Chama que Alimenta a Fé...

Émerson Rocha
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Luís Osete · Juazeiro, BA
31/3/2008 · 139 · 9
 

Até hoje não se sabe ao certo quando a primeira “alimentadeira de almas” (expressão feminina que serve para homens e mulheres) resolveu caminhar pelas noites da quaresma entoando benditos e fazendo orações, nem se foram realmente os capuchinhos e franciscanos, que fundaram no início do século XVIII a cidade de Juazeiro, sertão da Bahia, os responsáveis pela introdução da prática penitencial.

Verdade seja dita: tais fatos históricos preocupam menos do que a possibilidade de desaparecer a silhueta dos cordões da penitência. Cordão é um grupo de alimentadeiras de almas que durante as segundas, quartas e sextas dos 40 simbólicos dias do sacrifício de Cristo realizam o ritual da penitência.

- Eu cuido mais por causa da tradição. Se a cultura da gente acabar, não fica nada...

Afirma d. Nenenzinha, coordenadora do cordão mais antigo da cidade. Em 1987, a mãe dela – dona Zabelzinha – era a “chefe” do cordão e sentindo a morte se avizinhar fez um único pedido:

- Minha filha, não abandone meus penitentes...

O cordão de “Atrás da banca” (hoje bairro de Santo Antônio) continua sua peregrinação pelas sete estações (cruzeiros das tradicionais paradas dos penitentes). O crescimento desordenado do espaço urbano e a falta de segurança fizeram da estrada até o cemitério municipal um caminho de disputas e perigos noturnos.

Como se não bastasse, há três anos, segundo Carlos – penitente durante quase 30 anos – começou a “malandragem” no cemitério municipal. Antes um lugar que só pelo nome já causava certos calafrios e um profundo respeito ante os mistérios da morte, hoje é ponto de encontro de uso de drogas. O silêncio perpétuo das tumbas foi substituído pela algazarra sem fim. Junto a estas transformações, os cordões também foram influenciados.

- Hoje em dia o povo não sabe o que é penitência não... Antigamente penitente andava descalço, não mostrava o rosto, não saia de unha pintada de vermelho, não vestia outra roupa por baixo se não fosse branca, a mulher não fazia a sobrancelha, não vinha para a penitência de batom...Hoje está tudo defasado, ninguém mais tem compromisso com nada...

Bingo - que abandonou um cordão por “problemas de artrose e desgosto” – desabafa e, com a mesma determinação, dispõe as velas acesas em forma de cruz no chão do cemitério e cuida para que elas não apaguem, no encontro dos cordões da Quarta-feira Santa. Ele, Carlos e tantos outros ex-penitentes não querem ver a chama da fé que ilumina as noites da quaresma juazeirense acabar, e se agarram a fios, ou melhor, cordões de esperanças. A crítica não deixa de ser uma defesa da tradição.


Segunda-feira Santa, 17 de março

Cheguei à casa de d.Nenenzinha por volta das sete e meia da noite. Ela já estava do outro lado da rua, na Casa de Oração de sua madrinha Alvina, coordenando os rituais de preparação das alimentadeiras de almas para a penitência do primeiro dia da Semana Santa.

Na Casa de Oração, lugar onde acontecem os rituais de preparação da penitência, pessoas apressadas vão chegando a todo o momento com suas mochilas ou sacolas de roupa. Algumas pedem a bênção à d. Nenenzinha antes de se vestirem com a anágua comprida, o lençol branco envolvendo o corpo inteiro e um cordão de São Francisco na cintura. São homens e mulheres vindas do trabalho, da escola ou mesmo de casa para formar um cordão que, segundo d. Nenenzinha, data de 1901.

Às oito e meia uma cruz preta de cedro virgem entrelaçada por uma toalha branca com o rosto de Jesus Cristo sai da Casa de Oração carregada pela primeira alimentadeira do cordão (geralmente um homem). Logo atrás, uma penitente faz soar a matraca - instrumento de percussão feito de uma tábua de madeira com uma argola de ferro que, ao ser girada, produz um ruído seco.

As pessoas se aproximam para acompanhar o cortejo, ao som dos acordes da matraca e do bendito da Segunda-feira Santa:

“Na Segunda-feira Santa
Veio um padre pregador
Um padre santo missionário
Nossa Senhora das Dor”


Se a rima não é rica, rara e perfeita (e o último verso carece de concordância), a beleza do bendito fica por conta da voz rasgada, em tom de lamento, que ecoa na sincronia dos penitentes. D. Nenenzinha, que não acompanha o coro, segue ao lado do cordão, segurando um banco numa das mãos e conduzindo, na outra, d. Izabel “Ceguinha”.

Até terminar o ritual da noite, d. Izabel terá distribuído muitas velas e as alimentadeiras terão cumprido sete estações, em sete cruzeiros espalhados pelo percurso. Sete também é o número de anos do compromisso que cada membro do cordão assume com a penitência. Se por um acaso não cumprirem o tempo previsto, um parente deve substituir. Ao terminar o compromisso com saúde, geralmente, o penitente o renova por mais sete anos.


