O Rio das Ostras Jazz & Blues Festival terminou no último domingo deixando saudades. Foram cinco dias onde a chuva e o frio só serviram pra aproximar o público mais guerreiro, por que não existia tempo ruim! A oitava edição do principal evento do gênero no Brasil atraiu gente de todo o país com seus convidados de primeiro time. Foi um sucesso também porque o clima era de festa mesmo nos intervalos dos shows. Particularmente, ir ao Festival em busca de uma experiência com o Jazz e o Blues me levou também ao samba, ao choro, e a Sergio Sampaio.
Há oito anos os encontros de Jazz na cidade de Rio das Ostras (RJ) deixaram de ser pequenos encontros. Tudo começou com apresentações mensais só para os moradores locais, e nos últimos anos trouxe nomes como Magic Slim, John Scofield, Mike Stern, Richard Bona, Eddie C. Campbell, Nnenna Freelon, Kenny Garrett, T.S. Monk, Eddy Clearwater, Roben Ford, Stefon Harris, Ravi Coltrane, Soulive, Michael Hill, Roy Rogers, John Mayall & The Bluesbreakers, Coco Montoya e Jason Miles, entre muitos outros.
São cinco dias de evento e todos os shows são gratuitos. Tradicionalmente eles se distribuíam entre três palcos, localizados na Costa Azul, Lagoa do Iriry e Praia da Tartaruga (este palco fica sobre umas pedras que recebem as ondas do mar, onde é meio difícil ouvir jazz e encarar temporal e se equilibrar com guarda-chuva, tudo ao mesmo tempo, mas nós conseguimos!), e a partir desta edição o Festival contou com um novo palco na Praça São Pedro, exclusivo para novos talentos nacionais. Este ano, algumas das principais atrações foram Ron Carter Trio, Rod Piazza & The Mighty Flyers e T.M. Stevens Project c/ Cindy Blackman, Delmar Brown & Blackbyrd McKnight.
E se alguém por acaso ainda pensa que esse tipo de evento é para “coroas eruditos” e que o Festival é meio “careta”, precisa conhecer o pessoal de Vitória (ES), que tomou conta da cidade. Foi uma surpresa. Nunca pensei encontrar tantas pessoas de Vitória em Rio das Ostras, nem sabia que em Vitória tinha tanta gente, pensei só encontrar cariocas, algumas pessoas de São Paulo e, claro, de Minas, que sempre estão em todo lugar, rs. Assim como os cearenses, como eu. Entrei numa van, e ela estava repleta de capixabas! Nos demos bem de cara e o Festival passou a ter muito samba e chorinho, porque eles estavam munidos de cavaquinho, violão, pandeiro, cerveja e por aí vai...
Os capixabas no Jazz
Hoje voltei a conversar com alguns deles pra entender melhor essa migração temporária, ficou alguém em Vitória durante o festival?
Paula Falcão, 21 anos, explica: “Como Vitória é um pouquinho 'cidade universitária', muita gente volta pras cidades de origem nos feriados. Mas sempre rola festa, bar. Com certeza o feriado em Vitória seria legal também, mas sem comparação com Rio das Ostras.” Paula estuda comunicação na Ufes, e já havia comentado que o lugar onde esse mesmo pessoal geralmente se encontra em Vitória é na Rua da Lama. Na descrição dela: “Rua da Lama é uma rua que concentra vários bares. Fica bem em frente à Ufes, num bairro que é bastante universitário (Jardim da Penha). É uma boa opção em Vitória pra quem quer um ambiente mais descontraído, diferente do Triângulo das Bermudas, que é um aglomerado de bares mais chiquezinhos, arrumadinhos e tal. Rua da Lama é mais boteco!”
Os capixabas marcam presença há tempos no festival, é o caso do Felipe Ribeiro, 22 anos, que participa há cinco edições e explica o melhor do Festival: “acredito que seja impossível dizer qual foi o melhor, pois todo ano o público é surpreendido com momentos inesquecíveis. Eu não citaria uma melhor edição do Festival, mas sim alguns melhores shows como o baixista Richard Bona e James Carter, em 2006, a energia contagiante do Soulive e o inesquecível Michael Hill, na Lagoa de Iriry, que exigiu da organização uma nova apresentação, em 2007, Blues Etílicos e James "Blood" Ulmer, em 2008, Coco Montoya e Jefferson Gonçalves, em 2009 e nesta última edição Rod Piazza e Rio Jazz Big Band com Taryn Szpilman.” E Vitória? “Já não sei o que acontece em Vitória na época do Festival, afinal já são cinco anos indo sempre pra Rio das Ostras, mas me disseram que esse ano ficou vazia.”
