Cervejas Caseiras

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Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC
16/10/2007 · 85 · 6
 

Em Santa Catarina (e em vários outros cantos do Brasil) - acompanhando uma retomada na produção de cervejas artesanais feitas por pequenas, micro, mini cervejarias -, existe uma quantidade interessante de pessoas produzindo cerveja em casa, para o próprio consumo (e, para minha sorte, dos amigos também). Pessoas que estão descobrindo que é possível fazer um produto de qualidade apenas com um bom bocado de boa vontade e de bom gosto. Um hoby prazeroso em que o aprendizado é constante e que conforme se adquire um certo know how, este passa a ter um papel fundamental para manter as características do produto nas brassagens seguintes. Talvez a maior dificuldade seja se manter fiel ao resultado encontrado na produção do lote anterior, afinal de contas, a vontade de experimentar e de mexer nas fórmulas já conhecidas é sempre um segundo grande desafio - fórmulas estas que antigamente eram mais difíceis de serem encontradas, mas que com o passar dos tempos e com o advento da Internet deixaram de ser um segredo e hoje estão a disposição em sites diversos.

Por que produzir em casa?

A resposta vem por intermédio de duas alternativas bem pontuais: a primeira delas está relacionada com o prazer de fazer e, conseqüentemente, de acompanhar o processo; além disso, muitos destes cervejeiros se transformam em verdadeiros professores pardais, pois, em alguns casos, fazem a cerveja e desenvolvem toda uma estrutura necessária para se produzir em casa o líquido precioso: Panelas, termômetros, tonéis, entre outros utensílios básicos, são adaptados a realidade de cada um para tentar facilitar a vida dos cervejeiros de plantão. E a segunda alternativa também adquire um alto grau de importância, diretamente relacionado com o sabor, o perfume, o paladar e vários outros diferenciais que uma boa cerveja oferece e que nem sempre é possível encontrá-los em uma cerveja produzida industrialmente. Talvez uma frase que possa resumir um pouco essa situação seja a seguinte: fabricar cerveja em casa da a possibilidade de apreciar/consumir cerveja e não consumir, na grande maioria das vezes imagens/propagandas/comerciais/pesquisasdemercado/loiraschegandonatuacasadeaviãoesemcalcinha/eporaívai.

O que seriam esses diferenciais??

Para os alemães a cerveja é um “suco de cevada”, ou seja, produzir uma cerveja em que se inclua um outro tipo de cereal é uma espécie de afronta ao direito do consumidor; se o cidadão paga para beber um suco de cevada, parece lógico que ele deva consumir um suco de cevada, e se por acaso isso não acontecer, o cidadão se sente lesado (a única exceção, na Alemanha, são as cervejas feitas de trigo). Mantendo uma lógica parecida, elenco dois exemplos para tentar aproximar as relações: seria o mesmo que pedir uma casquinha de siri e neste produto além de siri ter vários outros tipos de ingredientes da ordem dos peixes e/ou crustáceos; ou ainda, pedir um suco de abacaxi e na hora de consumir, além do abacaxi, sentir no gosto do suco a mistura de uma outra fruta. Vejam que estamos diante de uma questão cultual, afinal de contas, para os alemães, essa mistura de outros ingredientes além de estar ferindo o paladar estaria ferindo uma espécie de mandamento da cerveja, algo que os grandes apreciadores do produto não admitem. No caso do Brasil, isso, na maioria das vezes, não fere o paladar do brasileiro e muito menos a legislação que aceita o acréscimo daquilo que nos rótulos dos produtos é chamado de cereais não maltados, isso sem falar em uma série de produtos químicos adicionados como forma de preservar/deteriorar a qualidade do produto.


Quem são esses Cervejeiros?

Para citar apenas três deles, André Kanenberg, que produz a Kanenbier, em Indaial; Fabio Steinback, que produz a Land Brauer, em Blumenau e Rafael Tonera, que produz a Tonera, em Florianópolis. São pessoas que criaram novos círculos de amizade pelo simples prazer de experimentar uma boa cerveja. O produto deles não é encontrado em bares ou restaurante, e as degustações acontecem conforme os lotes ficam prontos para o consumo. Algo muito similar ao que acontecia na produção cervejeira da idade média, na época, quando a cerveja de tal família ficava pronta, essa hasteava uma bandeira para comunicar aos vizinhos o feito, e todos se movimentavam até a casa desta família para provar os sabores da última produção. Os dias mudaram um pouco e a forma de se comunicar também; hoje, conforme os lotes de cerveja vão ficando prontos, os amigos e familiares são avisados e a degustação se dá, na maioria das vezes, no próprio lugar onde foi produzida ou em reuniões específicas de pessoas próximas e de apreciadores - comunidades que se sentem orgulhosas de estarem provando algo que dá um nó na lógica de mercado. Mesmo tendo um investimento razoável de dinheiro e de trabalho, sem contar o custo de produção de cada lote, na maioria das vezes, muito mais caro do que uma cerveja comprada no mercado, a degustação destes produtos, na maioria das vezes, não é cobrada, se dá pelo simples prazer de brindar, dentre tantas coisas, a própria cerveja.

