Cena de novela

marcusrg / www.flickr.com
TV comigo é a mesma coisa
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Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ
15/9/2006 · 96 · 17
 

Foi preciso ligar a TV para escrever esse texto. Não só uma vez na semana, não só uma vez no dia, não só uma vez na hora. Foi preciso ligar a TV por toda a vida para conseguir ter o mínimo de segurança para "chutar" certas "idéias" nas linhas escritas logo abaixo. Sim, porque se tem uma coisa que eu fiz na minha vida foi ver e ouvir – por um tempo difícil de contar – luz e som serem convertidos e reconvertidos em ondas eletromagnéticas. Tudo dentro de um pequeno (agora, nem tanto) caixote.

Dito isso (e foi importante dizer, porque... é, porque é importante saber o quanto eu gosto de TV para seguir esse texto), vamos ao sucedido.

Foram algumas zapeadas até sossegar. O mais curioso: parei em um programa que nunca havia visto outrora. E aqui não é desculpa de quem caiu, assim, "por acaso", na novela das 20h da Globo e acompanhou, assim, "por acaso", uma longa cena da Regina Duarte em ação. De fato, se tivesse tempo e conhecimento prévio, não perderia um capítulo de Páginas da Vida. Explico.

A cena

Parei na Regina Duarte fazendo cara de "eu tenho medo". Enfim. A eterna Helena de Manoel Carlos estava reclamando com a professora sobre o igual direito que sua filha, portadora de Síndrome de Down, teria, assim como todas as crianças, de ver seus desenhos apresentados na reunião de pais. O caso é que a menina não tinha feito desenho algum no ano letivo e que, na verdade, preferira outras atividades, como brincar e conversar com os colegas. "Mas como é isso, minha amiga!?", pergunta Regina / Helena à professora. E emenda: "Minha filha tem sim direito de mostrar os desenhos hoje. Porque minha filha é normal. Porque, você, que é professora, deveria ter incentivado a produção, porque eu vou te processar, você está perdida, acabou, fim da linha pra você, cara professora...".

A professora ficou de boca aberta. Nada podia falar. Sim, ela seria demitida e, claro, Helena / Regina / Manoel, com o seu discurso certo, é verdade, mas um tanto simplista e prático, aplicaria mais uma lição em moldes não muito distantes da moral capenga seguida por uma certa classe-média alta do Leblon (bairro-paixão do autor).

Foi assim sempre. E, para mim, sempre seria. Novela do Manoel Carlos (e Regina Duarte) é sinônimo de ditame de conduta, não tem jeito. Não tinha. Porque o que aconteceu depois foi realmente surpreendente: ainda disposta a queimar a professora em praça pública, Helena agora segue para a sala da diretora e fala tudo – diz que assim não podia, que assim não dava e que sua filha nunca mais pisaria naquele colégio. E mais: que aquela professorinha podia se cuidar, porque iria ser processada em tudo quanto é instância.

No que – e aqui é a grande virada, nunca vista por mim em novela alguma – a diretora responde: "Mas Helena, entenda, sua filha é muito bem tratada aqui nessa escola. Ela estuda aqui há anos. Não há motivo para isso tudo. Você sabe, existem professores com um pouco de dificuldade de lidar com isso mesmo. E digo mais, acho que nunca havia te contado isso, mas desde o começo, os pais da escola pedem para que sua filha seja retirada da classe, sob o pretexto de que ela atrapalharia o ensino das demais crianças. Fomos nós, diretores e professores, que sempre bancamos a continuidade do estudo da sua filha nessa instituição. Sobre a professora, me dê um tempinho, tenho certeza de que, com uma boa conversa, tudo será resolvido".

Grande momento. E agora, o que Helena vai responder? Pasmem. Ela responde "tudo bem". Acalma-se, admite a precipitação e recua em todas as ameaças.

A novela acaba alguns minutos depois. Entra aquela turma falando e se emocionando com alguma história emocionante. Volta a moral lebloniana, voltam Regina e Manoel. Mas eu, assim como Helena na cena, também sei rever e perdoar. E aquela cena me fez pensar – alguma coisa mudou no jeito de Manoel Carlos contar suas histórias. A ausência de maniqueísmo na atitude de Helena, a ausência de perversidade total e indiscutível na professora, a ponderação da diretora, tudo apontou em favor da construção de personagens mais sólidos, menos fakes (no pior sentido da palavra "falso"), densos, ambíguos, como dificilmente acontece no mundo novelesco atual. A TV sempre me traz grandes surpresas. E o próximo texto será sobre "O Aprendiz", incrível programa (que eu também nunca tinha visto) coordenado pelo mega-empresário Roberto Justus, na TV Record.

