Castro Alves e outros poetas quase meninos

Biblioteca Nacional
Castro Alves, o condoreiro. Símbolo maior do romantismo brasileiro
1
Eloy Santos · Rio de Janeiro, RJ
8/10/2008 · 233 · 37
 

Eram quase meninos. Todos geniais, aqueles poetas românticos do século XIX. Rapazes de amores, desamores, amados e desamados, atormentados, inquietos, arrojados na vida e fiéis à escola literária que consagraram. Sem favor nenhum, formaram a mais fecunda e bela geração da poesia brasileira. Eis alguns deles: Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire. Quase todos morreram no verdor da mocidade. George Gordon, Lord Byron, foi um de seus mestres. (“Sol dos insones! Ó astro de melancolia! / Arde teu raio em pranto, longe a tremular...”). Outro foi William Wordsworth. (“Quem me dirá o que ela canta? / Talvez que falem essas notas / de velha coisa, que quebranta”). Victor Hugo era o mais fecundo inspirador. Com a influência dele surgiram os condoreiros. (“A águia é o gênio... Da tormenta o pássaro / Que do monte arremete altivo píncaro...). Castro Alves (1847-1871) foi o que voou mais alto nas asas da poesia. Tuberculoso no começo da juventude, viveu cada dia como se fosse o último.

“Oh! eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
- Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.

Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher - camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas,
Minh'alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas ...
E a mesma voz repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: - impossível!”

Aos 13 anos de idade, o poeta maior brasileiro já declamava singelos versos em honra do diretor da escola onde estudava. De Castro Alves parte da crítica diz que era personalista e mostrava, em seus versos, a origem burguesa. Mas um filho de família rica antenado com o mundo, dotado de extraordinária visão crítica e preocupação social. Guardadas as proporções, como seria Castro Alves hoje? Ele, um republicano em pleno Império? Ele, um anti-escravagista na vigência oficial do escravismo? Ele, um propagador dos valores das revoluções Americana e Francesa? O jornalista Roberto Pompeu de Toledo traçou um panorama do Brasil daquela segunda metade do século XIX: “... um país de escravos. O maior país de escravos dos tempos modernos, talvez. Ou, pelo menos, o país moderno mais dependente de escravos. Ou, pelo menos, o maior e mais dependente de escravos do continente americano.”

“A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias seu calor.
Senhor!...pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tende palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.”

Forma mais acabada de literatura, a poesia também era freqüente meio de comunicação da época. Mais do que o discurso. Castro Alves poetava para ser ouvido. Manuel Bandeira lembrou: “há que levar em conta a intenção pragmática dos seus cantos, escritos para serem declamados na praça pública, em teatros ou grandes salas, verdadeiros discursos de poeta-tribuno.” Disse mais Manuel Bandeira: “vulgarmente melodramático na desgraça, simples e gracioso na ventura, o que constituía o genuíno clima poético de Castro Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes causas da liberdade e da justiça.” Segundo o poeta amazonense Carlos Correia Santos “foi ele quem mais exaltou a figura do “ser poeta”. Talvez tenha sido a primeira figura a criar a imagem do poeta, geralmente tido como misterioso e excêntrico. Por isso se convencionou homenagear a poesia e o poeta no aniversário de Castro Alves, em 14 de março.”

O jornalista e crítico Hélio Pólvora escreveu que “o poema “Navio Negreiro” pertence à fase de “Os Escravos”, que Castro Alves começou a compor no Recife, tocado, sem dúvida, pela atmosfera libertária que empolgava a mocidade acadêmica. Ele foi declamado no Teatro São José, em São Paulo, no dia 7 de julho de 1868, e com extraordinário êxito. Tinha o poeta, então, 21 anos de idade. Apenas 21.”

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais!... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!”

Poucos atentaram para o fato de que o poeta negro catarinense Cruz e Sousa (1861 - 1898), filho de escravos alforriados, perseguido e vilipendiado ferozmente até a morte pelo racismo e pelos racistas, versejou – com seu estilo simbolista – em homenagem a Castro Alves e à luta que o poeta condoreiro empreendeu, quando da passagem do décimo ano do desaparecimento dele.

“Quem sempre vence é o porvir!
No espadanar das espumas
Que vão à praia saltar!
Nos ecos das tempestades
Da bela aurora ao raiar,
Um brado enorme, profundo,
Que faz tremer todo o mundo
Se deixa logo sentir!
É como o brado solene,
Ingente, Celso, perene,
É como o brado: - Porvir!”

