Numa república de bananas dessas que se tem notícias, um lugar onde decisões seríssimas eram tomadas em feijoadas de fim de semana, é que se dá a história desse enlace matrimonial. A republiqueta tinha como base da economia uma monocultura de bananas. De vez em quando exportava e produzia alguns ótimos jogadores de futebol, que de certa forma, serviam como insumo na hora de fechar a balança comercial. Aquela república era feliz e não sabia...
Nessa república de bananas vivia uma mocinha que não podia ver uma barra de calça que já ficava toda ouriçada. Apaixonou-se pela primeira vez por um português que vivia lhe dando espelhos e toda a sorte de bugingangas. Depois acreditou por duas vezes num homem com um sotaque do sul, que depois ela descobriu ser pai de um monte de pobres e que depois se matou e que depois deixou uma carta testamento que até hoje ninguém sabe se foi ele mesmo quem escreveu.
Como sabem, a mocinha não era mais donzela. Agora se deixou enganar por um homem de farda, adorava homem de farda... O homem de farda vivia em cima do lombo de seu tanque, e dizia à mocinha que livraria aquela republiqueta de um bando de comedores de criancinhas mais conhecidos como comunistas.
Corria à boca pequena que esses comunistas queriam proibir os estrangeiros de mandar muito dinheiro para seus países e que queriam dividir com outros tantos, as terras de todo mundo, e mais ainda, estabelecer a igualdade entre as castas. O homem de farda iria pôr para correr aquele bando de arruaceiros.
No começo, como todo casamento, tudo dava certo. Mas com o passar do tempo, a mocinha percebeu que aquele homem de farda não havia mostrado sua verdadeira face. De tempos em tempos ele vendia a preço de bananas não só as bananas, mas todo tipo de coisa que fosse produzida por aquelas cercanias. Virou chefe do lugarejo, realizou grandiosas construções fazendo uso de vultosas quantias conhecidas como petrodólares.
Depois disso piorou (para a mocinha, cabe a ressalva). Agora não deixava a mocinha falar direito. Vez por outra a trancava num quarto e às vezes até a torturava. Queria que ela pensasse igual a ele, que não era mais um simples homem de farda. Galgara patentes mais expressivas. Agora era general.
Vinte e um anos de casamento sofrido. Só depois desse tempo é que a mocinha conseguiu se divorciar daquele general chato e mentiroso. Ficou com a guarda das crianças que sofreram “o diabo” na mão daquele pai repressor que as proibiam de ouvir música e até de se reunir com os colegas de escola.
“A desquitada é mulher cantável”. Contrariar essa afirmação passou a ser sina da mocinha, agora uma jovem senhora. Ele seguiu solteira por algum tempo, até que começaram a surgir algumas propostas. Um metalúrgico lá do ABC, um sujeito barbudo, meio carrancudo e sem um dedo vivia no encalço da jovem senhora. Mas foi outro ganhou seu coração. Quando todos pensavam que a jovem senhora tinha aprendido a lição, não é que ela achou de se apaixonar por um bonitão caçador de marajás. Caiu nas lábias sedutoras de um partidão lá das Alagoas.
O partidão, um homem douto, sofisticado, sabia falar línguas estrangeiras. Cuidava muito bem do corpo, praticava cooper toda manhã. No começo do relacionamento, tudo igual. Mas agora era melhor. A jovem senhora ganhava presentes importados: computador, perfumes, cosméticos, roupas de grife. Até o carro que ele reclamava ser uma lata velha, ele trocou. Na garagem, um suntuoso Mercedes tomava o lugar do prestativo Opalão.
Não deu outra. Descobriram que aquele monte de presentes era comprado com dinheiro sujo. Uma tal de lavagem de dinheiro era feita pelo maridão boa-pinta e a cambada de colegas que o cercava. Entre eles um baixinho gordinho e bigodudo que tinha o apelido de PC.
O maridão caçador de marajás voltou para as Alagoas, onde a família tem o domínio de quase tudo por ali. O seu fiel escudeiro, o pançudo PC foi encontrado morto numa cama de Hotel. Disseram que foi uma tal de queima de arquivo. Enfim...
A jovem senhora parecia ter uma sina dos diabos. Só se pagava com gente que não prestava. Até que se envolveu por um breve período com um senhor, já vivido e, com um cabelo muito engraçado. A senhora agora mais humilde, aceitou trocar seu Mercedes por um Fusquinha. Reformou a casa, levantou mais dois quartos lá no quintal. Era uma vida modesta.
Mas durou pouco. Outra vez lá estava ela. De novo disputada por dois homens. Um deles, ela já conhecia de outras épocas. Mais uma vez o barbudo cotó e sindicalista pedia sua mão em casamento. Não teve chance de novo. Ela preferiu um professor que tinha morado na França, um grã-fino metido a escritor e poliglota. Lá ia a jovem senhora. Outra mudança. Outra vida, outros presentes, outros problemas.
Foi um tempo bacana. Mas como a vida, cheia de altos e baixos. Ficaram juntos por um bom tempo. O professor era pomposo, falava bem. Também era bonitão. E ela ficou com ele muito mais por causo disso do que por outros motivos. Aprendeu o que era status quo. Um negócio chique...
Mas acabou. Acabou mais uma vez. Ela, cansada de ser passada pra trás, resolveu dar uma chance ao pobre barbudo. Tão insistente era ele. Mas antes de subir ao altar ela fez questão de comprar um bom terno, ensinar-lhe a etiqueta aprendida com seu ex-marido, o professor, e ainda contratou uma equipe que lhe dava aulas de como se comportar, como falar, como comer, enfim. Ele teve que aprender tudo antes do “Sim”.
O casamento está durando até hoje. Tem dia que parece que vai tudo por água abaixo. Tem dia que melhora. Tem dia em que ele chega bêbado em casa, tem dia em que ele não sabe de nada, tem dia em que os amigos deles vestem cuecas cheias de dinheiro. Todo dia é um dia diferente.
A mocinha vai indo. Agora mais adulta, vê que as coisas não mudam de um dia pro outro.
Só precisa estudar mais...
A gente chegá lá Egeu. "Fé em Deus e pé na tábua..."
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 21/5/2007 11:11
Bravo, Filipe!!
Bravo!
Qualquer semelhança é mera coincidência? (risos)
Legal!
Muito boa, meu caro cara! :D
Daniel Duende · Brasília, DF 26/5/2007 01:24Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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