Quarta-feira, 19 de março: Encontro dos Cordões

A ambientação, o corre-corre de curiosos, as câmeras fotográficas, já davam pistas do que iria acontecer na noite de quarta-feira, entre os cemitérios novo e velho: dia do tão esperado encontro dos cordões das alimentadeiras de almas.

O cordão de d.Nenenzinha foi o primeiro a chegar. Enquanto ela caminhava conduzindo d. Izabel à praça da saudade (parece que todo cemitério tem uma praça com este nome), um rapaz se aproximou pedindo a bênção. “Ainda posso ir?” – perguntou o rapaz com um saco na mão. “Vá, ainda não fez a primeira estação...”. E assim um penitente atrasado foi procurar um lugar entre as tumbas para se vestir com tranqüilidade e participar do momento mais esperado da quaresma.

Velas dispostas no chão formando uma cruz luminosa, olhos atentos em volta dos madeiros, flashes a todo vapor tentando captar a emoção do momento, o Pranto se inicia pungente:

“Estava a mãe dolorosa
Junto ao pé da cruz, chorosa
Enquanto o filho pendia
Sua alma, cruel espada
Que lhe foi profetizada
Tiranamente feria.
Tende Misericórdia, Senhora
Tende Misericórdia de nós...”


Cada sílaba é declamada numa unção contagiante. A fumaça do incensamento dos madeiros e o som ininterrupto da matraca acompanham o coro.

Tal como acontece nas estações, alguns devotos se afastam momentaneamente para preces individuais. O momento mais esperado é também o mais rápido. Dali, os cordões partem à procura das próximas estações...


Sexta-feira da Paixão, 21 de março

Em clima de despedida e aos acordes da matraca, foram chegando os cordões de d. Dedé, Roza, Nenenzinha, Emília e o de Malhada da Areia. Entre túmulos de pessoas que teriam muita história para contar, a penitência atravessa o século XXI construindo em cada vela acesa ao pé da cruz sua própria trajetória.

Apesar de não existir um registro do início da prática nestas terras ribeirinhas, D. Roza, na autoridade de seus 92 anos, faz questão de evocar um tempo em que havia mais mato do que casas em Juazeiro, em que os cordões saiam sorrateiramente às 10 horas da noite percorrendo um imenso areão até o cemitério, que ainda não era cercado pelo muro. Naquela época, só os devotos acompanhavam os cordões, pois muita gente tinha medo dos “irmãos das almas”.

No mistério da última noite quaresmal, o cordão de d. Emília se aproxima da primeira estação: o cruzeiro do cemitério novo. O ritual se inicia com o som da matraca, enquanto as alimentadeiras se dispõem ao redor do cruzeiro. Ajoelhadas, entoam o bendito “Louvado seja a paixão do Redentor”. Em seguida, pedem três pais-nossos: para a sagrada Paixão e morte de Jesus Cristo, para as almas do cemitério e para a alma de devoção. Soa a matraca, e uma voz masculina se eleva em súplica:

“Rezem outro Pai Nosso
Com a sua Ave Maria
Com a sua Ave Maria”


Todos respondem:

“Ave Maria”

Segurando o madeiro, a voz grave do homem continua, em diálogo com a resposta das outras vozes dissonantes:

“Na intenção de toda alma
As almas santas benditas
As almas santas benditas

- Santas benditas

- Para que Deus, Nosso Senhor
Dê a ela o Paraíso
Dê a ela o Paraíso

- O Paraíso

- Ajoelhai, irmãos meus
E rezem pelo amor de Deus
E rezem pelo amor de Deus

- O amor de Deus
O amor de Deus


A penitente que segura a matraca, com sua voz em tom comovente, implora:

“Rezem uma Salve Rainha
Para Nossa Senhora das Candeias
Para Nossa Senhora das Candeias

- Senhora das Candeias

- Ela é quem nos alumeia
No caminho da Penitência
No caminho da Penitência

- Da Penitência

- Ajoelhai, irmãos meus
E rezem pelo amor de Deus
E rezem pelo amor de Deus

- O amor de Deus
O amor de Deus”.


Agora, todas as vozes se juntam:

“Alerta, alerta, pecador
Pecador que não se lembra do pecado
Hoje é vivo, amanhã é morto
Na escada da sentença
Purgatório é penitência
Eu vos peço, meu Senhor
Eu vos peço: Misericórdia!”


Na última sílaba, a matraca soa novamente. As cabeças se curvam em um só movimento, a mão direita procura as batidas do coração penitente e as vozes tremulam:

“Senhor Deus, misericórdia
Misericórdia, misericórdia!
Senhor Deus!
Pela dor de nossa mãe,
Maria Santíssima,
Senhora Santana,
Nossa Senhora das Dor,
Misericórdia!
Misericórdia!
Misericórdia!
Tende piedade,
Deus piedoso,
Tenha de nós piedade
Seja pelo amor de Deus”.


