Cidade dos Perdidos, ou "tu não és daqui, né?"

Felipe Obrer
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Felipe Obrer · Florianópolis, SC
27/7/2011 · 21 · 10
 

Deserto. No início um texto é isso. Depois podem emergir prédios térreos. Árvores mais ou menos frondosas. Ou pessoas em úteros urbanos antiestatísticos, pouco matemáticos. Águas coletadas da chuva. A mistura do solo com o fluido, a lama. A intenção é escrever sobre Desterro, Nossa Senhora, passando por elásticos temporais e nominais, Ondina, Meiembipe, Baía de Los Perdidos, Ilha dos Patos, Ilha de Santa Catarina, por fim Florianópolis, com um naco de continente anexado à ilha, mais que tudo Floripa, oásis feérico.

Sem desespero, lá vamos. Lavamos as mãos, a vista, limpamos o campo. Chegamos de qualquer lugar. Nos perguntam: “Tu não és daqui, né?” A relevância da pergunta se desvanece. Esta é uma terra de todos, mais que de ninguém. Diria Zininho que é “um pedacinho de terra perdido no mar, um pedacinho de terra, belezas sem par, jamais a natureza reuniu tanta beleza, jamais algum poeta teve tanto pra cantar”. Diria algum pessimista crítico que é uma cidade provinciana, que por aqui não acontece nada, que a cabeça em geral é fechada, que a alegria folclórica é de fachada e a Beiramar Norte está poluída. Nem uma ponta, nem outra.

Uma ponte chamada Hercílio Luz, cuja construção nas palavras da arquiteta e historiadora Eliane Veras da Veiga, que fala de alterações de nomes e paisagens como cicatrizes, autora do livro Florianópolis: Memória Urbana, foi o marco da transição de fato de Desterro a Florianópolis. A construção: 1926. Em 2011 ninguém transita nela a não ser os operários da reforma, há suportes provisórios, o vão central será suspenso. Colombo Salles e Pedro Ivo são os nomes dos outros vínculos ínsulo-continentais, mais modernos, ainda assim incompletos (pedestres não passam ou passam pouco), e mais que tudo concretos. A Hercílio, metálica, é cartão-postal.

A fundação da Vila de Nossa Senhora do Desterro (1675) aconteceu por obra do bandeirante Francisco Dias Velho, quem, soube pelo historiador Fernando Boppré, ao saquear piratas que haviam feito motim nestas Plagas, recebeu como fatura uma reação catastrófica no retorno dos corsários. Massacre. Dele e da família. Assim começa. Momento mais adiante Nossa Senhora se vai do nome, fica apenas Desterro. Ao fim do século 19 (os romanos estão longe), se segue como reação à Revolução Federalista, em que Desterro chega a ser capital insurgente, a renomeação que vincula a pólis ao Floriano. Havia peixes, havia o Peixoto.

Identidade cultural açoriana. Nem os anéis de Saturno são tão desconhecidos quanto as identidades variadas da urbe que caminha rumo ao mar, com terra de aterros, talvez naufrágios. Os sufrágios revelam votações pífias, já que o colégio eleitoral é subdimensionado. As políticas culturais públicas, no Estado, se misturam numa certa promiscuidade com o turismo, sob a secretaria que abriga também o esporte. O turismo é um esporte ainda pouco cultural. Seria conveniente ir além do isolamento, seja aqui, seja nos Açores, e lembrar dos índios, que ensinaram a usar o garapuvú para moldar canoas, a mandioca para moer farinha, a pesca mais que os pecados lusitanos.

O pescador, a rendeira, a bruxa. A tainha que para os nativos pré-colonização era curimã. Nativo, por aqui, se usa para denominar os nascidos na Ilha. Que também podem ser manezinhos, ilhéus ou ainda florianopolitanos (talvez pela extensão do último nome, poucos se autodefinem assim). Há quem, na rede social das mais populares atualmente, use como cidade Desterro, o que pelos automatismos do sistema remete de modo anárquico o morador da Ilha não adaptado a uma cidade da Paraíba.

