Foi num clima de expectativa e curiosidade que fui parar em Bayeux, cidade vizinha a João Pessoa, doida pra saber mais sobre o que era o Cavalo Marinho. Encontrei seu Zé Bento por lá: um sujeito simples, cabelos brancos e de uma simpatia incrível, pronto pra me fazer entender mais sobre este folguedo popular que ele coordena. Não precisou de muito tempo para perceber toda a paixão que envolve seu trabalho e o faz às vezes até tirar dinheiro do próprio bolso pra poder manter o grupo, passar tardes sob um sol escaldante mobilizando a comunidade e resistindo à enorme falta de apoio governamental de uma cidade que não possui sequer uma secretaria de cultura.
E o que é o Cavalo Marinho?
É um grupo de folguedo popular que se manifesta na música e principalmente na dança para a valorização e preservação de expressões autênticas da cultura popular em sua comunidade. Inspirada pelas festas de reis, a apresentação é regada de significados e tem como enredo lendas, romances, narrativas heróicas de figuras fantásticas e animais glorificados, explicou seu Zé Bento.
E com tantos símbolos e autenticidade, é praticamente impossível não ser hipnotizado por cerca de 40 brincantes (entre jovens, idosos e crianças) vestidos de cores fortes, dançando xote, xaxado, sapateado e mais um monte de danças que nem eles sabem dizer o que são. “O que o som da zabumba pede a gente faz”, explicam os brincantes, ficando fácil notar a empolgação deles em torno de todo o clima mágico que os envolve.
Perguntei ainda como começou a tradição do Cavalo Marinho aqui na Paraíba, e seu Zé Bento foi logo dizendo com aquele ar de contador de histórias que parece inerente a toda pessoa que tem tantos anos de vida pra contar: “Isso é história antiga, minha filha... já ouviu falar em Major Ciraulo?”
Major Ciraulo viveu nos anos 20, era o agitador cultural residente lá em Bayeux que sempre trazia grupos de cultura popular de Bananeiras e Borborema (cidades do interior da Paraíba) pras grandes festas dos fazendeiros da região. E eram realmente grandes essas festas: começavam as 8:00h da manhã e só tinham fim às 6:00h do outro dia! Matavam-se galinhas, um boi... A mesa tinha de ser farta. Logo em seguida, o grupo que o Major trazia chegava e só parava de dançar para comer, à 1:00h da manhã, voltando depois com todo o pique e interagindo com os moradores e trabalhadores da região.
A dança era tão empolgante e fazia tanto sucesso que os habitantes locais começaram a reproduzir no dia-a-dia os movimentos dos tais grupos do interior, com total incentivo do major Ciraulo, que dispunha de uma casa próxima à Ponte do Baralho (divisão entre Bayeux e João Pessoa) pra sediar os ensaios. Foi naturalmente eleito um mestre que cuidava da apresentação, e um coordenador que cuidava das reuniões e organização do grupo. Pronto! Está formado o cavalo Marinho da Paraíba.
E a quantas anda o Cavalo Marinho hoje?
Quase 100 anos depois, a maior luta (que se torna também um grande trunfo) é manter essas manifestações que foram tão importantes para seus pais e avós fiéis às originais. Seu Zé Bento faz questão de dizer a todo instante que seu grupo é o mais tradicional existente hoje em dia, mas mesmo assim teve que se render a algumas adaptações óbvias: se antes o espetáculo durava mais de 24 horas, agora tudo é resumido em 40 minutos, além de haver uma preocupação grande com divulgação, que não é tão fácil como se imagina. Estamos falando de um povo muito carente que ainda toma um susto danado quando falamos em computador e Internet. E no nosso tempo, com a facilidade e velocidade da informação, quem não está na rede praticamente não existe, fica inacessível... Mas seu Zé Bento está lá, na sua casa escondidinha em Bayeux para nos provar que existe um mundo que não usufrui nada disso, que pra entregar um release a quem quer que seja tem quem passar na xerox do outro lado da cidade.
E sua missão é essa. É viver sem nenhuma verba ou apoio para manter o grupo, é perder as contas de quantas vezes teve que tirar dinheiro do próprio bolso para consertar figurino e comprar instrumentos musicais para apresentação. “Ah, moça... Você viu nossa rabeca? Precisamos de outra urgentemente!”. Mas o maior problema mesmo é quando surge uma oportunidade de levar o folguedo para fora do estado com o objetivo de participar de algum encontro ou festival. É de se imaginar que não são todos os eventos que têm condições de pagar um cachê que viabilize manter e transportar mais de 40 participantes. E como seu Zé Bento faz? “A gente teria que se apoiar em algum órgão de cultura da cidade, mas não existe nada parecido aqui. Temos que ir atrás da prefeitura da capital. Pelo menos eles fazem o que podem, ajudam na maioria das vezes com o mais urgente”. E essa é realmente a única fonte de apoio do grupo. Foi assim que conseguiram o ônibus para marcar presença, por exemplo, na feira da Música de Fortaleza esse ano, onde os vi pela primeira vez e me encantei com um cortejo feito do SEBRAE até o Dragão do Mar.
