teriam início as apresentações. No entanto, no dia do evento, a primeira apresentação teve início por volta das 11h, sem passagem de som. As circunstâncias pareciam tornar nossa apresentação inviável. Indignamo-nos com a situação e o descontentamento transpareceu também entre os outros músicos que se apresentariam no evento. Mesmo assim, em respeito ao público já presente, decidimos tocar. Começamos o show após as 14h, depois de uma caótica passagem de som, feita às pressas diante do público que já aguardava há horas a apresentação.

Manifestamos através desta carta nossa indignação para com esse tipo de tratamento, tão recorrente nos circuitos de difusão artístico-cultural mantidos pelo poder público e privado. Queremos levantar esta questão publicamente e assumir uma postura de repulsa em relação à tal precariedade, que é recorrente e segue adiante com a justificativa de formar público e "dar oportunidade" aos artistas.

A relação entre contratante e contratado se faz desigual, estabelecendo-se assim um modus operandi que se ancora no absurdo da falta de condições do circuito artístico-cultural de Belo Horizonte. Neste caso tais condições não se limitaram às circunstâncias da ocasião citada, mas já estavam presentes no edital do evento em forma de exigências e limitações que não respeitam as especificidades de uma apresentação musical.

É sabido o quanto o fazer artístico sofre para se estabelecer enquanto um serviço como qualquer outro. Na prática, condições mínimas de trabalho e remuneração adequadas são deixadas de lado. Nos circuitos de música, vários são os eventos que legitimam a própria precariedade, com base na idéia de que, para o artista, a simples oportunidade de mostrar seu trabalho já é suficiente, e está de bom tamanho.

O Projeto Sons e Tons compreende espetáculos realizados no âmbito de ação da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, por meio da Fundação Municipal de Cultura. Dada a oficialidade desses órgãos, e tomando a Fundação como representante máxima do segmento cultural na municipalidade, consideramos um absurdo e um desrespeito as condições sob as quais tivemos que trabalhar, bem como o tratamento que nos foi dado. Nada temos contra a realização de shows por militância e sem condições de infra-estrutura: já participamos de eventos produzidos em condições muito piores e sabemos de sua importância e seu papel de resistência. Entretanto, o contexto de um evento de responsabilidade pública é outro e deveria fazer jus aos princípios de sua administração, assumindo a necessidade de valorização da mão de obra artística envolvida e fomentando o desenvolvimento do setor.

Para além da questão da [falta de] organização e respeito com os músicos, cumpre suscitar outras questões igualmente relevantes em relação ao fomento à cultura. É comum por parte da produção de eventos musicais evocar argumentos como "dar oportunidade" ou "dar visibilidade" aos artistas que se apresentam. A visibilidade, porém, é inerente ao evento artístico e sem ela o acontecimento não faz sentido. Assim, o uso desse argumento a fim de justificar um cachê baixo é completamente infundado. Não podemos aceitar que cada artista venha a participar de um show apenas pela publicidade, pela importância do evento ou por qualquer outra idéia desse tipo. O fato de sempre haver artistas dispostos a receber cachês ínfimos não justifica a oferta dessas quantias. O que nasce dessa postura é um grande desestímulo à criação e mesmo ao artista.

Esperamos que tal episódio não se repita e que medidas sérias sejam tomadas afim de se modificar tal postura para com os espetáculos artísticos. Esperamos, da mesma forma, que a presente carta sirva de estímulo para mudanças mais profundas no trato com o segmento e nos mecanismos que se auto-definem fomentadores da cultura local.

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luiz gabriel lopes
 

a quem interessar possa:
publicamos essa carta no site do graveola, e tivemos a felicidade de acolher um amplo e acalorado debate sobre a situação atual das políticas públicas culturais em Belo Horizonte, tomando por metonímia o ocorrido conosco em nossa apresentação no Projeto Sons e Tons.
foram mais de 60 comentários de pessoas ligadas a diversos segmentos da produção cultural e artística, que estão disponíveis no nosso site (www.graveola.com.br).

e assim que for possível, os publicarei aqui.
novos comentários também são bem vindos.
abraço!

luiz gabriel lopes · Belo Horizonte, MG 1/9/2009 11:04
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luiz gabriel lopes
 

tá foda de transcrever os comentários, dando problema de formatação e tal.
então, aos possíveis interessados, o link direto é:

http://graveola.com.br/site/index.php?option=com_content&view=article&id=234:carta-aberta-a-fundacao-municipal-de-cultura-de-belo-horizonte&catid=41:textos-e-outros-escritos&Itemid=67#JOSC_TOP

abraço.

luiz gabriel lopes · Belo Horizonte, MG 2/9/2009 09:58
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