Catarse coletiva: o delírio no verbo falar

http://www.ciapierrotlunar.blogspot.com/
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Nilmar Barcelos · Belo Horizonte, MG
19/2/2008 · 123 · 10
 

Cia. Pierrot Lunar coloca espectadores em situações nada confortáveis com a peça “Atrás dos olhos das meninas sérias”, gerando ácidas reflexões sobre temas existenciais como a felicidade e o sofrimento

Um lugar pequeno. Cerca de 80 pessoas em meio à escuridão. Uns sentados em cadeiras, outros acomodados em almofadas espalhadas pelo chão. No centro - enquanto uma sonoplastia minimalista simula o gotejar de algo, que repetidamente cai em forma de angústia na cabeça dos presentes -, uma mulher se põe a falar. Não vagamente. Todo aquele ódio e ironia de Ana (Neise Neves) são direcionados, vomitados para um homem da platéia: “Sangue pingando no copo pra você beber. Bebe um pouquinho, bebe. Bebe tudo. Isso”. O sujeito acha que se trata de mais uma peça de comédia, finge estar bebendo o líquido em um copo imaginário, enquanto sorri para a atriz. É surpreendido com um indicador na cara e muitos gritos: “Toma tudo. Tudo, porra! Quem aqui tá brincando, hein? Quem aqui tá sorrindo? Eu não estou sorrindo”. O homem, extremamente encabulado e sem jeito, se torna alvo de todos os olhares. A platéia fica apreensiva, talvez por medo de não saberem quem seriam os próximos a participarem do ritual catártico.

Vivendo desejos suicidas, sexuais e/ou homicidas. Vivendo a crueza da vida, sem máscaras. É assim que você se sente ao sair de um lugar pequeno, como cerca de 80 pessoas em meio à escuridão, com uma mulher descontrolada, louca, gritando compulsivamente tudo aquilo que guardou para si durante anos de um casamento despedaçado. É sobre mudanças, sobre gente e as várias formas de ser gente-mudada que trata a peça Atrás dos olhos das meninas sérias, da Cia. Pierrot Lunar. A linha-mestra da peça – adaptação do premiado romance Falar, do dramaturgo Edmundo de Novaes Gomes – é uma tentativa de retratação da vida de Ana, mulher obsessiva que seqüestra seu ex-marido (Léo Quintão) e faz de um casebre no sertão o seu cativeiro. É lá, longe da conturbada vida urbana, que a mulher escolhe as formas mais apropriadas e satisfatórias para se comer o frio prato da vingança. Torturas psicológicas e agressões físicas são as entradas principais da trama. “A vida é mesmo essa. Quando você quer, não querem te dar. Quando você dá, não querem receber. Todo mundo olhando ao contrário. É como se fosse uma navalha de cinema. Fake. Você passa em seu pulso e ela não corta. Você se arrepender e ela já sangrou tanto em sua imaginação que você já está morrendo”, desabafa Ana com algum “sortudo” da platéia.

Além dessa incursão dialógica com as propostas subversivas do dramaturgo alemão Bertold Brecht - fazendo com que o público se envolva, como se toda a história ali contada fosse uma analogia de suas próprias vidas, representadas, expostas -, que em uma só navalhada falso-verdadeira pulso a fora do espectador faz jorrar toda a sangria imaginária, um dos méritos do diretor Juarez Dias é conseguir representar diversos universos físicos e abstratos através do uso de somente dois atores. Quintão, por exemplo, é um ator que de forma geral faz o papel do marido de Ana, mas que em alguns momentos se transforma na personificação da própria Ana torturando o ex-marido ou até mesmo a metaforização de toda a confusão mental dessa mulher. Em geral os atores contracenam momentos passados da vida dos personagens - quando se conhecem na faculdade, na primeira viagem juntos para praia, entre outras coisas. Mas quando se trata das partes mais agudas da obra, em que Ana tortura o marido, é o público que prepara o rosto para a hora do soco.

