Hoje, algumas tradições permanecem vivas na memória de mazaganenses e amapaenses como um todo. A festa de São Tiago acontece no período de 16 a 28 de julho e é uma das mais tradicionais do Estado. Moradores mais antigos dizem que a festa não existe apenas desde quando eles se entenderam e sim que ela é comemorada todos os anos desde 1777. Ela consiste em retratar teatralmente em plena cidade o conflito entre mouros e cristãos ainda em Marrocos, mostrando assim a importância histórica da festa, no entanto há questionamentos em torno de sua origem, pesquisas apontam para a não existência de tal por um longo período, principalmente o do século 19. Sabe-se que em 1777 houve uma festa comemorativa, mas não a que caracterize a de São Tiago. Alguns preferem afirmar que ela teve origem no início do século 20. Fica aí mais uma lacuna para historiadores e pesquisadores interessados pelo tema. Minha proposta agora é fazer uma pequena contextualização da festa baseada em textos históricos e no livro Mazagão, la ville qui traversa l'Atlantique. Du Maroc à l'Amazonie (1769-1783) (sem tradução em Português) do Professor brasilianista Laurent Vidal da França e assim ajudar a entender como tudo começou.
O recorte histórico se inicia quando a cidade de Marrocos, no Norte da áfrica, ainda não era uma fortaleza abaluartada e sim apenas um celeiro. Esta transição se deu entre 1514 e 1541 até se tornar filha isolada de Portugal em 1550. Interessante afirmar que esta população que detinha a fé cristã estava disposta dentro da Fortaleza, mostrando assim através de fotos a visível superioridade estrutural com relação a Fortaleza de São José de Macapá, sua capacidade é de mais ou menos 5.000 pessoas. Este período de Praça Forte Marroquina passou de 1514 a 1769. Era um processo delicado, já que os moradores da Fortaleza de Marrocos estavam em um local onde a fé muçulmana era predominante, mas isso não significa que eles estavam em constantes guerras, eles forneciam alimentos para o sultão quando ele precisasse assim como o sultão também concedia alimentos quando necessário.
Mas nem sempre viveram harmoniosamente. Entre dezembro de 1768 e março de 1769 o sultão Mohammed sitia a cidade com 120.000 homens. A contrapartida de Portugal foi enviar 20.000 soldados, número insuficiente para resistir ao ataque e Lisboa iniciou o reordenamento da cidade depois do desgaste provocado pelo sítio e assim a cidade, repartida em 14 bairros flutuantes, navega até Lisboa no dia 11 de março de 69. Em Lisboa recebem a notícia de seu novo destino. Aceitam assim a decisão do envio para a Amazônia para passarem a ser colonos do Novo Mundo dentro de um projeto que podemos chamar de políticas pombalinas aplicadas por Marquês de Pombal. Ainda em Lisboa foram calculadas 2092 pessoas, listadas 436 familias por ordem alfabética. Eles vieram Distribuídos em 10 navios, mas parte ficou e no fim só embarcaram 388 famílias que navegaram entre 55 e 66 dias com 19 mortos ao todo para chegar até a cidade de Belém.
Ficaram hospedados na casa de moradores recebendo ajuda alimentar mensal do governo, mas em 1776, ainda em Belém, a ajuda se findou e os Mazaganistas passaram a ficar cada vez mais insatisfeitos com suas condições. Eles tinham, em Marrocos, poderes e possibilidade de ascensão social através da guerra e foram rebaixados ao status de colonos em uma terra longínqua como a Amazônia.
Em 1771 inicia-se o terceiro movimento que é a locomoção até a vila da Nova Mazagão. São 15 dias de remo mata adentro. A imensidão da floresta assustava os colonos, que pouco sabiam sobre o local onde ficariam. O renascimento de Mazagão se deu de 1770 a 1778 e foi planejada. Teve contribuição indígena (150), que tiveram alguns embates técnicos com os engenheiros. Eles queriam fazer as amarrações com bases vegetais (cipós) enquanto os engenheiros insistiam em pôr pregos, mas prevaleceu a vontade dos índios. A cidade ficou habitada, em princípio, por indígenas até a chegada dos colonos.
Agora já se percebia a diferença entre as cidades, a nova Mazagão já não era cercada por muros, havia sido criada para se tornar um pólo agrícola para abastecer a metrópole. Logo o projeto começou a desandar, o clima social ficou pesado e eram constantes as brigas pela atribuição das casas, das rações, fugas e embates entre administração do estado e da vila. Havia dificuldades na produção agrícola como o arroz e o algodão e os escravos não tinham conhecimento da região assim como os índios não tinham autorização de participar das obras agrícolas. Doenças e epidemias serviam para agravar mais a situação e o apodrecimento das construções também não melhoravam a situação. O desejo de voltar e de abandonar a vila era visível: inúmeros pedidos foram feitos a Rainha.
Em 1783, a Coroa decide pelo fim da obrigação pelos Mazaganistas de residir em Nova Mazagão e em 1833 ela perde o status de vila só renascendo em 1842 onde a região de Mazagão passa a ser um quilombo. No ano de 1915 é criada a cidade de Mazagão Novo e é neste período que alguns afirmam que se deu início a verdadeira festividade de São Tiago, tradição esta que ainda permanece na antiga cidade, hoje distrito de Mazagão Velho a 64 Km da capital Macapá.
Para mais informações sobre datas e programação da Festa acesse o link Festa de São Tiago: a batalha entre mouros e cristãos.
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