Na conversa com Fernando Boppré, ouvi que há um desconforto quanto ao nome Florianópolis, para além da carga histórica, revelado pelo fato de que muita gente, ao escrever ou assinar uma obra, usa Ilha de Santa Catarina, ou apenas Ilha, ou a abreviação Fpolis, omitindo Floriano, mantendo a cidade somada à letra efe. Um exemplo já algo distante no tempo é Franklin Cascaes, que sempre colocava a inscrição Ilha de Santa Catarina sob sua assinatura, segundo Boppré, organizador da exposição Cascaes100+1, realizada no ano passado.

Florianópolis? Ouvi também de um estudante de Antropologia nascido na Ilha que, apesar de tudo, tivemos sorte, já que esse nome é sonoro – tem algo de especial pela fonética em si. Disse eu, tem flor, tem na contração quase uma pipa, e, penso agora, que quiçá voe, bastam brisas benévolas.

Henrique Pereira Oliveira, historiador e professor universitário, diz que o foco está deslocado. Que, enquanto discutirmos o nome, tanto faz se Ondina, Desterro ou Floripa, as coisas que de fato acontecem na cidade, contemporaneamente, ficam perdidas da pauta, todos surfando na onda da cortina de fumaça. No fim, pensa ele, qualquer reforço a mais da discussão apenas serve como propaganda para a venda de uma cidade ideal em que a simpatia ilhôa, as belezas naturais e a preservação delas, a tal magia das bruxas e todos os discursos sobre a suposta xenofobia atendem a interesses dominantes das construtoras, que afinal controlam a cena política e as políticas da cena.

Defende que poderíamos mudar a rota. Quase balanço, mas lembro de Carlos Alberto Silva, que usa um moicano alaranjado e amiúde capacete com chifres, passeia pela cidade munido de megafone e alardeia aos quatro ventos serviços e delírios. Foi tema de uma matéria na revista Naipe – uma das novidades do mercado editorial ilhéu e talvez a que mais espelhe o momento de descolamento, no sentido de movimento rumo à gíria descolado, que a cidade vive. Carlos, na ligeira entrevista em vídeo que obtive dele, disse palavras-chaves bastante intuitivas: museu, turismo, história. Ao final perguntou: serve?

Serve.

Este pot-pourri trota a passos largos rumo a algum lugar que não é o Largo da Alfândega. Que ficava a poucos metros da água do mar antes do aterro que viria a ter projeto paisagístico, nunca posto em prática plena, do notório Burle Marx. Datas? Em algum momento começamos a precisar. Precisamos de datas? Sim. Estamos em 2011. Acontecem muitas coisas por aqui. O início dos contatos com o exógeno pode ter sido antes de Cristo, mais de 600 anos, com as passagens dos fenícios relatadas por Gilberto Gerlach no livro Desterro: Ilha de Santa Catarina, compilado ao longo de quatro décadas e cuja publicação ainda não completou o primeiro aniversário. Há adversários da possibilidade, ou pelo menos quem duvide disso, já que faltam registros suficientemente fidedignos. Sopa de letrinhas.

São impressionantes as imagens históricas, tanto quanto as palavras. A cidade era outra. Nada se perdeu de todo, tudo se transformou, há cicatrizes, talvez tatuagens criativas sejam opção plausível. O arquiteto Cesar Floriano liderou há pouco tempo a pintura de uma linha azul, em terra, demarcando o que era a junção com o mar antes das transformações do centro histórico. O Miramar, o Largo da Alfândega, o Mercado Público, tudo estava banhado pela baía, o cheiro era de maresia, os pescados chegavam embarcados, as pessoas também, havia um porto.