Kanenbier

O André montou o aparato na garagem da própria casa, um lugar amplo, espaçoso e ventilado onde passa horas brincando com a arte de combinar ingredientes. Já produziu vários tipos, para citar apenas algumas, Pilsen, Stout, Pale Ale e Ale. Tive a oportunidade de provar apenas a Ale, uma cerveja de alta fermentação, com um corpo bem definido e uma lupulagem altíssima. Como o próprio André comentou, além de equilibrar o corpo, o desafio estava em aumentar o amargor da cerveja, fazendo com que a cerveja tivesse uma característica bem diferente da cerveja consumida no Brasil. O próprio André admite que exagerou um pouco no Lúpulo, mas nada que tenha assustado os apreciadores de uma boa Ale.


Land Brauer

O Fábio, além da experiência de fazer outros tipos de cerveja, gosta da possibilidade de incrementá-las tentando criar características diferenciadas. Tem uma estrutura mais profissional, mas, como os demais, também adaptou o equipamento conforme as suas necessidades. Tem no currículo a produção de uma enormidade de tipos de cerveja. Tive a oportunidade de provar uma Dunkel, uma Weiss e uma Pilsen, tiradas diretamente dos cilindros no galpão onde são produzidas, no Badenfurt, um bairro de Blumenau. Cervejas não filtradas, cada qual com características muito marcantes, não sei se é porque o dia que estive lá era um dos dias mais frios do ano, mas fiquei fã da Dunkel, uma cerveja escura, de baixa fermentação e com um corpo muito bem definido e equilibrado.

Tonera

O Rafael produz cerveja no porão da própria casa, em um bairro de Florianópolis. É o mais novo deles e, dentre tantas curiosidades que poderíamos citar, é o único que não tem vínculo nenhum com a cultura alemã. Diferente do Fábio e do André que são descendentes de alemães e que moram em cidades em que a tradição germânica é muito forte, o Rafael, por sua vez, descendente de italianos e portugueses (e morando em uma cidade em que a tradição açoriana predomina), começa a produzir cerveja por curiosidade: ganhou de presente de uma amiga um livro que ensinava como fazer cerveja em casa, e o restante das informações colheu na Internet através de sites especializados no assunto. Daquelas produzidas pelo Rafael provei uma Pilsen, uma Oktoberbier, uma Pale Ale, uma Strong Gold Ale e uma Russiam Imperial Stout, todas elas com características muitos interessantes e com um equilíbrio que nos permite compará-las com outros exemplares destes tipos de cerveja encontrados nas prateleiras de supermercados e de lojas especializadas no assunto.

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Felipe Obrer
 

Oi, Demétrio. Bom ler este texto teu. Senti falta de uns links, os produtores têm sites? Aqui em Floripa conheço um pessoal que faz uma cerveja artesanal/amadora muito boa. Até deram nome: Avatar. A escala é pequena, mas também merecem o título de "professores pardais", já que o processo de fabricação não é muito simples. Lembro de ter visto lá até um tubo de gás carbônico. O teor alcoólico também costuma ficar mais alto. E o sabor, sendo de malte puro, também é muito melhor.

Abraço,
Felipe

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 15/10/2007 14:46
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Demetrio Panarotto
 

Diga lá Felipe, tudo blza!? Os produtores não têm sites; gostaria de ter colocado alguns lincks e algumas fotos, mas, depois que disponibilizei o texto, fiquei sem internet boa parte do fim de semana.
Em relação ao pessoal que tu comentou (Avatar), já ouvi falar, mas ainda não consegui chegar até eles.
Em Fpolis tem mais gente fazendo cerveja, o Marco Zimermann, da AICCA, disponibilizou recentemente p apreciação dos amigos, na padaria da Trindade, a OPUS, todavia não tive como ir no evento. Falando na AICCA, fim de semana passado (11/10/07) a associação promoveu o 1o Workshop de Cervejas Caseiras - fruto de uma procura pelo assunto na cidade. Acho que era isso, e legal q tu gostou do texto,

abs

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 15/10/2007 16:38
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Helena Aragão
 

Demetrio, estava com saudades do teu estilo! Ainda mais falando de cerveja, tema recorrente (e de bom gosto) dos colaboradores do Sul. Nunca esqueço o teu texto sobre a rota de cervejas artesanais, que um dia espero percorrer... Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 15/10/2007 19:34
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Helena Aragão
 

Pena que deu problema na diagramação do texto, por causa da parte em que você cita várias palavras ligadas por barra. Agora infelizmente não dá mais pra mudar!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 15/10/2007 19:35
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Demetrio Panarotto
 

Olá Helena, eu tinha achado estranho a diagramação, mas na hora não me dei conta do motivo.

abs

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 16/10/2007 12:50
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Demetrio Panarotto
 

Aos interessados no 1o Workshop de Cervejas Caseiras - esqueçam a informação (errada) do comentário acima -, ele ainda não aconteceu, vai ser realizado dia 10/11/07, na Fábrica do Chopp Ilhéu (Rua Alzira Rosa Aguiar, 450. Rio Vermelho - Florianópolis), a partir das 10h da manhã até o final da produção.


abs

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 16/10/2007 12:58
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