Filhos da elite, os meninos poetas do século XIX amadureciam logo. Depois da primeira educação na província, e do preparatório, iam para as faculdades, aos 15, 16 anos. Já conheciam o latim e o grego, onde bebiam nas fontes das mitologias. Depois, falavam e escreviam em francês e logo aprendiam outros idiomas – inglês, espanhol, italiano. Alguns iam além: estudavam o alemão. O que era a educação há um século e meio? Num Brasil Império latifundiário e escravista, ela ignorava o povo. Destinava-se a preparar doutores e senhores de mando. Era a erudição ligada ao status social, prestigiada pela vida na Corte, pelas atividades públicas, pelo regime parlamentar, onde a retórica era necessária, como definiu um historiador. Esses jovens iam para Coimbra, em Portugal, e para as escolas de Direito de Recife e São Paulo. Só eles, porque às mulheres eram reservadas as prendas domésticas. E a educação delas era limitada. Na casa grande, ou nas residências urbanas, elas falavam o francês, para conversas num idioma desconhecido pelos escravos.

“Assim o Timbira, coberto de glória,
guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi.
E à noite nas tabas, se alguém duvidava
do que ele contava,
Tomava prudente: "Meninos, eu vi!”

Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) foi o primeiro grande poeta brasileiro do romantismo. Culto e erudito, deixou uma obra lírica amorosa, sem passionalidade, por terminar. O índio foi seu maior personagem, apesar deste ser mostrado como se fosse um europeu, por certo devido à longa permanência do poeta em Portugal. E foi lá, em Coimbra, que ele, aos 21 anos, fez sua poesia mais conhecida, “Canção do Exílio.” Mulato, o poeta também sofreu os rigores do preconceito no regime imperial escravista. Além do isolamento social, foi impedido de casar-se com a mulher que amava. Muito doente, deixou o Brasil em 1862, para tratar-se na Europa. Desenganado pelos médicos, voltou ao Brasil dois anos depois. Na costa maranhense, o navio “Ville de Boulogne” foi a pique. Todos se salvaram, menos o poeta, esquecido em seu leito de morte.

“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.”

O poeta mais expressivo da chamada Segunda Geração, a byroniana, foi o paulistano Álvares de Azevedo (1831-1852). Seus versos eram marcados pelo chamado mal do século XIX, o tédio, inspiração da morte. Foi aluno brilhante da Faculdade de Direito de São Paulo. Boêmio célebre, Álvares de Azevedo era companheiro dos também poetas Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães num clube fechado, a Sociedade Epicuréia, que homenageava o filósofo grego Epícuro. O crítico Antônio Cândido assim definiu a sociedade: “Ponto de encontro entre a literatura e a vida, onde os jovens procuravam dar realidade às imaginações românticas.” Tuberculoso, Álvares de Azevedo sofreu uma queda ao passear a cavalo no Rio de Janeiro. Operado sem anestesia, morreu depois de 46 dias de agonia, aos 21 anos, num Domingo de Páscoa. “Adeus, meus sonhos” foram versos deixados pelo “Byron brasileiro”.

“Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?
Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!”

O viver do baiano Luís José Junqueira Freire (1832-1855) foi breve, tormentoso e marcado por infindáveis problemas existenciais. Tudo o que compôs revela sentimento de culpa, sexualidade latente e reprimida. Foi enfermiço desde a infância e morreu vitimado por um ataque cardíaco, aos 23 anos. Para fugir da pressão familiar ingressou na Ordem dos Beneditinos, em Salvador, adotando o nome de Frei Luís de Santa Escolástica Junqueira Freire. Machado de Assis fez uma crítica do único livro do poeta, “Inspiração do Claustro”, afirmando ser uma história dolorosamente narrada em versos, muitas vezes duros, mas evidentemente saídos do coração. “Cantei o monge, porque ele é escravo, não da cruz, mas do arbítrio de outro homem. Cantei o monge porque não há ninguém que se ocupe de cantá-lo. É por isso que cantei o monge, cantei também a morte. É ela o epílogo mais belo de sua vida: e seu único triunfo”, escreveu Junqueira Freire no prólogo do livro. “Martírio” é um dos poemas desse baiano, talento precoce como seu conterrâneo Castro Alves.