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Viktor Chagas
 

Muito bom! Me senti acompanhando uma novela quando li nas últimas linhas o "E o próximo texto será sobre"... Parece o fatídico "Cenas do próximo capítulo".
No mais, fico meio resistente às novelas do Manoel Carlos, e acho que muitos novelistas da Globo se especilizam em dois ou três diálogos e reproduzem eternamente as mesmas ladainhas. Sim, sou bem radical. Mas é um pouco frustrante para um Aprendiz de escritor reparar que o que faz sucesso (e isso não tem necessariamente nada a ver com a audiência) é sempre a novela dos imigrantes italianos, a novela dos corpos gostosôes, a novela do Leblon, a novela policial de São Paulo, a novela dos anos 20, a novela dos vampiros, e por aí vai. É, tudo bem, baixem o safarro na minha opinião, mas, até que me provem o contrário, eu continuo parafraseando a própria Regina Duarte, na campanha passada pelo Serra: "Eu tenho medo, tenho muito medo!" :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 13/9/2006 13:51
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Thiago Camelo
 

É Viktor. Realmente a Helena em algum capítulo mais pra frente tirou a filha da escola. Mas olha, a diretora nem é má. Foi o que eu achei vendo essa cena.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 13/9/2006 17:51
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Delfin
 

Foi um capítulo foda, dos poucos que eu assisti. Mas você tem razão quando à ampliação do olhar do autor. Esse jeito Leblon de ser de um monte de cariocas-zona-zul tem que acabar urgente.

Delfin · São Paulo, SP 13/9/2006 18:19
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ca_co
 

nossa Thiago...muito sugestiva a fotografia...passivos ficamos,mas aqui é legal...opinamos...gosto do teu olhar...nem lá nem cá...o Manoel tb me surpreendeu...rompeu,mesmo que por alguns momentos com esperado, o previsível...

ca_co · Juazeiro, BA 13/9/2006 22:37
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Bruno Nogueira
 

O mais sensacional disso tudo é ter um trecho tão específico da novela no youtube =P

Bruno Nogueira · Recife, PE 13/9/2006 22:39
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Aninha D'Aguiar
 

Demorou, mas mudou!
Esse tema trazido por essa Helena de Manel tem sido abordado de forma bem realista, acredito.Vi esse cpítulo.
Mas com relação a outros temas, continua aquele sensacionalismo 'novelístico'.

Aninha D'Aguiar · Natal, RN 14/9/2006 00:29
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Helena Aragão
 

Nem me fale das Helenas do Manoel Carlos. Me dá nos nervos vê-lo usar meu nome em vão (hehe) para personagens sempre boazinhas e meio bobocas... Ainda mais com a Regina Duarte. Só não se compara ao inferno novelístico causado pela Heleninha Roitman. Até hoje sofro com as brincadeirinhas. :)

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 14/9/2006 14:03
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Viktor Chagas
 

Quem diria que Helena um dia já foi personagem da Ilíada, hem? hehehe...

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 14/9/2006 14:06
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Thiago Camelo
 

Então temos a explicação, VIktor: "Em entrevista à Revista Isto É Gente, Manuel Carlos explica sua fixação por Helenas - 'Ao contrário do que muita gente pensa, Helena não foi minha mãe, não é nenhuma filha, namorada ou ex-mulher. Helena nos remete à Helena de Tróia, da mitologia grega. Uma mulher forte, diferente, destemida, que faz sacrifícios incríveis, que é feliz e infeliz quase ao mesmo tempo. Uma mulher absolutamente atual.'

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 14/9/2006 14:20
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Viktor Chagas
 

Há! Descrição mega-genérica.

Com essa justificativa tão bem embasada ele também seria capaz de chamar as personagens dele de Madame Bovary, de Aurélia, de Medéia, de tanta coisa...

