CEM METROS COM BANDEJA

Pablo Reis
Na linha de chegada, os mais equilibrados são os primeiros
1
Pablo Reis · Salvador, BA
8/6/2007 · 162 · 6
 

Mais de 80 garçons participam de psicodélica corrida, animada por cerveja quente e pedidos de antidopping

Na penúltima bateria para a definição dos finalistas da Corrida dos Garçons, realizada num domingo ensolarado, no Farol da Barra, o anúncio inimaginável do locutor: “Aí, pessoal, tem gente pedindo o antidopping”. Para competidores dedicados ao atletismo das latinhas – aquele em que não basta cruzar a linha de chegada, é preciso trazer a cerveja intacta na bandeja –, o exame do teor alcoólico no sangue não seria tão confortável. Afinal, domingo de manhã, a turma de folga, e tanta bebida sendo derrubada na pista de improviso, ninguém seria a favor do desperdício.

Durante alguns segundos, o dilema passou pela cabeça dos atletas mais empolgados, que comemoravam a vitória nas baterias esvaziando uma ou outra lata que conduziram pelo trajeto. Mas o próprio locutor abriu um sorriso que deixou claro se tratar de uma espécie de pegadinha, do tipo das marcações de quadrilhas juninas: “Olha a chuva... é mentira”.

Mais de 80 garçons dos restaurantes de Salvador toparam o desafio de encarar a terceira edição da psicodélica corrida etílica. Alguns transformaram o que seria uma confraternização numa disputa acirrada, levada a sério e com pedidos à organização para revisar os resultados, conferir gravações e fotografias antes de definir o campeão. Os idealizadores do evento, uma espécie de encerramento lúdico do Festival Brasil Sabor, promovido pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), já mencionavam, em tom de brincadeira, a necessidade de implantar um fotochart, equipamento utilizado em provas de turfe, para não haver dúvidas sobre o primeiro na linha de chegada.

Lanterninha conformada

A vitória a qualquer custo e com qualquer argumento não estava no cardápio oferecido por Delzuita dos Santos, garçonete há 21 anos, funcionária do restaurante do Othon Palace Hotel. Única mulher da primeira bateria, ela ficou em último lugar, mas não parecia incomodada com a lanterninha. “Não derrubei nenhuma lata, cumpri meu trabalho”.

O colega Eliezer Bonfim ficou em penúltimo na sua vez, para frustração do filho Rafael, que foi convocado como torcedor número 1. Na angústia da torcida, mãos trêmulas, unhas roídas, coração acelerado, Maria Angélica dos Santos nunca esteve tão nervosa no Barradão, assistindo ao Vitória, como ficou para apoiar o namorado Alberto de Jesus, levando o nome do restaurante Crevette’s, do aeroporto. Ele correspondeu se classificando para a final e ganhou um beijo tão efusivo que parecia ter acabado de se tornar um medalhista olímpico.

Algazarra coletiva


O evento misto de esporte e irreverência atraiu um público de pelo menos 500 pessoas na Avenida Oceânica. E o espectador-símbolo da algazarra coletiva em que se transformou o Farol da Barra com a trupe de garçons estava de volta. Depois de beber 14 latas de cerveja quente na edição do ano passado, Paulo Ramos, um aposentado de 66 anos, apareceu novamente com sua filosofia do “quanto pior, melhor”. Para ele, o importante era seguir os competidores mais desajeitados, aqueles que cruzam a linha de chegada sem conseguir equilibrar nenhuma latinha na bandeja.

A busca pela saciedade etílica o transformou num consumidor sem qualquer critério de qualidade do produto. “Cerveja boa tem que ser na temperatura ambiente, ao estilo alemão”, saboreava. Mais do que beber, ele queria se fartar do líquido dourado, como se estivesse regando a própria necessidade de viver o momento. No meio da euforia generalizada, ele já não queria apenas ingerir a cerveja, já tinha tirado a camisa para se banhar com o conteúdo das latinhas.