“Beijar-te a fronte linda
Beijar-te o aspecto altivo
Beijar-te a tez morena
Beijar-te o rir lascivo

Beijar o ar que aspiras
Beijar o pó que pisas
Beijar a voz que soltas
Beijar a luz que visas

Sentir teus modos frios,
Sentir tua apatia,
Sentir até repúdio,
Sentir essa ironia,

Sentir que me resguardas,
Sentir que me arreceias,
Sentir que me repugnas,
Sentir que até me odeias,

Eis a descrença e a crença,
Eis o absinto e a flor,
Eis o amor e o ódio,
Eis o prazer e a dor!

Eis o estertor de morte,
Eis o martírio eterno,
Eis o ranger dos dentes,
Eis o penar do inferno!”

Saudosismo e lirismo amoroso. Essas foram marcas dos versos de Casimiro de Abreu, outro byroniano (1839-1860). Mário de Andrade, que nos legou “Macunaíma”, criou para os tempos poéticos de Casimiro o qualificativo “geração do Amor e Medo”. Outra classificação crítica: “Escola de Morrer Cedo.” Em Lisboa, onde viveu muitos anos, fugindo da determinação paterna de se envolver em negócios, o poeta fez, aos 18 anos, uma canção do exílio premonitória. “Se eu tenho de morrer na flor dos anos / Meu Deus! não seja já.” De volta ao Rio de Janeiro, dedicou-se apenas à literatura, convivendo, entre outros, com Machado de Assis. Tuberculoso, morreu aos 21 anos. Quem não dançaria esta valsa de Casimiro de Abreu?

“Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!”

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...”
(...)

Fagundes Varela (1841 - 1875), não fugiu ao destino dos românticos. O último “Byron brasileiro” teve uma vida febril, marcada pela marginalidade, aventuras, bebidas em excesso e por tragédias pessoais. Apesar de tudo, segundo os críticos, Fagundes Varela teve extraordinária inspiração poética. Aos 21 anos, já conhecido como poeta de importância, publica “Noturnas”, suas primeiras poesias. Estudou na Faculdade de Direito de São Paulo, mas não concluiu o curso. Atormentado, voltou ao Rio de Janeiro, em 1866. Morreu em Niterói, quase anônimo, com sérios problemas mentais. A um filho morto ainda na tenra infância, Fagundes Varela dedicou, com data marcada - 11 de dezembro de 1863 – o ”Cântico do Calvário”.

”Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. - Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, - a inspiração, - a pátria,
O porvir de teu pai! - Ah! no entanto,
Pomba, - varou-te a flecha do destino!
Astro, - engoliu-te o temporal do norte!
Teto, - caíste! - Crença, já não vives!”

Eles se foram cedo, mas deixaram sua marca no tempo e na História. Eram os quase meninos românticos de versos de paixão. De amores vividos e perdidos. De dizer ao mundo porque vieram. Um deles, Castro Alves, saiu do canto à deusa Calíope e mostrou rumos do nosso destino, versejando sobre coisas que ainda nos envergonham. Quem sabe, um dia, chegaremos aonde o poeta chegou em seu vôo de condor.
“Ó pátria, desperta... Não curves a fronte
Que enxuga-te os prantos o Sol do Equador.
Não miras na fímbria do vasto horizonte
A luz da alvorada de um dia melhor?”

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clara arruda
 

Meu querido Eloy.Me perdoa chegar só agora,estava sem conexão.Hoje leio com imenso prazer seu trabalho.Gostaria de fazer um comentário digno da sua maravilhosa postagem.De tantos poetas jovens,Castro alves me fez chorar n juventude com o poema que tento transcrever abaixo.Não sei caberá no espaço.
Um beijo em seu coração.

Vozes d'Àfrica
Deus! ò Deus! onde estàs que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos cèus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estàs, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! ...
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos harèns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...

Sempre a làurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela — doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

....................................

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...

E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...
Quando subo ás Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
'Abriga-me, Senhor!...'

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: 'Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . '

Nem vêem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitàrio
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno cèu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monòtono, arquejante
Que desce de Efraim

.......................................

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurìvel
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu glàdio vingador?!
........................................

Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
'Cão! ... serás meu esposo bem-amado...
— Serei tua Eloá. . . '

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa — arrebatada —
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se ás mais... irmã traidora
Qual de Josè os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.


Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 6/10/2008 14:58
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Eloy Santos
 

Certamente, Clara, que "Vozes d'África" soma, e muito, nesta pequena homenagem a alguns dos mais importantes poetas do Brasil.
A poesia foi publicada depois da morte de Castro Alves.
Nela, é a própria África quem narra a trágica desventura dos africanos escravizados e brutalmente colonizados pelas potências européias no século XIX.
É a mãe-África quem lamenta tão triste destino: "Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?..."
"Há dois mil anos te mandei meu grito..."
A obra desses poetas juvenis em sua genialidade é vasta.
Já preencheu centenas e centenas de livros.
Aqui nós divulgamos um pouquinho dela, não é mesmo?

Eloy Santos · Rio de Janeiro, RJ 6/10/2008 18:42
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joe_brazuca
 

Magnífica aula sobre nosso grande Poeta !
aprendi !...revisitarei !
abs

joe_brazuca · São Paulo, SP 6/10/2008 19:44
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celina vasques
 

magnifico! vou precisar ler e reler!
como disse nosso querido poeta joe brazuca, uma verdadeira aula!
PARABÉNS PELO TRABALHO!
beijo na alma de poeta!

celina vasques · Manaus, AM 6/10/2008 20:21
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ayruman
 

Magnífico nobre amigo. Muito importante trazer para nossos dias, testemunhos de nossa história, nossa Vida cultural desde suas origens.
um grande abraço.jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 7/10/2008 08:04
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Claudia Almeida
 

Ninguém vos rouba os castelos
Tende palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.

Eloy parabéns, Clara me chamou fico assim engolindo os lamentos
da escravidão...ora postando...

Um grande Abraço


Claudia Almeida · Niterói, RJ 7/10/2008 08:40
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joe_brazuca
 

joe_brazuca · São Paulo, SP 7/10/2008 12:40
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Regina Lyra
 

Grande Eloy,
Já tive oportunidade em ler textos seus
e venho procurando conhecer mais dos
seus escritos.
Muito bom o resgate de grandes figuras
da arte poética nacional.
Grande abraço e votos,
Regina

Regina Lyra · João Pessoa, PB 7/10/2008 13:19
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Higor Assis
 

Olá, Nobre pesquisador!

Parabéns mais uma vez pelo seu rico texto, com uma exemplra pesquisa. Mais uma grande aula.

Castro Alvez fez questão de ser conhecido e reconhecido como Poeta, ele dizia e queria não ser chamado de mais nada. Fez questão disso!

Nabuco falaria muito dele em alguns dos seus discursos. Voltarei depois para te destacar um escrito de Nabuco sobre Castro Alves.

Um abraço.

Higor Assis · São Paulo, SP 7/10/2008 17:34
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Vinícius Motta
 

Muito bom.

Esses poetas foram fundamentais no momento que dava os primeiros passos na poesia, tentando entender meus sentimentos através dos versos.
Vejo como poetas fumdamentais para entender um pouco da construçõa do Brasil, pois seus escritos comungam com a realidade de cada época. Indo de um ideário pueril para uma ótica mais crítica.
Parabéns por nos trazer a riqueza da poética de cada autor.
Votado.
Abraço.

Vinícius Motta · Rio de Janeiro, RJ 7/10/2008 18:35
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Cintia Thome
 

Caro Eloy, reler e recordar passagens dos Poetas foi só aqui muita emoção mesmo. Fez de uma maneira fácil, clara e muito fluente...
Falar estes versos, só tenho vontade de chorar:
Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher - camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas,
Minh'alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas ...
E a mesma voz repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: - impossível!”


Um abraço e parabéns.ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 7/10/2008 19:44
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C.E.P
 

Caro Eloy,

Belíssimo texto sobre nossos poetas românticos. Parabéns

C.E.P · Rio de Janeiro, RJ 7/10/2008 20:31
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delen
 

Eloy ,

Vc apresentou mais que um trabalho para nós , foi uma verdadeira lição de cultura , perfeito, parabéns , publicado com muito prazer. Abraços...

delen · Cotia, SP 8/10/2008 10:58
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Coluna do Domingos
 

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias seu calor.
Senhor!...pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Este hino de liberdade sempre a dar pulso voz vez aos poetas fraquejantes, fico triste em saber que o espaço para os poetas hoje é muito restrito, pois na história da libertação do homem sempre um poeta a dar luz dar prumo dar vida dar fromato dar a essência. Quando será que nós poetas reconquistaremos o espaço perdido na mídia brasileira ?

