Quando você fala que quer fazer um filme que se chama O Cheiro do Ralo, a reação é sempre imediata. Ou gera curiosidade, ou repulsa. No meu caso, foi curiosidade. Curiosidade gerada pelo Heitor, meu amigo e diretor que me fez ler o livro, o roteiro e comprar de cara essa idéia louca.
O passo seguinte foi trazer meu primo Matias, recém formado na NYU, bem sucedido produtor executivo em um low budget (o nosso bom B.O. em verdinhas, rodado no Brasil por um diretor russo com dinheiro Americano), para conhecer o Heitor e também o projeto.
Matias foi mais um que comprou a estanheza do nome, do livro, do diretor, do roteiro. Somados aos outros dois produtores, Rodrigo Teixeira e Marcelo Dória, então sócios na GC, tinhamos um time completo e dinheiro suficiente para rodar o Cheiro.
Heitor dizia que colocaria o filme na lata com trezentos mil reais. De onde veio esse número? Da cabeça do nosso diretor, que até hoje não consegue nos explicar qual foi a equação matemática que usou para chegar nele. Só sabemos que ela começou com o produtor de elenco, Chico Aciolly, dizendo a ele que depois de um ano tentando captar dinheiro de empresas sem sucesso, ele deveria tirar o Cheiro do papel mesmo sem incentivo.
Bom, aconteceu. Matias pode dizer melhor do que eu como trezentos mil se encaixaram no orçamento, mas acho que a melhor forma de se explicar é que o orçamento se encaixou em trezentos mil (corrigindo: trezentos e trinta. Apareceram mais trinta mil aos quarenta e cinco do segundo tempo). Era o que tínhamos, nem mais nem menos, até porque mais ou menos sairiam do bolso de cada um de nós.
Vale dizer que este orçamento não deve ser considerado real. O filme só custou tão pouco porque foi formado um esquema de cooperativa entre todos os cabeças de área da equipe. Traduzindo. Fotógrafo, diretora de arte, figurinista, maquiadora e claro, diretor, produtor executivo e assistente de direção (essa que vos fala) foram pagos com uma porcentagem do filme.
E vale dizer também que toda a preparação que o Heitor faz nos seus longas foi fator essencial para que não se estourasse o orçamento. Foram meses de análises técnicas, planos de filmagem, conversas com equipe, tudo isso antes mesmo de entrarmos em pré produção. É o tipo de set que você entra confiante de que nada vai dar errado. Claro que dá, mas fica muito mais simples de consertar.
Eu penso que tudo o acontece em uma filmagem, mesmo que não esteja ao alcance das câmeras, fica impresso na película. Se você for ver o Cheiro, você vai ver que o set está lá. Foram quatro semanas com todo mundo acordando as cinco da manhã morrendo de vontade de chegar lá e fazer acontecer mais um pedacinho daquela história. De ver o Selton incorporado com aquele personagem que a gente amava, depois odiava, depois morria de pena, depois queria matar, depois achava engraçado e assim por diante. De ver o Lourenço Mutarelli, autor do livro que deu origem ao filme, atuando brilhantemente como o segurança da loja de Lourenço, o personagem (significativo assim). E cada ator que entrava ali para vender alguma coisa duelando com Selton / Lourenço. Isso sem falar na Paula Braun e na Silvia Lourenço, que dispensam comentários. (veja o filme e me diga se estou errada.)
Depois de quatro semanas, a gente sabia que, mesmo que o Cheiro seguisse sofrendo preconceitos por causa do nome, aquilo ali ia virar um puta filme. Mesmo que nenhuma distribuidora quisesse peitar o mercado, tinha valido cada centavo daquele dinheiro.
Mas claro que isso é discurso romântico, a gente queria uma distribuidora e saiu correndo atrás.
E foi aí que o Estação apareceu pra gente, e apostou no filme antes de qualquer reconhecimento, antes dos três prêmios no Festival do Rio, dos outros três da Mostra de São Paulo, antes da seleção pra Sundance, Punta, Guadalajara e mais um monte de milhagens aéreas. E aqui estamos, a uma semana da estréia, estressados, cansados, nervosos, mas acima de tudo, felizes.
Todos nós não só queremos, mas estamos fazendo de tudo para que o Cheiro seja para os outros o que ele já é para a gente: um sucesso.
Já valeu. Tomara que valha ainda mais.
Pessoal,
Acabou ficando em duplicata o post. Vocês podem deletar um deles...
Abraço!
Eu conheço o livro e, sinceramente, recomendo o filme. Mas tem que ler também o livro, publicado pela Devir.
Delfin · São Paulo, SP 18/3/2007 23:18
Não li o livro. Não vi o filme. Fiquei com vontade de ambos.
Do Selton Mello tenho uma impressão fresquinha e ótima, do Lavoura Arcaica, dirigido pelo Luiz Fernando Carvalho, que vi há pouco tempo, depois de ter lido, relido e lido ainda uma terceira vez o livro do Raduan Nassar.
A proposta de O Cheiro do Ralo deve ser outra, sei disso, mas bons atores fazem a diferença. Além disso, pelo texto dá pra ter idéia de que foi feito com o coração, o que já diferencia uma produção cinematográfica no Brasil, considerando a hegemonia do modelo televisivo e a diretriz econômica que norteia a produção da maior parte dos filmes.
Abraço.
Putz! Este filme parece mesmo ser excelente. E a saga de sua realização, do jeito que todo produtor independente bem sabe como é, o torna ainda mais doce e nobre...
O ralo nunca cheirou tão bem.
Abraços do Verde.
não tive a oportunidade de ler o livro, mas acredito assim com o Estadão acreditou (guardadas as devidas e infinitas comparações)...sucesso!!!
Rafael D. · Belo Horizonte, MG 19/3/2007 15:04O nome do filme é ótimo, e o cheiro dele também deve ser já que o Mutarelli é simplesmente excelente. Já leram "O Nati-Morto"?
Fanny · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2007 17:30
tive a oportunidade de ver o filme no festival de tiradentes desse ano; e recomendo, com toda as minhas forças . nos primeiros dez minutos de filme eu já sabia que era esse o máximo do cinema brasileiro, e com certeza, o meu filme favorito . não sei quanto à vocês, mas já estou estagnado de nordeste/favela .. e de comédias mal-feitas . essa aproxima bastante do meu gosto, ao basear o enredo em personagens bizarros enfrentando situações comuns, e além disso é fácil se identificar com o filme pois realmente mostra o lado urbano do brasil; que é a nosso habitat natural . vale mencionar também a genialidade de selton mello no filme, que pra mim (e pra ele, segundo uma entrevista) é o personagem da vida do mesmo .
louco pra ler o livro ! woot .
Fany, não li não (Nati-Morto)
o Lourenço é um desses que a gente nunca imaginava que ia vinbgar. conheço o trabalho dele há algum tempo. quadrinhos como Transubstanciação, O Dobro de Cinco e A Confuência da Forquilha eram coisas geniais e fortes . isso sem contar com suas participaçõa em revistas tais como Mil Perigos...
é bom ver que ele, ao contra´rio do que imagainava, vingou bem. muito bem mesmo! aidna n li o livro. mas espero o filme.
Mutarelli
Tem ainda "Caixa de Areia", uma espécie de auto-biografia toda feita no bico-de-pena a nanquim (desenhos) - ele é excelente desenhista. Agora quanto aos textos, sem desenhos, como O Nati-morto é ótimo, vale à pena procurar. Tive que encomendar na livraria já que as tiragens são pequenas. Levou algum tempo para chegar mas superou todas as expectativas. Acredito no brilhantismo do Selton Mello, mas a inteligência do Mutarelli deve ser o fio condutor do Cheiro do Ralo - ainda não vi o filme.
Fanny · Rio de Janeiro, RJ 20/3/2007 11:46
Excelente filme, assisti no fim de semana. Agora preciso ler o livro, só li Mutarelli em quadrinhos.
Fernando Mafra · São Paulo, SP 26/3/2007 13:49Não vejo a hora de assistir ao filme. Guardo uma curiosidade particular... e quero entender melhor este momento de vôo alto de uma pessoa que certamente [e recentemente] se tornou muito especial para mim: o Mutarelli.
Maíra Campos · São Paulo, SP 16/4/2007 00:36Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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