A mobilidade dos atores se dá de forma muito instigante. Em alguns casos, Léo Quintão é Gurgel, uma espécie de personificação da pulsão de morte de Ana - em forma de alucinação humanizada ou fantasmagorizada -, convencendo e arquitetando junto com essa o seqüestro do ex-marido, também interpretado por Quintão. É notável, por exemplo, a resposta de Gurgel ao ser questionado por Ana - em meio a um grande conflito existencial - sobre como é morrer: “Vai te foder no útero, sua piranha. Me chamou pra perguntar como é do outro lado? Pra mim é uma merda, uma merda total. Falta de tudo: cerveja Brahma, cigarro Hollywood, revista de sacanagem. Pra cada um é de um jeito, igual essa bosta daqui. Não tem diferença, não tem explicação, só existe miséria. Deus, sua puta, também não tem. A gente inventou, mas não tem. Igual revista de sacanagem, Brahma e Hollywood. A gente inventou, mas não tem, porra! Esgotou”. Gurgel é a metáfora que grita, atormenta, elucida, pedindo a Ana que o libere, o satisfaça – seja através do suicídio ou do assassinato do ex-marido.

Em outros casos, o ator encarna o papel da própria Ana - com os trejeitos, hábitos e feminilidade da mesma - torturando o ex-marido, cena que sugere o quão confusa e imersa em loucura ela estava. A platéia volta ao processo catártico, mas dessa vez o algoz é Quintão no papel de Ana: “A Elisa, aquela puta, aquela vagaba! Eu tenho que lembrar disso outra hora pra você lembrar também, seu idiota, pra que você se recorde que você já meteu naquela piranha. Não é mesmo? Você não meteu naquela preá? Agora eu vou meter nocê, vou te foder com esse pedação de pau cheio de ferpa, seu veado, as ferpinhas entrando assim no seu rabo. Tá doendo? Tá doendo muito? Não morre agora não que eu tenho que falar. Não morre não, seu merda. E pára de cagar, porque senão vai ter que comer bosta de novo”, ameaça verbalmente o ex-marido (leia-se alguém da platéia) por tê-la traído com Elisa.

Essa flexibilidade nas atuações também se dá com a atriz Neise Neves, que em dados momentos deixa a carcaça de Ana para se tornar Nê - a filha do caseiro da casa de praia onde Ana passava férias com o então marido. Nesse exato instante da peça, nas palavras do próprio marido, é extraordinário perceber como um tema-tabu foi trabalhado de forma tão simplória, humana, gerando um clima extremamente obscuro de desconforto: “(...) Nós só vimos mesmo quando o Noca desceu com sua filhinha neguinha. O bibelô mulatim que devia ter seus nove aninhos. A gente fingindo ver a paisagem. Mas nós só vimos muito bem quando ele sentou atrás de uma pedra assim e tirou a calcinha da Nê. Depois, o Noca tirou o pau pra fora e foi ajeitando, a menina mexendo, o pinto entrando. O pinto do Noca entrando na bundinha da filhinha dele e a gente não podendo ver mais nada, a gente não podendo ver mais nada, a gente não podendo ver mais nada, a gente querendo ver tudo aquilo. O silêncio, meu bem, é algo triste como a chuvinha que começou a cair naquela hora (...)”.