Marcelo Gomes, de 18 anos, acha que esta edição superou todas. “Esse ano de 2010 foi a terceira vez que eu fui. Esse eu achei o melhor. E o melhor show pra mim foi Rod Piazza & The Mighty Flyers na lagoa do Iriry”, conta.
E nos intervalos entre os shows?
Música Brasileira no Festival de Jazz
Felipe, Paula, Marcelo e mais cerca de vinte pessoas dividiram uma casa próxima ao palco principal, na Costa Azul. Todos enfrentaram sete horas de viagem do Espírito Santo até a Região dos Lagos onde acontece o Festival, e depois de tanta estrada em prol do jazz e do blues, na casa deles, tudo acabou em samba e choro! Fiquei hospedado na casa dos capixabas e não sei dizer se a música era melhor nos shows ou na sala da casa deles, tocavam de tudo. Mas havia um preferido. Sergio Sampaio foi mais defendido por eles que o Roberto Carlos por minha tia Marculina, acredite, isso significa muito afinco! Ao contrário do Rei, o seu conterrâneo de Cachoeiro de Itapemirim, não recebe o devido reconhecimento.
Deixo para Felipe explicar: “Sergio Sampaio, pra mim, é uma grande referência de músico marginal, mesmo que tenha assinado com gravadoras, na época em que isso tinha mais peso, e tenha gravado com artistas de sucesso nacional, ele sempre manteve sua originalidade, e como não está mais entre nós, sou apenas um entre muitas pessoas que lutam para mostrar a todos o trabalho lindo que esse grande compositor fez. As noites depois dos shows em Rio das Ostras foram regadas a muito Sergio Sampaio. Todo mundo precisa conhecer, porque é muito bom.” Ai de quem não conhecer aqueles versinhos, “Eu quero é botar meu bloco na rua, Brincar, botar pra gemer...” Você conhece, né?
Voltando ao Festival
A música brasileira, claro, não fica de fora dos palcos do Festival, que já recebeu: Yamandú Costa, Romero Lubambo, Naná Vasconcellos, Sérgio Dias, Márcio Montarroyos, Hamilton de Holanda, Dom Salvador, Luciana Souza e Léo Gandelman, entre outros. Quem não conhece o trabalhos desses caras está perdendo tempo! Seja nos shows, seja nas vans ou nas casas de capixabas desconhecidos, o Festival de Rio das Ostras é diversão garantida.
E me despeço com um trecho de Meu pobre blues de Sergio Sampaio, que, segundo aprendi, ele fez para o Roberto Carlos que nunca topou gravar uma letra sua... poxa Roberto! Conheci este blues sendo cantado intensamente pela casa capixaba em coro afinado. Lá vai:
“Foi inútil...
Eu juro que tentei compôr
Uma canção de amor
Mas tudo pareceu tão fútil (...)
Mesmo que minha mulher
Depois de me escutar
Ainda insista
Que você não vai gostar (...)
Eu só queria ouvi-lo cantar
Meu pobre blues... e nada mais...”
Bacana, Douglas.
Engraçado essa coisa de Jazz e Blues + Praia. Talvez pela influência-mor do Free Jazz, tenho sempre na mente esses festivais como experiências urbanas "de concreto". Mas adoraria curtir Jazz e Blues num lugar paradisíaco como Rio das Ostras.
Parece que esse ano o festival foi mais bombado em publicidade, não?
Foi, bastante. Foi a primeira vez que fui, mas o pessoal que participou de outras edições comentava que este ano estava bem mais cheio. Parte disso certamente é fruto de mais publicidade.
Douglas Vieira · Rio de Janeiro, RJ 9/6/2010 17:02
Pesssoal,
Seguem mais algumas fotos que o Felipe fez do Festival.
mistura interessante jazz + praia.
rompe um pouco esse paradigma de urbanismo em festivais d jazz.
uma pena ter perdido, Costa Azul é maravilhosa!
bela postagem, Douglas (:
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