Celso Borges em vários mo(vi)mentos

Marília Oliveira
Celso Borges autografa
1
Zema Ribeiro · São Luís, MA
1/11/2006 · 105 · 5
 

O poeta e jornalista maranhense (radicado em São Paulo) Celso Borges passou apressadamente por sua terra natal para lançar “Música”. Com o corre-corre das noites de autógrafo, conversou conosco posteriormente, por e-mail.

O imponente casarão onde nasceu Celso Borges – “Rua da Paz, 350, Centro de São Luís do Maranhão”, como ele mesmo anuncia/declama em “Celebração”, faixa que encerra seu novo livro-cd – permanece imponente, na esquina de Paz com Antonio Rayol, confluência da Igreja de São João e Faculdade de Farmácia. Hoje, uma clínica odontológica funciona no local.

Celso Borges, poeta e jornalista maranhense (radicado em São Paulo) passou apressadamente por São Luís para lançar “Música” [Editora Medusa, R$ 30,00], seu mais recente trabalho. Duas movimentadas, corridas e concorridas noites de autógrafos [19/10 na Escola de Música Lilah Lisboa e 20/10 no Novo Espaço Poeme-se]. “Não sei como o Mick Jagger agüenta vinte shows por mês”, alega cansaço ao citar o stone. E Celso ainda arranjou tempo para um recital informal no Chico Discos (Fonte do Ribeirão) [21/10], com nomes como Hamilton Faria (SP) – de quem descobriu ser quase vizinho em Sampa –, Joãozinho Ribeiro, Moisés Nobre, Eduardo Júlio, Gildomar Marinho e Imira Brito, entre outros.

Os compromissos da agenda de Celso eram os mais diversos: há dezessete anos na capital paulista, é sempre concorrido por familiares, amigos, vento e claridade ludovicenses. Desta vez ele trazia “Música” na bagagem. Bonito livro-disco que com poemas, músicas, um belíssimo projeto gráfico e diversos amigos reunidos, imita um disco compacto de vinil, inclusive furado ao meio.

Vinte e cinco faixas e mais de cinqüenta poetas/músicos/artistas/amigos. Pessoas de várias partes do Brasil, na maioria concentradas em São Paulo, mas com participações também de diversos nascidos/residentes no Maranhão. O disco é, aliás, impregnado de São Luís, cidade que Celso ama/odeia, numa relação nada fácil.

Correndo, o poeta não encontrou tempo de conversar conosco e concedeu a entrevista abaixo por e-mail.

Entrevista: Celso Borges

Zema Ribeiro – De "XXI" [2000] pra cá, teus trabalhos têm mostrado um casamento, sem brigas, de música e poesia. Para além das discussões sobre "letra de música ser ou não poesia" e vice-versa, tu acreditas que poemas declamados e/ou musicados, em discos (e/ou outros suportes), podem aumentar o interesse da população por poesia, que como sabemos é prima paupérrima da prosa, como nos mostra a história desde sempre?

Celso Borges – A música aproxima, sem dúvida alguma, as pessoas da poesia. Falo por mim. O interesse pelo meu trabalho aumentou muito depois que assumi nos dois últimos projetos esse formato de livro-cd. Muita gente que não gosta de poesia se sente atraída por um trabalho que tem poesia e música juntas. A presença de um cd, o trabalho gráfico bonito, o objeto arte, tudo ajuda. Mas não gosto do termo "facilitação". Soa como uma estratégia montada para aumentar o público. Meu trabalho tem inquietações sonoras e poéticas que não admitem isso. Não "diminuo" o meu texto para ser mais entendido. Prefiro, por exemplo, ter um público x, que dialoga com minha poesia, do que ter x + 100, sem diálogo algum com o que escrevo. Outra coisa: sempre privilegio o livro. O cd é um encarte. Sou escritor, poeta, antes de qualquer coisa. O livro é meu estandarte. E mais: o som, a interferência sonora, a música, tudo isso é para fortalecer o discurso.

ZR – Há, em "Música", uma gama grandessíssima de informações e influências. Alguém que fizesse mau uso disso poderia fazer uma colagem vazia, o que não acontece contigo: cada poeta, músico e/ou outra citação/referência, tem ali o seu lugar, não transformando tua obra numa babel de sons e letras, e não transformando-a (tua obra) em algo não-original, muito ao contrário. Como foi o processo de concepção de "Música"? E como foi reunir estes mais de cinqüenta nomes neste "compacto" não tão simples assim?