Mas havia pouco. Agora tudo abunda, além dos glúteos em todos os anúncios. Aqui a coisa ferve, e não existe vulcão movido a magma geológico nem ainda pedagogia que nos ensine como ver e viver um lugar que é tantos ao mesmo tempo. Qualquer tentativa de resumo cairia num simplismo infértil. Ainda se planta cana em alguns lugares, valha o metro quadrado doçuras ou o sal do mundo. Os bois pastam, os ônibus não bastam. Confuso, leitor? Vamos nos organizar...

Junção das pontes

Lê-se no livro de Gerlach que em 1526 o navegador italiano Sebastián Caboto deu à Ilha, que era dos Patos, o nome de Catarina, quase homônima à embarcação que precisou construir, e nomeou Catalina, para repor uma das de sua esquadra que havia naufragado.

A já citada ponte Hercílio Luz seria construída em 1926, quatro séculos depois. A transição de povoado ou vila de Nossa Senhora do Desterro a município se deu em 1726, no miolo do tempo entre o batismo da ilha e a ligação física com o continente.

Entre esses quatro séculos, mesmo sem ponte ainda, muitas águas rolaram, tantas outras foram navegadas. Aportavam aqui marujos de várias nacionalidades, já que o Tratado de Tordesilhas (1494) era mais convenção formal do que norma passível de obediência de fato, quisesse ou não o papa. Há controvérsias até entre os geógrafos, que desenham linhas arbitrárias sobre os mapas a fim de definir o que era da coroa portuguesa, o que pertencia à espanhola.

Na prática, a Ilha era bastante concorrida por servir como posto de reabastecimento para várias rotas marítimas comuns durante as grandes navegações. Aqui os navegadores encontravam água, mantimentos e, entre outros bens naturais, o pau-brasil, muito usado para fabricação de tinta. Também conseguiam, quando necessário, materiais para reparo ou construção das embarcações.

Dias Velho fundou a vila, que logo seria município, mas padeceu nas mãos dos piratas e a colonização foi quase esfacelada. Supostamente posse de Portugal, a área tinha trânsito relativamente livre até os anos 30, 40, do século 18, quando se construiu um sistema defensivo que contava com quatro fortificações principais. A Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, na Ilha de Araçatuba, em frente à Praia de Naufragados, para proteger a entrada austral. As três outras formavam um sistema de triangulação de fogos na entrada da Barra Norte: Fortaleza de Santa Cruz, a principal, na Ilha de Anhatomirim, Fortaleza de São José da Ponta Grossa, na própria Ilha de Santa Catarina, hoje entre as praias de Jurerê e Daniela, e Fortaleza de Santo Antônio, na Ilha de Ratones Grande. As três últimas estão restauradas e são abertas à visitação. A de Nossa Senhora da Conceição ainda permanece em ruínas, e é visitada informalmente em barcos que fazem passeios até Naufragados. Existem projetos de arqueologia subaquática em atividade que, contemporaneamente, resgatam as provas de que o nome da praia não é à toa.

O brigadeiro José da Silva Paes (chegou em 1739), nomeado primeiro governador da Província de Santa Catarina, foi o responsável por comandar as construções. É conveniente lembrarmos que um nome é apenas um nome, um homem é apenas um homem e a história é feita pelas pessoas ditas comuns. Neste caso, o povoamento se deu principalmente por açorianos, alguns madeirenses e ilhéus de outros pedaços de terra perdidos no mar, trazidos em condições bastante precárias. Além deles, por aqui já havia índios, domesticados ou não; negros, escravizados ou não; e pessoas de outras origens, piratas, náufragos, deportados, agricultores, aventureiros e burocratas.

Em 1777 os espanhóis tomaram conta da cena, mas devolveriam a região no ano seguinte aos portugueses em troca de outras áreas e acordos, mediante um novo tratado, chamado de San Ildefonso.

Salto: voltamos a 2011. A discussão do nome é relevante ou apenas encobre os problemas reais que a cidade vive e ofusca as ações e os debates públicos que podem solucioná-los?

