Cansei de escrever haicais. Até porque depois de 1000 escritos, e 10 publicados aqui, chego a triste conclusão que não deveria ter escrito nenhum. Não sei escrever haicais. Afinal, qual é a forma do haicai? Com quantas sílabas se faz um haicai? O haicai deve ser rimado, ou ritmado? Sabe de uma coisa... Que se foda o haicai. Acho que caí em mim de uma vez por todas. Caiu a ficha. No more haicais. Só por hoje não vou mais escrever haicais. Escrever haicai é um perigo. É coisa que a gente faz e pensa que não vai dar em nada, mas quando vê já está perdido. Acho que por algum tempo baixou o Bashô em mim. Agora estou livre. Livre para escrever versos livres.
Na verdade, não tenho mais saco para escrever haicais. E olha que eu tentei. E não foi pouco. Todas as vezes que eu olhava um haicai eu pensava: como é que alguém se dá ao trabalho de escrever haicai. Então eu resolvi experimentar. Sou mesmo um experimentador. Sou um curioso nato. E no caso do haicai, o que aconteceu foi que eu caí numa puta armadilha. O haicai causa dependência. Fui escrevendo, escrevendo, e quando percebi já estava fissurado no haicai. Era haicai de dia, de noite, tudo queira virar haicai. Ai, ai, eu já nem sabia mais porque diabos escrevia tanto haicai. Se eu pisava numa pedra, já pensava em haicai. Se o telefone tocava, haicai. Falta d’água, haicai.
Já estava virando uma obsessão. E eu caído ali, na frente do monitor, sem perspectiva. E pra completar minha desgraça, ainda vinham uns Overmanos caridosos e elogiavam os meus haicais. Aí era o que eu queria. Meu ego se inflava com os elogios, e toma-te haicai. Mas os bons tempos estavam por terminar. Com a progressão da minha doença, comecei a desenvolver um comportamento obsessivo-compulsivo bastante estranho. Não queria mais tomar banho nem comer, só queria escrever haicai. Minha mulher me chamava para cama, e eu escrevendo haicai. Os amigos vinham me convidar para beber, e eu só queira saber de haicai. Haicai, haicai, haicai. Até que um dia o milagre aconteceu.
Olhei pela janela e vi uma borboleta pousada no vaso da sacada. Aí adivinha o que eu pensei? Haicai é lógico. Só que eu não contava com o despertar espiritual que estava por vir. Quando fui teclar percebi minhas unhas compridas. Vi o reflexo no monitor de um cara barbudo, com expressão assustada: era eu. Meu Deus, mas o que eu estava fazendo comigo. Era o fim. Naquela tarde escrevi meu último haicai. Precisava parar antes que fosse tarde. Eram os haicais ou eu. Hoje estou em tratamento intensivo, escrevendo poemas livres e contos non sense. Tudo para tirar do meu organismo a influência maligna do haicai. Sei que a recuperação é difícil e o tratamento é diário. Mas estou me esforçando e farei de tudo para evitar uma recaída.
Leia aqui os 10 malditos haicais:
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai
http://www.overmundo.com.br/banco/hacai-2
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-iii-1
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-iv-2
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-v-1
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-vi-1
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-vii-1
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-viii
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-ix
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-x
Caído em si,
Coitado
barbado em sol
(rsrsrsrsrsrs)
Caro Pedro
Wilson Bueno, relata sobre Hilda Hilst, uma das minhas ecritoras e poetas preferidas: "Houve a vez em que, a falar dos veros exercícios espirituais que os santos primitivos se impunham, derivei a conversa ao budismo, então uma de minhas obsessões. Lembrei Bashô e Issa. Mais Issa que Bashô. E você, estupefata, depois do longo silêncio em que lhe cessaram as palavras-estrelas, pontuadas de palavrões, o que dava à sua fala, assim como que umas fúrias de cão, se impôs, curta, restritiva:
- Que horror essa coisa de haicai... O sapo, puft!, na lagoa... Não gosto, não gosto disso."
Eu gosto. Ainda gosto. Mas fiz como você: dei um tempo. Mas houve um dia em que eu também via haicai em tudo. Imagine que um dia lá na USP eu escrevi:
Arroz do CRUSP
Antes casca de alho
do que cascalho
CRUSP é o nome do conjunto residencial, onde ficava o bandejão universitário.
Ri muito com seu texto...
Abraços
Pedro parabéns pela tua "liberdade"... segue teu rumo em poemas "livres" ou contos!
abraços!
Aos Amigos,
Uma das maiores injustiças com um dos mais belos poetas do estilo Haiku é esta estória de "sapo, ploft!" ou semelhante.
O poema original, além de não possuir nenhum tipo de onomatopéia, é simplesmente um relato, como usal nesta arte, sensível de um momento imediato.
De qualquer forma, para quem desejar uma explicação mais clara da arte Haiku - sem impertinências - eis a minha contribuição ao tema já enviada ao Overmundo:
http://overmundo.com.br/banco/o-bosque-de-bambus
Há quatro anos fiz a já famosa oficina de haicais da Alice Ruiz, e ali ela explicava, entre muitas outras coisas, que o haicai não se limita à forma... Resumindo, muita coisa que parece haicai não é haicai.
Nesta oficina, obviamente escrevíamos muitos haicais (às vezes pseudo-haicais); ao final do curso, selecionávamos em grupo os melhores (o autor só era identificado depois da seleção), que eram compilados num caderninho que recebíamos ao fim do curso. Um dos que escrevi causou uma certa polêmica, porque foi rejeitado pela maioria dos colegas, mas a Alice ficou muito intrigada, dizendo que havia algo de muito interessante ali que ela não conseguia precisar... Para mim isto valeu mais do que se tivesse rolado uma unanimidade.
Segue link de uma colaboração aqui no Overmundo, do Robert Portoquá.
http://www.overmundo.com.br/banco/tarde-de-sol-haikai-c-foto
Abraços
Li, quando estava na fila de edição e só agora tive tempo de comentar. Esse seu diálogo-conto sobre a tortura ou posessão dos haicais só mostra a sua habilidade de escritor. Diria como o Robin: Santa obsessão, Pedro! E que livro lindo já tem nas mãos. Algo como "Milésimos de poesia". E, depois de uns iluminados maluquinhos lá de 22, nada de sofrer com a fôrma da forma.
Grande abraço e reverência total à beleza de sua poesia.
Hilária e muito bem conduzida, a sua crônica e a narrativa das agruras com o vício do haicai!
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