Enquanto isso, problemas para os fiscais da prova, entre eles o ex-presidente da Abrasel na Bahia, José Ronaldo Teixeira. Muitos garçons não aceitavam a eliminação. “A regra é clara”, bradou Demócrito Bittencourt, da Pizzaria Colombo. A alegação é de que não bastava chegar em primeiro, tinha que manter as cinco latas na bandeja e deixar uma mão sempre atrás das costas. A cordialidade tradicional, regra do atletismo de gorjetas, em alguns momentos foi esquecida para protestos formais dos corredores uniformizados com calça preta de linho, sapato social e gravata-borboleta.

Tudo isso não passa de reclamação inútil para Taiara Araújo dos Santos, garçonete do Mama Bahia, no Pelourinho. Ela derrubou a bandeja logo nos primeiros 10 metros dos quase 100m de pista. “Poxa, eu cheguei a treinar no restaurante com as latinhas de refrigerante”.

Linha de chegada

Perto da final, prevendo inúmeros pedidos de tira-teima, replay, ou qualquer coisa que tivesse que levar para o tapetão o resultado da então polêmica corrida, os organizadores requisitaram imagens de fotógrafos profissionais, amadores ou espectadores com qualquer máquina que tivesse registrado a chegada. “Agora, eu deixo de ser fiscal para virar torcedor”, avisou o presidente da Abrasel, Luiz Henrique do Amaral, proprietário do Nacif, que tinha um
funcionário na final. Lélio Ribeiro da Silva, o garçom depositário das esperanças do patrão, tinha trabalhado até depois das 22h na noite anterior. Acordou às 6h30, foi à praia para conter a ansiedade e relaxar diante do grande desafio. Terminou ficando na terceira colocação geral, ganhando o aparelho de DVD. O segundo lugar, ganhador de uma bicicleta de 18 marchas, foi Jordânio dos Santos, do restaurante Jardim das Delícias, no Pelourinho.

Noves fora todos os recursos, Arivaldo Uzeda Luna, 32 anos, garçom há dois anos e meio, sedentário em termos de exercícios físicos, funcionário do restaurante Coliseu, no Pelourinho, ficou com o título e uma televisão de 29 polegadas. Comemorou com as colegas de trabalho, subiu no degrau mais alto do pódio em frente ao cartão-postal do Farol e depois seguiu para casa, em um domingo de campeão. Enquanto isso, Paulo Ramos, 66 anos, sem camisa e com pele grudenta da cerveja derramada, aproveitava uma ou outra latinha derrubada por um competidor distraído. Mesmo em plena disputa de corrida, os valorosos garçons conseguiram fazer mais um cliente feliz.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Fê Pavanello
 

Hehehehe Gostei!
Beijo!

Fê Pavanello · Brasília, DF 8/6/2007 22:03
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Pablo Reis
 

Valeu, Fê! Seu voto ainda me deu mais uma posição na home page... isso é que é prestígio...rsrsrs
Um beijão e obrigado!

Pablo Reis · Salvador, BA 8/6/2007 22:11
sua opinião: subir
Fê Pavanello
 

Hahahahaha
De nada!
Beijão!

Fê Pavanello · Brasília, DF 8/6/2007 22:13
sua opinião: subir
Natacha Maranhão
 

óóóótimo!! Adorei, Pablo! Seu texto delicioso, como sempre!

Natacha Maranhão · Teresina, PI 11/6/2007 13:24
sua opinião: subir
Luiz Henrique
 

Caro Pablo,
Gostaria ao mesmo tempo de agradecer-lhe a publicação da matéria, bem como parabenizar-lhe pela suas palavras recheadas de bom humor e vibração.
Um forte abraço,
Luiz Henrique
Abrasel Bahia

Luiz Henrique · Salvador, BA 18/6/2007 07:25
sua opinião: subir
Pablo Reis
 

Valeu, Luiz Henrique! Muito obrigado e parabéns pela organização do evento impagável.
Natacha, um beijão pra vc

Pablo Reis · Salvador, BA 18/6/2007 23:20
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Na largada, concentração para manter o equilíbrio zoom
Na largada, concentração para manter o equilíbrio
Paulo Ramos, o espectador que pratica a torcida participativa zoom
Paulo Ramos, o espectador que pratica a torcida participativa
No pódio, os campeões do atletismo de gorjetas zoom
No pódio, os campeões do atletismo de gorjetas

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados