Chico é o matuto mais famoso do Tocantins. Também pudera, só tem primos igualmente importantes, a exemplo de Chico Buarque , Chico César, Chico Anysio, Chico Xavier, Chico Mendes, o velho Chico, entre outros. Não é qualquer um que pode ser Chico. E o Chico – Festival de Vídeo e Cinema de Palmas - xará dos outros - sabe bem a responsabilidade de carregar esse nome e tem honrado com ela.
Quem foi à abertura da 6ª edição do Chico, na última quarta-feira, 29, na Sala Sinhozinho, em Palmas, viu de perto que o audiovisual ganhou espaço no Tocantins graças ao jeitinho manso do matuto. Lotada, a Sala Sinhozinho foi a prova de que o Chico é o acontecimento do ano no Tocantins na área de cinema e vídeo.
Universitários, estudantes secundaristas, profissionais liberais, gente que faz e que lê a notícia, que produz e consome a cultura, que realiza e assiste aos filmes. Todos lá para prestigiar a primeira noite da mostra nas categorias Universitário e Circuito Aberto. Para o jornalista Marcelo Silva, a presença maciça do público – tinha gente sentado no chão e em pé – foi surpreendente. “É um festival importante para criar o ambiente favorável pro desenvolvimento do audiovisual”, disse e completou: “Eu fico imaginando o Chico daqui a uns 10 anos, e o quanto ele terá contribuído com o audiovisual do Tocantins”. Marcelo fala com conhecimento de causa, produziu e dirigiu o filme "Os caretas de Lizarda" e está produzindo o documentário "Raimunda, a quebradeira".
Tudo positivo, bom público, bons filmes, mas há uma observação a fazer da primeira noite de mostra: um burburinho entre a platéia no final da exibição deu conta de que a cédula de votação dificultou o trabalho do público na escolha do melhor vídeo no voto popular. Alguns queriam que as categorias fossem segmentadas assim como foi para o júri oficial. Mas a ficha de votação do júri popular trazia todos os estilos juntos o que pode ter feito o público ser injusto com alguns vídeos.
Berço de sucesso
Olhando o mapa astral do Chico dá para perceber que ele nasceu para o sucesso. Tudo começou em outubro 1999, quando um grupo de estudantes da segunda turma de Comunicação Social da então Unitins decidiu fazer alguma coisa. “O curso, na época, nem era autorizado. E estava todo mundo com medo que o curso fechasse. Então eu falei: ‘está na hora de fazer um evento que parta da gente, para que a gente possa ter um espaço para mostrar para a sociedade os trabalhos que são produzidos dentro da universidade”, quem disse isso foi Tatiana Fagundes.
Tatiana é gente que faz. Jornalista, foi dela a idéia original do Chico. Mas ela não fez sozinha. “Como eu e um colega fazíamos vídeo brincando mesmo, resolvemos criar o Chico”. Auro Giuliano, colega de Tati na época, criou o nome e troféu Chico. “Quando o Chico nasceu nós não tínhamos a mínima idéia do tamanho que ele poderia chegar”, afirmou Auro. Segundo ele, da primeira para a segunda edição houve um salto muito grande.
“Ai falamos: ‘poxa! Todo festival tem uma cerimônia de premiação’, aquela cerimônia glamourosa, e brincando com isso como o Oscar, o Quiquito ai montamos o Chico, e ficou”, completa Tatiana numa entrevista que foi realizada numa mesa de bar, no início da semana, na qual Raquel Oliveira, jornalista e colaboradora do Chico também participou (confira o áudio ao lado).
O primeiro Chico era apenas universitário, e teve somente sete vídeos. Yurika Hidaka participou do Chico, em 2001, com o filme “Indigestão” - dela e de Cláudia Santos - e lembra bem da parte experimental do festival. “Não tínhamos muitas noções de produção em vídeo e tínhamos uma idéia inicial do que seria o roteiro, mas ele não estava completo, foi finalizado durante as gravações”, relembra.
Mesmo sem recursos, o vídeo ficou com o prêmio de melhor iluminação. Hoje o Chico tem mais de 100 vídeos inscritos, entre ficção, animação e documentários, e 39 selecionados.
“O interessante é que o festival cresceu mais do que a gente esperava. Esse ano tem muitos vídeos de fora”, diz Tati. A divulgação nacional colaborou para isso. O Chico está no Guia Brasileiro de Festivais de Vídeo , uma espécie de calendário para os produtores.
Um dado triste é que apenas sete produções são tocantinenses. Raquel justifica: “O produtor tocantinense vive em função do Chico e a gente parou de fazer, ficou 1 ano sem festival”, disse. Em outros lugares, os produtores fazem filmes o ano inteiro para vários festivais do país, no Tocantins o Chico é uma balança: se o vídeo passar no crivo do Chico, geralmente ele é encaminhado a outros festivais.
Além disso, explica Raquel, este foi um ano de campanha, e as produtoras estavam fechadas. “Diminuiu da universitária, mas a circuito aberto aumentou”, acrescenta.
Maturidade
O Chico está mais maduro, avalia Auro Giuliano. “Mas não perdeu a irreverência”, diz. Ele deixou o Chico quando o projeto começou a crescer, assim como fizeram outros colaboradores.
“Acho que uma coisa chata foi o grupo não ter continuado. Cada um começou a querer tocar sua vida. Era um grupo muito bom e cada um resolveu seguir sua história e não essa do Chico, mas a cada ano o festival resiste e isso é legal”, frisa Raquel.
O festival ganhou proporções, conquistou a chancela do MinC, para captar recursos por meio da Lei Rouanet, aumentou o número de inscritos, mas “a batalha continua”. Vale dizer que em 2005 o Chico não foi realizado por falta de patrocínio. “A gente tem público garantido no festival,mas a intenção é aumentá-lo. É preciso mais patrocínio também, a Lei Rouanet foi um reconhecimento, mas aqui no Tocantins as pessoas não têm essa visão do evento, porque um evento como o festival gera emprego”, desabafou Tatiana.
Bastidores
O Chico também coleciona fatos engraçados. O mais curioso aconteceu quando o cineasta Geraldo Moraes veio para participar da 2ª edição do Chico. “A gente conseguiu patrocínio de veículos e começamos buscá-lo num Santana e terminamos numa Kombi porque o patrocínio foi caindo, caindo... (risos)”.
Geraldo, macaco velho, levou o episódio na brincadeira. “Ele até virou padrinho do festival porque o Geraldo foi o primeiro cineasta que filmou no Tocantins (o filme No Coração dos Deuses). Éramos cheios de dedos com ele porque ele é cineasta”, relembra Tatiana. E complementa: “Então nós começamos a buscá-lo numa caminhonete S10, depois num Santana e, no, final numa Kombi. O festival era no teatro (Fernanda Montenegro) e um dia falei para ele: ‘Geraldo fica aqui no teatro que a Kombi vai voltar, para trocarmos a Kombi pela S10’, e ele falou: ‘quer saber de uma coisa, vamos logo nessa Kombi antes que um fusca venha nos buscar!’ (risos)”.
Exibição/premiação
O festival terminou no sábado, dia 2. Filmes como "Tapa na Pantera” (Rafael Gomes- RJ), conhecido dos internautas, foi um dos mais aplaudidos na noite de abertura da mostra, assim como “Causa e efeito” (Yussef Abrahim – AM – que veio a Palmas especialmente para ver o Chico), “Tem um dragão no meu armário” (Rosaria –RJ), "Taí" (Antônio Fabrício –TO) e “Uma pescadora rara no litoral do Ceará” (Sidnéia Lusia da Silva – CE).
“O interessante é que a gente está formando público e esses são vídeos que são exibidos somente em festivais, não é todo mundo que tem oportunidade de viajar para outros lugares para ver os vídeos, e serão mostrados aqui”, afirma Raquel.
A programação incluiu ainda mostra especial para deficientes, com monitores da Apae.
A premiação, este ano, será só o troféu Chico, foi o que a organização conseguiu. Os vencedores da 6ª edição foram:
- Melhor Vídeo Universitário: "Taí", de Antônio Fabrício. O vídeo do estudante de Comunicação Social, que fala dos conflitos das realações amorosas também faturou o Chico de Melhor Vídeo Tocantinense e Júri Popular. "Esperava um no máximo, mas três é demais. Agora é um ménage à trois", brincou ele.
No circuito aberto, levaram o prêmio "O Buraco" (documentário de Taciano valério Alvez -PB); "Causa e Efeito" (ficção de Yussef Abrahim - AM). Abro aqui um espaço para as considerações de Yussef que, pela segunda vez, leva o Chico - a primeira foi em 2000. "O que é legal de ter acompanhado o Chico em 2000 e 2006 foi ver que o festival acompanha o desenvolvimento da cidade. Porque o crescimento não é só de infra-estrutura, mas intelectual também", disse.
Animação, venceu o "Para chegar até a lua" (José Guilherme -SP). Pela dificuldade de escolha, devido ao bom nível dos filmes, o júri oficial formado por Valéria Del Cueto, Marcos Fábio Katudijian, Flávio Herculano e Mailin Milanez, decidiu criar as menções honrosas. Elas foram para "A resistência do vinil" ( documentário de Eduardo Castro - GO/TO); "Bala" (ficção de Daniel Sabino - SP); e "Engole duas ervilhas" (animação com direção coletiva - RJ).
Ainda falta evoluir um pouco, divulgar mais, fazer oficinas de capacitação para melhorar e incentivar as produções, mas as meninas do CIM – Centro de Imagem e Som, entidade responsável pelo festival sabem disso. Daqui a 10 anos? O Chico quer estar vivo e matutando no Tocantins.
muito bom festival,parabens pela organização
Nício Miranda · Palmas, TO 4/12/2006 14:02Bom festival, boa organização, bons filmes! Mas ainda me intriga a falta de visão do empresariado tocantinense sobre patrocínio. Podemos fazer muito mais do que produzir filmes a lá Glauber Rocha, com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Mas o patrocício é a matriz da produção cultural. Sem ele, a idéia morre ou, quando muito resistente demora décadas para sair do papel.
Rafaela Lobato · Palmas, TO 4/12/2006 14:30
Sou fã de muitos chicos... O matuto, tenho aprendido a adorá-lo. Afinal, raras as vezes se tem a oportunidade de ver curtas legais em Palmas.
Saravá Chico.
O chico conquistou mesmo um espaço muito legal e tem um papel importante no incentivo da produção audiovisual aqui do Estado. Além do que, é a oportunidade mais próxima que a gente tem de ver boas produções em vídeo.
Parabéns aos organizadores pela garra de realizar o festival, mesmo com todas as dificuldades.
Há!
Ganheeeeeei!!!
Ganheeeeeeeeeeeeeeeiiii!!!
Ganheeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!
(Sem palavras)
Mais que um festival, o Chico cumpre o papel de maior incentivador do audio-visual em Palmas e no Tocantins. Como disse o camarada na matéria, fico imaginando ele daqui 10 anos. Espero estar lá, com vídeo ou sem vídeo...
O CHICO cresceu na quantidade e qualidade dos vídeos exibidos, isso é o esperado mas não deixa de ser ótimo constatar A única coisa que me surpreendeu negativamente no Festival foi a ausência de patrocínios. Não dá para entender como um evento que colabora para construir a identidade de capital tão jovem, não sensibiliza a iniciativa privada enquanto vitrine para suas marcas, mesmo com os mais comprovados benefícios para imagem de empresas que mostram ter responsabilidade social.
Abraço a todos e vida longa ao matuto!
Roberto, é só você clicar no nome do Chico (Festival de Vídeo de Palmas) que aparece o link, e na programação também.
Abraço
Matéria muito boa!
Parabéns, Glês.
Mas vale a pena ressaltar que o CHICO atualmente conta tembém com uma produção executiva externa - o que complementa o trabalho da Tatiana e da Raquel - produção esta que visa profissionalizar cada vez mais seu núcleo de captação de recursos no Tocantins (mais especificamente na Cidade de Palmas), divulgar o nome do evento em festivais de grandes centros como Recife, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, bem como, um link direto com o Fórum Nacional dos Festivais.
Abraços.
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