Outro grande momento nas interpretações se dá quando Neise Neves coloca um óculos de grau e se transforma em Marcinha - amiga supostamente careta e reprimida de Ana, mas que se revela uma sedenta pela vida à ponto de descobrir verdadeiramente o sexo com uma travesti por nome Amanda. “Na hora que ela tirou a calça pude divisar, por traz da calcinha branca de rendinhas, um pequeno volume que nem de longe se assemelhava àquilo que em pouco tempo estaria dentro de mim, dentro da minha boca, dentro da minha boceta, enfiado em meu cu. Um feixe grande de carnes e músculos, poderoso como um colosso, com veias protuberantes. Ai, Ana, eu chupei tudo aquilo: peitos, bocas, pau, a cabeçona vermelha, o cu, todos os líquidos, limpei as merdas e descobri o que é sexo. Descobri nessa coisa maluca que é gozar com um sujeito lindo e loiro indefinível”. É nesse instante, aliás, que Ana também passa a se descobrir, nas festas na casa da amiga. “Fui de Pierrô, um Pierrô lindo, xadrez e colorido, com pinturas leves e ternas na face e um chapeuzinho que se perdeu. Perdeu-se junto comigo, porque me perdi mesmo. Arreganhei, arregacei a buçanga. Dei pra pinto, dei pra xota, dei pra língua, dei pra dedo, dei pra consolo preto, branco (...) Mas o melhor mesmo da festa foi uma hora em que a Amanda me roubou e foi me levando pro quarto da Marcinha (...) Você não ia agüentar, seu pervertido. Gozava na hora vendo uma traveca enrabar sua ex-mulherzinha (...)”, grita Ana - através do ator Léo Quintão -, provocando outra pessoa da platéia, como se fosse a representação do seu ex-marido.

Em diversos instantes da peça, a questão da identidade e a fragmentação dessa são trabalhadas nos personagens. Marcinha descobre o prazer sexual com um travesti e se apaixona pela vida. Ana, em constantes transtornos mentais e desencontros com a vida, também se descobre de forma surpreendente nas orgias na casa de sua amiga. Já o ex-marido é uma figura que, embora extremamente significativa em toda a obra, não possui nome. É nesse ponto que a hipótese desse tratar-se apenas de uma imagem fantasiosa, vertiginosa - criada por Ana como forma de exorcizar seus demônios, como uma espécie de válvula de escape, cura - se torna aceitável. “Daqui a pouco eu saio curada. Só mais um, dois dias e pronto. Curada. Sã e salva. Cabeça limpa. Problemas resolvidos. Cu-ra-da”, diz Ana. Ela mesma se auto-classifica fake. Em determinado momento, Ana está sentada em uma cama na qual diversos momentos de sua vida estavam escritos - “Rock in Rio III”, “Vagaba” etc – e por escrever, nos remetendo a uma metáfora sobre a memória humana e sua fugacidade. O tratamento com a questão identitária é percebido até mesmo tecnicamente, quando se opta para, em determinados momentos, Léo Quintão e não Neise Neves interpretar Ana, nos remetendo justamente a essa fragmentação referencial da identidade.

Atrás dos olhos das meninas sérias é uma peça que, embora feita com poucos recursos, nada deixa a desejar à grandes produções. O uso de espaços alternativos é completamente viável a proposta brechtiniana de rompimento da hierarquia entre atores e público. Nos momentos mais dramáticos, a sonoplastia é impecável, ressaltando a parte que Ana tortura seu suposto ex-marido. “Não dói não, olha só: pego essa agulhona aqui, essa seringona aqui e enfio na minha veia e tiro sangue. O meu sangue, que é a mesma coisa, a mesma marca do seu sangue. Já tirei uns meio litro. Tem grilo não. Põe nessa garrafinha de coca-cola mesmo. E agora, é só fazer o contrário, o inverso, o reverso. Te alimentar com meu sangue”. Nesse ponto, a sonoplastia simula gotejos (no caso, de sangue), criando uma ambientação de angústia e tensão únicas. Além do mais, as luzes são muito bem projetadas, trabalhando conjuntamente com a sonoplastia na construção de climas ideais para tal contexto. Esse fato deve ser ressaltado e elogiado, uma vez que muitas peças caem no pecado dos exageros, com luzes e sons tornando-se protagonistas no quesito “irritação do espectador”.