E pra eles já é assim mesmo... Cada vitória é uma comemoração enorme e serve de incentivo pro grupo ver o quão importante é pra Paraíba. E eles estão cada vez mais conscientes disso “Eu acho que a gente tá muito valorizado em outros lugares, sabe? Sempre recebemos convites pra dançar fora da cidade, às vezes aparece alguém querendo fazer uma entrevista... Eu acho que se a gente não fosse importante ninguém ia vir aqui, né? Parece que só o governo da nossa cidade que não enxerga isso”. É mesmo lindo ver seu Zé Bento responder quando eu pergunto o que o faz passar por cima de todas as dificuldades “Eu não sei não, eu não sei não... parece que vem do sangue, sabe? Desde que nasci eu senti isso... quando eu vi, me apaixonei”.
Dá pra perceber a importância desse grupo? E não estou falando só da apresentação em si, mas principalmente do poder de mobilização que o folguedo tem em sua comunidade, da busca por uma identidade cultural e educação de um povo que acha que cultura é coisa de gente chique. Trazer a possibilidade de viagens e cultivar o respeito de gente como Ariano Suassuna e Gilberto Gil não têm preço pra essa comunidade.
O Cavalo Marinho é algo que se sente. Só olhando nos olhos dos seus brincantes é que nós podemos entender realmente, na prática, a importância que a preservação desse legado histórico / cultural tem: o de fazer sentir-se atuando na produção cultural do estado, reativando seus valores humanos e sociais.
Foi também publicada uma materia em video sobre o Cavalo Marinho de Pernambuco aqui no Overmundo, pelo AD Luna. bacana pra saber mais e ver como é a manifestação em outro estado.
Muito bacana! Lá dá pra ver realemnte como são os sons e danças que falei na matéria.
Oi, Carolina, legal o texto e a proposta de recuperar manifestações populares como o Cavalo Marinho. Escrever matérias sobre esses temas sempre me parecem um desafio: como mostrar que não se trata apenas de folclore, mas sim de uma cultura viva? Acho que vc reolveu bem esta questão!
Só queria sugerir correções:
"as originais" - às originais
"adaptações obvias: se antes o espetáculo durava mais de 24 horas, agora tudo é resumido em 40 minutos, além de haver uma preocupação grande com divulgação, que essa divulgação não é tão fácil como se imagina." - adaptações óbvias: se antes o espetáculo durava mais de 24 horas, agora tudo é resumido em 40 minutos, além de haver uma preocupação grande com divulgação, que não é tão fácil como se imagina.
"concertar" - consertar
"É de se imaginar que não são todos os eventos que tem condições" - têm
Um abraço!
Que bom que você gostou, Julia! E sobre as correções... muito obrigada! parece que sempre tem alguma coisa que escapa dos nossos olhos, né?
Ótimo seu texto Carol... muito bom saber que ainda procuram valorizar a cultura regional sem afetações e contaminações. Texto bacana...
Sr. Paciência · São Paulo, SP 18/9/2006 00:03
Legal a matéria Carol, sempre bom saber mais sobre esses pedaços de cultura que montam esse nosso quadro cultural atual, mesmo que não estejamos ao seu alcance. Realmente nem todos têm o acesso à mobilidade de informações da internet, mas por um lado faz parte da própria tradição a própria forma de chamar as pessoas ao espetáculo. Todavia, com um pouco mais de incentivo, o espetáculo pode ganhar mais força e beleza. Quem sabe?
Um beijo!
oi, carolina! muito legal! e obrigado pela dica do vídeo! beijos
AD Luna · São Paulo, SP 18/9/2006 10:55
A Agëncia Ensaio (Ricardo Peixoto, Mano de Carvalho & cia) de Joao Pessoa tb tem um otimo trabalho fotografico feito com o Cavalo Marinho... parabens pelo resgate..!
Edmundo Nascimento · João Pessoa, PB 19/9/2006 06:14
Putz, q massa ver a Cultura Popular na interface com a Cultura Digital!!
Sou uma apaixonada pelas duas manifestações, e só tenho o que agradecer por ter gente como vc Carol, pra trazer aqui pro povo do sudeste (moro em SP) a riqueza da cultura popular que por aqui se perdeu um pouco (até por conta da cultura digital..).
Parabéns!
Putz, q massa ver a Cultura Popular na interface com a Cultura Digital!!
Sou uma apaixonada pelas duas manifestações, e só tenho o que agradecer por ter gente como vc Carol, pra trazer aqui pro povo do sudeste (moro em SP) a riqueza da cultura popular que por aqui se perdeu um pouco (até por conta da cultura digital..).
Parabéns!
Parabéns Carolina pelo seu trabalho no resgate da cultura popular.Eu como morador da cidade vizinha de Bayeux, Santa Rita, sei muito bem como é não ter apoio cultural e interesse das autoridades e inclusive da população em preservar algo tão significativo para as gerações futuras é sem dúvida ultrajante vê que a cada dia que passa parte da cultura local vai sendo esquecido e deixado de lado.
Edy Junior · Santa Rita, PB 22/5/2007 16:33Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!