CB – Eu reuni os artistas que de alguma forma têm alguma afinidade comigo, que vêem e sentem o mundo de um jeito parecido com o meu. Sabem que ele é complexo e fascinante. Não estão ali por oportunismo, mas porque dialogam comigo, dividem afeto e poesia. É certo que teve gente, também importante, que não está no “Música”. Mas enfim, foi impossível reunir todos. São somente 25 faixas. Da idéia inicial até a impressão foram mais de quatro anos, muita ansiedade gasta. Mas a demora serviu para amadurecer o conceito, tirar dúvidas, dar alguma homogeneidade dentro de tanta diversidade de artistas. Acho que consegui. O prazer de fazê-lo foi grande.

ZR – Teu trabalho é impregnado de São Luís, numa relação nada fácil, um misto de amor e ódio nutrido de tua parte. Como é ficar "emaranha(n)do em Sampa"? Há possibilidades de Celso Borges voltar à Ilha que o pariu, tendo em vista que essa Ilha não valoriza o trabalho de seus filhos (ao menos enquanto estes a pisam) e a cena jornalística é sofrível, já que tu és poeta (artista, portanto) e jornalista?

CB – Brincando com Chico [Buarque] e [Tom] Jobim, eu diria cantando: "vou voltar, sei que ainda vou voltar, para o meu lugar". É certo que voltarei. Mas tenho dúvidas, medos. Talvez não quisesse, mas a briga pela sobrevivência aqui em Sampa é muito grande, difícil. Os próximos 12 meses serão definitivos. Vamos deixar a água rolar um pouco mais por debaixo da ponte. A São Luís que eu deixei, em 1989, não existe mais. Eu pude inventar outra cidade, vivê-la de outra forma, de longe. Redescobri muita coisa, nova poeticamente, da cidade nesses anos. Sua geografia, a percepção da claridade, a beleza física, o vento, a chuva. Isso tem muita importância pra mim. Mas ao mesmo tempo em que captei essas coisas todas, percebi que a estrutura provinciana da cidade permaneceu a mesma. O poder público escraviza as pessoas. Quase sempre se vive à mercê desse poder, que parece imobilizar a todos. Isso é de uma crueldade absurda, o que mais me dói. E a maioria das pessoas, algumas inteligentes e sensíveis, aceita isso, ou se prostituem, ou tornam-se reclusas, ou enlouquecem.

ZR – Ou seja, São Paulo é um problema por ser "inumana" demais, digamos assim, vertical demais. São Luís é um problema por ser humana demais, provinciana demais, todo mundo se conhece etc. Mas ambas foram importantes na tua formação e na consolidação de tua obra. Como foi decidir, em 1989, deixar São Luís? Terá sido tão, mais ou menos difícil que decidir voltar à Ilha?

CB – Não gosto desse conceito de que São Paulo é inumana. É uma cidade que lida de forma contraditória com quem mora nela. Agora, claro, existe um anonimato que é muito fascinante, que só uma cidade grande pode dar. São Luís é outra viagem, outro carinho, outra tudo, com seus afetos extremos e sua inveja de repartições e botecos. Sair de São Luís não foi nada fácil. Tinha tudo ali, menos a paixão que me levou dali. O tempo é outro, a dificuldade também. Não dá pra comparar. Costumo dizer brincando que São Luís e São Paulo são os dois santos da minha vida, um em cada um dos meus ombros, trocando sempre de lugar. Ora protetores, ora algozes.

ZR – É possível eleger os dois pilares básicos para o início de tua relação com poesia e música, no sentido de apontar o poeta e o músico que fizeram você pensar "é isso que eu quero fazer", assim como o foi, por exemplo, João Gilberto para Caetano Veloso e outros?

CB – Comecei a escrever por causa da mulher. Isso aos 16, 17 anos, quando me apaixonei violentamente por uma menina chamada Débora. Escrevia compulsivamente, queria entender e traduzir o que tava acontecendo comigo. Agora, a partir do meu interesse pela poesia, dois poetas foram fundamentais: [Ferreira] Gullar e Pablo Neruda. “Poema Sujo”, do maranhense, e “Vinte poemas de amor”, do chileno, eram duas bíblias pra mim. Na música é difícil eleger alguém especificamente. Escutava muita coisa: de Beethoven a Beatles, de Chopin a Chico Maranhão. Muito rock também.

