226 áreas, 740 grupos artísticos, 7 mil pessoas, 39% de músicos, 28 rádios comunitárias, 11 jornais, em 2 anos de pesquisa. Números, números e mais números. O que eles significam? A nossa visão da favela é quase sempre traduzida estatisticamente. Números soltos dessa maneira podem não significar muito. Esses significam, ao contrário. Principalmente quando revelam um outro “mundo”, quando descortinam uma produção cultural “invisível”. Ingenuamente invisível.
Passaram-se dois anos desde o lançamento do Guia Cultural de Vilas e Favelas de Belo Horizonte. Outros dois foram necessários para que a pesquisa coordenada pela antropóloga Clarice Libânio fosse concluída em livro. Um mapa para a vida cultural das ruas, vielas, becos das favelas de Belo Horizonte.
“A partir dos resultados, foi possível perceber que há, nas vilas e favelas da cidade, uma rica, plural e ampla produção cultural, que, entretanto, sem visibilidade e divulgação, não se dá a conhecer, restringindo-se, muitas vezes, ao seu local de produção.”
De lá para cá, muita coisa mudou. Outros artistas sugiram, o número cresceu. E muito. Na atualização que está sendo feita esse ano, o número de artistas encontrados agora, em relação ao Guia, está duplicando e, em alguns casos, até triplicando. Com essa perspectiva, o número de artistas pode ter passado, em poucos anos, para 15 ou 21 mil. De acordo com a pesquisadora, a surpresa não é só para quem é de fora, até mesmo as comunidades se espantam com tamanha produção.
Como áreas tão pobres podem produzir tanta coisa, como podem ter uma vida cultural tão ativa? Pois têm. Sem auxílios, sem patrocínio, sem leis de incentivo, praticamente sem dinheiro, a cultura se move sem gerar renda, pelo contrário, 80% desses artistas gastam para produzir. E por quê? De acordo com a antropóloga, a palavra mais ouvida nas entrevistas com os artistas foi “auto-estima”. Ou seja, a necessidade da manifestação artística se dá em razão de uma vontade por se expressar, por se afirmar.
A via cultural
De uns anos pra cá, a solução pela arte tem se mostrado bem mais viável. As oficinas artísticas de artesanato, música, vídeo, graffiti, etc. substituíram os cursos profissionalizantes de pedreiro, manicure, costureira. É um novo conceito de cidadania, ou melhor, uma expansão. Se o crescimento da violência tem inibido a participação política direta, esta encontrou uma nova maneira de se expressar.
“O produto artístico traz, em si, a história dos agentes culturais e de sua comunidade e as propostas de sua transformação. Nesse contexto, a arte fornece aos agentes de vilas e favelas elementos de efetiva participação política, que ultrapassa a noção legal”, afirma a antropóloga.
Mas toda essa produção artística que foi incentivada encontrou uma barreira: como vencer a separação entre favela e asfalto? Uma questão de divulgação, de acesso a mídia. Foi aí que entrou o Guia Cultural de Vilas e Favelas. Mas, como afirma a autora, a intenção não era colocar só mais um livro na prateleira das livrarias. Por isso foi criada a ONG “Favela é isso aí”, com o objetivo de dar vazão a esses números, fazer com que eles alcancem a mídia.
Detecta-se que há muitas ONGs trabalhando em prol da produção cultural periférica, “ o que gera superposiçao de ações e desgaste do público-alvo, além, é claro, do desperdício de recursos e esforços”, continua a autora. O que não há, na verdade, é um trabalho em conjunto entre elas. Ou seja, não vai demorar para que precisemos de um guia de ONGs.
Onde adquirir o Guia Cultural de Vilas e Favelas:
Livrarias Travessa, Ouvidor, Leitura, e também no Museu Abílio Barreto. Também pode ser adquirido na ONG Favela é isso aí.
Há muito mais produção cultural nesse país do que se imagina - não só em favelas ou comunidades de baixa renda. Os espaços para divulgação é que ficam um tanto restritos a um pequeno grupo de artistas e produtores. E quase sempre no eixo Rio-São Paulo. Nada contra os artistas desses estados, por favor.
Quando a produção acontece numa favela, a dificuldade de acesso à mídia é maior. Não por desinteresse do público - porque, geralmente, ele nem sabe quão ricas culturalmente são essas comunidades. Nem da imprensa. O que acontece, acredito, é que muitas vezes há um desencontro, uma falta de comunicação e também um pré-conceito ridículo, mas ainda muito comum: "favela é sinônimo de violência!". Mas também há pré-conceito de alguns artistas de favelas, que não raro nem buscam os veículos, com a idéia de que seriam previamente ignorados por eles. Quem trabalha com a imprensa, sabe bem que, todos os dias, muitas sugestões de pauta são recusadas, mas não é por causa disso que devemos deixar de apresentar novas sugestões, buscar outros caminhos etc.
Trabalhei três anos no Portal Viva Favela (www.vivafavela.com.br), que pertence à ONG Viva Rio, e lá divulgamos muitos trabalhos culturais desenvolvidos em favelas do Rio. E, com freqüência, essas matérias repercutiam na mídia tradicional, pautando programas de TV, jornais e revistas de grande circulação - por mérito artístico dos moradores. É um trabalho de formiguinha, talvez. Mas vale muito a pena. Mais ainda quando se sabe o valor dessas pessoas e quão difícil é trabalhar com arte nesse país.
Produto cultural riquíssimo, deve ser divulgado em escolas e universidades.