Mas, depois de tanto falar e mais falar, vem o silêncio em forma de chuva triste, que cai sem cessar, formando grandes oceanos dentro de cada um de nós. Silêncio melancólico, em ondas que vem e vão, revelando que o indo e vindo infinito do poeta é mesmo uma mudança constante “o tempo todo no mundo”. Após falar, titubear e parar para pensar, Falar torna-se uma quimera definível somente no falar do poeta Manoel de Barros e sua didática inventiva: No descomeço era o verbo/ Só depois é que veio o delírio do verbo/ O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos/ A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som/ Então se a criança muda a função do verbo, ele delira/ E pois/ Em poesia, que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos – O verbo tem que pegar delírio. Sala vazia, fim do ritual de purificação. Ali dentro, talvez, o fôlego estivesse viciado, preso dentro do peito, diferentemente de um dia normal, seguido de outro dia normal, no qual as pessoas lentamente roubam o ar do mundo pelo nariz e suavemente o devolvem pela boca.

DIAS, Juarez; NEVES, Neise; QUINTÃO, Léo. Roteiro da peça Atrás dos olhos das meninas sérias, 4ª versão. Adaptação teatral do romance original Falar, de Edmundo de Novaes.

Informações sobre as próximas apresentações da peça podem ser encontradas em http://ciapierrotlunar.blogspot.com




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veganito
 

Muito bom texto, senhor Barcelos.

veganito · Belo Horizonte, MG 18/2/2008 20:57
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soninha porto
 

normalmente no pc não tenho muita paciência de ir até o fim em textos enormes, mas o teu está tão bem escrito e a crítica à peça tão interessante que li até a última gota, me imaginei levando aqueles gritos na cara, nossa, uma catarse mesmo! Meu voto e desde já tua fã.

soninha porto · Porto Alegre, RS 18/2/2008 21:26
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Lígia Saavedra
 

O teatro me inspira e já fiz várias oficinas, Nilmar, até porque também sou cantora e preciso dele para estar no palco.
Como diria Manoel Bandeira: "A palavra foi feita para dizer"
Um abraço

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 18/2/2008 21:41
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Lu&Arte
 

Olá, Nilmar
Belo texto, um convite a ver a peça, muito bom.

Um abraço, Luciana

Lu&Arte · Porto Alegre, RS 18/2/2008 22:14
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Cintia Thome
 

Que maravilha de colaboração. temos que falar do que acontecena área do teatro brasileiro .O temos aqui no Over é dar enfâse ao Teatro.Boa crítica.
Parabens.
ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 19/2/2008 10:05
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Paulo Esdras
 

Fiz Teatro por dois anos e até escrevi roteiros. Precisamos divulgar e elevar esta arte que encara as reações do público olho-no-olho encarando de frente outras artes mais divulgadas pela mídia. Quem conhece o teatro se apaixona e o triste é perceber que muitos ainda nem foram a uma peça. Precisamos dar a oportunidade a mais pessoas conhecerem a sua arte (muito criativa) maravilhosa, antiga e atual.

Abraços fraternos,

Paulo Esdras

Paulo Esdras · Brumado, BA 19/2/2008 13:56
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Allegra Lillith
 

ótimo texto, prende a atenção do leitor.
Bjs,
Allegra

Allegra Lillith · Rio de Janeiro, RJ 19/2/2008 23:25
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Branca Pires
 

Ollá Nilmar, parabésn pelo texto!
Obrigada pelo convite!
Abração

Branca Pires · Aracaju, SE 20/2/2008 01:30
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paolagiovana
 

Olá, Nilmar! Já havia ouvido falar da peça e afirmo com pesar que ainda não tive a oportunidade de assisti-la. Depois da sua crítica meu pesar aumentou.
bjos

paolagiovana · Belo Horizonte, MG 20/2/2008 18:09
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tinah
 

Paeabéns pelo texto, Nilmar!
bjO

tinah · Cruz das Almas, BA 20/2/2008 20:51
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