Todos se levantam, e sem perder o ritmo, fazem a saudação final:

“Irmãos meus, ficai com Deus
Que eu me vou com Jesus Cristo

- Com Jesus Cristo”.


Soa a matraca: a primeira estação do último dia de penitência do ano foi encerrada. O ritual dura em torno de 15 minutos. Mas é como se, presa à ladainha, fosse aberta uma senda a um lugar chamado eternidade.


Só um adendo: No último dia de penitência, encontrei Bingo acomapanhando uma estação no cemitério velho. À sua maneira, ele incitava as pessoas a abrir os pulmões e entoar alto as ladainhas:

- O povo parece que está morto!

Como se fosse uma canção de ninar, todos repetiram três vezes os versos de despedida das alimentadeiras de almas:

"Minha santa lapinha
Coroada de flor
Até para o ano
Se nós vivo for

Meu menino Deus
Senhor São José
Até para o ano
Se Deus quiser"


Ano que vem, “se Deus quiser”, ele vai voltar.

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Aurea Argolo
 

Osete,

Ficamos muito orgulhosas ao ler este texto. Muito belo e emocionante seu trabalho.
Você conseguiu com suas palavras nos "transportar" para essa realidade cultural...
Aproveitamos este espaço para lançar um novo desafio: Que tal uma crônica sobre uma tradição cultural da sua cidade natal: sugerimos como objeto de estudo o Mês de Maria.
Acreditamos que com seu dom e criatividade surgirá um fabuloso trabalho.

Um grande abraço.
De suas conterrâneas.

Aurea Argôlo e Kelly.

Aurea Argolo · Cardeal da Silva, BA 30/3/2008 19:54
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Luís Osete
 

Senti o cheiro de Cardeal com estas palavras, caríssimas conterrâneas...

Mas, que desafio! Escrever sobre Cardeal é uma tarefa angustiante, eu até já tentei. É como se eu resolvesse escrever sobre minha infância.

E eu não tenho dúvida que, como dizia Cacaso, "minha pátria é minha infância". O problema é que vivendo no exílio de Juazeiro-Petrolina será difícil "transportar" alguém para o mês de Maria de Cardeal.

Mesmo assim, ainda pretendo escrever sobre a história de Cardeal. Até hoje lembro os relatos de tia Bela sobre o início da cidade, a escolha do nome (em homenagem ao Cardeal Da Silva), a primeira casa e por aí vai...

Mas, distante 500 e alguns quilômetros, fica esta saudade remoída, que o cheiro de tuas palavras me desperta...

Abraços, luís osete.

Luís Osete · Juazeiro, BA 30/3/2008 21:00
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
clara arruda
 

Deixo aqui meus votos e a certeza de que ainda é possível a fé.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 31/3/2008 07:25
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jamys
 

Luis Osete gostei muito do seu texto é explendido, você é um jovem muito talentoso, gosto muito do seu trabalho, continui sempre assim. Um grande abraço do seu amigo, fã e Conterrâneo. JAMES.L.OLIVEIRA.

jamys · Cardeal da Silva, BA 2/4/2008 15:42
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Luís Osete
 

Oi James,

sinta-se sempre à vontade para "apreciar" meu trabalho. no são joão a gente se vê por aí...
valeu pela visita.
abraços, luís osete.

Luís Osete · Juazeiro, BA 5/4/2008 22:10
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Juci Marques
 

Salve, Osete
Li seu o seu texto e fiquei toda arrepiada!!!!
para mim, que estou querendo trilhar pelo fantástico mundo da cultura, tabalhos como o seu são um incentivo e tanto! ainda mais por ser de um conterrâneo meu...

Saudações culturais,

Juci Marques.

Juci Marques · Cardeal da Silva, BA 7/4/2008 16:25
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Luís Osete
 

Oi Juci,

Adorei as "saudações culturais". É ótimo saber que, como conterrâneos, podemos nos saudar desta forma. Eu queria poder contribuir bem mais para que você e outras pessoas, viventes desta Cardeal do terceiro milênio, trilhassem o "fantástico mundo da cultura".

Você não tem idéia a alegria que mensagens como a sua me proporciona. É mais do que um arrepio. É um verdadeiro sopro de vida!

Eternas saudações culturais...

Abraços, Luís Osete.

Luís Osete · Juazeiro, BA 7/4/2008 19:43
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Elliana Alves
 

Muito bom,parabéns,bjsssssssss e boa noite!

Elliana Alves · Petrolina, PE 26/6/2008 18:57
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ayruman
 

Maravilhoso postado. Sucessos.
Luz e Paz. jbconrado.

ayruman · Cuiabá, MT 6/11/2009 23:13
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