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 14/9/2006 15:02
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Tati Magalhães
 

Eu assumo: sou extremamente contraditória. Primeiro perdi totalmente o interesse por TV, depois fiz um acordo moral comigo mesma de não assistir novela, por uma série de questões. Mas minha mãe parece não perceber que geralmente tô estudando no horário da das 9 e conversa comigo como se eu fosse íntima de cada um dos personagens. o que acontece é que, vez ou outra, me pego interessada por histórias paralelas e acabo assistindo o último mês da novela.
Nessa agora (que nunca vi um capítulo, só trechos perdidos) me interessou a questão da menina com bulimia, porque meus sogros são psiquiatras e uma amiga tava se tratando. fui dar uma sacada no orkut e descobri que as pessoas com essa doença estavam reclamando que a novela tornou-a moda. Terrível! tinha meninO de 12 anos dizendo que engordou 9 quilos e queria "receitas" para colocar a comida para fora quando se alimentasse, porque esse é o único jeito que ele achou de emagrecer (pelo que eu entendi, ele "descobriu" que isso era possível pela novela)!!!
Isso não é uma condenação do tema, acho até importante lidar com certos tabus, mas também não dá para achar que as coisas se processam unilateralmente (ninguém disse isso aqui, mas muita gente pensa). A proposta pode ser a melhor possível, mas...

Tati Magalhães · Maceió, AL 15/9/2006 14:35
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Thiago Camelo
 

É. É difícil isso mesmo, né? Me incomoda bastante essa tentativa de resumir todas as mazelas do mundo num universo tão pequeno quanto o Leblon. Acho sim realmente unilateral, raso, pouco palpável. Mas - e tomara que isso tenha ficado claro no texto - o que tentei elogiar foi justamente o maior aprofundamento do autor ao tratar a Síndrome de Down. Ali, naquela cena, me pareceu profundo.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 15/9/2006 19:10
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Tati Magalhães
 

eu acho que entendi a tua questão, Thiago, apesar de você parecer ter muito mais "vivência" que eu em frente à TV! (na verdade, sei que sou uma exceção).
E acho bem mais paupável tratar da questão da Síndrome de Down hoje com mais aceitação, pelo debate que há atualmente em torno do respeito às diferenças. E nesse sentido acho que a novela pode cumprir um papel educativo, se não for maniqueísta (brasileiro joga com uma carga moral muito forte). A cena que não vi e que você descreveu (muito bem, aliás) me parece forte. Citei o caso da bulimia para exemplificar que a consciência não é determinada pela mensagem, que se processa de forma diferente em cada indivíduo, de acordo com sua formação, suas influências, enfim... mas ainda assim provoca reflexão (em vários sentidos). Ninguém é induzido a pensar de uma determinada forma somente por conta do que passa na TV, mas ela tem poder de pautar um debate, como acontece no caso da síndrome de down ou da bulimia, mesmo que os "efeitos" - no caso da segunda - não sejam exatamente positivos em todos os casos.

Tati Magalhães · Maceió, AL 15/9/2006 23:16
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Vivian Caccuri
 

Estou ansiosa pelo "O Aprendiz". Aquele programa e' muito bom mesmo. Principalmente na edicao das broncas que o Roberto Justus distribue p/ a equipe que se deu mal.
E ate' teve uma cena inedita do patrao com consciencia pesada por ter despedido o Nakao. Acho desmontar o maniqueismo vai virar moda!

Vivian Caccuri · São Paulo, SP 16/9/2006 06:26
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Natacha Maranhão
 

Tenho uma amiga que escreve uma Páginas da Vida no blog dela. É uma espécie de universo paralelo da novela real (como assim novela real?!?! rsrsrs) e os personagens são como aqueles que do mundo bizarro, que apareciam no desenho dos Super Amigos, lembram? Como ela escreve muito (e eu não consegui botar o link pro lugar exato), tem que descer um pouquinho pra achar. Pra quem não acompanha a novela, tem até um glossário dos personagens. É muito engraçado!
bjos

Natacha Maranhão · Teresina, PI 16/9/2006 09:49
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Eduardo EGS
 

Putz, e pensar que eu tava vendo essa cena e parei de ver antes do final!

Não esperava uma resposta dessa da diretora. E muito menos a da Helena, realmente.

Será que as coisas estão mudando no jeito dele escrever novelas?

Isso é um momento histórico da teledramaturgia brasileira!

Eduardo EGS · Porto Alegre, RS 16/9/2006 20:47
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apple
 

A inserção de portadores de necessidades especiais em escolas comuns é complicada.

Os professores não são bem preparados academicamente para essa tarefa.

Além disso, professor costuma ter extensas jornadas em aula. Fora isso, precisa (ou deveria) preparar as aulas, atualizar-se.

É questão de consciência fazer bem o quê se faz, mas é complicado. O professor trabalha muito, é mal remunerado, as classes costumamser indisciplinadas, os pais nem sempre são pró-ativos.

Claro que existem diferenças entre a realidade brasileira e a realidade da novela. Diferenças entre escolas particulares e escolas públicas de periferia.

De toda forma, fica aí o comentário para vocês pensarem...

apple · Juiz de Fora, MG 27/9/2006 13:57
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