Novembrada e Revolta da Catraca

Henrique Pereira Oliveira é coordenador do Lapis (Laboratório de Pesquisa em Imagem e Som) e foi meu professor na UFSC há 10 anos. Gostava muito das aulas dele. As disciplinas eram História da Arte, Teoria e Metodologia da História 1, e um tópico especial chamado Oficina de Vídeo-História. Curiosamente, o trabalho do qual participei, animação produzida com fins didáticos, tratava da colonização açoriana. Foi a única cadeira que me rendeu nota dez. Abandonaria o curso no semestre seguinte. Aliás, consta por aí que o que estudei foi Abandono da História.

Não sei se o professor Henrique participou da revolta eminentemente estudantil e popular na década de 1970, que quase pôs Figueiredo para correr, mas parece que revive o espírito dos rebeldes com causa da época. Ele só substitui o combate ao regime militar como core business e dirige o foco para a mídia como difusora de clichês e criadora de estereótipos, além do jogo de interesses que escamoteia o principal, segundo ele: a difusão de Floripa como Ilha da Magia, com plantões de venda nas imobiliárias que operam dentro da rede hoteleira. Fala duro. Tenho que fazer um exercício de humildade e reconhecer que a discussão do nome, por mais que tenha entranhas semióticas a explorar, atiçadoras da curiosidade, é um banquete feito de frutas talvez que se comem quando a barriga já está cheia. Frutas-talvez são de uma variedade só encontrada nas prateleiras altas.

Saí da conversa com ele acreditando que o mote da matéria estava equivocado. No fim, consegui a imagem mais significativa que mil palavras sobre multiculturalismo: um ilhéu, com doutorado na USP, tomando chimarrão, coisa de gaúcho ou gaucho. Mas se até no Acre se toma chimarrão, no fim das contas nada é tão estranho assim. (O Gellea, meu bicicleteiro de confiança, ilhéu de pai e mãe, também toma.)

Enquanto descarrego um vídeo e faço upload de fotografias num cyber-café e lotérica no Centro, plena avenida Gama D’eça, ouço conversas desagradáveis de um senhor e uma senhora sobre as desgraças das páginas policiais. Todos os desequilíbrios da ordem merecem comentários. A masturbação mórbida e algo sádica (fantasiam sobre as punições aos desviantes) reflete algum rancor bem oculto no peito. Não cabe ampliar essa sensação a ninguém mais além deles. O Marquinhos, dono da lan house aqui, é muito gente boa, costuma aceitar fotografias com amanheceres ou crepúsculos em troca de acesso à banda larga. Aliviaram um pouco o papo. Risos nervosos. Ouço do senhor de cabelos brancos: “Só com Schwarzenegger mesmo”. Não sei o que quer dizer. Talvez Rambo também sirva. Existe por aqui um pouco de culto à ordem da repressão ostensiva. Ao mesmo tempo riem do filme da sessão da tarde que a tevê exibe. “Esses caras são bons”, diz a senhora, enquanto uma cena de explosão grandiosa acontece e o mocinho escapa correndo rumo à câmera. Estamos numa câmara. Já ouvi de alguém que Floripa é uma cidade-bolha. Acho que entendo a sensação. É algo que não se vê explícito, mas se sente em alguns lugares. Minha miopia e meu astigmatismo me impediram ver quem era o ator do filme vespertino repassado.

Simplicidade saudável que dá saudades de conviver são a Dona Zenaide e o Seu Chico (o do bar demolido no Campeche). Nas padarias e nos cafés chiques, a cultura da esnobice ganha algum terreno. Certos espaços não recebem bem quem tenha algum jeito de bicho-grilo, pobre ou jovem. Evidentemente a verdade é que a descontração também existe, basta achar os epicentros menos afrescalhados, cuidando-se ainda para não cair no hedonismo etílico que não vê lombadas. Há ilhas na Ilha.

É um perigo contestar, por aqui.