Coluna do Domingos · Aurora, CE 8/10/2008 12:06
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Coluna do Domingos
 

Aprovadíssimo. Votado

Coluna do Domingos · Aurora, CE 8/10/2008 12:06
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Saramar
 

Eloy, estes meninos poetas são, desde sempre, a mina onde bebo.
Perdoe-me por girar o tema para outro lado, mas não posso deixar de compará-los aos jovens de hoje, sob pena de ser saudosista.
Antes, aprendiam línguas e filosofia; hoje, dicas de beleza.
Antes, liam os clássicos universais; hoje, auto-ajuda.
Antes, assistiam a apresentação de peças de Shakespeare; hoje, às raves.

Voltando ao seu texto, verdadeira aula sobre os românticos brasileiros, devo dizer da minha parcialidade e agradecer às ricas lembranças sobre Castro Alves, poeta que reverencio desde criança.
Muito obrigada.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 9/10/2008 01:10
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veracarioca
 

Li e gostei muito...votei

veracarioca · Rio de Janeiro, RJ 9/10/2008 09:30
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Hideraldo Montenegro
 

Mas, que lição!! Que bom que estas informações são dadas aqui para aprendermos.
E, fica uma pergunta: nasce-se poeta ou faz-se poeta?

Hideraldo Montenegro · Recife, PE 9/10/2008 19:55
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Compulsão Diária
 

Eloy, fez um excelente apanhado dos poetas aqui. E de maneira simpática ao estilo, sem perder a linha crítica. Eram magníficos. Verve exuberante, generosa. Lírica consistente, densa. E a visível vertigem e prazer lá nos versos corajosos e já tão citados por todos. Seu texto reconhece o prazer em desabrir as imagens, extendê-las trabalhadas e amplas, sem constrangimentos que sentimos hoje, época da concisão.
e a homenagem a castro alves é justíssima e brilhante.
Muito bom, Eloy

Compulsão Diária · São Paulo, SP 10/10/2008 00:44
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clara arruda
 

Meu querido,demorei...Chego agora para deixar meu carinho e uma nova leitura.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 10/10/2008 17:14
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Juscelino Mendes
 

Só você mesmo para trazer essa beleza de poeta.
Castro Alves é nosso patrimônio sem medida.
Obrigado, meu caro.
Só agora pude ler.
Abraços.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 10/10/2008 22:02
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Claudia Almeida
 

Meus sinceros votos!Abraços

Claudia Almeida · Niterói, RJ 10/10/2008 23:04
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Doroni Hilgenberg
 

Eloi
Maravilhoso postado
esses quase meninos que nos
deixaram um legado inequecível.

Gosto demais desse poema de Castro Alves:

SONHO BOÊMIA

Vamos meu anjo, fugindo,
a todos sempre sorrindo,
bem longe nos ocultar...
como boêmios errantes,
alegres e delirantes
por toda a parte a vagar.

Há tanto canto na terra
que uma vida inteira encerra!...
e que vida!...um céu de amor!
seremos dois passarinhos
faremos os nossos ninhos
lá onde ninguém mais for.

Bjss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 11/10/2008 13:11
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JACINTA MORAIS
 

Caro poeta ELOY,sou apaixonada pelas obras de CASTRO ALVES,tanto q sou sócia do GRÊMIO LITERÁRIO CASTRO ALVES d P. ALEGRE,desde 28-12-1990.Estive presente nas comemorações dos 50 ANOS da entidade,dia 25-05-2008,na Capital-RS.Encontrei muito brilho nos seus textos, realçando e elevando ainda mais o grande homem e o inesquecível poeta,de todos os tempos...Falar de CASTRO ALVES é superar toda e qualquer superficialidade!termino minha noite com mto encantamento,obrigada por esses momentos abraços e bom início d semana amigo poeta.

JACINTA MORAIS · Cascavel, PR 13/10/2008 01:48
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ayruman
 

Muito importante trazer para nossos dias, testemunhos de nossa história, nossa Vida cultural desde suas origens.
>>> Confirmando Voto. Um grande abraço.jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 13/10/2008 17:00
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azuirfilho
 

Eloy Santos · Rio de Janeiro (RJ)
Castro Alves e outros poetas quase meninos

Com todo respeito a Tantos Poetas de tantos Merecimentos mas, Castro Alves é Divino, pela sua juventude e por ser sempre lá na frente mais do que vanguarda.
Seu Trabalho é apaixonante digno da imágem extraordinária e o Conjunto causa um impacto na gente de Amor e Orgulho.
Parabéns
Muito Prazer de lhe conhecer.
Espero que entre nós se forme uma Amizade Fraterna de Pessoas que amam a poesia e Castro Alves.
Abracáo Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 14/10/2008 17:30
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Sônia Brandão
 

