Não sei quantos foram os que se indignaram nem quantos deixaram de perceber o artifício da Rede Globo de Televisão de tratar das novas regras de classificação indicativa para a programação de TV. Pelo menos eu não vi a questão ser debatida por aqui. Para quem não está por dentro do assunto, foi publicada no dia 12 de fevereiro deste ano uma Portaria do Ministério da Justiça (264/07) que regula a classificação indicativa de programas, filmes ou qualquer obra de audiovisual exibidos pelas emissoras de televisão. Ela substitui a portaria 796/00 e traz como principais novidades o uso de símbolos para indicar as faixas etárias e a exigência de adequar a programação ao fuso horário local. Para mais informações sobre a Portaria, veja aqui.
Acontece que a Globo, como sempre faz quando pode entrar em vigor algum tipo de regulação que contrarie os seus interesses, apressa-se a taxar a referida regulação como um mecanismo de censura. O cenário montado geralmente é o seguinte:
- Artistas globais dando declarações e levando cartas para ministros ou mesmo o presidente;
- Os programas de jornalismo da emissora repetidamente veiculando matérias altamente tendenciosas sobre a pauta;
- Deputados e senadores “amigos” fazendo discursos veementes e severas críticas à questão;
- Às vezes, uma ou outra organização da sociedade civil dizendo que “não houve debate” sobre o assunto.
Já vimos o estrago que essa movimentação é capaz de fazer. A ANCINAV, iniciativa do Ministério da Cultura, foi simplesmente fuzilada por todos os lados. Outro exemplo é o Conselho Federal de Jornalismo, uma provocação que, inclusive, o governo havia recebido da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ).
Embora concorde com o grosso das duas propostas, não gostaria nem de entrar no mérito delas. Para mim, o que importa é que ambas foram publicamente execradas sem que sequer houvesse – aí sim – um debate público consistente sobre o assunto. Para mim, tachar qualquer proposição de censura é um mecanismo extremamente autoritário, que tem como único objetivo encerrar o diálogo sobre o assunto e não discutir o cerne da proposta.
Mas desta vez a Globo se superou e mandou às favas o respeito à sociedade brasileira. Pôs no ar, parece que já há algum tempo, uma campanha contrária às novas regras da classificação indicativa, só que sem referir-se claramente ao tema. E ainda incluiu a campanha naquela série “Cidadania. A gente vê por aqui.”, como se estivesse prestando um serviço à sociedade! Novamente, a emissora esforça-se para legitimar causa própria como se fosse algo de interesse da sociedade. E faz isso da pior forma possível, tentando conquistar, através da repetição exaustiva de mensagens subliminares, a audiência para a sua – e somente sua – causa. Há um texto no observatório da imprensa que considero bastante esclarecedor sobre o assunto.
Por favor, prestem atenção na programação da TV e nessa campanha. E talvez vocês fiquem tão indignados quanto eu.
Quem quiser equilibrar um pouco a situação, pode ver a campanha feita pelo Ministério da Justiça e veiculada nas TVs públicas.
Finalmente, o texto do Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, posicionando-se sobre a questão.
Ou muito me engano, ou vi outro dia na MTV um anúncio da emissora mais ou menos no mesmo molde desse da Globo, falando da importância dos próprios pais se informarem e escolherem o que os filhos querem ver - também sem citar explicitamente do que estão falando.
André Monnerat · Rio de Janeiro, RJ 14/3/2007 14:32
A gente se vê de pés e mãos atados diante do cinismo da globo. o que podemos fazer diante de um veículo de comunicação que conseguiu se constituir no imaginário de grande - ouso dizer a maior - parte da sociedade brasileira como detentor da verdadeira verdade sobre todas as coisas? é preciso um trabalho de formiga, é preciso discutir, resistir a isso. é importante não se calar diante desse autoritarismo...
Verdade Iuri,
ando indignado em relação a essa campanha da Globo. Eles costumam agir de forma execrável quando se fala em distribuição de poder, já que estamos falando em tratar de forma política e séria os meios de comunicação nesse país e isso passa, certamente, por uma divisão mais igualitária na relação "quem pode falar o que pra quem".
Em relação a essa questão em si, é um absurdo também, cinismo é a palavra mais acertada e que roubo aqui de Vânia.
Ainda fazem campanha descaradamente pela redução da maioridade penal. É um absurdo, mas isso é uma outra discussão!
bem... é isso!
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