Já no século 21 aconteceu a chamada Revolta da Catraca. É possível ver relação entre a escala mediana ou pequena da economia da cultura na Ilha e a pouca facilidade de deslocamento entre os bairros citadinos. Ir do Itacorubi ao Campeche, que distam menos de 20 km entre si, pode consumir quatro baldeações e cerca de uma hora e meia. Depois da meia noite há pouquíssimos ônibus – chamados de madrugadão – e os que circulam durante o dia parecem ter os horários programados para, sempre que dá, atingir a lotação máxima. Acontece, em contrapartida, um movimento bem articulado, mas ainda incipiente, de cicloativistas, ou usuários de bicicletas que se fazem presentes nas discussões sobre mobilidade urbana em Florianópolis. As propostas de um modelo de transporte que inclua a via marítima são recorrentes. Costumam não sair do papel. Exceção à regra, mas sem integração com o restante do sistema, são os barcos que partem do terminal lacustre da Lagoa da Conceição rumo à Costa da Lagoa.

Saio até a calçada para respirar fumaça de motorizados e dar vazão ao meu tabagismo, além de olhar o horizonte possível além dos edifícios. O acaso significativo: vejo um ônibus parado no sinal com a inscrição Desterro Turismo e a propaganda do site ponto com ponto bê-erre. O sentido da cidade é errático. O discurso do Carlos faz algum sentido.

Quando volto, a senhora das páginas policiais está narrando um sonho ruim que teve. Não chego a ouvir com atenção. O inconsciente fica povoado do que se cultiva nas horas despertas, só isso é o que me vem.

O pessoal corajoso do Centro de Inovação Social dos Araçás fecha as portas no dia 25 de junho porque a proprietária pediu a casa para abrir uma vidraçaria. Filmei hoje através do vidro empoeirado do ônibus o retão do Rio Tavares. Principal acesso à terra prometida das praias do Sul da Ilha, oferece poluição visual, móveis usados, botecos e ausência de calçadas.

Acordar. Ver ainda que este é um lugar em que é fácil ir até a beira do oceano e ampliar a alma até onde o olhar alcança, na curva do globo rumo à África.

Dança e despedida dos nomes

Já se formou até comissão de vereadores, na década de 1980, a favor de que se fizesse um plebiscito, que não chegou a acontecer, para dar aos moradores do município a chance de mudar o nome. A não realização não significa que o assunto tenha deixado de recorrer.

Acabo de ouvir que já foi proferida, por alguma moradora do Estreito, Capoeiras, ou Coqueiros, bairros continentais, uma frase que é também interessante: do lado de lá da ponte também é Floripa, pô! Floripa é um fetiche. Um fantasma. Um tsunami de surpresas quando se olha de perto, de dentro. Talvez por isso se tenha ventilado o nome Ondina, elemental ou espírito da água, amiga dos gnomos flutuantes na superfície. Ficou pelo caminho. Meiembipe antecipa o som dos celulares, pela metade, em estado cáustico. Adeus índios. Não sobraram. Os há agora vindos da Bolívia, do Equador, até do Morro dos Cavalos, logo ali em Massiambú (se escreve assim?). Estão na rua, vendendo CDs ou artesanato, tecidos, roupas, instrumentos musicais. Antes, migraram rumo ao longe, já que a Ilha ficou pequena cedo nos 500 anos. E isso reacontece. É cíclico. Ilícito? Somos todos estrangeiros. Não conhecemos as línguas dos índios, os nativos sem pêlos. O que nos move é a extravagância, vagamos muito até a perdição das coisas.

Baía de los perdidos é nome em espanhol dado por espanhóis no século 16, talvez. Fácil traduzir? Nos anos 1990 os argentinos vinham à Ilha, muitos. Não há ilhéu que não tenha arriscado um portunhol. O turismo doméstico (quando os visitantes são brasileiros) vem crescendo bastante, assim como o de europeus. Mas, como diz o Henrique, Florianópolis é uma cidade em que o turista não só vem, passeia e volta com as fotografias. Ele vem e fica. O que custa uma ida à praia. Nós viemos e ficamos. Até irmos, vá saber.