Muito interessante o seu texto. Muita gente hoje não conhece os poetas dessa época, como os jovens se inflamavam. É importante viver o tempo atual, mas sem esquecer o passado.
abs

Sônia Brandão · Bauru, SP 19/10/2008 14:54
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luz de sempre
 

Caro Eloy,
Que belíssimo texto sobre nossos poetas..És jornalista, assim como eu quero ainda um dia ser...Será que ainda resta tempo?Gosto muito de escrever,tenho um blog o qual o endereço se encontra na minha página inicial, quem sabe algum dia não trabalhemos na mesma redação?
Abraços e obrigada pela gentileza de ter votado em minha poesia.

luz de sempre · Maceió, AL 21/10/2008 19:02
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Rita Alves
 

Mais do que uma aula de Lit.Bras., uma aula de História. Jovens idealistas e apaixonados que com suas vidas e suas obras marcaram mais do que um estilo de época. Castro Alves grande homem, mais do que um condoreiro, pois alcançou na vida real o que os demais romântico almejaram. Trocou o ufanismo nacionalista pela crítica social e política e o platonismo amoroso pelo erotismo.
Ganhaste uma leitora e uma aluna!
Abraços!

Rita Alves · Rio de Janeiro, RJ 24/10/2008 17:21
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Iva Tai
 

Eloy...todos estes poetas nos deixaram fecundos de palavras que nos rasgam a garganta...grande mérito da herança...neste caso de deuses...Bjos

Iva Tai · Manaus, AM 31/10/2008 04:12
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Carlos Mota
 

Eloy,
uma verdadeira aula sobre a poesia romântica no Brasil,
lembrou-nos poetas e versos às vezes esquecidos
grande trabalho mestre,
abraço,

Carlos Mota · Goiânia, GO 7/11/2008 17:35
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JACINTA MORAIS
 

ELOY,
Obrigada por sua visita
Tão carinhosa!
Deu vontade de falar um pouquinho
Do nosso amado CASTRO ALVES:
Ele era antes de mais nada um sedutor,
Homem alto,forte,esbelto,de tez morena,ampla testa,
Olhos negros rasgados,lábios sensuais,sombreado por
Um buço arrogante,queixo dominador,vasta e larga cabeleira,
Cuja sedução ele bem conhecia.
"Conta-se, ainda,que antes de sair de casa,punha-se diante do espelho,arrumando cabelo e bigode,ocasião em que sempre dizia:
PAIS DE FAMÍLIA,TEMEI: DOM JUAN VAI SAIR"
Foi com tamanha lábia exibida nos discursos,que improvisava nos teatros e toda a sedução dos deuses,que conquistou EUGÊNIA.
Contava ele com 19 anos,e ela com 29.O infinito amor por essa mulher,acabou por ser sua terrível ruina...COMO O GÊNIO DA NOITE QUE DESATA/O VÉU DE RENDAS SOBRE A ESPÁDUA NUA/ELA SOLTA OS CABELOS...BATE A LUA/NAS ALVAS DOBRAS DE UM LENÇOL DE PRATA...
O SEIO VIRGINAL QUE A MÃO RECATA/EMBALDE O PRENDE A MÃO...
CRESCE,FLUTUA"(...) CASTRO ALVES, eternamente!!!

JACINTA MORAIS · Cascavel, PR 8/11/2008 02:40
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Poetisaluz
 

Sim...poetas meninos..e videntes...paz e luz votado

Poetisaluz · Petrópolis, RJ 17/11/2008 17:30
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Marcelo Moraes Caetano
 

Que artigo excelente! Uma análise sensível e crítica sobre a produção literária de uma escola filosófica tão pouco (a meu ver) compreendida pelas pessoas de hoje, sobretudo os jovens, de quem, no mais das vezes, o idelaismo e a ética do bem comum passam ao largo... Obrigado pelo texto.

Marcelo Moraes Caetano · Rio de Janeiro, RJ 20/11/2008 15:31
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José Cycero
 

Demais... Gostei e voto mesmo atrasado, amigão.

José Cycero · Aurora, CE 23/11/2008 13:54
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valdezz
 

li e reli e estou guardando futuras consultas, obrigado de coração por mais esta obra grandiosa

valdezz · Arraial do Cabo, RJ 25/1/2009 14:37
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Maria...
 

amo ler o Castro Alves. Obrigada por trazê-lo tão perto de nós.

Maria... · Blumenau, SC 1/1/2010 21:21
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