ZR – Sérgio Natureza é um importantíssimo compositor brasileiro, já gravado por diversos nomes também muito importantes. Kléber Albuquerque, além de ótimo compositor, é cantor contemporâneo de notável talento. A homenagem que eles te fazem [o fado "Devoluto" tem letra do primeiro e música do segundo], cantada pelo segundo, é, sem desmerecimento à tua obra, um dos mais belos momentos do livro-disco. Foi uma surpresa deles para você? Como é que foi receber essa homenagem? E eles tinham a informação de tua descendência portuguesa, ao escolher o fado?

CB – Conheci o Sérgio por meio de Zeca Baleiro. Mandei pra ele meu livro, “NRA”, em 1997, 98, e ele me ligou elogiando. Dois anos depois, foi ao lançamento do “XXI”, no Rio. Aí, em 2001, me mandou de presente por Zeca a letra de “Devoluto”, toda escrita a mão, com uma caligrafia linda. Fiquei muito emocionado. Porra, parecia que eu estava dizendo aquilo. Quando pensei no projeto de “Música”, resolvi promover essa parceria diferente e chamei Kléber Albuquerque, que já conhecia bastante de discos, encontros e shows. Sugeri a ele que fizesse uma valsa ou um fado e deu no que deu, uma das faixas mais belas do livro-cd. Josias Sobrinho cantando no final é a ligação definitiva com o final do texto, quando Natureza diz: "eu sou um mar voltando pras nascentes do rio". Isso me levou até às águas do Itaqui e à toada que Josias costumava cantar já no final dos anos 70 com o grupo Rabo de Vaca.

ZR – Celso, "XXI" era mais maranhense e menos musical, digamos assim. "Música" abre o leque e traz artistas que, mesmo concentrados em São Paulo, nasceram em diversas partes do país e é um disco com participação maior de músicos, não em detrimento à participação de poetas, que é como tu te assumes. A pergunta – chata – é: depois dessa "evolução", o que é que vem por aí?

CB – Estou com dois novos projetos: o “Poesia Dub”, que desenvolvo há cerca de três anos com o DJ e jornalista Otávio Rodrigues e o baixista Gerson da Conceição. Trata-se de um show de poesia e música que a gente tem apresentado em alguns festivais e projetos especiais, como o Tim Festival, o Baile do Baleiro, Outros Bárbaros [Itaú Cultural] e no Festival Londrix de Poesia, em Londrina. A maioria das trilhas é de Otávio, algumas de Gerson. É uma espécie de "declamação musical", que se atrita com o jeito de falar poesia de artistas como o jamaicano Linton Kwesi Johnson e o norte-americano William Burroughs. Eu não sou muito bom de palco, tenho lá minhas dificuldades, mas venho vencendo aos poucos meus limites. Existe a idéia de gravar um disco a partir do que a gente vem fazendo no palco. Aliás, já gravamos 10 faixas, que ainda não foram mixadas pelo Otávio, que faz tudo no computador. O outro caminho é a minha volta ao livro sem cd algum. Já tenho cerca de 60 a 70 poemas prontos, a maioria inédita. Quero lançá-lo daqui a dois anos. Vou fechar em 50 poemas, ruminá-los bastante e até lá ter a certeza do resultado final.

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Ney Souza Lima
 

VOCÊ é o poeta que faz um trabalho de poesia junto com RICARDO CORONA ?

Ney Souza Lima · São Jorge do Patrocínio, PR 11/11/2009 19:50
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Zema Ribeiro
 

ney, creio que celso borges seja quem você procura: corona participa de música, livro-disco do maranhense. o contato de cb: cbpoema@uol.com.br

abração!

Zema Ribeiro · São Luís, MA 11/11/2009 23:13
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Orisvaldo Tanniy
 

É isso aí amigo, temos que valorizar o santo de casa.
Belo postado!Votado.Abração amigo!!!

Orisvaldo Tanniy · Teresina, PI 12/11/2009 12:04
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Zema Ribeiro
 

gracias, orisvaldo. abraço!

Zema Ribeiro · São Luís, MA 12/11/2009 12:11
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bacamarte
 

Linkei essa entrevista em uma matéria sobre Celso Borges na revista Capitu, junto com um poema e alguns vídeos: http://www.revistacapitu.com/materia.asp?codigo=149

bacamarte · Santos, SP 24/2/2010 12:45
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