Leio que Nossa Senhora do Desterro é uma alusão à Maria em fuga para o Egito. Descubro agora que Desterro é, também, nome de uma antiga freguesia da região do Alentejo, e ficava numa vila portuguesa chamada Barrancos cuja população em 2009 ainda não ultrapassara a marca de 2 mil pessoas. Na nossa Desterro tínhamos, em 2010, segundo o IBGE, uma densidade demográfica de 627,24 hab/km², com 421.240 habitantes no total. Duvido um pouco, ou não acredito muito. Acho que não sou o único. Chuto: pode ser que na Ilha, entre população dita fixa e a paradoxal flutuante constante, haja sempre mais que meio milhão de pessoas, com picos de mais de 1 milhão sem dúvida, na alta temporada. A área total é de 671,578 km². Já que sabemos que sem-terras também somos todos e por sorte ainda existem áreas de preservação, é útil lembrar que a distribuição fundiária na Ilha é desigual. Bastante gente comprimida em uns lugares, outro tanto de gente com espaço inferior a um quilômetro quadrado (o padrão dos terrenos comuns é 360 m2), mas ainda assim mais bem instalada que os suínos segundo o parâmetro de conforto da produção industrial, que é de meio metro quadrado por indivíduo, ainda que eles não vivam em construções verticais.

As sardinhas seriam outra metáfora possível. Nos ônibus, no túnel mítico ao lado da Cruz ou no atual que liga ao Sul, nos condomínios de luxo.

Tomara que sigamos nadando, já que ainda pode haver peixes. Que os peixes, ou pelo menos os mamíferos aquáticos, sejamos nós, vivos. Nos cabe navegar a cidade e apesar do Peixoto e do Desterro e das almas penadas, das peixarias, da Floripa de plástico, podermos ter prazer na ética e no amor com o ser humano de lágrimas e arte que ainda nos move.

Sempre falamos com estranhos. Excedemos o limite de caracteres e caráteres. Vamos além.

*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 2 da Revista Overmundo.

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dauroveras
 

Excelente texto!

dauroveras · Florianópolis, SC 29/7/2011 14:12
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Felipe Obrer
 

Gracias, Dauro!

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 29/7/2011 16:30
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Inês Nin
 

Tenho muito carinho por Floripa, e seu texto, repleto de devaneios ouvindo o falar das gentes.. inspira tanto! Por ora, só digo parabéns, Felipe. Já tive meu tanto de passeios pela ilha, e sempre espero voltar no verão. :)

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 29/7/2011 19:04
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Felipe Obrer
 

Te agradeço também, Inês.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 29/7/2011 19:19
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Cintia Thome
 

Nossa, que texto! Recheado de informações, de peculiaridades do lugar. Amo Floripa...mais ainda com seu texto . Aplausos!!!

Cintia Thome · São Paulo, SP 29/7/2011 19:53
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Felipe Obrer
 

Cintia, agradeço tua leitura. Quanto ao amar Floripa, acho que o professor Henrique ficaria fulo da vida se soubesse que o texto contribuiu para alguém gostar mais da cidade. =)

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 29/7/2011 20:51
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Felipe Obrer
 

Vídeo do Henrique Pereira Oliveira, ilhéu, tomando chimarrão: http://www.overmundo.com.br/banco/henrique-pereira-oliveira-ilheu-toma-chimarrao

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 30/7/2011 17:04
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Rodrigo Dias Pereira
 

Ótimo texto! Uma caminhada lírica e reflexiva sobre a história da Ilha.

Rodrigo Dias Pereira · Florianópolis, SC 2/8/2011 19:13
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Felipe Obrer
 

Gracias, Rodrigo. Um abraço

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 3/8/2011 18:17
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Felipe Obrer
 

Cidade dos Perdidos está lá, na íntegra, um pouco mais longa que aqui, na edição #2 da Revista Overmundo também: http://overmundo.com.br/blogs/revista-overmundo-n-2
(entre as páginas 36 e 46)
Abraços!

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 4/8/2011 19:15
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