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 28/12/2006 11:39
Parabens!!! Gostei muito da iniciativa!! Aqui em Aracaju estamos realizando os Fóruns Populares de Cultura para tentar evitar isso que vocês afirmam no texto: "Detecta-se que há muitas ONGs trabalhando em prol da produção cultural periférica, “ o que gera superposiçao de ações e desgaste do público-alvo, além, é claro, do desperdício de recursos e esforços”, continua a autora. O que não há, na verdade, é um trabalho em conjunto entre elas.
Não é fácil, mas estamos tentando.
Para saber mais detalhes é só dar uma olhada no blog: http://acaocultural.blig.ig.com.br
Inclusive o projeto do III Fórum Popular de Cultura - Edição 2007 foi escolhido no recente concurso de projetos do Banco do Nordeste do Brasil. A previsão de realização é o mês de setembro.
Feliz 2007 para todos.
Incrível! Uma lição para muita artista por aí que não produz nada ou mesmo desiste porque "não tem recurso nem incentivo". Ou mesmo que fazem questão de serem muito bem remunerados pelo seu trabalho, tipo "minha arte vale mais dinheiro que isto!"
Tá aí um exemplo de esforço cultural! Muito bom!
Tetê, estou contigo e não abro. No tempo em que trabalhei na seção de cultura da Tribuna da Imprensa, o espaço era muito pequeno, mas procurávamos sempre dar espaço para quem não tinha visibilidade. Minha editora partia do princípio de que os jornais grandes estavam sempre dando as mesmas notícias, e portanto não fazia sentido falarmos dos mesmos artistas. É de fato um trabalho de formiguinha - mas o Overmundo, por exemplo, não está nos saindo um enorme formigueiro? Acho que agora, finalmente (trabalhei na Tribuna há quase dez anos), a divulgação cultural pela Web começa a dar frutos - frutos maduros e saborosos. Vamos continuar lutando por isso.
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 29/12/2006 20:59
FELIZ ANO-NOVO!!
Abraços
http://jjleanro.blog.terra.com.br/
http://fotolog.terra.com.br/jjleandro60
Fabio, cheguei ao Overmundo há pouco, mas estou gostando muito do que tenho encontrado por aqui. Um formigueiro, como vc bem disse. Até.
Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 2/1/2007 01:56
Cara estamos acostumados a irmos ao teatro,pra celebrar a arte . entreteanto muitas vezes a rte ecoa nos mais recondidos cantos de nossa sociedade... a visão que temos da favelaé algo sempre marcado pelos noticiarios marcados pela exibição dapobreza > eles se esquecem que lah tbm moram homesn e mulheres ew que estes são tao capazesquanto qualquer um que estudou em escolas particulares e frequentou cursos de pitura, musica e etc....
acho ate que pessoas que desenvolve a arte sem ter frequentado essas "academias" é que são ps verdadeiros artistas.
Sergio
Muito bom saber da pesquisa, do guia. É possível fazer muitas inferências a partir do seu texto, do trabalho, enfim. Assim, correndo... eu citaria que Belo Horizonte apresenta números maravilhosos - mas não acho que eles se repitam em todas as áreas pobres ou favelas do Brasil. Aqui, em Brasília, a Vila Estrutural, por exemplo, é desprovida de tudo. As crianças ficam jogadas no barro vermelho por absoluta falta de opções dentro ou fora de casa e o mesmo acontece com jovens...e aí, já viu, né? Noto que que o podemos chamar de "periferia" está realmente ganhando novos contornos. Isso a mídia ou símbolo dela, a Globo, já "descobriu" e tem mostrado. Noto isso cada vez mais quando visito a minha cidade, Campina Grande (PB). Lá, o centro está cada vez mais desinteressante...já nos bairros...há um movimento calado e fértil que impressiona - não acho que eles têm a pretensão de sair dali, mas de ser da própria comunidade, o que fortaleceria a sua identidade, penso eu. Por morar em cidade planejada adoro estar em lugares "com cara de cidade", como costumo falar. E observo muito o seu movimento.
Bom, voltando ao texto, para o não trabalho em conjunto eu sugeriria um trabalho em rede. Há tantas já funcionando e que poderiam servir de exemplo...Já atuei em uma delas a Rede de Tecnologia Social www.rts.org.br onde alguns desses grupos podem até se encaixar. Fica a sugestão. Por último, valeu pela dica que me deixou. Depois da sugestão do Fernando li a Ajuda e fiquei sabendo sobre as tags. Mas confesso que quando chego nos detalhes me perco toda e perco-os. Vou tentar. Acho que ainda há um tempinho. Abraço
valeu pela dica velho! sou novo e assim vou aprendendo..
http://overmundo.com.br/agenda/sala_edicao.php?em_edicao=2495
mto bom! quero comprar logo. valeu pela escrita
abs
E viva a presença dos oprimidos, dos esquecidos, dos massacrados por este mundo cão de nossos governantes, nossas Escolas também massacradas, Universidades mergulhadas num mundo abstrato de títulos e prepotência.
Viva o cidadão comum que às vezes nem sabe de sua importância, sua grandeza. Viva esta ampla produção cultural. Sua presença como ser social... Essa genialidade desse povo Brasilis.
Cultura, Arte e conhecimento não enche a barriga de ninguém mas dá o essencial: Alimenta o "Espírito" e fortalece o Ser!
Um grande abraço. jbconrado
Parabéns pela matéria que foca os bons resultados de trabalhos de inclusão social pela arte.
Sucesso aos da cidade de belos horizontes.
http://www.overmundo.com.br/overblog/25-novos-autores-publicados-pela-nova-coletanea
Bruno Resende Ramos · Teixeiras, MG 19/10/2008 18:42Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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